Você viu meu relógio?



Eu passo bem longe de ser uma pessoa perfeccionista. Acho que sou organizada, mais em algumas áreas do que em outras, mas é verdade que às vezes empurro com a barriga, deixo para fazer amanhã, esqueço. Eu acho que está bom assim, tendo a associar perfeccionismo com stress e frustração. Gosto de uma baguncinha e acho até meio triste ter tudo certinho. Sei que há quem seja feliz com tudo preto no branco, mas eu não sou assim.

Sei que muitas pessoas olhariam para o meu mundo e diriam “nossa, como você é organizadinha”, enquanto outras surtariam diante de tanta coisa por fazer: é que tudo é relativo e chamar meu mundinho de “organizado” ou “bagunçado” é igualmente possível, dependendo de quem olha. Assim, como tudo na vida. Meu lado organizado mantém minhas roupas mais ou menos em ordem, gosta de cozinhar com pia e mesa limpas, faz planos, não gasta mais do que ganha e agora mesmo não consegue encontrar outro exemplo para terminar essa frase. Vejamos o tamanho do próximo parágrafo.

Eu esqueço tudo. As coisas simplesmente somem da minha memória. Não acho que chegue a ser doentio, mas tem um bom potencial irritante. Então sou aquela que sempre volta do carro quando está saindo para o trabalho para pegar óculos, chaves, casaco, documento, sei lá o quê, quase todos os dias. Sou aquela que pensa “quando terminar de tomar esse café, vou fazer isso” para um minuto depois terminar o café, sair da mesa e seguir o dia sem lembrar da anotação mental - que voltará à tona no momento em que eu precisar que a tal coisa tivesse sido feita. Sou aquela que sai do estacionamento do shopping logo depois de entrar porque se lembra de não ter dinheiro para pagar o estacionamento – eu nunca tenho dinheiro na carteira porque esqueço de sacar. Eu me esqueço de tomar o remédio, de dormir com a plaquinha dos dentes (explico outro dia), de comprar detergente, de remarcar o médico, de ir buscar o exame. Eu perco tudo. Não sei onde ponho as coisas. Se guardo, esqueço onde foi: relógio, anel, óculos e sombrinha, todos os clichés. E, principalmente, adio. Amanhã, não, semana que vem eu vejo isso. No momento temos: a porta do armário, a porta do lixeiro, o trinco da porta do banheiro, o cano da pia, as lâmpadas do escritório (vejam bem, eu disse as lâmpadas do escritório), o tapetinho da sala, a mesa da sala de jantar, a mancha do edredom, os CDs, tudo esperando uma atitude, um telefonema, um conserto, uma lembrança em hora boa. O escritório está meio às cegas desde que foi montado. E tudo bem, leio no quarto. O tapetinho é supérfluo demais para ser lembrado assim tão facilmente, finjo que não vejo os CDs espalhados e a mesa, ai, essa compro já, até já isolei a cadeira que quebrou há mais de um ano, vejam só, que eficiente.

Eu gosto de arrumar a casa, tenho lá minhas vaidades, mas não troco meus momentos de desleixo por nada nesse mundo. Então nosso carro está sempre sujo, cheio de papeizinhos que vamos juntando por ali, meu esmalte descasca e assim fica por dias até o momento em que eu resolva voltar à manicure ou sentar para resolver o “problema” sozinha. É, esse é o ponto, as aspas na palavra problema. Eu não acho que nada disso seja problema, então sempre me recuso a “resolver” como se fosse. Até me cansar da situação e só então tentar mudá-la. Como a porta do armário: de tanto me irritar ao tentar abri-la (o trilho quebrou, ela é pesada e tal), hoje liguei para o marceneiro. (Felizmente, alguma enzima deve atuar de forma diferenciada no meu cérebro quando ponho os pés no trabalho: lá sou organizada, metódica e até estressada; tudo anoto, confiro, verifico, planejo, antecipo, organizo, um saco. Melhor assim.)

E aí há dias em que tudo me incomoda e, de repente, começo a tomar consciência das bagunças da casa. Mas, felizmente, algo providencial sempre me empurra de volta ao conforto da vida frouxa: às vezes é a lindeza dos cabelos desgrenhados da Amanda, ou a gargalhada do Arthur só porque aprendeu uma careta tosca.

Eu ainda não sei se ver beleza na leveza que me permite adiar arrumações é paz de espírito ou preguiça disfarçada, mas algo na busca pelo muito certinho definitivamente me repele. Há uma sala em minha casa de que gosto muito. É um cantinho que a gente construiu e montou quando mudou pra cá. É onde Ulisses guarda seus instrumentos e às vezes se isola para tocar sua guitarra e compor suas canções. É onde eu me isolava na gravidez da Amanda para montar meu quebra-cabeças gigante. É onde um dia, quem sabe, a gente vai montar nosso cantinho de ver filmes, que já adiamos tanto. Eu gosto de lá porque as portas de vidro me deixam ver o quintal e o morro verde que fica atrás da minha casa. Tenho um carinho especial por ela porque tem ares de refúgio, a “sala lá de trás”. Mas ela está sempre um caos. Meus dois filhos não querem saber de salinha bonitinha e sala boa para eles tem brinquedo espalhado e cabana de bolinha. Eu sei que haverá uma época em que eles não mais vão desarrumar a sala, porque estarão voando por aí. Então vou deixando assim, um dia eu arrumo.

8 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Op, tu tá falando de ti ou de mim? Procurei uma coisinha pra dizer: uffa, não sou eu. Mas não achei nada, nadinha. Talvez os exemplos, mas ainda assim há tantas afinidades que não vou nem me dar ao trabalho de listar. Vou só pedir licença quando alguém reclamar do meu estilo pra mostrar teu texto e dizer: tá vendo como é fofo?

Juliana disse...

ai, rita, até disse " ufa", ao ler esse post.
passei a vida toda sendo massacrada por ser esquecida que dá vontade mostrar seu post pra gente chat que pega no meu pé e dizer: " tá vendo! a rita não sabe onde guarda as coisas, é esquecida,mas dá conta de uma vida e cuida de duas crianças lindonas!"

menina, sabia que eu já guardei o celular na geladeira? Mais de uma vez! kkkkkk

beijooo

Amanda disse...

Eu era muito enrolada, atrasada, esquecida, desorganizada e bagunceira. Mas cheguei num ponto onde isso tudo estava me atrapalhando demais e então comecei a me esforçar. Dai percebi como a vida ficava mais facil com um pouco de organização e ordem. Descobri com estupefação que pra eu chegar na hora, era so eu determinar uma hora pra sair de casa. Pra não perder um objeto, era so colocar no lugar dele, olha que pratico! Hoje eu melhorei muito, mas ainda quero avançar mais um pouquinho. Nada de obcessão, até pq eu nunca conseguiria, hehehe!

Vivien Morgato : disse...

Minha querida, eu era uma desorganizada absolutamente de carteirinha. Desorganizada e esquecida.
Agora me tornei - ou estou me tornando..rs - organizada, mas ainda sou esquecida.


A dica que te dou - e que serviu pra mim - é ter uma agenda inseparável. Tuuuuudo anotado.

Não apenas os compromissos, mas as "coisas a fazer", mesmo que sejam bobas.

Se faço, risco, se não faço, copio no outro dia..e continua na lista.

Comigo rolou.;0)

Rita disse...

Oi, Borboleta! Então toca aqui, high five! E nem falei das senhas que esqueço. Afe. Bjs!

Juliana, eu também sou "massacrada", inclusive por mim mesma. Mas ando bem melhor, viu? Depois de quase perder um anel que adoro (presente do Ulisses, que deixei no provador de uma loja...), passei a ter mais cuidado com pequenos objetos. E também porque preciso passar para os meus filhos algum senso de organização. E aí acabo me policiando mais. :-) Mas, ó, eu fui uma estudante megaorganizada, viu, da mesma forma como lido com o trabalho. Bj!

Oi, Amanda, como falei pra Ju aí em cima, ando bem melhor também. Acho que serei sempre um pouco relapsa com o que considero trivial, mas sei que, se necessário, chego junto e ando na linha. :-)

Oi, Vivien, meus comentários acima são pra você também. Olha, não acho que eu funcionaria com uma agenda, apesar de já ter usado no passado. É que acho que eu esqueceria a agenda por ai. :-P

Beijos, pessoas!
Rita

Caso me esqueçam disse...

esse post casa muito bem com o que acabei de postar sobre faxina. porque eh isso: eu deixo a coisa rolar solta. chego no quarto e jogo a roupa pelo chao mesmo. quando tah aquela bagunca, arrumo tudo em trinta segundos e, voila! gosto das coisas arrumadas, mas depois do jantar, nada mais chato do que ir pra pia de prato pra deixar tudo limpo. deixa eu me esticar nesse sofa, deixa eu curtir essa preguica que uma boa refeicao proporciona, os pratos podem esperar na pia :)

Caso me esqueçam disse...

ah, e cansei de ser esquecida tambem. agora TUDO o que eu tenho que fazer, ganha um lembrete no celular. tudo, rita. ja me coformei que eu nao posso confiar na minha memoria. entao, mesmo que seja pra uma besteira, tem la no meu cel a palavra-chave do que eu tenho que fazer. acredite, minha vida tem funcionado melhor ;)

Rita disse...

Oi, Luci.

É, eu gosto de casa arrumada, mas com os dois pequenos precisei aprender a relaxar. Quanto à memória, tenho andado melhor mesmo. Tento focar no que é importante e tem funcionado. Mas o casado, a sombrinha e o relógio... humpf.

Bjs!
Rita

 
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