"Tem criança nessa casa?"


Essa semana aconteceu um debate interessante (não, aquele não, estou falando de outra coisa) lá no blog da Lola. Resumidamente, para quem não acompanhou, a Lola publicou um post sobre uma pesquisa estadunidense que apontou que casais sem filhos são mais felizes. Vocês podem imaginar a gritaria que isso gerou - quem se interessar é só dar uma olhada no primeiro e no segundo post sobre o tema, espiando também o que disseram os leitores.

Eu andei por lá e, no segundo post, fiz um comentário que menciona algo que eu já tinha planejado escrever aqui por ocasião do dia dos pais. A Lola chegou a comentar que também voltaria ao assunto, talvez hoje, não sei. Eu disse o seguinte, motivada pelo post e também por alguns comentários publicados lá: (...) o mundo é grande e comporta todo tipo de projeto de vida. Esse tom um tanto competitivo - “vida boa é com filhos” x “vida boa é sem filhos” é meio teen demais pro meu gosto, confesso. Acho que o bom é tocar a vida confiando em nossas escolhas e revisando-as, quando dá. Só precisamos ficar atentas e atentos a um pequeno “detalhe”: antes de crucificar a mulher que escolhe ter filhos, mas sai pra trabalhar e inclui babás e creches em sua rotina, é bom levar em conta que esse é um dos maiores - senão o maior - conflitos enfrentados pela mulher/mãe na atualidade. Trabalhar fora, algo quase “inerente” à vida dos homens, foi uma conquista gigante das mulheres. Ser mãe é, para muitas mulheres, outra coisa gigante em suas vidas. E elas seguem fazendo escolhas difíceis vida afora na tentativa de conciliar as duas coisas. Não é fácil nem sem culpa, acreditem. Mas tem uma coisinha que a gente esquece: dá pra ficar viável se contarmos com os pais das crianças e taí uma boa coisa para se pensar nesse final de semana “dos pais”. Porque antes de apontar o dedo na cara da mãe que tem filho e trabalha fora, é bom olhar para o parceiro dela e ver a quantas andam as renúncias dele também. Sabe, todo mundo critica a mãe que “entrega” os filhos às babás sem olhar para o pai que tá “entregando” junto. Porque senão a gente cai de novo na armadilha de ser culpada por todos os pecados do mundo. (...)

É claro que estava me referindo aos casais que criam filhos juntos. Existem outras inúmeras situações: casais separados, casais que convivem com filhos nascidos em casamentos anteriores, casais gays que adotam, mães solteiras, pais que criam os filhos sozinhos, etc. Como falei, o mundo é grande. Mas acredito que a maioria dos leitores da Lola se referia mesmo a casais heterossexuais com ou sem filhos - afinal, era dessa situação que tratava a pesquisa e o também o post da Lola.

Então queria bater na mesma tecla: casais que criam filhos juntos - no Brasil, pelo menos. Criam juntos. Porque quando leio críticas - algumas superpertinentes, diga-se de passagem - a mães que contam com a ajuda de babás/creches, é raro ver alguma menção aos pais dessas mesmas crianças. Raramente (e quase escrevo nunca) se cogita, por exemplo, que o pai renuncie parte de sua carga horária no trabalho; ou que privilegie o tempo com os filhos em detrimento de qualquer outra atividade. É quase sempre a mãe que "entrega" o filho à babá, ah, essas mães que saem por aí colocando filho no mundo sem se programar para criá-los. E se esquecem de mencionar o fato de que essas mães não colocaram o filho no mundo sozinhas. Que, sozinhas, jamais teriam gerado uma criança. E que muitas, antes de ter filhos, sonharam com suas carreiras e suas conquistas financeiras, da mesma forma que seus companheiros o fizeram, com o diferencial de que eles não precisam olhar nos olhos de ninguém e justificar suas escolhas, porque - na grande maioria das vezes - a chegada dos filhos não altera em muita coisa os outros aspectos da vida deles. Por favor, levem em conta que estou generalizando bem e que as exceções também abundam por aí - e cada vez mais, suponho eu, otimista.

E agora vou migrar o assunto para minha exceção favorita, a razão maior desse post.

Hoje fui a um escritório fechar um pequeno contrato. Tive uma dúvida e precisei ligar pro Ulisses antes de tomar a decisão. Liguei para ele, que não atendeu. Comentei com a mulher que estava me atendendo lá no tal escritório: "ele deve estar dando banho nas crianças e não pode atender o telefone". E a mulher se espantou. E eu, infelizmente, nem estranhei o espanto dela, porque já vi essa mesma reação inúmeras vezes. Honestamente, eu não acho que exista uma forma só de criar filhos em um ambiente não sexista. Mas eu sou imensamente feliz em olhar para o lado e ver que o meu companheiro cria nossos filhos junto comigo. E cria no sentido mais amplo que vocês quiserem dar à palavra, sem que eu jamais precisasse ter dito uma palavrinha a respeito do assunto. Nunca precisei pedir ao Ulisses que me ajudasse com as crianças. Esse conceito, de verdade, não existe aqui em casa: caminhamos juntos, ninguém "ajuda" ninguém. 

E aí eu bem que poderia estranhar o espanto da mulher do escritório - e o seu comentário "ah, se meu marido fosse assim" - porque, na verdade, eu vejo nitidamente que o que move o Ulisses em sua postura diante da criação de nossos filhos são, basicamente, duas coisas: o amor que ele sente por eles e o fato de ele ser um homem não sexista. E aí eu penso, e me desculpem se estou julgando ou generalizando demais (provavelmente estou), que a única razão para os homens agirem de forma omissa na criação dos filhos é o conforto oferecido pela mãe que se desdobra e cumpre sozinha todos as inúmeras funções ligada à educação de uma criança. Ou seja, é, muitas vezes, o machismo das mulheres, que acham normal que seja assim, que as impede de conciliar melhor carreira, lazer e filhos. (Update: o comentário da Iara em relação a esse ponto foi tão relevante, que resolvi colocar esta observação aqui: concordo com ela quanto a pressão exercida sobre as mulheres, como não? E olha eu aí caindo na mesma armadilha e colocando todo o peso nos nossos ombros... valeu, Iara, obrigada!)

Aqui em casa, nós dois fazemos renúncias. Ulisses largou o futebol, negligencia sua paixão pela música, dedica quase todo seu tempo livre às crianças. É pai em tempo integral, mesmo trabalhando fora - sim, é possível, sim. Idem para mim, que fiz também minhas renúncias, porque escolhemos ter filhos juntos e estamos muito felizes com nossa escolha. Talvez, vendo de fora, casais sem filhos sintam pena de quem não vai ao cinema quando lhe dá na telha, mas eu nem preciso dizer o quanto isso pesa pouco na balança de um casal que está caminhando junto em um projeto gigantesco, cheio de conquistas diárias de tirar o fôlego. É claro que sentimos falta de um pouco de liberdade de vez em quando. E é verdade que muitas noites românticas são adiadas por causa da febre do pequeno, mas, uai, gente, o nome disso é amor ao próximo, na sua forma mais doce. Faz um bem danado.

Eu já expliquei no post que fiz no Dia dos Pais do ano passado o porquê desse dia ser especial aqui em casa. O post continua atual, acreditem. A farra só aumenta. Não precisa fazer muito para perceber o efeito papai nos meus filhos: basta observá-los quando o pai chega em casa. É a maior alegria da vidinha deles ouvir aquela voz generosa indagando "tem criança nessa casa?". Tem, tem criança nessa casa, papai. Crianças barulhentas, ativas, cheias de perguntas, crianças amorosas e briguentas, incondicionalmente apaixonadas pelo pai delas. E se existe nesse mundo um amor merecidamente correspondido, eu tenho o privilégio de observar seus efeitos todos os dias.

Meu amor, parabéns pelo pai consciente e amoroso que você é. Eu tenho certeza de que nossos filhos estão recebendo o mais importante alicerce de uma vida guiada com coração aberto e olhar voltado para o próximo porque é isso que você os ensina, com exemplos, todos os dias. Comemore, sim, o dia dedicado aos pais. Todinho seu, sem ressalvas.


11 comentários:

Amanda disse...

Ai Rita, que coisa mais linda! Que declaração de amor, heim? To aqui com o coração apertadinho morrendo de vontade de dar um abraço no Ulisses! Feliz dia dos pais pra ele!

Borboletas nos Olhos disse...

Pausa para choro. Lindo post. Depois, uma consideração. Eu e o pai do meu filho somos separados. Mas criamos nosso filho juntos. Ele é presente de fio a pavio. O samu nunca foi ao médico, dentista, vacina, sem que o pai fosse junto (e olhe que agora moramos em outra cidade). Todas as fraldas do samu quem lavou foi o pai (e olha que so usavamos desacartável para longos passeios). Nós nos separamos quando o smu tinha menos de dois anos mas issonunca foi desculpa pra o pai não ficar com ele. Muitos perguntavam se eu nao tinha preocupação de deixar uma criança pequena sozinha com o pai. Claro que não. Ele faz renúncias já a 13 anos, talvez não tão cotidianas quanto as minhas agora mas muito maiores se for pensar no conjunto da obra. Creio que é tempo de todas pensarmos o quanto contribuímos pra manter certos padrões. Bom, feliz dia dos pais pro Ulisses, pro pai do Samu e pra todos os pais que sabem viver essa experiência com inteireza.

Iara disse...

Parabéns pra o Ulisses! Ah, e parabéns para os pequenos por terem um pai tão bacana e pra você, por ter um parceirão nessa jornada!

Então, eu acho essa questão da pesquisa sobre a felicidade meio boba, sabe? Imagina uma pessoa que nunca provou chocolate e vive feliz assim. Ela pode passar o resto da vida sem sentir falta. Mas, se um dia ela provar e gostar, pode dizer que foi a coisa mais espetacular que já provou e nunca mais vai poder viver sem. Comparação das mais grosseiras, mas pra mim é assim. Não acho que nenhuma experiência é fundamental a ponto de eu dizer que é obrigatória.

Eu acho que uma das coisas que o feminismo tem que brigar é por uma paternidade mais ativa. Isso ia fazer muita diferença em todas as nossas relações de gênero. Os homens deveriam ter em mente que, se ele tiverem um filho numa relação casual vão ter que fazer mais do que pagar pensão, registrar e levar pra passear a cada 15 dias, que precisam sair mais cedo do trabalho pra levá-los ao médico, se interessar pelo que a criança está aprendendo na escola e perder, eles também e não só a mãe, noites de sono quando a criança tiver febre. Essa carga tem que ser divida, pra ontem. E pais não-casados também deveriam entrar nessa, claro.

Permita-me só discordar quando você fala sobre as mães. Eu acho que não dá pra dizer que os homens se acomodam por culpa das mulheres. Primeiro que a gente sabe que boa parte das vezes um filho não é planejado, nem vem numa relação madura o suficiente para haver diálogo em relçao ao que se espera de cada um. Depois, porque a exigência sobre as mulheres é muito maior. Pra nossa sociedade, se uma menina de 17 anos não cuidar direito do seu
bebê, será omissa. Se ela deixar o bebê por 1 dia com o pai de 19 ele não cuidar direito, a omissa vai continuar sendo ela, porque deveria saber que um "moleque" não ia dar conta de bebê, entende? As mulheres às vezes tem medo de delegar porque sabem que as responsabilizadas serão sempre elas.


Mas, enfim, eu tô na condição de escolher. E aqui em casa o acordo é que se tivermos, será quando os dois tiverem disponibilidade pra se entregar ao projetinho com a dedicação que merece, o que tá longe de ser o caso agora.

Rita disse...

Oi, Amanda, sua bonitinha. O Ulisses disse que se sentiu abraçado. :-) Thanks!

Borboleta, adorei seu cometário. Tomara que eu tenha deixado claro no post que sei que há muitos pais igualmente presentes como o Ulisses, claro, óbvio, ululante. Mas falei isso, não falei? O Ulisses achou que dei a entender que era raro ser pai presente e ele não acha que seja assim. Bom, raro não sei, mas conheço poucos como ele (mas conheço); mas meu post tratou mesmo da discussão sobre o papo de ter ou não ter filhos e do lance das mulheres terem e criarem "de qualquer jeito" - e não são só as mulheres, de um jeito ou de outro, são os homens também. Mas acho que deixei isso claro. Né? Bj!

Iara, como você deve ter visto lá no post, achei seu comentário tão relevante que inclui um update lá no parágrafo da "culpa'. Obrigada mesmo! Olha as armadilhas.... e eu nelas. Beijocas! Ah, Ulisses agradece os parabéns, viu?

Rita

Monalisa disse...

Rita, a Ju falou sobre o seu post no Fina Flor e eu vim conferir. Uau, vc expressou praticamente tudo o que acontece na minha vida e do meu marido.
Nós temos apenas uma filha, mas as renúncias foram dos dois lados, e a Mari tem um pai que é uma mãe, ele faz tudo tão bem quanto eu. Nós trabalhamos juntos, então quando eu preciso sair, ele fica, quando ele sai eu fico.
Outro dia, eu estava com uma dor de cabeça enorme, chegou algumas pessoas aqui em casa, ele estava cuidando da casa e da Mari, enquanto eu estava deitada, ouvi o seguinte comentário: "Nossa Cris, vc lavando louça e fazendo comida, enquanto a Mona dorme?" Se fosse o contrário tenho certeza que ninguém falaria nada. A resposta dele foi a melhor: "Pode acreditar que eu não mereço nenhuma medalha por isso."
Nós também já estamos acostumados com esses tipos de comentários, mas fico extremamente feliz por existirem homens como o Cris e o Ulisses.
Desculpe, pelo comentário enorme, mas em um post como esse, eu não conseguiria falar pouco.
Parabéns ao seu marido pelo dia dos Pais!
Beijos

Daniela disse...

Eu concordo e discordo da Iara. Porque a maternidade se pauta demais também naquela coisa de "eu que carreguei por 9 meses, eu que senti dor pra parir". Então, por exemplo, conheço N casos de mães que disputam com o pai a preferência no sentimento do filho porque "foi ela que carregou", o filho tem que ser mais próximo dela.

Dai que eu acho que essa coisa da responsabilidade materna é externa (a cobrança da sociedade que é sempre maior sobre as mães) e interna também: ela que sentiu as dores, então o amor dela é sempre maior do que o do pai, pai só gosta de filho qdo tá com a mãe, e sandices de outros calibres que se ouve por ai.

E sobre o lance da maternidade: também acho teen ficar discutindo quem é mais feliz porque as experiências são tão únicas de milhares de maneiras tão únicas. E muitos desses pais que se sentem miseráveis enquanto os filhos crescem por todas as razões citadas não se arrependem de ter tido filhos.

Eu acho que todas as escolhas são legítimas, mas eu sempre penso que o grande problema de quem faz do "marido/filhos" o seu grande projeto na vida é que eles não podem voltar atrás. Eu, que cada dia me sinto menos inclinada a ter filhos, posso voltar atrás a qualquer momento - pelo menos em teoria.

E também acho que o povo que defende tanto uma vida sem filhos ignora a coisa que pra mim é mais óbvia: se todo mundo simplesmente parar de ter filho, como é que fica?

Beijos pra família. Obrigada pelo email esclarecedor!

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, querida, ficou claríssimo. Foi justamente por isso que deixei o depoimento sobre o Almir, pra ilustrar a idéia. Bjs

Iara disse...

Ei! Que bom que eu contribuí!

Mas a Dani tem razão, viu, Dani? Tem as duas coisas. Tem a pressão pra que tudo fique nos ombros das mulheres, mas tem as mães que precisam se justificar como mães que, por uma questão até de auto-estima, precisam achar que só elas dão conta. É uma dinâmica bem complicada essa, viu?

Rita disse...

Oi, Monalisa! Seja bem vinda, volte sempre! E não se desculpe, adoro comentários enormes. :-)

Bom, nem preciso dizer que fico feliz por seu marido ser seu companheirão, né? E o fato que você narrou do comentário da louça lavada, ah! Manda um abraço pra ele, ta? ;-) Beijão!

Oi, Dani (e Iara). Bem, a coisa é complexa mesmo e muitas vezes acabamos engolidas por tanto padrão imposto desde sempre. Se imaginarmos que as pressõe são exercidas desde a primeira infância, não é de se espantar que tantas mulheres nem percebam que há algo meio fora do lugar nessa história toda. Beijos, meninas!

Rita

Angela disse...

Feliz Dia dos Pais Ulisses!!! :) Beijao!!!

Rita disse...

Thanks, Anginha! Beijos pro papai Pete!
Rita

 
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