Pequeno manifesto de amor


Eu queria umas sombrinhas dessa para distribuir por aí.

No post O Mosaico, a leitora Iara fez um comentário sobre uma forma de preconceito que aparentemente anda se espalhando por São Paulo. Nas palavras da Iara, seria um “movimento super retrógrado de gente que quer que se estabeleça uma lei de migração para que os nordestinos parem de vir pra São Paulo”. Pois bem, hoje o assunto pipocou no twitter porque alguém mencionou esse artigo que trata do “manifesto São Paulo para os paulistas”.

Minha primeira reação ao ler o artigo foi dar de ombros e ignorar o papo, de tão ridículo que o troço todo é. Mas um segundo pensamento me fez mudar de ideia e resolvi cuspir meu nojo fora. Meu estômago embrulha um pouco com esse assunto, mas vou fazer um esforço.

Eu queria, na verdade, conversar com qualquer um dos membros desse movimento, que, segundo o artigo, é composto majoritariamente por jovens entre 18 e 25 anos, e falar para ele ou ela que, caso eles, o grupo dele ou dela, ainda não tenham percebido, ainda há muito a se fazer nesse mundo. Há muita coisa para ser transformada, muita estrada a ser construída, muito muro a ser derrubado. Há causas importantes precisando do apoio de pessoas com vigor e disposição de luta. Temos conseguido transformações importantes, mas ainda vivemos em um mundo onde pessoas morrem por fome, falta de remédios, sanções econômicas, guerras; nosso planeta tem milhões de refugiados e desabrigados que estão em condições subumanas por causa da luta pelo poder de governantes megalomaníacos. Nosso planeta está ameaçado, de verdade, por causa da nossa irresponsabilidade com o lixo e do nosso consumo sem fim. Eu diria a ela ou ele, que tem algo entre 18 e 25 anos, que os jovens têm uma função social gigantesca nos meios onde eles vivem, porque eles têm tempo e força para investir nas transformações necessárias. E que eles podem até se dar ao luxo de ser egoístas, porque, abraçando qualquer uma dessas causas, estarão, ainda assim, cuidando do futuro do mundo deles e, em última instância, do próprio umbigo.

Eu então perguntaria se ele ou ela consegue se dar conta do tamanho do desperdício que é, em um mundo onde amor universal é um artigo tão essencial, investir tempo, neurônio e esforço para disseminar ódio, rancor e preconceito. E aí então eu perguntaria se ele ou ela consegue se dar conta do absurdo que é direcionar esse ódio e esse preconceito ao povo que ajudou a construir a cidade que eles clamam ser só deles (ódio e preconceito direcionado a qualquer povo é absurdo, mas ganham requintes de ingratidão quando direcionado a um grupo que contribui para o crescimento do preconceituoso).

Se ele ou ela ainda estivesse me ouvindo, eu olharia bem nos seus olhos e pediria para que definisse esse tal conceito de “paulista”. Aí eu tentaria fazê-la(o) ver que nem todos os paulistas da atualidade, filhos ou não de imigrantes nordestinos, concordam com essa postura e, então, sugeriria a troca do nome do manifesto para “São Paulo para os preconceituosos”. Depois, se a conversa ainda não tivesse acabado, eu diria que sua luta já nasceu morta porque os “verdadeiros” paulistas, os que “chegaram primeiro”, os nativos do lugar, foram praticamente dizimados pelos colonizadores.

E isso não é da minha conta, porque não vivo em São Paulo, nem nasci lá, mas acho a ideia de inserir Cultura Nordestina no currículo das escolas muito louvável, levando-se em conta o papel fundamental que os nordestinos têm até hoje na construção da maior cidade do país. E se o porta-voz do movimento acha importante que os alunos das escolas paulistas saibam quem foram os Bandeirantes (estavam lá, entre os colonizadores que dizimaram os primeiros paulistas), não entendo o repúdio ao ensino da Cultura Nordestina no currículo das escolas paulistas.

Já passei dos 30 faz tempo, mas não tenho preconceito de idade. Conheço muitos jovens entre 18 e 25 anos, tenho a sorte de ser amiga de vários deles, e sei que eles jamais desperdiçariam sua energia, sua beleza e sua inteligência se metendo em tamanho mico. Então não acho que isso tenha qualquer relação com a idade dos idealizadores desse infeliz projeto. Mas alguém precisa conversar com eles, sabe? Porque vai ver é só falta de informação mesmo, coitados, e eles não sabem da missa um terço. Vai ver nem perceberam que a vida é mais - e é longa; que eles podem vir a se arrepender muito de meter os pés pelas mãos dessa maneira. Quem sabe, no futuro, fique difícil olhar nos olhos do marido, companheiro, esposa, namorada, patrão, funcionário, colega, filhos e dizer: sabe, um dia o mundo andava precisando de mim pra caramba, mas eu fui pra rua disseminar o preconceito. Sei lá, pode ser difícil, né? Eu teria vergonha.

14 comentários:

Daniela disse...

Rita, eu convivo com preconceito desde nova: negra, de periferia, etc e tal. Mas, olha, só depois de mudar pra cá foi que entendi a largura e a profundidade do negócio.

(me desculpem seus leitores do sul/sudeste)

Eu nunca vi tanto preconceito e intolerância como o que eu experimentei aqui. Contando dá um livro e etc. Eu conto e o povo lá da minha terra fica: "tu só pode tá de sacanagem".

Grande parte da minha família mora em São Paulo (eu nasci em SP,embora isso não seja coisa que eu espalhe por ai, eu adoro ser baiana,etc, etc), mas não por acaso é o lado mais conservador da minha família, é contagiosa essa coisa.

Eu sou pouco objetiva falando do tema, acho que vc já conseguiu perceber.

Eu tenho marsvilhosos amigos no Sul (eu vivo no Sul, só esse ano fui duas vezes, e etc). Mas eu sempre penso como seria ser uma baiana negra, de cabelo trançado, morando..sei lá...em Porto Alegre.

E eu nunca fico calada né? Então seria stress pra a vida toda...

E esse lance de paraíba me irrita DEMAIS. Sempre replico que os fluminenses chamam todos os nordestinos de paraíba é pq eles são ignorantes e acham que o Nordeste, que tem 9 estados, é composto por um só chamado Paraíba. E os paulistas ignorantes idem pq acham o mesmo, mas que o estado se chama Bahia.

Falo isso com mais e menos paciência, depende do momento.

E ai preciso lembrar pra eles que...né? Quem nasce na Paraíba se chama paraibano.

Angela disse...

Menina esse tal de preconceito tambem me tira a paciencia. Para onde vamos, tem sempre alguem inventando uma razao para rejeitar alguem. Preconceito contra pessoas de um continente, se sao do mesmo continente, contra as de outros paises, se sao do mesmo pais, de outras regioes, se sao do mesmo estado, contra pessoas de outras cidades, de oturos bairros... Preconceito contra cores. Uma vez meu vizinho comentou sobre preconceito entre dois povos diferentes de uma regiao da Africa, sao todos da mesma cor entao o preconceito eh contra o formato da cabeca.
Ha um tempo atras estava em um bar gay e os gays estavam criticando e rebaixando os travestis. VIXE povo complicado! Eh tao mais facil viver reconhecendo que somos todos feitos de luz, independente das "cascas".
Ja no lado mais light, outro dia Pete estava comentando com o Max que todo o mundo da nossa familia tinha olhos azuis, com excecao de uma pessoa, quem era? Ele falou que era a mama, "but we can all be a family dada, a mixed up family." Tome, bichinho!! :D

Dária disse...

Outro texto sobre o tema: http://www.rodrigovianna.com.br/palavra-minha/os-separatistas-de-sao-paulo-estao-a-mil-detestam-os-nordestinos-sao-um-perigo.html

Só repassando.
Bjs

Iara disse...

(Rita, agradeço sua atenção mas eu jamais, jamais ficaria incomodada com a referência, a não ser que fosse de alguma maneira mal-intencionada, o que também eu sei que não viria de você).

Agora, sobre o assunto do post. Olha, me incomoda demais a cegueira desse povo de falar de origem numa terra notadamente de imigrantes. Sabe, por mais que eu repudie, posso até compreender o mecanismo da xenofobia na França. Mas este povo que está aí, vociferando o seu ódio, só está aqui há 3 ou 4 gerações, tanto que muitos se orgulham de tirar seu passaporte italiano ou português. Então, né, bem menos. E quando eles falam que os nordestinos sobrecarregam o sistema de saúde de SP. Tipo, eu não sou especialista em impostos, mas eu sei que o que financia os serviços públicos é a arrecadação local. Se o cara vive aqui e consome aqui, porque ele não poderia usar o serviço público daqui? Nem tô falando de tolerância, mas de economia.

Mas é isso. Tenho orgulho de nunca ter usado o termo "baiano" pejorativamente. Porque não sei se você sabe, mas "baiano" em SP não é só todo mundo que vem do nordeste, mas também tudo o que é cafona, de mal-gosto. E eu sempre tive uma imensa aversão a este termo que ouvi minha vida inteira.

Tenho enorme respeito por quem saiu de sua terra natal expulso por adversidades que tornaram a vida lá impossível. Continuo tendo respeito se a dificuldade não era tanta, mas a vontade de estar num grande centro era maior. E profundo desprezo por gente que se acha melhor do que os outros em função de sua origem.

kaka disse...

Conviver com isso é triste demais. Sempre me pergunto porque as pessoas, as famílias continuam reproduzindo este tipo de habitus...esses jovens são produtos da Escola Comtemporânea, por vezes tenho medo do que teremos pela frente...jovens que além de inconsequentes são desinformados, ignorantes em assuntos tão profundos são tratados como um brinquedo novo, um agito...não pensam no outro, não pensam nem neles próprios...

Luciana Håland disse...

Os brasileiros falam de preconceito e racismo no exterior, mas acho que esquecem que tanto säo vitimas como praticam o preconceito e o racismo no Brasil mesmo. Aqui na Noruega nunca fui vítima desse tipo de coisa, mas no Brasil sim, e percebia muitos outros sendo.
Enfim, você já disse tudo no post, e esses paulistas que perdem tempo com essas coisas provavelmente são descendentes de nordestinos, afinal é bem isso que São Paulo é, uma cidade construída por nordestinos, e no mais, são e somos todos brasileiros. Muito me envergonha de forma alheia gente que tem vergonha de nordestinos que sao brasileiros, mas puxam saco de europeu, morrem pra dizerem que tem um tataravô europeu.

Vou te linkar, ok?

Beijo

Tina Lopes disse...

Ai, Rita, sua linda, eu não sou otimista como você, acho que essa gentalha jamais estará do nosso lado em qualquer causa, muito pelo contrário. Portanto eu jamais conversaria e gostaria de ter à mão uma lei mais firme e instituições mais fortes que impedissem a disseminação desse tipo de pensamento - mas aí estou sendo radical também, talvez. Bem. Espero que você seja ouvida. De minha parte só posso garantir o amor à diversidade no meu entorno filha-família-amigos e olhe lá.

Pri Sganzerla disse...

Você tem toda a razão!!!

Tantas causas importantes e úteis pra abraçar e alguns jovens (que são o futuro) ficam se apegando à manutenção do preconceito, fomentando um complexo de superioridade besta.

Nasci na capital de SP e morei lá até 3 anos atrás. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento da cultura de SP sabe a importância do povo nordestino para o desenvolvimento do estado. E a miscigenação é um fato no Brasil! Paulistas são feitos de uma mistura de nordestinos, com italianos, japoneses e pessoas de vários outros Estados e países, com diferentes etnias.

E isso não se aprende somente na escola: é só ter olhos para ver quando se anda nas ruas, conversa-se com colegas de escola, do trabalho: as origens são as mais variadas.

Vergonhoso esse movimento! Uma cidade que recebe gente de todos os lugares do mundo, perdendo tempo com preconceito desse nível.

Situação perfeita pra usar a expressão "vergonha alheia"...

Parabéns pelo post!

Caso me esqueçam disse...

esse assunto me toca duas vezes, neh? primeiro, porque preconceito ja eh a maior babaquice do mundo. e depois porque preconceito com meu povo eh ainda mais duro de aguentar. foi um post todo certinho! do tipo que entraria naquele jogo "posts que eu gostaria de ter escrito" porque a pergunta eh essa: cara, voce nao tem outra coisa mais inteligente/importante pra fazer nao? serio? pensa um pouco.

Ana Flavia disse...

Rita, que texto tudo de bom!

Que nojo desse povo idiota e preconceituoso! Uma lástima, mas que nao se basta só ignorar, pq o preconceito de cor, classe e o que mais calhar anda a mil por ai.

Uma vez,m Goiania teve um prefeito do bom, do PT, Pedro Wilson. Como lá tem um festival de teatro anual promovido e financiado totalmente pela prefeitura, tal prefeito achou por bem fretar uns onibus pra trazer o pessoal da periferia pra apreciar o teatro.

Pois o editor do principal jornal(eco) da cidade botou no outro dia "o prefeito acha que lotar o auditorio é prestigiar o artista. artista quer qualidade de publico e nao massa leiga barulhenta"
POis que o prefeito queria prestigiar o povo que o elegeu e pra quem ele trabalha, criando o acesso à cultura.

Infelismente, a classe media "instruida" concorda unanime com o jornal e quer mais eh criar um muro pra separar os pobres.

Rita disse...

Pessoas queridas!!

Li cada um dos comentários e quero respondê-los um a um. Mas vou deixar para amanhã, porque estou a ponto de explodir com dor de cabeça, ta? Sorry.. Beijos e boa noite!

Rita

Rita disse...

Oi, Pessoal! Antes tarde do que nunca, ne? Estou aqui.

Dani, minha linda, entendo demais seu receio quanto a viver no Sul, tendo em vista todo o preconceito que você tem enfrentado e tal; mas repito aqui mais ou menos o que falei pra Luci, acho, no post do mosaico, se não me engano: existe gente legal e gente complicada em qualquer lugar do mundo. Já encontrei preconceito aqui, claro, mas também já o tinha encontrado em João Pessoa, simplesmente por ser do interior. Claro que em alguns lugares a coisa se complica, mas acho importante combatê-lo sempre, inclusive com a aproximação, já que muita gente sequer sabe do que está falando e de repente conhecem alguém que cabe no perfil alvo do preconceito - e eis que faz-se a luz! E a pessoa se toca, sabe? Sei lá, posso ser ingênua, mas me dói achar que o receio de ser alvo de preconceito chegue a interferir em planos grandes da vida de uma pessoa. Se surgir algo interessante para você onde quer que seja, sou da opinião de que você deve agarrá-la e que se danem os preconceituosos. Eu não sei o que acontece com o ser humano que precisa tanto se sentir melhor que os outros... Bom, será que me fiz entender? Bj!

Anginha, é bem por aí, como acabei de falar pra Dani: que raio é isso de sempre procurar uma forma de denegrir o diferente,ne? Mesmo quando o diferente é tão parecido! Coisa de louco, isso. Bj!

Rita

Rita disse...

Dária, valeu! Vou lá conferir, viu? Bj, obrigada!

Iara, você tocou num ponto muito interessante: o que faz uma pessoa acreditar que pode julgar alguém que larga uma situação difícil em busca de coisa melhor? E o que os tornam menos cidadãos, como você bem colocou, se estão sujeitos às mesmas leis? E nem preciso acrescentar nada, você colocou muito bem: "Mas este povo que está aí, vociferando o seu ódio, só está aqui há 3 ou 4 gerações, tanto que muitos se orgulham de tirar seu passaporte italiano ou português." É isso aí. Bj.

Kaka, também acho que a escola tem um papel fundamental nisso tudo. Revisar os discursos que levam à intolerância é imprescindível e quanto mais cedo, melhor. Bj!

Luciana, pois é, nossa identidade nacional é muito sofrida, tadinha, hehe. Aqui no Sul é comum as pessoas se dizerem alemãs ou italianas por terem avós que vieram de lá. Estranho, no mínimo. Bj.

Tina, queridoca, ai, eu ainda acredito na conversa, viu... entendo sua postura de querer descer o martelo, mas já vi muita gente repetindo o que desconhece, por preguiça de refletir um pouquinho. Então às vezes uma sacudida vale bem... Será que não? :-( Beijão!

Rita

Rita disse...

Oi, Pri.
Obrigada pela visita, viu. Ó,entendo mesmo seu sentimento de vergonha alheia. Se paraibanos (sou paraibana) inventassem de criar qualquer coisa parecida com isso, direcionada a quem quer que fosse, morreria de vergonha. Bom, já sinto vergonha, são brasileiros com pensamentinhos "purificadores". Credo. Beijão!

Luci, oi! Não dá vontade de perguntar??? Nossa, demais! Bj!

Ana, olá. Ah, esse exemplo tá ótimo! Ahahah, só rindo, viu? Cômico se não fosse trágico, ne? É bem isso aí, muros, muros... Tem hora que me dá uma preguiça. Bj!

Valeu, pessoas! Obrigada pelo papo tudo de bom.

Rita

 
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