De chuviscos e dilúvios



Pensamos em convidar uns amigos para comer fondue, mas bastou a ideia de ir ao supermercado para me desanimar. Preguiça feia e descarada, não escondo que me entreguei com gosto a ela nesse final de semana. Com o pretexto perfeito de que precisava (e precisava mesmo) de repouso para sair de vez da ziquizira que me pegou na semana passada, adiei encontros, não liguei pra ninguém, não cozinhei, não fui, não convidei. A hibernação foi quebrada apenas por uma rápida ida ao shopping para abastecer o estoque de sapameias e assim liberar as crianças das chatas ladainhas “calça a pantufa” e “põe o tênis”. No mais, fiquei pela casa observando pezinhos coloridos e lendo meu livrinho.

Apesar de alguns intervalos breves, chove em Floripa desde sexta-feira. Nada de chuvaradas preocupantes, mas o clima molhado parece mesmo deixar a cidade um pouco... de molho. Mas gosto, sempre gostei. Gosto de chuva, lembro que gostava já menina, adorava olhar a chuva da janela, adorava o barulho no telhado, gostava do dormir ao som da água que caía no jardim. Depois que mudei para Floripa e já vi mais chuva do que precisava ver em mil encarnações, continuo gostando, ainda assim. É um gostar romantizado, claro. Não há nenhum prazer em notícias de catástrofes que o inverno traz de vez em quando. Mas, na ilha do meu mundinho, aqui na minha arca, a chuva me acalma.

Daí que não tenho assunto, passei o dia entre o sofá e a cozinha (onde só se viu bolo de padaria e pão francês), brincando com as crianças ou vendo-as brincar com o pai, pintando, desenhando. Com a TV em cena, agarrei-me ao Saramago e devorei Caim, obra cheia de ironia e com algumas passagens hilárias, onde o sarcasmo já conhecido do autor escorre em cada linha. Sem papas na língua, polêmico (ainda) e cheio de provocações, Caim preencheu bem minha tarde chuvosa.

E como da chuva para o dilúvio é um passo, e também porque depois de ler Saramago não consigo escrever coisa que preste, deixo vocês com ele, que sabia mais:

“Imagina-se o orgulho, o prestígio, o crédito que noé ganharia aos olhos do senhor se conseguisse convencer um destes animais a entrar na arca, de preferência o unicórnio, supondo que o consiga encontrar alguma vez. O problema do unicórnio é que não se lhe conhece fêmea, portanto não há maneira de que possa vir a reproduzir-se pela vias normais da fecundação e da gestação, ainda que, pensando melhor, talvez não o necessite, afinal, a continuidade biológica não é tudo, já basta que a mente humana crie e recrie aquilo em que obscuramente acredita.”

E não é assim?

6 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Tem um selinho pra você lá no blog. Com muito carinho, viu? E que bom ter notícias boas suas...

Angela disse...

Epoca de verao aqui eh epoca das chuvas, que nesse calorzao sao sempre bem vindas. Alem de cheirosa, soa bem e agoa a grama, flores e plantinhas deixando o jardim no ponto. Ontem a noite porem foi indesejada, ja que dormi do lado de fora com o Max, na barraca de acampar. Choveu grosso, deu relampago mas nao ouvi o trovao. Entao quando o Pete chegou na porta com uma sombrinha de dois metros (em breve, no fotolog, vai la ve) e perguntando se eu queria entrar, falei que nao e deixei rolar. O Max nao acordou, dormiu pesado e quando a manha chegou tava tudo ainda um pouco molhadinho... perfeito para uma caça a lesmas (ECA! ai vida de mae de menino...). Viva a preguica que rolou ai, e beijos a todos!

Caso me esqueçam disse...

ai, preguiça de inverno deveria se um pecado capital a parte. =~

chega doi quando eu lembro o que me espera em dois meses :(

Caso me esqueçam disse...

eh, eu sofro demais por antecipacao :D

Iara disse...

Finais de semana análogos, os nossos. Aqui choveu menos e eu não tenho crianças, mas o frio o "molho" pró recuperação e as leituras não faltaram. E delícia, viu? Adoro os amigos a agitação, mas a gente sabe que é feliz quando o sofá de casa e um livrinho são suficientes pra nos fazer felizes, né?

Rita disse...

Oi, Borboleta, obrigada, lindinha. Adorei o presente e já me encarreguei de tentar fazer bom uso dele, viu? Beijos!

Anginha, ficamos aqui imaginando seu acampamento aí nesse quintalzinho básico; com dois passos, lá estão vocês perdidos na floresta encantada. Ai, que infância monótona essa do Max, não? :-P

Luci, sofre não! Aproveita o calorzinho/zão e curte o ventinho no rosto. Porque depois já viu, né? Quer dizer, não vamos falar disso agora... ;-)

Iara, eu gosto bem desses dias mais vagarosos também. Na verdade, cabe tudo em nossa vida, da muvuca ao soninho - e isso é o bom, certo? Beijocas e melhoras!!

Rita

 
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