Kids will be kids



Eu, Rita, prometo solenemente mudar de assunto após este post, amém.

A Tina comentou dois posts atrás que "(...) me dei conta, limpando a casa depois das festas "artesanais", que essa infância não é mais a minha infância. As crianças não têm mais craca nem joelho ralado (bem, a Nina até que tem). E é a infância delas, elas gostam do maldito pula-pula, têm os códigos e as preferências delas, e vão ter saudades disso também. Relaxei." E aí eu quase gritei "é isso, Tina", eu preciso falar isso também. Então vou falar.

Não sei até que ponto consegui ser clara em minha confusão (hahaha) no post em questão, mas a verdade é que a coisa não é mesmo simples. Eu sei que, como disse a Tina, a infância dos meus filhos não é minha, é deles, e que o mundo de hoje não é o mundo que eu tinha lá atrás. Eu sei que dificilmente meus filhos vão sair para brincar de manhã com a gurizada da vizinhança sem que eu saiba por onde ele ou ela anda até o final do dia, sem dar a mínima, como acontecia na infância do Ulisses. Sei que meus filhos, enquanto forem crianças, dificilmente vão poder simplesmente ir ali dar uma volta no bairro sem que eu pergunte como, por quanto tempo e com quem. Porque, né, o mundo. (Talvez em algumas cidades menores tudo isso ainda seja perfeitamente contemporâneo, mas não aqui.) Por outro lado, também percebo e me lembro que na minha época não existia um pula-pula em cada festa e que a moda era o tal quebra-panelas (que eu detestava, by the way). Então, não, não acho que as festas do tempo da minha infância eram mais legais que as de hoje. As festas do meu tempo eram as festas do meu tempo, as festas do tempo do Arthur e da Amanda são isso que a gente tem aí. E encaro com naturalidade o fato de que diferentes gerações experimentam a infância (assim como a adolescência, etc.) sob a ótica e os valores do tempo deles, como haveria de se diferente?! Mas.

Mas, ainda assim, não consigo evitar certo desconsolo pela liberdade perdida. Porque, como disse o Ulisses cinco minutos atrás, por mais maravilhoso que sejam aqueles brinquedos, cujo nome desconheço, que acoplam túneis e subidas e piscinas de bolinha e pontes que balançam - sabem do que estou falando? - por mais incríveis e coloridos que eles sejam, o percurso uma hora fica previsível até para a Amanda. E aí Ulisses pergunta: sabe quantas partidas de barra-bandeira (ou rouba-bandeira) eram iguais entre si? Nenhuma. Brincar de barra-bandeira na rua envolvia todos os sentidos da criança (até o paladar, porque, cedo ou tarde, todo mundo comia terra) e nos preparava para a saudável e importante lição de que o joelho vai sarar e o cotovelo não vai cair. Sem falar nas infinitas negociações para arrumar as equipes e definir as mil regras inventadas, tudo aos berros. E não, eu não quero ver meus filhos arrebentados todo dia - eu nem vou fingir, sou a maior neurótica, preciso me controlar pelo bem deles, inclusive. Mas questiono essa infância limpinha, passada no fofinho dos brinquedos infláveis. E, admito, é mil vezes mais cômodo para os pais: é só soltar a criançada lá e relaxar, eles não vão se machucar nem que tentem. Mas não sentem o vento no rosto nem anoitecem na rua com o pé no chão. E nunca mais na vida terão a chance de fazer isso. Ou, sendo otimista, raramente terão. Ou algum adulto aí anda brincando na rua com os vizinhos? Pois então.

(Claro que nem tudo é assim in vitro e aqui em casa somos ciclistas de fim de semana, o que tem valor inestimável para nós.)

Então meu saudosismo existe e é operante, mas não me alieno na falácia de que "ai, no meu tempo é que era bom, bla bla bla". No meu tempo era como no meu tempo. Hoje temos o mundo de hoje, com suas modas da hora, seus códigos e preferências, como colocou a Tina, e é nesse chão fofinho que nossos filhos estão plantando as saudades que terão em 2040, enquanto assistem nossos netos brincando nas cápsulas. E é assim. Não posso ser hipócrita e dizer que olho para o Arthur e sinto pena pelas brincadeiras que ele não tem. Ora, sua alegria com os brinquedos e as festas de hoje é tão legítima quanto era a minha alegria ofegante depois de roubar a bandeira do oponente na rua, como não? Mas quem sentiu o vento da noite no rosto sabe que a nostalgia não é à toa, ah, não é. 

* * *

E no futuro Amanda escreverá, quem sabe: ah, quem teve o pula-pula não consegue evitar a nostalgia diante desses patins voadores.

Gira, mundo.

9 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Geralmente me espalho aqui. Mas hoje, apenas: "Mas quem sentiu o vento da noite no rosto sabe que a nostalgia não é à toa, ah, não é"(2). Obrigada pro saber escolher cada palavra certa, certinha. Bjs

Amanda disse...

A pergunta que não quer calar: que diabos é quebra-panela???? Sera que não tive infância? :)

Caso me esqueçam disse...

amanda: hahahahahaha

rita, eh como os desenhos animados. ah quem ache que os de hoje em dia sao super sem graça, que bom mesmo eram os desenhos dos anos 80. sera que eh coincidencia que os desenhos dos anos 80 tenham feito parte da infancia das pessoas que o defendem? mas nao deixa de ser engraçado quando minha irma fala da infancia dela (a menina era criança ha cinco anos e fala como se o tivesse sido ha 30) e cita os desenhos que adorava: bob esponja, pokemon, hehehe ok, eu adoro bob esponja, mas tendo sempre a crer que tom e jerry, com toda a sua violencia gratuita, eh que era desenho. quem tah certa, minha irma ou eu?

as duas :)

Caso me esqueçam disse...

amanda: quebra-panela eh uma brincadeira que se fazia geralmente nas festas de aniversario. consistia basicamente numa bola feita de barro (ou qualquer material facil de quebrar), oca, onde se colocava bombons dentro. amarrava-se a "panela" no alto e uma criança vendada, com um pedaço de pau, devia explodir a panela, deixando cair os bombons. eu tinha uma certa aflicao por isso, porque sempre tinha algum bisonho que levava uma pauzada na cabeça. quando eu ficava vendada, nao conseguia chegar nem perto dos bombons porque todo mundo ja tinha voado em cima enquanto eu tirava a maldita venda. e quando eu nao destruia o negocio, perdia os bombons de todo jeito, porque era muito lenta. meus irmaos avacalhados pegavam quase todos. aih eu tinha que chorar pra ver se comia algum junto a eles. hehehehe mas era divertido, como voce pode ter notado...

Iara disse...

Eu também tava qui me perguntando o que era quebra-panela. Obrigada pela explicação, Luci! Não sei como chamava aqui em SP. Mas eu sei que isso existe na França até hoje (por hoje entenda-se até 2006, quando eu voltei pra cá) e se chama piñata. Vi em mais de 1 festa infantil. A diferença é que não é de barro, é de um papel que se rasga espalhando os doces, mas é basicamente a mesma coisa. Por aqui eu não me lembro mais de ter visto.


Mas eu adorei o post, viu? É por aí mesmo, claro. Outras referências. Eu também acho que queimada era incrível, e fico imaginando que, puxa, será que as crianças ainda jogam queimada? Mas isso não significa, em absoluto, que não sejam felizes.

Lord Anderson disse...

Eu passei a maior parte da minha infancia em fazendas (só vim morar na cidade mesmo aos 16) então sei oq vc quer dizer com liberdade p/ andar por ai.
Não que os meus pais não se preocupassem, apenas que parecia haver menos motivo para paranoia.

Ja meus sobrinhos e sobrinhas tem o espaço urbano como referencia, mas felizmente vivem em ruas afastadas dos centros, mais calmas e onde todos os vizinhos se conhecem, oq permite mais tranquilidade p/ os pais e mais liberdade p/ brincar de pega-pega, esconde-esconde, peladas de futebol etc.

Alem disso alguns parentes ainda moram em chacaras e sitios oq permite lhe dar a opurtunidade de viver outros "ares".

Em algumas cidades existem a opção de acampamentos ou mesmo dos escoteiros, embora isso fique um pouco restrito a quem tem as condições financeiras para tanto.

Enfim existem caminhos para equilibrar uma criação com segurança mas sem colocar as crianças em redomas protetoras.

Não é facil ,mas quando criar filhos foi simples?

Rita disse...

Luciana, beijinho procê.

Amanda, vide Luci; ou euzinha no post Uma Festeira em Crise, também nos comentários.

Luci, você sabe que eu mesma adoro alguns desenhos atuais? Bob Esponja é tudo nessa vida, viu? E, como falei hoje lá no twitter, Lula Molusco é o melhor personagem do mundo! :-D

Iara, pois é. Era o que faltava agora a gente decretar que a infância de hoje "não presta", hahaha. Menos, né? Bj!

Lord, com certeza as alternativas estão aí. Nossas bikes, a praia ou piscina do verão, os eventuais parquinhos ou mesmo os sítios no final de ano, quando visitamos nossas famílias. Nada como a rua diária de antigamente, mas tá valendo. Bj!

Valeu, pessoas!

Rita

Angela disse...

Oi Rita! Eu tambem tive essas ponderacoes... ate que um dia resolvi experimentar fazer as coisas da minha infancia com o Max, para ver o resultado. O resultado dele foi o mesmo de quando eu era pequena: Ele se divertiu pra caramba e amou. Entao, brincamos de academia (ou "cademia :)), baleada light (pois sou tao maior do que ele). Brincamos muito a noite (levamos a lanterna e fazemos sombras!), bolhas de sabao, banho de mangueira. A maioria dos aniversarios aqui ainda tem quebra-panelas (aqui tambem chamados de piñatas) e as criancas continuam amando. O DVD favorito de Max eh uma compilacao do Scooby Doo. Exatamente os que eu assistia quando era crianca. Tem aqueles farelinhos brancos na TV e tudo (estatica nao eh?). Assiste tanto que ele e Julia teem ate uma brincadeira do Shaggy (o Salsicha).

Concordo com a observacao do Ulisses quanto a estimulacao dos sentidos. Fiquei chocada quando recebi a noticia de que todas as jeringoncas do parquinho da escola de Max iam ser retirados. Para dar lugar a atividades nas quais as criancas participam mais ativamente. Os castelos e escorregos deram lugar a pedras para as criancas levantarem e catarem besouros e minhocas, compost que elas acompanham, "tendas" de girassois, troncos de arvores, conchas de praia... a meninada adora! Isso faz parte da filosofia de Action Based Learning que a escola continua a expandir www.actionbasedlearning.com.

No final a unica coisa que sinto pena mesmo que meus pequenos nao vao fazer eh brincar no meio da rua com duzias de criancas que habitam dentro em um raio de quatro blocos, o dia todo, sem ninguem ligar aonde estao (quando penso em isso ter acontecido comigo, filha de D Glauce, eh por que o mundo tava mesmo muito bom ha alugmas decadas atras). Mas eu tambem nunca dormi acampada no meu quintal, controlei dinossauro robo com controle remoto ou "fast-forwarded" os comerciais na televisao (na minha epoca teriam sido um SONHO!), e eles sim :) Entao ao mesmo tempo tambem concordo com voce, a diversao vem em pacotes de todo o tipo. EBAAA!!!

Rita disse...

Anginha, o engraçado é que, quando estávamos em Londres, fomos a um parque infantil construído a pedido da Diana inspirado na história do Peter Pan. A grande atração do parque é um imenso navio pirata cheio de areia, mastros para escalar, calabouços onde despencar, corda para se pendurar, uma maravilha. Pergunta como eu fiquei? Apavorada, that's me. O lugar é excelente para crianças com um pouco mais de idade que o Arthur, que já se garantem nas piruetas, mas são justamentes os pitocos de gente que se encantam com o troço. Aí eu tenho a cara de pau de vir aqui e dizer que bom mesmo era barra-bandeiras... ai, ai, eu não tomo vergonha nessa cara, né? :-D

Beijocas, linda!

Rita

 
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