Religiões na escola - modo de usar



Durante seis anos de minha vida estudei em um colégio católico, de freiras. E lá tínhamos aulas de religião. "Aulas de religião" eram, na verdade, momentos em que cantávamos hinos católicos, líamos passagens bíblicas, "aprendíamos" qualquer coisa sobre o santo da vez, sobre os dez mandamentos, os pecados, o papa, as obrigações do bom católico, os rituais como missa, crisma, etc. Ou seja, era um mergulho da tradição católica, desprovido de qualquer questionamento, debate mais profundo sobre o papel da Igreja Católica ao longo da História - imagine - ou coisa que aproximasse aqueles encontros de "ensino".  O resultado era uma alienação inevitável, onde o catolicismo era visto como regra no mundo e as demais manifestações religiosas eram tidas como excentricidades, para usar uma palavra bonita. Para ser honesta com meu antigo colégio, devo dizer que havia tolerância religiosa em algum grau, sim, pois me lembro de ter colegas de classe protestantes ou adventistas, as quais, que eu saiba, nunca sofreram qualquer discriminação por causa disso, seja por parte dos professores ou da direção da escola. Ainda assim, chamar o que tínhamos de "ensino religioso" era um disfarce para doutrinação pura e simples.

E aí quando me vi diante da possibilidade de matricular meu filho em uma escola católica, temi pela doutrinação que ele fatalmente receberia por lá, o que inevitavelmente representaria um conflito para quem vive em uma casa, digamos, laica. Mas também ponderei que o fato de eu ter tido aquela formação de que falei no parágrafo anterior não me impediu de abrir meus olhos para outros horizontes, desprender-me dos dogmas católicos e tocar minha vida. Então apostei nos pontos que julguei "fortes" na escola e lá está ele.

Daí que essa semana fomos convidados pela diretoria da escola a assistir uma exposição de trabalhos produzidos pelos alunos em torno do tema "2010, ano do ensino religioso". Tremi nas bases e hoje fomos passar parte de nossa manhã de sábado conferindo a tal exposição. E que boa surpresa.


Uma coisa é eu dizer que não pretendo doutrinar meus filhos a seguir qualquer religião; dizer que pretendo conversar com eles sobre a ideia de Deus de forma franca e aberta, escancarando as dúvidas, mais que as convicções empurradas pelas tradições; que pretendo criá-los livres para seguirem a crença que melhor lhes servir. Outra coisa, bem diferente, é esperar que eles não conheçam nada sobre as crenças da humanidade, já que eles, espero, cruzarão em suas caminhadas com pessoas das mais variadas vertentes.

Por isso gostei tanto do que vi hoje. Bem diferente do que via em "minha época" (ô, expressão triste essa, né?), o que a escola do Arthur apresentou foi uma compilação de símbolos e manifestações de diversas religiões espalhadas pelo mundo (queria escrever "todas", mas certamente há muitas outras, a imaginação humana não tem limites). As seções da exposição não receberam títulos como "fé em Deus" ou "conversando com Deus", mas "manifestações sobre o transcendente" ou "templos considerados sagrados por diferentes povos". Sem qualquer destaque ao Catolicismo, vimos símbolos budistas, protestantes, espíritas, de religiões de origem africana, judaísmo, islamismo, etc. lado a lado, cercados por dizeres onde as palavras de ordem eram Respeito e Diversidade.

Foi uma grata surpresa, confesso. Porque mesmo tendo conversado sobre meus temores com a coordenadora do ensino infantil, quando matriculei o Arthur, no fundo, admito, eu achava que rolaria, sim, certa manipulação por parte da escola no sentido de pintar a Igreja Católica como a dona da verdade - e hoje vi que isso é meu trauma de garota quase doutrinada falando mais alto. E ainda que meus filhos decidam não seguir qualquer uma delas, adoro a ideia de que eles estão vendo, também na escola, que o que importa é olhar para a escolha do outro com respeito. E, de preferência, conhecendo nem que seja um pouquinho de cada uma dessas tradições. É que conhecimento é um ótimo caminho para combater preconceitos, é ou não é?


Então queria registrar minha admiração pelo trabalho desenvolvido - dentro dos muros de uma escola Católica - que mostrou um saudável debate com crianças de diversas idades em torno da diferença, da diversidade, do verdadeiro respeito ao próximo. O que vi foram registros de um estudo cultural. Ponto para a escola, nota 10.


Bla bla bla, mas não adianta, o que roubou a cena, para mim, além de ver o Arthur cantar Arcoíris, da Xuxa (é, eu sei,  não precisa dizer) foram as "orações espontâneas" (sim, eles rezam em sala de aula, mas já fiz as pazes com a ideia) registradas pelos alunos. Uma preciosidade! Uma delas rezava "Deus, espero que minha irmã não me incomode mais, amém, obrigado". óóóóóó.... :-D  E outra das minhas favoritas ganhou até foto.



Porque, né, meteorito é tudo de bom nesse mundo.


17 comentários:

Juliana disse...

obrigado pelo meteorito foi a melhor coisa que li nesse sábado. kkkkkkk

Tô admirada com a escola do seu filho. Coisa rara,né?

Há escolas católias que chegam ao extremo de não contratarem professores que tenham outras religiões ou que não tenham religião nenhuma.

Amanda disse...

Gente, tô impressionada com essa escola! Que coisa boa de se ouvir! Tomara que essa geração cresca um pouquinho diferente da nossa e tenha um pouco mais de tolerância. Olha o mundo ficando melhor!

Essa do meteorito foi otima!!

disse...

Que sirva de liçao para outras escolas catolicas. Lindo trabalho!

Borboletas nos Olhos disse...

Estudei, dos seis aos dezesseis anos, em uma escola de freiras. E era, senão exatamente como na escola do seu filho (afinal quando eu tinha dezesseis ainda era o primeiro ano da década de 90), era muito, muito parecido. O respeito à diversidade religiosa sempre foi presente, embora contássemos com nossa cota de missas de despedida do terceiro ano (ocasião em que a gente dançava, era muito legal).
Amei a oração espontânea, quase tão bom quanto lua, sol e meteorito é ter quem registre expressões assim. Minha admiração pela direção desta escola e pelos profissionais que nela atuam.

diariodumapsi disse...

Muito boa essa escola. O despertar espiritual, seja para qual religião for é muito importante para qualquer pessoa. Muito lindo as orações espontâneas das crianças!
gd beijo

L. Archilla disse...

Geeente! ahahhahahah

a última oração passaria fácil fácil por poesia em exposição de arte...

Trocando experiências Pedagogia disse...

Não vi a exposição mas tenho minhas dúvidas sobre o direcionamento de condutas religiosas...Para refletir ...
O agradecimento já deixa clara a existência de uma cultura da submissão característica do catolicismo. Espontaneamente uma criança de 5 anos escreveria sobre os amigos, os animais enfim pelo mundo que a rodeia...conhecer as tradições religiosas me parece forçar a curiosidade e direcionar as atividades e as pesquisas para um tema distante da realidade das crianças. A cultura produzida neste sentido é discreta, silenciosa e que produz uma cultura escolar única que parece ser espontânea, mas não é!

Rita disse...

Oi, Juliana. Também achei legal, apesar de religião não fazer parte do dia a dia do meu filho. Gostei da ênfase na valorização da diferença. Gostei mesmo. Bj!

Oi, Amanda, esse foi exatamente o pensamento que passou pela minha cabeça: olha, o mundo fica melhor, sim. Bj!

Oi, De. Legal, né? Eu, honestamente, ainda preferia uma escola 100% laica, mas já que não deu, menos mal. Bj!

Bacana, né Borboleta? Ajudou a diminuir inclusive o meu próprio preconceito direcionado aos católicos. :-) Vi respeito e conhecimento. Bem bom.

Oi, Diariaodumapsi, as orações foram a minha parte favorita. Morri de rir. :-D

L'Archilha, né? hihihi, vc tinha que ver as outras, um primor.Bj!

Kaka, excelente comentário! Você sabe que ainda prefiro as escolas laicas, né? Mas fiz questão de enfatizar o que gostei muito nesse trabalho porque achei, sim, um estudo cultural. Com exceção das orações "espontãneas" das crianças, nenhum dos stands que visitei (acho que vi tudo) mostrava orações, pregações, ou ordenamentos como o "deve-se fazer assim", "deve-se fazer assado"; tudo era na base de "os cristãos acreditam que é assim, enquanto para os seguidores do Buda é assado"; ou "os seguidores do ubanda consideram importante, enquanto que o candomblé faz assim". Tudo com muito respeito, era um recorte mesmo, sabe? E o sujeito pode ser agnóstico, ateu, o que for, mas fica difícil admitir que as religiões não fazem parte do mundo. Elas estão, inclusive por trás de muitos dos grandes conflitos mundiais. Então acho bom conhecer um pouco sobre suas histórias e tradições, como primeiro passo para uma reflexão mais profunda. Agora, claro, estamos falando de uma escola católica, não podemos esperar que eles larguem mão de suas tradições em nome da diversidade. Mas o fato de que eles mesmos apontam para outras tradições e não alienam seus alunos das diferenças (como fazia a minha) é digno de nota, sim. Eu tinha receio que meu filho fosse sofrer algum tipo de represália se se negasse a rezar, por exemplo, mas agora vi que isso não faz absolutamente parte da filosofia pedagógica da escola. E por isso gostei. Se fosse uma escola laica, melhor, mas também gostaria que os alunos recebessem uma introdução às religiões do ponto de vista cultural. Achei divertido, bem mitológico, bom para alimentar o pensamento crítico. :-) Sabe o que ficou muito evidente? Que todo o conceito em torno de Deus passa pela invenção humana que, por sua vez, segue tendências diferentes ligadas aos diferentes meios culturais. É pensamento crítico ou não é? E aí até o aluno que reza no início da aula vai pensar "se eu fosse seguidor do islamismo, estaria fazendo diferente"... né? Primeiro passo, eu acho.
Beijos!
Rita (eu sabia que você ia comentar aqui, adorei!)

Rita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Minha experiencia em escola catolica foi como a sua. Hoje sinto que essa doutrinacao foi extremamente valorosa para meu crescimento religioso e espiritual. Atraves delas reenforcei uma natureza de fazer bem ao proximo, desenvolvi pensamento critico a respeito da critica a outras relitioes e o despregamento a rituais como sagrados. Viver na doutrinacao foi um modo muito bom para meu aprendizado. Ate a decisao de ser batizada aos 11 anos* foi importante durante essa awareness.

*para nao ser chamada de paga (pois eh, minha atitude dever ter sido desenvolvida mas tarde na vida, a palavra me era assustadora e me lembrava de gaviao), o que por sinal me rendeu meses sem mesada pois quebrou as regras de meu pais que tinhamos que ter 13 anos antes de escolher uma religiao (eh sei, doido mesmo, nem um extremo nem outro ne??)

Angela disse...

Ooops me distrai com Max e enviei o comentario acima... Pois entao, adorei ver a exposicao da escola de Arthur, como como como queria que todas as escolas estivessemos fazendo o mesmo... As oracoes fizeram o meu dia! E Arthur nem vai estranhar quando o Max cantar para ele sua musica favorita de Natal: "It's Kwanza time, family time..." ahah.

Caso me esqueçam disse...

quando voce submete (de forma forçada) alguem a um tipo de educacao, seja ela qual for, o aprendiz soh pode tomar dois caminhos, ao meu ver: ou segue o que aprendeu ou tem pavor dele.

tambem estudei em colegio de freira (e de padre, depois) e se meus pais acharam que isso poderia ter me passado algum valor religioso, erraram feio. cresci detestando igreja, missa, padre e isso tudo.

eu sou 09 anos mais velha que minha irma e ficava preocupada com a educacao religiosa dela. medo que minha tia fizesse com ela o mesmo que fez comigo: querer me doutrinar. e olha, isso aconteceu. minha irma ia pros cultos que ela ia, ganhou biblias etc. eu nunca falei das minhas crencas (alias, da falta delas) pra minha irma porque sentia que ela podia pensar que eu estava errada, que era pecadora, sei la. deixei o tempo passar. hoje minha irma vai fazer 16 anos e, outro dia, mandei um email pra ela falando sobre religiao, meio que pra saber a quantas andava a cabeça dela. ela respondeu que perde um pouco a paciencia agora com as coisas da minha tia, mas que acredita em deus. acho bom. acho bom que ela esteja sabendo levar as coisas, ter suas proprias crenças apesar de saber que a irma amada nao eh religiosa. hehehe e de saber criticar sem medo a tia fervorosa.

Nardele disse...

Morri!!! Meteorito! Aliás, quer coisa mais linda que chuva de meteorito? E estrelas cadentes? Dizem que não passam de meteoritos!! Ou seja, viva o meteorito! Amei, Rita!!

E a escola, que lindeza de vida! Quem dera todos pudessem ter uma educação tão honesta.

Belezura!

Rita disse...

Anginha, sabe que a sua história já gerou boas risadas lá no twitter? Contei sem revelar sua identidade, hehehe. "Uma amiga minha teve a mesada cortada porque decidiu se batizar..." :-) Adoro essa história. Bj!

Oi, Luci. Já voltou da Alemanha, né?? Pois é, as histórias de gente que teve uma formação religiosa bem forte mas nem por isso deixou de ver além de sua crença abundam, né? Vou apostando nos pontos fortes da escola. Vamos ver onde vai dar. Bj!

Oi, Nardele! Hehehe, demais o meteorito mesmo. Beijos!

Rita

Pri Sganzerla disse...

Viva os meteoritos! rsrsrs

Penso exatamente como vc em relação à educação dos filhos dentro deste tema.

Também matriculei minha filha num colégio católico no início deste ano e tinha minhas "encucações" - uma vez que não sigo nenhuma religião.

Por enquanto estou tranquila e vejo mais um trabalho focado em valores humanos importantes do que naquela coisa mais pesada da "religião".

Eu não sou um exemplo de que colégio torna alguém religioso, pois estudei por 9 anos em colégio de freira e mais 4 em colégio de padre. E que bela católica eu me tornei! rsrsrs

Bjos!

Ana Flavia disse...

Rita, Que lindo mesmo a postura da escola. Pra mim, baita surpresa mesmo.
Estudei numa escola pública e lembro que o ensino religioso era puramente doutrinamento católico, maior tédio e ainda reprovava.

Daí, por um ou dois anos estive numa escola presbiteriana e a lavagem cerebral continuava por lá tb, com direito, quer dizer, dever dos alunos de na sexta feira participar do culto na capela da escola.
Enquanto isso, minha irma estudava numa escola mantida por cardecistas e tinha de ouvir a doutrina espirita tb.

Que bom ter noticias de que as coisas estao mudando.

Muito fofo a oracao pelo meteorito.
bjo

Rita disse...

Oi, Pri

Então o mesmo aconteceu comigo - muita religião na escola, pouca vida afora. E aí desencanei um pouco quando decidi matricular o Arthur lá. Vamos ver, né? Afinal, nada contra alguns princípios que também estão ali no discurso católico, como amor ao próximo, por exemplo. E o resto a gente equilibra de cá. Ou tenta. Bj!

Ana Flavia, olá! Minha querida, como poderia uma disciplina chamada ensino religioso, nos moldes que tivemos lá atrás, reprovar? hahaha "O aluno não foi um bom cristão" hihihi Já pensou? Ah, eu também tinha que ir à capela rezar e ver missas e tal. Eu gostava de cantar os hinos e paquerar. Tô ferrada. ;-) Bom te ver por aqui!

Beijos!
Rita

 
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