O tempo, o cabelo e a árvore generosa


Certa vez conheci uma pessoa que entrou em crise profunda por ter completado 30 anos. Achava-se velha, acredito. E eu ficava vendo aquilo e pensando no desperdício que é alguém saudável de repente ficar doente só porque muitos e muitos anos atrás a humanidade decidiu dividir o tempo em anos e meses, em dias e horas. Não é maluco? O tempo passa, indiferente à nossa mania de contá-lo. E não é, nem de longe, a mania de contá-lo que deveria deixar marcas na gente. Não é.

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Então agora meus cabelos brancos começam a abundar. Não são mais um ou dois. São cem ou duzentos, acho. Talvez bem mais (é mais fácil contar o tempo que contar os cabelos). Mas enfim, estão visíveis. E ainda não sei se vou virar escrava da tintura ou tornar-me grisalha. Aposto que vou me render à tintura, mas queria perder essa aposta. Não tenho absolutamente nada contra as tinturas de cabelo, nada mesmo, já fui adepta delas por muito tempo. Já fui ruiva e foi legal. Aliás, sou fã de cabelos, a parte do corpo mais versátil, mais dada à criatividade e ao nosso humor. Gosto muito da possibilidade sempre ali de ter uma cara nova só com um corte ou umas pinceladas. Mas ando tão em paz com meu cabelo fácil, sem tintura, sem retoques que é inevitável desanimar diante da ideia de voltar à obrigação de “cobrir as raízes”. Vocês não acham que o branco é o novo loiro, ou algo assim, não? Hein? Ai, que preguiça.

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Muitos, muitos anos atrás, um amigo me mandou um cartão que dizia assim: “we’re gonna be friends till we’re grey in the hair”, acho que era isso. O cartão trazia uma foto de quatro idosos tomando chá e rindo muito, gargalhando mesmo. Eu adorei a imagem, eu velhinha, aposentada, sem nada para fazer que não fosse curtir os amigos também aposentados e sem nada para fazer. Hoje penso em mim e no Ulisses assim, velhinhos, de cabelos brancos, tomando chá e rindo muito, muito, muito, cercados de amigos aposentados e sem nada para fazer. Mas aí se eu pintar os cabelos, vou estragar tudo?

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Uma das histórias favoritas do Arthur (e minha também) chama-se A Árvore Generosa*. É uma linda história sobre a amizade entre um menino e uma árvore. A árvore sempre ficava feliz quando o menino subia em seu tronco, pendurava-se em seus galhos, brincava com as folhas, dormia à sua sombra, comia seus frutos. O tempo passa, o menino cresce e a árvore se contenta com o fato de o menino desenhar em seu tronco um coração simbolizando seu amor por outro alguém. O tempo passa mais e o menino não tem mais tempo de brincar com a árvore, que lhe cede frutos para que o rapaz venda e ganhe dinheiro, cede os galhos para que o homem construa a casa de que precisa para criar sua família. O tempo não para e a árvore cede também o tronco para que o homem construa seu barco e conheça o mundo. Por fim, o homem já velho e cansado retorna e visita o que restou da árvore, um pequeno toco. Ela se desculpa por não poder mais oferecer galhos, sombra e frutos. Mas o velho responde que já não tem mais forças para brincar ou se aventurar, precisa apenas de um bom lugar para descansar. A árvore se oferece como banquinho, o velho de cabelos muito brancos senta-se no toco da velha amiga para descansar - e a árvore fica feliz. É isso, acho que o amor que vence o tempo é que deve deixar marcas na gente.

* A Árvore Generosa, de Shel Silverstein. A tradução que temos é do Fernando Sabino. Imperdível. 

6 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

O meu eu vou deixar cinza, branco, a cor que ele quiser. Curto envelhecer. Gosto tanto da minha vida que cada marquinha que ela deixa em mim (risquinhos ao lado dos olhos que se entregam ao choro, lembranças do riso no canto da boca, peito meio tombado de dar de mamar, etc) me faz orgulhosa e contente de ter vivido o que vivi. Amo aquela música cantada por Piaf: Je ne regret rien. Não me arrependo de nada, embora doa um pouco às vezes. Gostei muito da sua visita hoje e gostei ainda mais do post. Bjs brigadeirados...

Daniela disse...

eu acho envelhecer muito maneiro. sou muito mais legal, mais esperta, mais bonita hoje que aos 20.Mas essa semana a minha trançadeira achou dois fios brancos e eu - que achei que jamais fosse me importar com isso - fiquei abalada.

Essa coisa de só a juventude ser legal, é um veneno da nossa cultura, né não?

Beijos, querida.

Rita disse...

Oi, Borboleta

Então, acho que vou desgostar de várias coisas na velhice - deve ser difícil perder agilidade, visão, etc. Mas aí é que tá, já vamos necessariamente encarar perdas significativas, e ainda inventamos de sofrer por outras que não deveriam afetar nada.. sei lá. Somos seres estranhos. Beijinhos!


Dani, já tenho vários fios brancos há um tempo. Se eles não se multiplicassem tanto, não pintaria de jeito nenhum. Mas não sei como vou me sentir quando olhar no espelho e enxergar uma grisalha. Acho que simplesmente vai ficar estranhíssimo, já sou muito branca.. vou sumir! Não sei, amiga, não sei. O tempo dirá. Mas que é pressão total pra cima da mulherada, é. Não faz a menor diferença pros homens, que se enchem de fios brancos e ganham "charme". Eu só queria a mesma liberdade...

Beijos
Rita

Caso me esqueçam disse...

que engracado! semana passada vi uma mulher no metro. ela era bem bem bonita! nariz afilado, olhos marcantes e o cabelo era todinho branco, cortado na altura das orelhas. ela deveria ter uns 50 anos, mas os cabelos brancos davam a impressao dela ter muito mais que isso. o rosto era jovem, mas os cabelos davam uma impressao estranha. se ela tivesse os cabelos pretos (pintados), com certeza ficaria muito mais jovem, mas talvez nao ficasse mais bonita. soh sei que achei super ela ter deixado os cabelos ao natural. quero muito chegar nesse nivel de aceitacao do meu corpo, da minha idade. tambem nao sei se consigo, mas uma vez tendo vencido esse problema, vou ser ainda mais feliz que a luci do cabelo pintado. isso eh certo.

Rita disse...

Oi, Luci.

Pois então, é assim: tinta, ok; obrigação da tinta, não ok.

Dilema, amiga, di-le-ma.

Bj
Rita

Lud disse...

Oi, Ritinha!
Branco é o novo loiro, sim! =D

Olha, está tudo no poder nas palavras: não vamos dizer que estamos ficando grisalhas, mas sim prateadas. Pode falar para as suas crianças que fios brancos são raios de luar.

E se alguém fizer qualquer comentário a respeito do nosso cabelo, do tipo "mas você não pinta?", vamos fazer uma cara horrorizada e responder "mas você pinta?!? Coitadinha/o!", hehe.

 
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