Barulho, cavernas, escolhas




Sabe quando você pega o livro, escolhe o lugar mais tranquilo da casa e foge? Pode ser uma sala com um sofá razoavelmente confortável, ou a poltrona do escritório, ou a cama mesmo (adoro ler na cama). Pode ser a mesa, para quem gosta de repousar o livro aberto à sua frente e enterrar o rosto nas mãos enquanto viaja nas palavras, qualquer cantinho. Sabe quando você se concentra na história a tal ponto que se esquece do lugar onde se encontra e nem ouve os ruídos que cercam o ambiente? E aí parece que as vozes das personagens ficam mais vívidas, mas nítidas, e a gente se sente como se estivesse ouvindo a história ao invés de lê-la, sabe? Pois é. Não faço mais ideia do que seja isso.

Terminar a leitura de A Caverna hoje foi um ato de superação, porque às vozes do narrador e das personagens juntavam-se os gritos das crianças, o som da TV, a voz de Odisseus ao telefone, um papo aqui, outro ali, um filho que chama, outro que chora, mil interrupções. Mais do que leitura, foi um exercício de concentração. E valeu muito a pena. Assisti a todos os tombos das crianças, dei colo, limpei narizes, vi meu pequeno ler gibi encantado com o fato de já entender as histórias sem precisar de ajuda, vi minha pequena fingir que lê o gibi, mesmo que a revistinha esteja de cabeça para baixo, curti a presença do marido e da sogra, tomei café junto e ainda li meu livrinho. Not bad.

E antes que alguém pense que estou reclamando da barulheira, digo que um bom silêncio na hora da leitura vai bem, mas, hum hum, troco não.

***

Ah, o livro? Foi engraçado terminar de lê-lo hoje, tendo escrito esse post há dois dias. A Caverna fala do provável equívoco que mencionei ali; trata das aparências que nos levam a acreditar que o que enxergamos à nossa frente é a única verdade possível, simplesmente por estar à nossa frente. E fala de pessoas que percebem a ilusão - e a enfrentam. Tem personagens possíveis e um cachorro quase gente. Tem amores que nos fazem torcer e uma cidade que faz a gente preferir a casinha lá do vilarejo, com a amoreira-preta no quintal.

Para ser lido, mesmo com barulho.

2 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, voltando o mundo virtual, vim logo tratar de trilhar esta estrada. Sabia e sabia que ia me encontrar encontrando tuas palavras. Pensei em comentar post por post, mas escolhi passar o tempo relendo-os (antes de minha caixa de emails me soterrar). Ah, claro que a Rita a ser arrebatada era você. Bjs e bjs

Rita disse...

Oi, Borboleta! Bem vinda de volta. Ai, menina, fiquei tão contente com seu pedido lá. :-D

Beijos, queridoca.

Rita

 
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