Interseções



Amanhã chega ao fim o 4º Concurso de Blogueiras, com o tema A Origem do Meu Feminismo. Aquele tanto de texto bom, aquele tanto de blog bom, aquela mulherada toda trocando ideias - foi uma delícia. E como uma espécie de cerimônia de encerramento da brincadeira, li um texto que uma amiga muito querida me enviou por e-mail ontem. Não trata da origem do feminismo de ninguém, mas toca em um ponto que sei que é muito caro a toda e qualquer mulher que compartilha ideais feministas: o respeito pelo outro - e pela outra.

Decidi reproduzir o texto aqui, originalmente publicado no site do Azenha há alguns dias, com a intenção de matar dois coelhos de uma vez: fazer ecoar um pouco mais essa revolta cansada que tenho sentido nos últimos dias diante de tanta pequeneza na campanha eleitoral e homenagear todas as participantes do 4º Concurso de Blogueiras. Eu não faço a menor ideia da intenção de voto da maioria delas - e obviamente respeito o voto de todo mundo - mas desconfio que dificilmente uma mulher que veja sentido nos questionamentos feministas compactue com o tom preconceituoso e o subtexto incrivelmente machista adotados por boa parte do eleitorado serrista. (Acho que já está claro, mas vou reforçar: não acho que só exista coerência no voto feminista direcionado à Dilma; estou criticando o discurso que tenho visto em muitos sites, tweets e outras manifestações de apoio ao Serra e não necessariamente o voto dado a ele - que eu também lamento, mas isso é outra história.)

O início do texto faz referência à temática abordada pela jornalista Maria Rita Kehl no artigo que motivo sua demissão do Estadão, dias atrás. Como já falei disso em outro post, resolvi omitir os primeiros parágrafos do texto e o reproduzo aqui  a partir do ponto em que ele se volta à questão do gênero (grifos meus). Eu teria algumas ressalvas quanto ao teor do texto (talvez direitos civis para todos nem devessem ser submetidos a plebiscitos, mas simplesmente garantidos; ou talvez nem todos que repetem o discurso intolerante sejam "ingênuos"), mas não chegam a comprometer a mensagem central.

Para Lola e todas as blogueiras que participaram do concurso:

"O suicídio de gênero 

Por Marisa Meliani, jornalista e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA-USP


(...)

Mas, ao lado dessa arrogância, que pretende manter os mais pobres na lotação e não dentro do seu próprio automóvel, uma outra onda, muito mais capciosa, toma conta dos discursos nas redes sociais nesta eleição. É a questão de gênero.

O que mais se vê nessas novas mídias são adjetivos do tipo: gorda, feia, velha, cara de fuinha, bruxa, bruaca, baranga, terrorista e por aí vai. Fico pensando no que sente Dilma Rousseff, enxergando-a como qualquer outra mulher diante de tantas ofensas. Contudo, esta mulher, em particular, é candidata ao mais alto cargo do país, acabou de sair de um tratamento contra o câncer, está com o pé emoldurado por uma tala e percorre o Brasil em busca da manutenção de um projeto que insere, em fatos e números, as camadas mais pobres da população no espaço que chamamos de cidadania.

Não quero discutir aqui as questões de corrupção, amplamente identificadas nos dois governos FHC e Lula, ou no governo estadual paulista capitaneado pelo Sr. José Serra. A ética é uma condição que se firma, essencialmente, na consciência humana individual, antes de obter ressonância nos espaços públicos. E embora ela não seja a virtude mais cultivada por nossos políticos, é da ética pessoal que quero tratar aqui, como um protesto contra o retrocesso e um chamamento contra a obscuridade do pensamento retrógrado, atrasado e machista por excelência.

Os jovens que não viveram a ditadura militar em nosso país não têm ideia de como a militância de Dilma Rousseff nos grupos de esquerda foi importante para que eles vivam hoje em plena democracia. Rotular a candidata de “terrorista” e dar anuência para que a imprensa use esse argumento para detratá-la é uma ofensa a todos que sofreram ou morreram nos porões da ditadura. Uma pessoa, qualquer delas, que arriscou a própria vida para livrar o país dos horrores da verdadeira falta de liberdade – principalmente a de imprensa, da qual tanto se fala – merece respeito. E deve orgulhar-se de sua coragem.

Parte da imprensa, cooptada e venal, na afobação de garantir a vitória de seu candidato também dá ampla repercussão a questões de foro íntimo, como o direito ao aborto, à união civil entre homossexuais, de crenças religiosas e outras que deveriam ser tratadas em plebiscitos ou no âmbito dos grupos diretamente interessados, na forma de pressão sobre o Legislativo. Jogo sujo, claro. E ganhar assim não é bom para ninguém, muito menos para a democracia.

Estamos a poucos dias do segundo turno. Confesso que, desiludida com a política, preguei o voto nulo no primeiro turno, mas, felizmente, mudei de posição assim que detectei essa onda de intolerância que toma corpo e invade a mente dos mais ingênuos. Desejo profundamente que o debate suba alguns degraus e aborde os temas que realmente interessam ao nosso país e à população. Que se compare realizações, com números e estatísticas, dos dois grupos postulantes ao poder. Que se apresente os projetos para a continuidade de um processo de desenvolvimento sustentável em plena ascensão. Que se insira a questão ambiental dentro do tripé em que ela deve estar, ou seja, de forma integrada ao progresso econômico e socialmente justo.

Independentemente dos resultados no segundo turno, Dilma Rousseff merece o respeito e a admiração de todos que lutam contra a opressão e a intolerância. A possível primeira mulher presidente do Brasil é dona da beleza que todas as mulheres e homens possuem, que é a da vida examinada, com tentativas, erros e acertos. Vamos dar um basta às ofensas que, endereçadas à candidata, atingem a própria essência da condição humana.

Dedico este texto a todas as mulheres, mães, arrimos de família, trabalhadoras, de todas as idades, dos grandes centros urbanos ou dos rincões mais miseráveis do país. Lembro que a verdadeira vitória que comemoraremos juntas será a derrubada dos estereótipos que tentam nos impingir para nos humilhar, diminuir a nossa força e nos convencer de que somos incapazes de exercer o poder."

Eu não voto na Dilma por ela ser mulher. Mas gosto muito disso também. Né? Menina pode, sim.

Blogueiras do concurso, parabéns e obrigada pelos papos bons. Que nossas trocas estejam apenas começando.

14 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, que linda forma de celebrar. Gostei tanto. Obrigada por me incentivar a participar do Concurso. Foi uma experiência rica e educativa, além de muito prazerosa. Ah, fiquei toda vermelhinha com seu elogio lá no borboletas. Você é que tem uma energia boa e acolhedora. Beijos, todos eles carinhosos

lola aronovich disse...

Ritinha querida, obrigada pela homenagem. Vou dar um link no seu texto no post de amanhã, quando falarei do encerramento do concurso. Sobre o texto sobre a Dilma, acho muito oportuno. Posso contar os dedos de uma mão as feministas que conheci que ñ eram de esquerda...

Sara disse...

Estou aqui de novo... com lágrimas nos olhos, pois estou acompanhando ao vivo pelo blog tijolaço o movimento da cultura carioca em prol da Dilma, e o discurso da Prof. Chaui foi lindo e juntou com a leitura do teu post...
aff, faltam 12 dias e muitas emoções.

Sara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara disse...

Gente!!!! Até o Niemeyer está lá!! No alto de seu 10000000 aninhos. Agora chorei com vontade... será que tô de TPM?

Juliana disse...

me arrepiei lendo isso, rita! putz!

não sou petista como você, nem acho que a dilme é a última bolachianha do pacote como alardeiam.

votei na dilma no primeiro turno porque acho que ela é melhor candidata que a marina. Do Serra, nunca gostei. Sempre o achei arrogante.

Agora vou votar na Dilma porque ela é a melhor, porque acho que vai ser incrível uma mulher e porque teria vergonha de votar no Zé Serra.
sinto vergonha de assistir à propaganda política.

antes, eu tinha antipatia pela pessoa do serra. não sou das eleitoras mais informadas, então minha opinião era baseada na antipatia somente. agora, sinto asco pelo Serra, o cinismo dele me da nos nervos.

Eu sou cristã, fui criada como tal, penso minha vida sob essa perspectiva, mas isso não faz de mim uma idiota. Porque essa campanha vem tratando fé como mercadoria.
me dá tristeza ver como a temática do aborto e da união entre homossexuais ( situações que afetam tantas pessoas, que fazem tantas pessoas sofrerem)têm sido tratadas, como moeda pra ganhar votos e poder, justamente por religiosos.
A minha grande dificuldade com a Igreja sempre foi o modo como temas como esse é tratado: com intolerância. Por mais que eu me posicione ao lado do pensamento religioso, sempre penso que é muito fácil dizer não ao aborto, quando não é na sua vida, na sua casa, na sua família. Que é mole achar que um homossexual é um ser anormal, até que alguém que você ama se descobre genuinamente apaixonado por alguém de outro sexo. Pra mim, Jesus é um modelo de empatia, um exemplo de que a gente deve ser capaz de se colocar no lugar do outro e compreender suas motivações, seu ponto de vista.



Sinto uma vergonha imensa ao ouvir pessoas julgarem a Dilma por sua aparência, por sua doença. Hoje, meus alunos de 13 anos tavam dizendo que a Dilma é sapatona e vai obrigar todo mundo a ser sapatão - palavras das alunas e dos alunos.

O que me dá uma raiva é que ninguém se dá conta das coisas todas que a Dilma e a Marina tiveram de enfrentar pra estarem onde estão. Dizem que não tem nada a ver com ser mulher, mas tem,né? eu admiro Dilmas e Marinas, para além de seus partidos, porque elas são mulheres que facilitaram a minha vida.

Muitas das pessoas que repudiam a Dilma nem têm noção do que ela e o serra propõem e isso me assusta.

Me assusta tb ouvir o Serra dizer que governará sob a orientação de valores cristãos. Me pergunto o que será que ele considera valores cristãos? Me pergunto quais valores cristãos ele selecionou pra serem os de seu governo?

Eu prefiro é viver num país em a constitução seja seguida, em que o estado não eleja um valor dessa ou daquela religião. Vai que daqui um tempo os valores a serem defendidos sejam de alguma que religião que não aceite nada que venha do crisitianismo... Claro que isso é um exagero meu,mas é um caso a pensar, sei lá! Eu prefiro um país que não ignore que um monte de gente é discriminada , demitida, punida, maltratada, violentada, morta pelos mais diversos motivos.

Aff, Rita, acho que esse seu post me inflamou. É que ando tão cansada de ouvir tantas coisas absurdas sobre esse assunto e vindas de pessoas próximas, que eu via como sensatas e tal.

Desculpe o comentário gigante! Acho que acabei falando aqui o que ando calando na " vida real"! E nem sei se falei coisa com coisa....misturei tudo, acho! Não sou boa nesse trem de articular , argumentar, me indignar! heheher

enfim, que texto incrível esse da Marisa meliani

Liliane disse...

Linda tua homenagem Rita!

Hoje finalmente encontrei a inspiração para escrever sobre a minha descoberta feminista depois se puderes passa lá para ler...
beijos

como Sara falou, faltam 12 para Dilma13!!

Angela disse...

Derrubada dos estereótipos eh uma bencao em si, uma vitoria.

No ano passado vibrei quando dei a luz a Jujuba do dia de Martin Luther King, e no dia seguinte amanheci com a minha nova bebe assistindo a posse de Obama na TV.

Quero mais!

Lindo texto.

Clara Gurgel disse...

Uhuuu,Rita! Muito bacana!Já tinha colocado esse texto sensacional lá no "face". É sempre muito bom poder ler mulheres inteligentes como vc e a Marisa.Bj!

Caso me esqueçam disse...

é uma pena que o texto sera lido por pessoas que concordam com o que esta sendo dito. ah, se o babacoides o lessem, lessem textos desse tipo...

Wonderwoman disse...

Fantástico Rita!!! Peço licença para colocar o link dessa postagem do seu blog no meu facebook, como a casomeesquecam disse, os "babacoides" rsrs tem que ler tambem.
E adorei que você tenha feito uma homenagem ao concurso. Foi maravilhoso ler tanta coisa legal e conhecer tantas mulheres boa de prosa!
beijos

Daniela disse...

Eu tô sempre aqui. Quietinha porque essa campanha eleitoral tem me deixado sem palavras mesmo.

Mas lindo demais esse seu post e parabéns pelos votos.Não tive tempo de ler todos os posts, mas a maioria dos que li era excelente.

Beijos

Glória Maria Vieira disse...

Maravilhoso, Rita! Obrigada, viu?! Eu voto em Dilma por ser mulher, MAS por ser a MULHER que É e não a que os psdbistas estão pintando.

Beijo enorme!

Lindo mesmo...

Rita disse...

Oi, pessoas

Borboleta, adorei você ter participado porque agora mais um montão de gente conhece seu blog bom. Parabéns, viu?

Lola, adorei participar do concurso pelas razões que já mencionei. Foi tudo de bom mesmo. Bj.

Sara, eu assisti uma parte, no início, mas depois parei para ir ao cinema. Tava lindo até onde vi. Ainda vou procurar na rede o discurso do Chico pra ver. :-)

Liliane, obrigada. Passo, sim, pode deixar. Bj!

Ai, Anginha, vem votaaaarrr!!! :-) Beijos - viu meu e-mail?

Clara, obrigada! Só vi o texto quando minha amiga mandou pra mim. Ainda bem que ela mandou, ne? Bj!

Luci e Wonderwoman, ainda bem que nem todo mundo que vota no Serra é babaca, porque o cara tem muito voto, hehehe. Tenho amigos queridíssimos que preferem o cara, pessoas inteligentes que não gostam do PT, fazer o quê. Suspiro e fico torcendo para que eles mudem de ideia, mas morro de amores por eles mesmo se eles não mudarem, :-) Quanto aos "babacoides", pessoas que apelam para a baixaria e o preconceito, esses vão ler o que for, mas não vão ver nada. Beijos!

Dani, morro de saudade de você por aqui, menina. Some não. Beijocas, viu?

Glorinha, obrigada você, docinha. Vumbora, até o fim, né? Desistir não vale. Beijos.

Beijos, pessoas queridas. Adorocês!

Rita

 
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