Não foi a Eliza




Eu fico triste, sabe? Sei que não devia, porque não é nenhuma novidade, mas me entristece mesmo assim. Eu bem que gostaria de descobrir uma maneira de dar de ombros e nem ligar, porque a tal “natureza humana” é o que é e parece que ninguém nunca vai mudar isso, mas, ainda assim, bate certa tristeza. Eu fico decepcionada, fico indignada, fico me perguntando será que estou maluca? Será que eu é que estou tão equivocada assim? Mas no mesmo milionésimo de segundo me recuso a aceitar o equívoco. Não, eu não quero acreditar que estou errada.

Não faz a menor diferença, de qualquer perspectiva que alguém olhe o caso, o estilo de vida de uma mulher que foi assassinada e teve seu corpo ocultado. Absolutamente não interessa. Não é o caso. Não interessa se era “moça de família”; se era menina de rua; se era prostituta; se era “baladeira”; se era freira; se morava na favela ou na mansão; se usava minissaia ou calça larga; se era miolo mole; se era inteligente; se era. Não interessa.

Eu tenho ojeriza desse discurso que transfere, de forma mais ou menos dissimulada, a culpa do assassinato para a vítima. Como se ela tivesse pedido para morrer. Porque uma coisa é dizer, para alguém que a gente acha que está em perigo, "olha, você tá procurando encrenca..."; outra bem diferente é tentar amenizar uma barbaridade porque a pessoa "facilitou". E eu não estou interessada nos detalhes do caso. Eu não quero saber. Se ela foi ao sítio por livre e espontânea vontade, se foi levada, se ligava para ele, se gostava dele, se não gostava, se tinha outro, se era briguenta, se era chorona, se era um amor de pessoa, se era encrenqueira. Não quero saber. Não interessa.

Eu não sei quem atirou, se atirou, quem surrou, quem agrediu, se agrediu, quem desossou, se desossou, quem enterrou, quem deu aos cães. Isso o tempo trará à tona, espera-se. Mas não foi ela. E nada do que ela tenha feito, dito, pensado, escrito, insinuado, nada pode servir de atenuante para os envolvidos ou para a opinião pública. Se ela se envolveu com quem não devia, quem tinha de saber era ela. Mas isso não interessa mais. O foco agora precisa ser outro.

Então eu fico triste de ouvir e ver as pessoas falando como se ela tivesse parte da culpa, como se tivesse procurado ser assassinada. Eu não sei nada dela e nem quero saber. Eu sei o que me basta, que quando uma pessoa é violentada, ou agredida covardemente, ou assaltada ou assassinada, ela não pediu nada disso. Pode ter vacilado, ter dado bobeira, ter sido ingênua, ignorado os riscos, ter sido inconsequente, ter brincado com fogo. Mas ninguém é senhor do corpo do outro ou da vida do outro para se valer deles como bem lhe servir a ocasião e a falta de escrúpulos. E se eu me aproveito de quem dá bobeira, a errada sou eu, não quem dá bobeira. Então me poupem dessa conversa de que “também, né, tava procurando”. Porque não, ninguém procura isso. É bom procurar outros culpados, porque ela era inocente.

14 comentários:

kaka disse...

Sou sua fã...parabéns linda crítica!!!!
beijos kaka

Juliana disse...

Perfeito!!

Juliana disse...

Ah, Rita, coloquei parte do seu post, acompanhado do link e dos créditos, no meu blog.

Iara disse...

Acabei de postar sobre isso também. Tô tão triste com esse caso. Ainda mais triste com os comentários que escuto, com as coisas que leio. As vezes dá vontade de sumir deste mundo.

Luz! disse...

Isso é nojento. Um dos jornais locais daqui (o segundo maior), ao falar do caso, colocou uma foto da Elisa de lingerie e em pose "insinuante". pra quê, né? Nesses detalhes (gritantes e constrangedores detalhes) é que a gente capta qual é mesmo a mensagem que eles (seja a imprensa ou muitas outras pessoas) querem passar. E a mensagem é exatamente essa que você descreveu: a da culpabilização da vítima.

revoltante!

Borboletas nos Olhos disse...

Eu escrevi um comentário enorme mas minha internet caiu e perdi. Resumo então: tenho medo do dia que parar de me indignar e sofrer quando culpabilizam a vítima. Ainda chorar sempre que vejo situações como essa e protestar e me engajar é que me dão o alento de ainda ser humana. Pois cada dia sou mais convocada a não ser.

Ana Duarte disse...

OI Rita
Muito triste esse caso! e pior ainda é ler os comentarios sobre... afinal, nao mataram ela, foi ela que pediu para ser morta. ahh me poupe!!!!

Luciane Curitiba disse...

Oi Rita, a "Borboletas nos Olhos" disse tudo, também tenho medo do dia em que eu pare de me indignar. E também fico triste com a pobreza de espírito de quem justifica o que aconteceu com a moça com o comportamento dela. Se era prostituta ou não, se fez filme pornô ou não, se era uma "Maria Chuteira" ou não. . não interessa. Interessa é que nessa história toda sobrou uma vidinha, inocente, de apenas 4 meses que um dia ficará sabendo do triste destino que a mãe teve. E o pior, se o tal goleiro comprovadamente for o pai e o assassino?? Me impressiona a maldade humana. . .afffffff.

Rita disse...

Oi, pessoas.

Kaká, obrigada, querida. Você é um doce.

Juliana, obrigada. Comentei lá no seu blog, você viu?

Iara, fui lá também. Feliz de ver post novo seu, pena que o tema seja tão duro, né?

Luz, pois é, né? O mau gosto não tem limites.

Borboleta, olha, eu tenho medo da anestesia que rola mesmo. De tanto ver coisa absurda, a gente vai achando que aquilo é assim mesmo e paciência. Mas não dá. O que você falou faz todo sentido, não podemos nos acostumar com tanta dor alheia, com tanta frieza, ne? E a Eliza é só uma... os casos anônimos são muitos, muitos...

Ana, pois é, eu não aguento esse papo mesmo.

Luciane, foi bem o que falei la no blog da Ju, a criança que ficou...

Beijos, pessoas. Obrigada pelos comentários, tenho adorado a presença de vocês por aqui. Obrigada mesmo.

Rita

Angela disse...

Rita querida, QUE POST TAO IMPORTANTE!!!

Rita disse...

Oi, Angela. Não sei se você está por dentro do assunto. Um horror. Uma história cheia de violência, muito triste.

Beijinhos
Rita

Angela disse...

Estou mais ou menos fia. Sabes que nao assisto TV mas no dia que ele se entregou estava assistindo pois era dia # 1 do pe quebrado e ainda muita dor. Beijao

Caso me esqueçam disse...

que bom post tu escrevesse! resume muita coisa! o mundo tah tao profundamente dentro do machismo que chegamos ao ponto de ver uma mulher ser assassinada e nao conseguir ficar do lado dela por julgar sua conduta sexual indecente. nojento.

Rita disse...

Oi, Luci. Pois é, eu também acho que tá do avesso.

Bjs
Rita

 
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