A cama


 


- Arthur, já está na hora de arrumar sua cama, filho. Vai tirando as almofadas enquanto pego seu pijama.

- Aiiiiiiii, por que toda hora tem alguma coisa pra fazer!? Todo dia tem que arrumar essa cama e bla bla bla...

Ei, rapazinho, vamos parando de reclamar, que tem gente que bem que queria ter uma caminha fofa assim pra arrumar toda noite. Tem gente que simplesmente não tem cama. (O Arthur tem 5 anos, se eu estiver pegando pesado, vocês me avisam, tá?)

- (Absolutamente incrédulo) Aaaah, é! Tooodo mundo tem cama!

- Não, senhor. Sabia que tem criança que dorme no chão porque não tem cama?

- (Arthur para no meio do caminho entre a cama e a bancada, onde estava colocando as almofadas, e me olha com cara de espanto genuíno): É? Mas por quê?

- Ah, porque a família delas é muito pobre, ou porque moram com muitas pessoas numa casinha pequena, ou porque... (calei-me pensando nos terremotos e enchentes, vendo aquela carinha espantada, com o olhar de quem varre a cabecinha à procura de sentido para minhas palavras e me sentindo culpada porque meu filho tem cama). Ah, por várias razões, filho. O fato é que tem criança que dorme no chão, então o senhorito pare de reclamar de ter de arrumar sua cama linda e...

Amanda, 2 anos, entra em cena, o coelho de pelúcia pendurado em uma das mãos, um pé com pantufa, outro sem. Arthur, com voz de espanto, como quem conta a maior das coisas impressionantes:

-AmANda, sabia que tem criança que não tem cama??!
- Ahn! O tubarããão??
- Não! Criança que nem eu e você, criança gente!

Insensível, Amanda vira as costas e vai mexer no brinquedo do tubarão.

Eu sigo escolhendo o pijama, escondendo minha cara dentro da gaveta, sem saber que rumo dar à conversa. Arthur, após 20 segundos de inacreditável silêncio:

- Mãe?
- Oi.
- E o pior é que essa cama é superpesada, nem dá pra tirar daqui e levar pra outra criança, né?

Se fosse em um filme, eu sentaria ao lado dele, daria um abraço apertado, acariciaria seu rosto e diria algo que começaria com "ó, filho..." Mas o papo foi aqui em casa, então entreguei o pijama a ele e saí do quarto correndo atrás da Amanda, que já não queria mais saber do tubarão e se aventurava escada abaixo, com uma pantufa só.

8 comentários:

Claudia Serey Guerrero disse...

lindo... beijinhos, Claudia

Angela disse...

Lindo, tudo lindo, em todos os sentidos da palavra!

Borboletas nos Olhos disse...

O cotidiano parece ter tonalidade, sabor e encanto diferentes aqui nesta estrada...Obrigada por partilhar!

Nakereba disse...

Lindo! Faltou mesmo o abraço e o "ó,filho..." rsrs. Diz pro Arthur que eu fui uma dessas crianças. Acho que só tive uma cama lá pelos 14 anos:).

Caso me esqueçam disse...

HUAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHA

foi mal, o papo era serio, mas eu nao sei se ri mais na parte do "Amanda, 2 anos, entra em cena, o coelho de pelúcia pendurado em uma das mãos, um pé com pantufa, outro sem" ou no "- Ahn! O tubarããão??" que linda! HHAHAHAHAH

meu deus, a amanda soh tem DOIS ANOS? como assim? ela eh uma monstra! enorme! achei que ela tivesse uns quatro. mas diz, o que tu da pra essa menina comer? Oo

ai, esse post me lembra que, quando eu era pequena, eu achava que as pessoas eram pobres porque... sei la, o mundo era assim. alguem deveria ser pobre, era normal, sabe. e eu jamais JAMAIS vou esquecer de uma cena no jornal nacional de umas criancas comendo comida do chao, misturada com areia. velho, os pais precisam saber que criancas se chocam com pouca merda. que aquilo pra mim era naipe de filme de terror. tao chocante que, vinte anos depois, eu ainda lembro. a unica coisa que minha mae fez com meu choque foi "coma tudo porque tem crianca morrendo de fome". nunca entendi a logica (afinal, eu era crianca, mas nao era idiota, "como eh que o fato de eu comer vai ajudar alguem que passa fome?") e por ai vai.

e desculpa pelo "monstra". tou alterada alcoolicamente...

Jussara disse...

Que fofo e sensível o Arthur, hein?! Lindo demais. E o "AmANda" impressionado dele foi muito legal :).

Rita disse...

Claudinha, obrigada, querida. Que saudades de você! Nem comentamos Brasil e Chile, a França, o Brasil, tanta coisa, né? Bj!

Anginha, linda, saudades docê também! Obrigada, são uns fofos, né?

Borboleta, obrigada digo eu! Bjs!

Putz, Nakereba, seu comentário me deixou com cara de perdida. O que tenho a dizer? Sua história de vida é o máximo, cara. Na boa. Beijo!

Luci, tudo bem aí? Hehe... alterada alcoolicamente foi ótimo. Bom te fazer rir, pra variar, porque sou sempre eu que dou gargalhadas lendo seu blog. A Amanda já tem dois anos de nove meses, então são quase três anos, né? Mas ela é grandinha, sim. Adora farofa e purê de batatas, anota aí. Beijos!

Inté, pessoas.
Rita

Rita disse...

Oi, Jussara! Nossa, escrevemos os comentários anteriores quase na mesma hora. Pois á, você precisava ver a carinha dele no AmANda! Uma graça, cada olhão! :-D

Beijo, querida. Ei, você num dorme não? Coruja como eu?

Fui!
Rita

 
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