Bullying - de mãos dadas com o preconceito


Hoje li que um grupo de alunos de determinada universidade do interior de São Paulo organizou, durante um evento esportivo interno, uma coisa chamada “rodeio de gordas”. Os alunos participantes, pelo que li, competiam para ver quem conseguia imobilizar uma colega “acima do peso” por mais tempo. Chegavam assim de fininho, como quem paquera, e logo atacavam a vítima. O “evento” tinha comunidade no orkut (já excluída) e vários entusiastas que bolavam regras para uma próxima “edição”.

Li aquilo entre incrédula e enjoada, com uma vergonha alheia enorme.

Aparentemente, um grupo de alunas da instituição se mobilizou para denunciar o bullying e as agressões. Há pelo menos uma aluna traumatizada, obviamente. Não procurei outras reportagens sobre o caso, então desconheço detalhes e desdobramentos. Mas reconheço o preconceito e a estreiteza de pensamento de pessoas que promovem algo tão baixo e tão desrespeitoso.

Quando leio algo assim, penso em como tanta gente negligencia algo tão valioso: que poucas coisas nessa vida são mais importantes que o respeito pelo outro; que a falta de respeito se manifesta em níveis diversos, mais ou menos ofensivos, mas todos recrimináveis. E penso que uma agressão física do tipo praticado por esses alunos é inaceitável, mas não nasce do nada; esse tipo de agressão nasce no discurso preconceituoso. Quando alguém chega ao cúmulo de agredir outro alguém por ser gordo/a, muito antes disso o agressor ou agressora já alimentou em sua cabeça o discurso do preconceito - e cada um de nós pode, em palavras e atitudes, alimentá-lo ou combatê-lo. Então antes de fazer uma piada com a gordura de alguém, é bom pensar duas vezes, segurar a língua e avaliar o peso de nossos comentários. Podemos sempre optar entre agir com empatia ou agir como o humoristinha metido a besta que vai à TV constranger a atriz com corpo fora dos padrões (absurdos) de beleza. Acredito que nunca é demais lembrar a nós mesmos a aos nossos filhos que a ditadura da magreza não torna ninguém melhor. E que, muitas vezes, emburrece. Que bom mesmo é ter respeito e tratar qualquer pessoa como gostaríamos de ser tratados - e que quem alimenta o preconceito alimenta junto a violência.

E, pelamordedeus, que raio de mundo esse povo pensa que está construindo com um pensamento tosco desses! Esse povo é feito de quê?

Sabe o que mais me incomoda nessa história? O fato de que os agressores derrubaram as colegas no chão por estupidez, ignorância e preconceito, mas é uma das vítimas quem está com vergonha de voltar à faculdade. E eu a entendo, perfeitamente. Mas queria saber se os agressores estão circulando por lá de cabeça erguida, sem qualquer traço de vergonha na cara, com grau zero de constrangimento.

15 comentários:

Raiza disse...

Ahh se fosse só a gordofobia...
O problema central é a misoginia.Não é tanto "Você não pode ser gordo" é "você não pode ser gordA" e isso quase ninguém da grande mídia dirá (se conseguirmos fazê-los divulgar o caso).
Também escrevi uma reflexão sobre esse caso:
http://twixar.com/Zp9Ce

Fabi disse...

É precisamente isso. Não tem nem o que acrescentar.

Tudo TÃO errado.

Glória Maria Vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Glória Maria Vieira disse...

Esse assunto foi abordada por uma colega de classe ontem, Rita. Poxa... eu nunca sofri o Bullying propriamente dito não. Mas é uma barra da poxa.
Uma outra colega minha disse que sofreu por conta do nariz dela, sabe?! E que isso a deixou mal, que até pensou em fazer cirurgia, mas hoje ela não vê a coisa dessa forma. Não liga mais... parou de dar atenção aos idiotas que caçoavam dela e hoje está muito bem obrigada. Bem sei que nem sempre é assim por parte de quem sofre esse tipo de preconceito, né?!:/

Vou pensar numa coisa... Se for de fato, volto aqui pra comentar e dizer se sofri, ou não.

Beijo, Rita!

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, fiquei triste e indignada. Muito. Beijos

(meu texto na blogagem coletiva: http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/10/humana-demasiadamente-humana-postagem.html)

Amanda disse...

Puxa vida, eu fiquei chocada quando li essa reportagem. Sem palavras, sem vontade de comenta-la com alguém, sem vontade de pensar nela. Agora vc me diz, em que pais a gente vive, que esses caras nem expulsos da faculdade foram? SERIO?

disse...

Fiquei sabendo da noticia com o seu post, Rita. Primeira reação: incredulidade total. Não é possivel que existam pessoas - pessoas que tem mãe, irmãs, tias, primas - que sejam capazes de fazer uma coisa dessas. Nojo, muito nojo, viu?

Expulsar da faculdade é pouco. Este tipo de crime (sim, porque é um crime) devia ser motivo de prisão.

Patricia Scarpin disse...

Rita, sofri muito com bullying quando era pequena, por ser pequenina, branquela, e especialmente por tirar notas boas e ser querida pelos professores. Houve uma época em que não queria ir à escola, justo eu, que adorava estudar. Tempos tristes.
Esse tipo de notícia me dá um nojo tão grande do ser humano, uma vontade de sumir.
Ainda no assunto bullying, vi este vídeo ontem e fiquei com os olhos marejados:
http://www.awardsdaily.com/2010/10/it-will-get-better/#more-30565

Não sei se vc já viu - é longo, mas vale muito a pena.
Beijo, querida!

Palavras Vagabundas disse...

Rita, também me choquei com a notícia, que futuros profissionais serão esses, que fazem esse tipo de coisa? Pelo que eu li por aí a universidade vai tomar providência, mas não sei qual! As garotas deveriam ser incentivadas a meter um processo nesses boçais.
abs
Jussara

Luciane Curitiba disse...

Nossa, nojo define bem o que senti ao ler sobre isso. As vítimas deveriam sim pedir indenização por lesão corporal e somar um dano moral aí. O juiz deveria puní-los severamente, algo que pudesse fazê-los abrir os olhos diante da dimensão da agressão, que vai muito além da agressão física. Mas que mundo é esse, minha gente?!

Anônimo disse...

Aff, que tristeza. Como dizia minha mae: onde esse mundo vai parar? Se me dissessem que isso acontecera numa escola de ensino fudamental vai la, poderia se dizer "criancices" ai seria o caso de educar as tais criancas pra respeitar o outro. Mas "adultos" em uma faculdade? Processo e punicao neles.

bjo

Ana Flavia

Ana Duarte disse...

Rita!!! tava com saudades de passar por aqui :-)

Li seu post e logo e seguida achei a matéria na internet, fiquei passada. Na verdade eu estudei nesta universidade e conheço algumas das pessoas envolvidas...
Lamentavel!!!

Bjaooo

MM disse...

O pior, para mim, é que essa coisa se deu em uma universidade. Não se espara mais, infelizmente, que estudantes universitários sejam politizados como já foram. Universitários foram a vanguarda dos movimentos de massa na luta contra a ditadura. Estão descendo a isso. Alienados, despolitizados, em total disponibilidade de causa. Vão ouvir "sertanejo universitário" antes que eu me esqueça.
Fernando

Vivien Morgato : disse...

Uns ofendem uma garota de vestido curto, outros humilham garotas gordas.

Realmente é uma saraivada de misóginos doidos e perigosos soltos por ai...;0(

Rita disse...

Olá, pessoas!

Olha, queria que vocês soubessem que fiquei muito triste com essa história, viu. Tentei me imaginar no lugar de garota agredida nessa selvageria e, olha, não sei o que faria. Não sei o que faria se uma das garotas fosse minha filha.

Raiza, apesar de não ter mencionado a evidente misoginia da atitude dos alunos, concordo com você. Sei que meninos obesos também enfrentam algum grau de preconceito, mas certamente a cobrança social sobre a mulher é muito mais marcante e evidente. Bj.

Fabi, é triste, né.

Glorinha, bullying inferniza a vida de milhares de crianças mundo afora, é um HORROR. Eu era a branquela magrela e nem queira saber dos inúmeros momentos em que quis sumir da vida de algumas colegas. Nossa, é dureza. Bj.

Luciana, vi seu texto - você acredita que eu nem sabia da blogagem coletiva? Fiquei sabendo no twitter depois que já tinha publicado o post. Mas aí levei lá pro grupo, via facebook. Bj.

Amanda, também pensei em nem escrever sobre isso, mas eu não conseguia pensar em outra coisa. Bj.

Dé, acredito que por causa de todo o barulho em torno do caso o MP vai agir, sim. Bj.

Patricia, minha linda, sei exatamente como você se sentia. Nunca cheguei a não querer ir pra escola, mas os dias de educação física eram muitas vezes um martírio. Vi o vídeo do it will get better, adorei a canção. Fiquei toda emocionada logo na primeira vez que vi um trechinho na TV. Tô superdentro da onda de não à tolerância. Meu maior triunfo será conseguir criar meus filhos com cabeça aberta. Tomara que a gente consiga, tomara mesmo. Bj.

Jussara, eu processaria, sem dúvida. Assédio, agressão, sei lá, o que couber. Não deixaria barato e acho que a instituição precisa se posicionar abertamente e se engajar no repúdio a esse tipo de atitude criminosa. Bj.

Luciane, esse é o mundo em que o candidato a presidente pede para que meninas mendiguem votos em troca de "uma chance". Viu essa? Bj.

Ana Flavia, pensei nisso também: são universitários, gente. Que é isso, tudo adulto... nossa. Bj.

Ana Duarte, some não! Tudo bem? Você conhece alguém de la´? Nossa, seu choque deve ser maior que o meu. Lamentável,né? Abraços, querida.

MM, cara, sabe que pensei nisso? Eu tinha visto os vídeos do pessoal da UNB e de outras universidades e pensado que bom ver a galera discutindo política, entrando na campanha, com humor inteligente, ironia, opiniões; e aí vejo isso e penso o óbvio, né, gente de todo tipo em todo lugar. O mundo é assim mesmo. E aí a gente entende tanto preconceito em outras esferas, do tipo do que é direcionado à Dilma, por exemplo. Antes de ser candidata, ela é, para muitos, uma mulher gorda e feia. É uma percepção muito torta mesmo. Abraço!

Vivien, o mundo é um lugar doido, querida. Doido. Bj!

Valeu, gente, obrigada pelo papo. A internet foi bombardeada por protestos e isso com certeza influencia no rumo do caso.

Abraços,
Rita

 
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