Relativo




Os pijamas na casa de Maria 1 são bem fofinhos, porque são confeccionados em tecido próprio para proteger do frio intenso das madrugadas. Além do mais, as mantas e edredons garantem conforto e festa na hora de dormir. Tudo colorido, macio e quentinho. Hum, tão aconchegante. E, se o tempo enlouquecer de vez a ponto de desdenhar de edredons e pijamas fofinhos, o ar quente que sai do ar-condicionado assegura o sono tranquilo. As crianças podem até se mexer e se descobrir! Não vão passar frio de jeito nenhum. Vão ter sono fácil, embalado pelo som gostoso da chuva na janela, e sonhar com os bonecos de neve que viram no noticiário. Que diferente, que inverno bonito, parece europeu! Todos planejam usar aquele casaco longo e aquele cachecol xadrez amanhã. A filha de Maria 1 vai de luvas pra escola! E, no caminho, vão falar sobre os números bem baixos que o termômetro do carro anda mostrando.

Os filhos de Maria 2 não têm pijama, eles dormem com as blusas de mangas compridas, com as quais passaram a tarde, e os moletons que ganharam na campanha do agasalho no inverno do ano passado. Já estão bem rotos, mas são indispensáveis, já que as mantas são finas e as paredes úmidas do único quarto da pequena casa não ajudam em nada nas madrugadas geladas. E fica difícil dormir com as mãos frias: o nariz entope, a garganta queima e ainda há o barulho preocupante da chuva lá fora: eles não esqueceram o susto dos deslizamentos na última temporada. Mas tiveram sorte. No dia seguinte, os filhos de Maria 2 vão pôr os casacos, que não são muito quentes, mas dão pro gasto; vão calçar os pares de tênis de tecido, que ainda deixam os pés gelados, mas são melhor que nada; e vão aguentar do jeito que der o vento gelado no ponto de ônibus. E como são de sorte, nem vai chover forte e eles vão chegar quase secos à escola.

***

Estima-se que de 30 a 40 moradores de rua morrem de frio no Sul do Brasil a cada inverno. Morrem. De frio.


7 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Esse post doeu. Porque me recorda que todo dia há muita dor e que, como se tanto sofrer fosse uma névoa, eu vou me entorpecendo. Ainda bem que há situações (como seu post) que me sacodem pelos ombros e me colocam alerta. Pelo menos a sangrar. Obrigada pelo sal na ferida. De verdade.

Luciane Curitiba disse...

É verdade Rita, é verdade. . .Eu pensava nisso ontem à noite, talvez a noite mais fria do ano aqui em Curitiba, enquanto voltava da faculdade às 10 da noite com o ar quente do carro ligado no 4. Me senti impotente ao passar por uma esquina em que se encolhiam um casal e duas crianças, tentando acomodar-se embaixo de dois cobertores "xexelentos". Putz, putz, puuutttzzzz. . .doeu na alma, sabe? Apertou o coração, a garganta secou e, minutos depois, ao deitar na minha cama quentinha, o sono foi perturbado. E poderia dormir bem depois disso???

Vivien Morgato : disse...

Assustador, devastador.
O que as prefeituras fazem? Existe algum apoio, algum abrigo?

Rita disse...

Oi, Borboleta. Eu adoro inverno, sabe? Acho aconchegante, gosto de chuva - prncipalmente de dormir ouvindo a chuva. Mas, ai, aqui no sul, com toda essa friarada, o sofrimento de quem mora mal é muito grande nessa época. Com tanto casaco e cobertor a gente ainda reclama, imagina que anda e dorme com pouca roupa. Bj!

Luciane, que horror. Com duas crianças! Falei do seu comentário pro Ulisses e ele disse que essas famílias deveriam pedir abrigo às igrejas que abominam o planejamento familiar e o uso de anticoncepcionais. Foi um desabafo de revolta, mas faz todo sentido. Beijo!

Vivian, no mesmo link que coloquei no post há um comentário sobre isso. A jornalista fala que muitos abrigos ficam cheios, há filas que se formam nas primeiras horas do dia. Alguns poucos abrigos acolhem viciados em drogas e álcool, muitos não. Dá uma olhadinha lá. Eu sempre imagino o tanto de coisa que dá errado junto na vida de alguém para ele ou ela passar a viver na rua: Estado omisso, família desestruturada, desequilíbrio emocional, tudo junto... olha, parece fundo do poço demais, viu.

Beijos, meninas!
Rita

Jux disse...

puxa... seu post trouxe dos sarcófagos de minhas memórias televisivas uma propaganda da campanha do agasalho, numa Curitibacity de tempos jurássicos... tentei buscar no youtube, não logrei êxito... mas era mais ou menos assim: mostrava um amanhcer lindo, céu azul e sol reluzindo na geada... eis que uma voz dizia "as manhãs de invernos são lindas... para quem não passou frio à noite..."

tão doloroso e triste...

beijukka

Caso me esqueçam disse...

olha, eu nao sei pra onde correm os mendigos daqui no inverno. quando a temperatura cai pra - 5, fico me perguntando sobre o paradeiro das pessoas que nao tem casa. depois, no verao, pipocam os mendigos. quem nao morreu, continua...

Rita disse...

Oi, Jux!

Pois é, que triste mesmo. A gente não dá conta de dar uma saidinha no quintal, se for preciso, por cinco minutos a 8 graus... Aí o povo dorme na rua a 0 grau...putz.

Bj..

Luci, nem me fale. Meu, e aí o inverno dura meeeeeses... bah..
bj, queridoca.
Rita

 
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