Eu, Penélope



Hoje me lembrei de nosso primeiro beijo.

A situação era confusa e me lembro bem de que você hesitou, sentado no banco da praça, fazendo companhia enquanto o ônibus não passava. Enquanto eu torcia para o ônibus não passar nunca, você hesitava. E tinha razão em fazê-lo, né, situação confusa e tal. Aí você deu nome aos bois: "é que um beijo meio que marca o início de uma história, né", como se eu tivesse perguntado alguma coisa. Eu só olhava, perdida já. Mas, como a história já tinha começado nos olhares de semanas atrás, a gente se beijou. Eu me lembro do mundo ficando enorme e da minha vontade de que todas as pessoas do planeta fossem felizes. Quer dizer, depois, algum tempo depois. Porque naquele instante mesmo o que acontecia comigo era um redemoinho de coração e dúvidas e torcida e medo e alegria e cheiros e texturas e tudo. Ou seja, já era. Eu já amava você, mas beijar tornou qualquer outra alternativa impossível. E eu saberia disso de forma bem dolorida mais tarde.

Você foi embora. Eu fui embora. O engraçado é que ninguém voltou. Mas havia uma ilha no meio do caminho.

Quando a gente se olhou e soube, milhões de anos depois, o mundo era outro. Trazíamos muito tempo em nossos ombros, mas a carga ficou leve porque juntamos ao tempo nossas vontades cheias de certeza. Durante uma eternidade, houve uma centelha dentro de mim que aprendi a ignorar e desmentir, para mim mesma, com profissionalismo exemplar. Havia uma vida inventada, na qual seu papel era só coadjuvante. Mas quando a gente trocou aquele olhar de certeza, removi a pedra e reguei de novo a flor. E deixei que aquele beijo da praça tomasse seu lugar de direito em minha vida. Um marco, tal qual você profetizara.
 
Às vezes a gente está no trânsito, em silêncio, ou com o rádio insistindo em cantar, e sinto sua mão que casualmente toca a minha mão ou a minha perna. Às vezes fecho os olhos nesses momentos e aprisiono esse toque no lugar mais guardado dentro de mim, como fiz com o beijo da praça. Mas não para guardá-lo embaixo de uma pedra, não, não, não. Apenas para resgatá-lo mais tarde e comemorar ao longo do dia, enquanto trabalho ou leio ou sei lá o quê, a alegria quase absurda por ter reencontrado você. Todo dia comemoro. Todo dia.
 
Ai, te amo tanto.
 
***
 
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16 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Ow que lindo,Rita!

Ah os olhares! Pra mim não há nada mais denunciador, sabe?! Nada tão intenso qnt uma fala muda, qnt um olhar que sempre antecipa um sim, um não, ou um talvez!

Enfim, como é maravilhoso de ler o amor que vc tem pelo seu marido!

Juliana disse...

de dar nó na garganta!

Iara disse...

Engraçado que eu comecei a escrever um comentário aqui justamente sobre o quanto era linda essa história de vocês, que a nossa aqui não é nada romântica. Daí fui ver o futebol, voltei, e vi seu comentário no meu post. ;-)

Amanda disse...

Que fofo! Que bom que vcs se reencontraram! Deve ser dificil se separar de uma pessoa bacana, que vc sabe que te encaixa. Deve sempre ficar aquela duvidazinha, poxa, como poderia ter sido... Fico feliz que tudo tenha dado certo.

Comigo pelo menos, sempre que terminei um namoro foi com a certeza de nunca mais voltar. Hoje olho pros meus ex e penso, putz, como namorei esse cara por tanto tempo? Pelo menos não da margem pra arrependimentos nem duvidas!

Caso me esqueçam disse...

ai, meu deus, voces estao obstinadas a me fazer chorar hoje (primeiro a gloria, neh, com aquele post). parem!

deixa eu dizer uma coisa. as vezes eu leio certas coisas aqui que eu nem acredito por parecerem tanto comigo. muuuitas vezes eu deixo passar, nao comento nada pra nao ficar muito... rasgacao de seda, ou parecer que eu tou inventando (porque certas coincidencias fariam as pessoas suspeitarem isso, de tao grandes). mas senti perfeitamente o que voce descreveu com o toque no carro, sabe. po, eh ser muito sensivel! isso eh saber aproveitar a vida, mastiga-la. porque as pessoas costumam guardar aqueles grandes momentos. eu gosto de olhar pra camilo. gosto de olhar ele fazendo qualquer coisa e fico caladinha pensando no quanto ele eh bonito, no quanto eu sou feliz e o peito parece que vai explodir de tanta coisa boa. e quando a gente vai dormir, ele coloca sempre a mao nas minhas costas e, mesmo que as vezes incomode, eu deixo la, nao tenho coragem de tirar, e fico guardando aquele momento, na escuridao, como se fosse o momento mais importante da minha vida. e todo dia... e todo dia...

ainda bem que tua colcha nao ficou pronta

Daniela disse...

lindo post. eu adoro essa sua poesia pra escrever sobre qualquer coisa e que fica tão evidente quando vc fala de amor.

eu não acredito né? acho que já comentei. mas acho mesmo que o mundo é um lugar melhor porque vcs acreditam.

beijo grande.

Ana Flavia disse...

De sair a dancar pelos camposd! Ai, que lindo. Viva o amor.

Luciane Curitiba disse...

Que liiindo!! Homem de sorte o Ulisses, hein?! (Transmita meu recado para ele NUNCA esquecer disso. . .hehehehehe). Receber uma declaração de amor linda assim em plena quarta-feira?? Hahahaha, mas o amor é assim, né? O amor não tem hora para ser demonstrado. E que o "beijo da praça" te faça suspirar por muitos e muitos anos!!

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, que lindo sentimento, que lindo post. Eu juro que procuro uma coisa inteligente ou engraçada, todo santo dia, mas só sai esses Lindo! lindo! querendo dizer: que maravilha haver, ainda, quem sabe tocar com tanta delicadeza nossa alma. Bjs admirados

Rita disse...

L'amour, l'amour... fióóón, fióóóónnn (violinos).

Glória, olhares são tudo mesmo. Quer dizer, quase tudo, néam? ;-)

Ju, chora não!

Iara, fala aí, a gente pode pedir qualquer coisa a eles essa semana, é ou não é? Rá! :-)

Oi, Amanda, tive desses aí também: tchau e bênção, siga em paz e não olhe pra trás. :-)

Luciiiiii, você é um docinho. Seu cometário é forte candidato a the fofest comment ever. Gostou do "fofest"? Então, a colcha: eu desfiaria um milhão de vezes. :-) Bj!

Dani, saudade docê aqui. Então, um dia a gente vai papear sobre esse não acreditar aí. Sem qualquer pretensão, obviamente. Só troca.
;-) Beijinho!

Ana, hahaha! Ei, menina, tuitei aquele post bom seu hoje. Muito informativo, adorei. :-)

Oi, Luciane! Obrigada, querida, obrigada. Recado dado!

Borboleta, sofro da mesma síndrome, querida. Ando espalhando "lindos" por aí. Tá valendo. Beijão!

Valeu, amores!

Rita

Sinara disse...

Esse amor é digno de um livro - vivo falando...

Rita disse...

Si, sua linda, :-*

Jux disse...

e que sua história siga assim, sem final feliz... ainda bem porque essa prosa de ternura, serenidade e simplicidade de ser e estar há que durar para sempre, feliz toda manhã e todo anoitecer...
E me lembrei de meu primeiro beijo - do primeiro de todos e do primeiro beijo partilhado com aquele que divide sonhos e colher de pau comigo... tão bom amar assim, né, bonita?
Beijukkas sempre!

Angela disse...

Nao sabes como ler esse post me deixa feliz. Eh como assistir aqueles filmes de sofrimento prolongado ado ado, mas com um final super feliz. Sabemos que so em filme mesmo, mas nao ligamos, ficamos felizes. No seu caso o prolongado chato do filme durou mais de uma decada, e o inesperado, a volta do parafuso, aconteceu na vida real, sim! Que maravilhoso reencontro.

Rita disse...

Oi, Jux. Bom demais! Bom demais, nunca vou conseguir dizer o tanto. Acho que é por isso que gosto tanto da Clarice Lispector. Porque ela fala disso, do drama que é dependermos muito da linguagem para expressar o que sentimos, mas a linguagem precisaria de muito mais para transcrever tanto sentimento... ui, e hoje é domingo, gente, que é isso... pronto, parei. :-D Beijão!

Anginha, você é uma das pessoas com quem sempre brindarei esse reencontro. Porque você muitas vezes foi minha luz quando eu andava cabisbaixa. A gente nunca poderia imaginar. Poderia?
Beijão!
Rita

Anônimo disse...

Oi, cunhada!!!

Há alguns dias nos falamos pelo telefone e, naquela ocasião, eu te disse o quanto vc havia tomado um lugar de importância em minha vida.

Por estar com meu irmão, eu disse. Por ser mãe de meus únicos sobrinhos e, um deles, nascido num dia tão pessoal para minha história, eu disse também...

O caso é que passo semanas e semanas sem vir por aqui mas, quando venho, penso que deveria ter vindo antes. E isso é muito bom! Primeiro beijo, primeiro filho, primeiro BLOG (riso). As coisas primeiras, como disse meu irmão, sempre marcam uma história.

E AÍ, FALANDO EM HISTÓRIA... Nem é no mais recente post que vou deixar esse recado, porque gostei da história do primeiro beijo, então é por aqui que ela vai ficar: lembra daquelas coisas que levei lá para Londres, daquele texto que li por lá? Pois... Juntei tudo num 'pacote' e sai um livrinho que, se tudo der certo, é lançado na I Semana de Ciência, Tecnologia, Esportes, Arte e Cultura da UFPB (OUTUBRO!!!).

Digo se der certo porque essas coisas de gráfica têm lá sua vontade própria. Mas seu nome é HISTÓRIAS DE 'MULHERZINHA'... Como digo lá, o nome 'mulherzinha' poderia nem soar tão legal para as feministas. Mas tem muito mais a ver com aquelas coisas que habitam dentro de nós e que, claro, têm tantas das origens em nossa infânci. Em quando a gente é "mulher-pequena".

Que bom que sua mãe está melhor, que o tratamento que receberam foi de primeira e que você acredita em anjos. Eu também tenho CERTEZA de que eles existem. E velam por nossas histórias.

Beijos, amada! Deus abençoe a vc e à sua família. Que, eu acho tão bom, também é minha...

 
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