Irmãos chatabeicons e irmãzinhas popepozas


 
Ainda na fase da vida em que eu não tinha certeza de que teria filhos, sempre soube que, se os tivesse, seria assim, no plural. Não queria filho único porque naqueles tempos acreditava que as chances de uma pessoa crescer mimada, estragada, egoísta eram maiores se ela fosse filho ou filha única. Depois de ler alguns relatos feitos por mães de um filho só, conviver com famílias com filhos únicos e de refletir um pouco mais sobre o assunto, mudei de ideia e hoje acredito que é possível estragar todos os cinco filhos que alguém tiver da mesma forma como é possível criar um único filho e contribuir para que ele ou ela se torne uma pessoa de cabeça aberta e olhando para os lados.

Mas eu queria muito escrever um tiquinho sobre as delícias de ter dois. Assim, quase da mesma idade, duas pessoinhas crescendo juntas na mesma casa, dividindo bagunças, gargalhadas e choramingos. Duas criaturinhas enxergando de maneira muito evidente que o mundo não é só deles, que é preciso ponderar, abrir mão, esperar, ouvir, repartir, ceder - e ai, como é difícil tudo isso. Ter mais de um filho, penso eu, não é garantia de nada, mas muitas vezes facilita o caminho de pais interessados em zelar pela cultura do saber dividir. É que cada dia apresenta aos pequenos situações onde é preciso esperar nem que seja um pouquinho, dividir a atenção dos pais, ouvir um elogio direcionado ao outro ou assumir a responsabilidade quando seria mais fácil empurrá-la para o distraído ao lado.

Gosto muito de vê-los tendo pequenas chances, todos os dias, de exercitar a paciência, essa palavra desconhecida para quem está começando a viver e ainda tem aquela sensação de que tudo acontece agora, nesse momento e só. Gosto da companhia que um faz para o outro, tanto mais agora que já começam a ser capazes de interagir em muitas brincadeiras - o mais velho tem cinco anos, a pequena tem quase três. Adoro (mesmo, não tem preço) ver o mais velho ensinando coisas à pequena, “assim, Amanda, ó”, ajudando-a a abrir o biscoito, a se calçar, lendo para ela.

Mas as moedas têm sempre dois lados, né? Porque há as batalhas. *suspiro* E há aqueles momentos em que a existência do irmão ou da irmã serve ao propósito de adiar o inevitável, sempre aos berros, com drama, corridas pela casa, tudo em dobro.

***

Eu - Arthur, sobe pra tomar banho.
Arthur - Aaaaaah, não! A Amanda primeiro!
Amanda - Não, você pimeiro!
Eu - Vem, filho, chamei você primeiro, vem logo, é rapidinho.
Arthur - Droga! Toda vez é assim, eu vou primeiro, Amanda NUNCA vai primeiro, eu que tenho que ir, toda vez, toda vez, nhhhãããããããã (choro falso).
Eu - Ai, filho, que drama. Nem é assim, tem dia em que ela vai primeiro e...
Arthur - Não vai não, é sempre eu! Nhããããããã......
 
No dia seguinte:

Eu - Amandinha, hora do banho!
Amanda - Não, o Atú!
Eu - Não, filhota, primeiro você, depois o mano.
Amanda - Nãããããããããuuuoooooooo, pimeiro o mano, pimeiro o mano... (corre pela casa).
Eu - *suspiro*
Arthur, de algum lugar longínquo da casa, que nem sei onde é, grita - Aaaah, não! Ela primeiro!

***

Na hora do lanche:

Eu - Quem quer suco?
Os dois - Eu! Eu primeiro! Não, EU pimeiro! Não, eu falei logo, mãe, dá logo pra mim! Não, pa mim, pa mim! Droga, viu?!? Ela sempre ganha primeiro e fui quem falei!!
Eu - Ai, gente, que diferença faz, os dois ganharam suco, pronto agora é só beber.
O que ganhou o suco um segundo depois - Droga!/Doga!
O que ganhou o suco um segundo antes - Lalalalalala...

***

Eu ou o pai - Criançadaaaa, sobre pra escovar os dentes!!
Arthur - AH, não.. etc., vide diálogo do banho.

***

No carro, a caminho da festa de aniversário do amigo:

Ele - Eu levo o presente.
Ela - Ah, mano, deixa eu levaaaaar? Nhããããããããã...
Ele - Não, eu que levo.
Ela - Berros.
Ele - Cara de triunfo.
Eu ou o pai - Por que vocês não dividem, cada um leva o presente um pouco (ai, vou falando e achando o cúmulo, mas vou falando)
Ele - Ah, não. Eu levo.
Ela - Berros.
Etc.

***

Nas brincadeiras:

Ele - Ô, AmandA! Mãe, ela sempre me atrapalha!
Ela - ... em silêncio, faz que não é com ela.
Eu - Silêncio, faço que não é comigo.
Ele - Não vou mais brincar!
Ela - Não vai mais bincar, manoooooo? :-(
Ele - Não, você não sabe brincar! (muito, muito bravo)
Eu - Ô, filho, então ensina pra ela, você também não sabia quando era do tamanho dela...
Ele (Todo solícito, achando-se o cara, mudando de humor em um milésimo de segundo) -Assim, ó, Amanda, tem que primeiro fazer assim.. bla bla bla
Ela - Mas eu não cunsigoooo...
Ele - Conseeeegue!

Segue o papo até o próximo tropeço e aí começa tudo de novo.

***

Ah, e os adoráveis neologismos!

Ele - Sai daqui, sua popepoza!
Ela - Eu não SOU popepoza, seu chatabeicon!

(não me perguntem)

***

E tem a cumplicidade, quando os dois se unem no time dos desobedientes e eu fico como uma tola, nadando contra a maré, enquanto os dois saem pela casa cantando o oba-oba-oba-chataririoba! Ainda vou aprender a lidar com as brincadeiras na hora da comida, quando eles se olham e trocam caretas e riem de boca cheia, sujando a mesa e ignorando meus chamados. Vou descobrir um meio de dobrá-los quando eles insistem em não me ouvir e morrem de rir, transformando a desobediência em parte da graça. E quando pulam na cama com cara de invencíveis, desprezando meus avisos de cuidado para não bater a cabeça. E quando fazem brincadeiras na escada ainda que eu viva dizendo todos os dias que escada não é lugar para brincadeiras. E quando se escondem no quarto na hora de dormir, um embaixo do móvel, o outro embaixo do edredom. E quando falo para não brincarem de empurrar porque é perigoso e eles seguem aos empurrões e gargalhadas. E quando... e quando escrevo essas coisas fico com a sensação de que sou uma chata de galocha enquanto eles se divertem pra caramba.


12 comentários:

Luz! disse...

ain, mesmo com todo esse "trabalhinho" que dá, eu leio, leio, leio e só me dá vontade de ter os meus seis filhinhos... hihi...

Beijos, Rita!

adoro as histórias dos seus filhinhos! :)

Borboletas nos Olhos disse...

Três sensações:

a) saudade da bagunça com meus três irmãos;

b) saudade da bagunça do meu pequeno que vivia de lalalai comigo e eu fazendo força pra não rir;

c) uma nostalgiazinha do Samú não ter um irmãozinho e uma alegria de vê-lo irmanado com o primo (mas a diferença de idade é enorme, 10 anos)

Caso me esqueçam disse...

nao desejaria ter filho unico, mas nao (somente) pelos motivos que tu citasse. mas por achar que filho unico cresce muito sozinho. eu seeeei que nao posso basear as futuras experiencias do meu filho (que nao existe hehehe) nas minhas, mas, sei la, acho que o fato de eu ter irmaos me trouxe mais beneficio que o contrario.

admito: eu odiava ter que dividir o quarto com minha irma. de nao poder ter a roupa que eu queria porque meus irmaos ainda nao tinham comprado tal e tal coisa, que eu tinha que esperar, porque somos quatro e so meu pai trabalhava, entao, tivemos que saber dividir bem. eu nao podia ter tudo que queria porque meus irmaos precisam de atencao tambem. e olha, acho que isso me fez crescer muito, viu?

em compensacao, as festas sao muito maiores. era otimo quando nosso pai comprava um briquedo e jogavamos todos juntos. em um natal, ganhamos patins e iamos os tres (minha irma era muito nova na epoca) andar nos clubes. em muitos casos eu nao precisei de amigas pra fazer as coisas, porque tinha meus irmaos. aprendi a jogar pipa, bola, bola de gude e piao junto com eles. era a unica menina da minha turma que sabia fazer isso hehehe e sabia jogar video game como ninguem, uh ruh hueheehuehe

agora eu sei que nao tou sozinha. e ainda que meus dois pais morram, vou ter meus irmaos, partes de mim por aih, minha familia. nunca vou estar sozinha. simples assim :)

Iara disse...

Dúvida, você é filha única, né? Acho que já contou aqui, mas eu esqueci.

Tava conversando sobre isso com uma amiga outro dia. Que eu também não sei se quero, mas se quiser, vão ser dois. Eu tava dizendo que não acredito que seja o dobro do trabalho, nem o dobro do gasto finaceiro. Acho que a diferença brutal é entre ter e não ter, não entre ter 1 e ter 2. A diferença de idade é pouca entre eu e meu irmão (2 anos exatos), e nós nunca fomos tão grudados, mas é tão bom tê-lo. Eu ensinei tantas coisas a ele. E, pequeninhos, a gente era muito parceiro. Se eu ganhava uma bala de alguém, pedia outra pra ele. E efetivamente guardava pra ele, sabe? Com ele era a mesma coisa. A gente dividia tudo. E eu sempre achei que, se tiver filhos, não quero dar a eles menos do que eu tive. E quando falo menos, não é finaceiramente falando. E acho que irmão/irmã é um presentão. O melhor deles, talvez.

Liliane disse...

Pois,
somos sempre as chatas, e eles são só diversão! Morri de rir das estórias dos seus filhinhos, a descrição do meu cotidiano!
Adoro seu blog!
beijos

Rita disse...

Oi, pessoas!

Luz, pode continuar animada, querida, porque dá muito mais alegria do que trabalho, pode apostar! Bj!

Borboleta! Saudade, nostalgia... papos de infância, dão nisso, né? Bjs!

Oi, Luci. Legal quando se tem esse clima de companheirismo, ne? Eu não tive irmãs, mas imagino que teria brigado pelas roupas, sapatos, essas coisas.. será? E também trocado confidências e gargalhadas. Nunca vou saber... Bj!

Oi, Iara! Tenho um irmão apenas, mais velho que eu. Então, eu gosto do que vejo aqui em casa, cumplicidade, disputas, negociações, trocas, renúncias, aceitaçòes... como um estágio, um ensaio pra vida adulta (com a vantagem das brincadeiras insubstituíveis da infância). Bj!

Oi, Liliane! Que bom que gosta, fico muito feliz! Venha sempre, viu? Fique à vontade, adoro trocar figurinhas sobre o tema - aliás, meu tema favorito nos últimos anos. Beijos!

Rita

Jux disse...

ahh que dureza essa vida de pais e mães! hihihihihi
lá no clã, eramos três gurias (o irmão caçula veio bem temporão). Nos tempos em que éramos "larvinhas", até não dávamos taaanto trabalho... mas meus pais usavam estratégias espertas para contornar as briguinhas pato que dávamos conta. E pra ser bem sudedidos, mamy e papy apelavam pra tudo: valia mesmo presente para as três, sorteio etc.
Mas um fight memorável. Mamãe e Papai compraram, para nosso Natal, 03 daqueles cavalinhos Meu Querido Pôney. Todos iguais, azuis, lindinhos. E mesmo assim as pequenas otárias arrumaram motivo pra brigar, sabes por que? Porque UMA abriu o pacote antes da outra, ainda que entregues os presentes ao mesmo tempo. hahahahaha
E hoje, das três filhas e do filho, apenas uma das filhas é mais isolada do resto de nós - digamos que ela tem certeza de que é melhor que todos nós juntos. Enquanto isso, eu e os dois caçulas somos parceiros!
ADOREI esse post sobre seus pequenos-pimentinhos!

Pri Sganzerla disse...

M-O-R-R-I de rir! rsrsrs

Lembrei da minha própria infância, como era comigo e com a minha irmã...

E fiquei pensando que é uma experiência excelente a de ter irmãos. Não pude dar isso pra minha filha porque a minha vida seguiu por outros caminhos. E hoje é uma escolha mantê-la como filha única. Ela terá as experiências de quem não convive com irmãos. :-)

Mas os seus filhos são umas graças! E seu jeito de escrever torna tudo mais engraçado ainda! Pode acreditar: eles se divertem! rsrsrs

Beijos!

Rita disse...

Oiê!

Jux, morri de rir com a briga por causa do pacote aberto primeiro! É exatamente assim, quanta ansiedade nessas criaturinhas, meu deus, hahahaha! Hoje o Arthur fez a Amanda de gato e sapato, tadinha: ele pegava o carro, ela queria, aí ele largava; pegava o cavalinho, idem. Lá e cá, mil vezes, até que sinalizei para ele parar. E ela só queria o que ele queria, veja você. Beijocas!

Oi, Pri, é um barato essa galerinha, ne? Ah, eu tinha um "lado filha única", porque morria de brincar e falar sozinha, doida doida. :-P E é bem como você falou, ela vai criar a história de vida dela, do jeito que é. Ah, você precisa ler um post ótimo que a Denise Arco Verde fez certa vez sobre a experiência dela com a única filha. É um texto antigo, mas de repente você consegue achar la no blog dela (síndrome de estocolmo). Vale a pena.

Beijoca!

Rita

larissa disse...

Ai que lindo! post muito fofo!!
Sempre achei lindo dois irmãos assim crescendo juntos. leia-se: sou uma pessoa ressentida por não ter irmãos. Também não concordo com esse estereótipo de filho único mimado-egoísta, até porque preciso me defender, rsrsrsrs, mas acho que ter irmãos é muito saudável.
Mesmo não estando na fase de pensar/poder/ter filhos(um futuro distante), ai se eu tivesse eu queria assim, um casalzinho bem lindo como o teu!!

Pri Sganzerla disse...

Obrigada pela dica, Rita! Vou lá depois dar uma olhada no texto! ;-) Bjos!

Rita disse...

Larissa, oi, linda. Menina, você é uma das provas para mim de que filho único pode ser cool, descolado, bem resolvido, de bem com a vida e com a cabeça no lugar. Tuuudo de bom! Também, com a mãezona que você tem, né? Fica fácil!

Beijocas!


Pri, vai lá, sim1 ;-)

Rita

 
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