Da arte de contar até dez


- A Dilma é dentuça!
- E daí? O Serra é careca! Ca-re-ca!

Pois hoje quero falar da amizade nesses tempos de debates acalorados em torno das eleições.

Eu tenho a sorte de conviver na minha rotina com pessoas de origens, hábitos, extratos sociais, credos e manias dos mais variados tipos. Gosto dessa salada que me proporciona enxergar aquilo que difere, que destoa, que discorda, porque acredito que se eu me fechar em minhas opiniões e pitacos tendo a emburrecer. É claro que a gente não busca fazer amizades com pessoas que têm pouco em comum com a gente, por razões óbvias. Mas além dos amigos mais próximos (não necessariamente fisicamente próximos, né Anginha?), além daqueles casos de amor-amizade que a gente carrega no peito como se fossem parte integrante da gente, daquelas pessoas com quem temos afinidades marcantes, meu trabalho e minha vida social me colocam em contato com outras pessoas que acabam fazendo parte da minha vida também. E naturalmente esse grupo de pessoas não é composto por cópias de mim mesma.

Em tempos de eleições, quando boa parte dessas pessoas, sejam amigos, leitores, colegas ou conhecidos, embarcam no debate político - algo que acho excelente - é natural que os ânimos se exaltem, as paixões políticas se moldem ou aflorem, as cabeças esquentem e corramos o risco de azedar um pouco o tom. Repito, acho natural. Mas eu quero fazer mais do que me exaltar. Eu quero manter o respeito por aqueles que pensam diferente de mim, sem a arrogância de acreditar que o meu ponto de vista é mais sábio ou melhor que o de quem quer que seja. Pelo simples fato de que somos todos aprendizes, sempre, em qualquer esfera da vida.

Eu não acho impossível manter o respeito por quem vota no lado oposto da conversa. Eu, que acredito de verdade que a Dilma é, nesse momento, a melhor opção para presidir meu país, quero manter o respeito por aquele amigo que acha que o Serra é a melhor opção e também por aqueles que, no domingo, acharam que a Marina seria. É óbvio que a decepção pelo resultado do primeiro turno das eleições deu o tom de parte do meu post da última segunda-feira. Eu continuo achando a Marina uma candidata incerta, nebulosa e indefinida; continuo morrendo de medo do retorno da turma do Serra. Mas, honestamente, nem todo eleitor do Serra que conheço é um reacionário neoliberal voltado para o seu próprio umbigo; e nem todo eleitor da Dilma que conheço é um poço de consciência política. Então não, não quero bancar o juiz e sair batendo o martelo e decretando, com o dedo em riste, que eu sei mais do que você.

Quando escolho minha candidata à presidência, acredito que estou defendendo o melhor para o futuro do meu país, mas não quero que isso venha de mãos dadas com intransigência, com um discurso reducionista e desrespeito pela opinião alheia. Eu posso fazer diferente, sei que posso.

Há poucas coisas na vida que eu considere mais valiosa que meus amigos. Eu não quero acreditar que a época de eleições é uma época de perdê-los. E aqui me refiro também à blogosfera, nossa, claro! Quando sentei a primeira pedrinha dessa estrada não podia imaginar, nem em meus prognósticos mais otimistas, que eu teria a honra de receber aqui as visitas diárias de pessoas tão enriquecedoras como os leitores com quem agora ando aos papos. E quero conseguir conversar com serenidade sobre qualquer assunto com vocês. Eu gosto da troca, gosto de aprender, gosto de ter contato com aquilo que me provoca, que me faz pensar. Ora, quando alguém olha pra mim e diz "óoóó, o mensalão!", eu preciso repensar e me perguntar se ainda assim escolho o PT. E é mais difícil argumentar do que fugir da conversa, mas ao encarar o desafio eu me vejo renovando minha crença (ou, se fosse o caso, teria a chance de revê-la) ao afirmar que, sim, apesar dos pesares, o governo do PT tem o melhor projeto para esse país, estou absolutamente convicta disso. E aí então partir para a conversa, com argumentos que sustentem minha crença, não com xingamentos do tipo "sai pra lá, seu reaça". Eu quero conversar. Sempre. (Claro que tudo tem limite, né? Se alguém vier com papo de pacto com o demônio eu digo que preciso urgentemente ir até a esquina.)

Eu tenho umas amigas que andam por aí declarando voto ao Serra. Eu convivo com pessoas valiosíssimas que acreditam que a Marina seria uma opção interessante. Eu sou casada com um eleitor da Dilma (ai, ainda bem, ufaaaa!! hehehe). Confesso que às vezes fico me remoendo por dentro e pensando, mas minha nossa senhora do voto impossível, como é que fulano não prestenção no tanto que o país evoluiu com o Lula bla bla bla! Mas sei que eles estão lá pensando algo como ai, senhor, dai-me paciência com a Rita.

Na hora da conversa eu vou expor minhas crenças, argumentar, rebater, dar o braço a torcer quando for o caso, falar em nome de um projeto que acredito ser voltado para um Estado justo, soberano, com os olhos voltados para o futuro. Mas não vou erguer o dedo. Vou ficar só um pouquinho nervosa, porque né, Serra é o fim da picada (é, é sim! Sorry.). No twitter vou soltar a voz, dizer o que penso como se estivesse conversando comigo mesma, exercitar a arte de dizer um monte em 140 caracteres. Mas não vou xingar.

No ano que vem, nos churrascos e cafés, quero ter amigos comigo festejando as boas escolhas, apontando os equívocos, tocando a vida. E ensinando nossos filhos a conversar direito.

E se eu me afastar do eleitores do Serra, como nesse mundo vou convencê-los a votar na Dilma, né? Brincadeirinha... (com um fundinho só de verdade, hehehe).


17 comentários:

Jux disse...

Ritíssma!
ADOREI o post, coloco em meu bico vossas palavras!

O que eu acho duro de aguentar é são os pseudo-argumentos contra a Dilma, coisas do tipo "ahh, não acho ela simpática" ou "não vou com a cara dela".

Nossasenhoradospentelhosirritados!

Eu rejeito esse tipo de argumentação rasa, bem carregadinha de machismo. E outro item bastante engraçadinho é que geralmente as pessoas que votam no Sr Burns, ao justificarem o voto delas, desfiam um longo rosário contra-Lula e contra-Dilma. Por que eles não falam do Sr Burns? Não seria mais interesante convencer pelo argumento inteligente?

Isso me lembra uma piadinha pré-histórica jurássica.
Reza a lenda que o professor avisa aos alunos "Amanhã vamos fazer prova. Estudem sobre a formiga e o elefante, pq vou sortear um desses dois para vc's fazerem a prova". O aluninho-preguiça só estudou sobre o elefante. Na hora da prova, o professor sorteia e manda os alunos escreverem sobre a formiga. E o aluninho começa o texto "A formiga é um animal, enquanto o elefante é grande, pesado etc etc"

beijukka

Juliana disse...

ah, Rita!! Eu imaginava que vc viria aqui dizer o que está nesse post.

Os ânimos estão muito exaltados mesmo; todo mundo à flor da pele. Eu não sou eleitora de nenhum partido específico, aliás essa é primeira eleição em que paro pra votar com mais consciência.

Eu votei na Dilma, porque a Marina me pareceu o que vc disse " incerta". Achei que a oratória dela é linda ,mas não consegui entender muito bem qual era o propósito dela, do PV e tal.

Mas o que me espantou foi a exaltação dos ânimos. Eleitors da dilma desmerecendo os votos da marina, enfiando no mesmo saco pessoas muito diferentes, enfim, o pessoal tá agitado. Tem de se ter calma. E se o adversário ganhar, é preciso aceitar e respeitar a vontade da maioria,né?
A gente acha que é fácil dialogar, mas não é tão simples assim,né? Dá trabalho e , de vez em quando , a gente perde a cabeça.

Mas aí vem você dar uma aulinha de elegância,né? Adorei o post.

ah, e eu não paro de puxar seu saco, né, Rita? kkkk

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, você está sempre um passo à frente. Queria só acrescentar que fico na mesma tentativa (de ser civilizada, paciente e gentil na diversidade) até entre desconhecidos. Com os amigos tento manter a amorosidade na conversa. Hoje flanei no blog da Lola, mas não deu pra ficar na discussão. Apesar de ser uma apaixonada passional em tantos assuntos como, por exemplo, futebol, sempre tento manter a civilidade. Tenho tentado isso nesse momento. Procurando mais argumentos, divulgando links informativos e perguntando. Sou muito fã da maiêutica. Enfim, isso ficou enorme e eu só queria mesmo era dizer: enorme admiração por este post e por você. Beijos

Palavras Vagabundas disse...

Rita,
faço de suas palavras ... as minhas, gostaria de ter sua elegância e serenidade nessa hora.
abs carinhosos
Jussara

Isa disse...

Eee Rita, só posso te admirar mais ao ler um post como esse. Beijão!

HG disse...

Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém...
Mas gosto também da paixão!

Daniela disse...

Olha, eu já perdi um amigo porque ele disse (comentando a separação dos pais): "sem querer ser racista, mas trocar minha mãe por aquela negrinha!"

Perdi e nem por um minuto me arrependo. Porque feliz ou infelizmente, às vezes meus sentimentos funcionam como uma tomada. Nesse caso aí parece que ele puxou o fio e acabou com tudo, restou indiferença

Por causa de eleição ainda não perdi...hohohoho

Mas, como li no twitter: 'Eleição é foda, as pessoas começam a falar o que pensam sobre política, e no dia seguinte você não sabe mais se quer ser amigo delas.' @empire_of_dust

Beijos, lindona!

disse...

Agora sim, Rita! Gostei bastante do post. Para os que, como vc, querem fazer campanha para a Dilma, trazer os votos da Marina pra Dilma, é preciso argumentar com inteligencia, ponderação e sobretudo aceitar que os outros possam ter opinioes diferentes e que o PT nem a Dilma sao perfeitos. De nada adianta partir para a ignorancia, chamar leitores de bobões so' pq nao compartilham a mesma opiniao, entre outras coisas, né mesmo? As pessoas que fazem isso vão no maximo conseguir uma profunda antipatia dos outros, que vao querer argumentar contra e vao acabar encontrando motivos para votar no Serra. O famoso tiro que sai pela culatra. Olha, eu nao vou votar, pq nao transferi o titulo. Me arrependo profundamente. Mas se votasse, muito provavelmente teria votado na Marina no 1° turno e no 2° turno eu sinceramente nao sei. Ainda nao fui convencida pela Dilma. E nem pelo Serra. Por isso acho otimo haver um 2° turno, para o PT ter um pouco mais de humildade e para que as propostas sejam melhor discutidas.

Beijos!

Patricia Scarpin disse...

Gostei bastante do post, Rita.

As pessoas têm uma tendência a olhar para o assunto de maneira maniqueísta, e particularmente acho isso um pensamento pobre.

Desculpe a sinceridade, mas percebo em quase todo mundo que vota na Dilma um tom professoral, condescendente, de sermão. E pra isso não tenho paciência. Tem gente que parece ter saído de uma seita.

Beijo!

Borboletas nos Olhos disse...

Por outro lado (rsrsr) tem um ônibus aqui na minha cidade que apresenta a seguinte legenda: Liberdade Via Papoco (Liberdade é um bairro e Papoco é outro, delícia...). Pois é, um tantinho de barulho também faz bem. Não pretendo ser bruta ou deselegante (Scarlett me livre!) mas não vou ficar calada. Eu tenho o direito de ter opção e dessa opção ser a Dilma.
Ah, nem vim falar aqui sobre isso. Vim te dizer obrigada por ter me dado corda pra participar do concurso da Lola. Hoje terei um guest post sobre o tema, escrito por uma amiga de Portugal. Que é que vc acha? As origens do meu feminismo também além mar. Beijos carinhosos, vermelhos e barulhentos

Rita disse...

Olá, pessoas boas!

Jux, pois é, essa agora é minha meta: quero conversar. Quero, com atenção, ouvir o que os eleitores do Serra têm a dizer para, se quiserem, argumentar em defesa de seu voto. Eu tenho meus argumentos e quero partilhá-los. Vumbora pro papo, uai. Sem arrogância, pelo bem do país. Bj!

Oi, Juliana. Menina, e eu, exaltadérrima, ainda fui lá no teu blog desabafar minhas pitangas, aff. Pois então, vamos pro papo, né? Eu conversei com uma colega sobre o lula ontem e sabe o que ouvi? "Olha, nunca tinha parado pra pensar nisso". :-)

Oi, Luciana. Menina nem me fale de post bom, porque o seu de hoje arrasou! Anda, gente, todo mundo agora lá pro blog da Borboleta ler a declaração de amor ao Brasil, coisa mais linda. Beijo, sua danada!

Jussara, obrigada, viu? Mas não se engane, querida. Fico tããããão nervosa às vezes, vontade de voar no pescoço da Mônica Valdwogel (é assim que se escreve?) e desmanchar aquele sorriso e... pronto, parei. 1, 2, 3, 4... hehehe Beijão!

Isa, minha linda, obrigada. Comentei lá no seu blog também, tô doida pra bater papo. :-)

HG, eu também sou uma apaixonada, né. Devo ser. Mas quero ter serenidade para não me fechar no que me parece óbvio. Porque esse nunca parece ser o melhor caminho, viu? Sempre vem alguém com um olhar um pouco mais apurado que o nosso e pimba! E é bom se abrir para as críticas, porque rebatê-las acaba sendo um ótimo exercício de reforçar nossas convicções e, ao mesmo tempo, enxergar por outros ângulos. Beijos!

Ah, Dani, mas esse seu amigo aí, peloamordedeus, né? Faz favor... eu me referi mesmo ao debate político, né? E, ainda assim, sempre é bom lembrar, tudo tem limite. Também não vou ficar ouvindo gente tentando me convencer de que o PT vai implantar uma ditadura e bla bla bla, até porque fico com sono e adormeço. :-) E ó, se você quisesse escrever lá no seu blog alguma coisa sobre as eleições, eu ia ler... :-) Beijocas!

Dé, vumbora conversar então! Aliás, já estamos nessa, né? ;-)

Oi, Patricia! Ainda bem que tem um "quase" na sua frase. :-) E ó, às vezes é só paixão política, viu? Mas a gente já tem conversado sobre isso, né? E, ó, "juro" que não faço parte de nenhuma seita. :-D Beijocas.

Luciana, que chique, "guest post"! Legal demais. Vou lá depois espiar.

Beijos, pessoas, e muito obrigada por participarem dessa conversa infinita.

Rita

Liliane disse...

Ai Rita,
Queria crescer e ser gente fina, elegante e sincera feito voce!
Lembro que da última vez que discuti politica fiquei de mal para sempre do meu cunhado, que depois infelizmente casou com minha irmã enfim... Foi na primeira eleição de FHC... Traumatizei e tenho evitado falar sobre política desde então. Mas ai esta semana, eras jurássicas depois, quase caio na mesma esparrela só que com outro interlocutor, mas me controlei a duras penas... Acho que meus interlocutores também não ajudam, o argumento do cidadão esta semana era: no PT eu não voto nem morto por que só tem corrupto...

Rita disse...

Oi, Liliane, obrigada, querida.

Olha, só. Às vezes fico muito sem paciência também. Pela falta de argumento mesmo, sabe. Uma coisa é criticar os escândalos de corrupção, questionar as alianças ou um programa de governo com o qual você discorde. Outra bem diferente é basear seu voto em antipatia pessoal, ranço contra essa ou aquela "turma de radicais". Aí, não. Olhe e veja o que está acontecendo no país e me diga, sinceramente, se você acha que o Brasil está ou não no rumo do crescimento com justiça social. E vamos então pensar no que não foi feito com o intuito de discutir propostas, ne? E, agora, claro, olhar um pouquinho mais atrás e ver o que foi o governo FHC.

Beijos
Rita

Ághata disse...

Huahuahuahuah, adorei seu texto!! Muito bom!

Rita disse...

Obrigada, Ághata. Tá difícil dar risada esses dias, né? Que bom que a gente tá conseguindo!

Beijocas
Rita

Mirelle Siqueira disse...

Oi Rita, cheguei aqui por indicação da Dé, e ufa! Você tirou do meu peito a agonia que tem me afogado nos ultimos dias. Eh bem isso mesmo. Tem muitaaaa gente precisando ler este seu post, e por isso, vou divulgar! Parabéns pela clareza e por ser assim, tão aberta ao bate-papo, sou como você!

Rita disse...

Oi, Mirelle!

Obrigada pela visita (e obrigada, Dé, pela indicação). Olha, acho que muuuita gente se identifica com essa vontade de conseguir conversar e tentar ouvir mais. Eu declaro meu voto abertamente, defendo algo em que acredito, mas tento muito me manter aberta à opinião alheia - e nem sempre é fácil, não nego. Diante de argumentos que acho manipulados ou muito fracos tendo a ficar impaciente... e diante de pseudoargumentos como "não voto em sapatão" sinto às vezes desprezo, às vezes indignação. Mas vou tentando. É que adoro uma conversa! :-)

Venha mais, fique à vontade!
Bj
Rita

 
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