Alguém ligou?


O telefone da casa da minha mãe era igual a esse da foto; e com o número escrito a mão num papelzinho colocado ali na frente. Ah, e fazia triiiimmmmm.

Gosto muito de uma frase do filme He’s Just Not That Into You (Ele Não Está Tão a Fim de Você), uma fala da personagem da Drew Barrymore em que ela expressa a angústia inerente aos jogos emocionais da atualidade: conversando com a personagem da Scarlett Johansson, ela diz que sente saudades dos bons tempos, aqueles em que tudo que ela tinha de fazer para saber se o cara tinha dado um retorno às suas investidas era checar sua fita da secretária eletrônica e ver se ele tinha ligado ou não; hoje em dia, no entanto, ela precisa verificar o e-mail, o voice mail, o celular, o twitter ou sei lá mais o quê, tudo para ter certeza de que foi rejeitada por sete tecnologias diferentes (adoro a sonoridade da frase em inglês: “rejected by seven different technologies”, a Drew com cara de desolada, muito bom. E conclui: "it’s exhausting!"). Tadinha. E tenho mesmo pensado nisso. Morro de pena dos meus filhos, já falei?

Lembro muito do dolorido que é o telefone não tocar. Ele não ligar. Ou, pior, o telefone tocar e ser seu tio, querendo falar com a sua mãe. Por horas. E aí a gente se apegava às chances de ele ter tentado ligar naquele período em que o telefone estava ocupado, quem sabe, poderia acontecer! Claro! Só pode ter sido isso. E aí depois, naturalmente, você entendia que ele não tinha ligado mesmo e você seguia rumo à próxima rejeição, tudo em nome do tal amadurecimento. O “bom” é que o inverso também funcionava da mesma forma: não ligar era tudo de que precisávamos. Não tínhamos de lidar com um eventual desconforto em não responder e-mails, tweets, etc.

Mas e hoje, meu povo? E hoje? Nossa, que pena da galera, na boa. Porque o fato de ele ou ela não ligar não quer dizer nada: ele/ela pode ter mandado mensagem de texto, ou um tweet, ou um e-mail, ou ter passado no orkut, ou no msn, ou deixado um comentário no blog... mas se nada disso aconteceu, foram vários “nãos” e ai, tadinhos/tadinhas.

Claro que cada um vive conforme as regras em voga no seu tempo, mas ando bem convencida de que as paqueras (essa palavra ainda existe? Sério, estou perguntando, não sei) dos anos 80/90 eram mais simples, pelo menos os atalhos para fugas eram menos abundantes... hoje em dia fico cansada só de imaginar o Arthur e a Amanda (nossa, e daqui a uns 10 anos, como vai ser?) verificando 14 bancos de dados diferentes para saber se seus alvos estão antenados com eles. E nem existe mais como alimentar a esperança até chegar em casa: o sofrimento está sempre ali, no bolso, na bolsa, à mão. Ui.

Eu lembro da tarde de domingo em que o telefone vermelho tocou e era o Ulisses. Foi uma delícia, porque foi surpresa mesmo, não esperava. Faz muito tempo. Bom, tomara que o telefone não saia de cena (vai saber, esse mundo é tão doido). Porque receber e-mail é bom e acredito que namorar pelos canais tecnológicos da hora tem lá seu sabor para quem curte, mas continuo fã do velho triimmm (cada vez mais raro), seguido de:

- Alô? Tô chegando, viu?
- (...) Tum-dum, tum-dum, tum-dum... (heartbeat)

Será que alguém ainda usa?

13 comentários:

Juliana disse...

ah, rita, eu devo ter algum problema... eu fico emocionada com tudo que vc escreve. ;)

Reli esse post várias vezes e fiquei me perguntando o que ele tem de mais.

é porque vc fala de telefone, casa, crianças, livros, cinema, jardim,mas nunca é só sobre isso,né?
ahhh, adoro esse blog mesmo.

De vez em quando, venho aqui leio um texto e outro, daqueles mais antigos. eu penso na blogosfera como uma vizinhança e os blogs são as janelas . eu fico aqui debruçadinha na minha e sempre paro pra olhar quando seus textos "passam".

ah, pondo fim na " puxação de saco" rsrs, eu sou do tipo que não consegue largar o celular, mas o que fico esperando são os torpedos. é tão bom receber um logo assim que você chega em casa depois de uma noite boa. =)

Ana Duarte disse...

Oi Rita!!!

Andava um pouco sumida, inclusive nao ando postando nada no meu blog porque estou escrevendo minha dissertaçao. Mas mesmo assim, nao consigo ficar sem ler seu blog todos os dias... :-)
Eu me identifiquei muito com esta parte: "Ou, pior, o telefone tocar e ser seu tio, querendo falar com a sua mãe. Por horas. E aí a gente se apegava às chances de ele ter tentado ligar naquele período em que o telefone estava ocupado, quem sabe, poderia acontecer! Claro! Só pode ter sido isso"
KKKKKK eu me lembro que comigo era muito assim, e colocava a culpa nesse tempo que o telefone ficava ocupado so pra esconder a decepçao. Hoje em dia acho que as pessoas usam menos o telefone. Como vc disse existem tantas coisas...e eu acho uma pena sim, pois nada substitui a alegria de vê-lo tocar.
Mudando de assunto, meu namorado esta trazendo do Brasil o livro que vc me recomendou "O evangelho segundo Jesus Cristo", nao sei quando vou ler pois estou cheia de coisas, mas eu vou ter que achar um tempo :-). Vi que vc esta lendo "A caverna" e ai esta gostando?
Beijinhos!

Caso me esqueçam disse...

ih, rapaz, acho que passei batido nessa de esperar telefonema. te ver falando isso (te ler escrevendo isso?) me surpreendeu, porque achei que essa de esperar o homem ligar fosse mais uma das doideiras norte-americanas. nas series as mulheres se matam esperando o telefonema do cara. lembro de um episodio de friends em que a monica comenta que era dificil ligarem pra ela. e a rachel responde: "sempre me ligaram" e a monica fica supresa. "sempre?!". pois bem, eu nem sei, soh sei que quando eu queria, eu ligava. acho que eh menos doloroso levar um nao indo atras do que ficar na esperava. meu coracao nao aguentaria.

Patricia Scarpin disse...

Eu vejo como as coisas são pra Jessica (que tem 16) e já são incrivelmente diferente de como eram pra mim quando eu tinha a idade dela. Então imagina daqui a 10 anos, Rita... Nossa!

O pior era quando o paquera ligava e o irmão caçula atendia e ficava de gozação... :)

Beijo, querida!

Sinara disse...

Oi! Olha, eu acho, sinceramente, que mudou pra melhor! Agora são tantas as opções pra ficar em contato (ou não) que facilita você saber logo se o cara tá interessado ou não! Antes, a gente tinha que esperar... Agora, eh só dar uma olhadinha na página dele, discretamente, e saber se ele tem alguém, se tem interesses parecidos com os teus, se liga ou não... E, pelo que vejo do pessoal que está na fase dos namoros e 'ficantes', é muito bom ficar de 'conversa' no msn e de papo pelos números de celulares em promoção: você conversa a tarde de domingo inteira e só paga alguns centavos!!! rsrsrsrsrs Acho que a tecnologia, nesse aspecto, facilitou muito a vida da galera... Não tenho saudades da fase em que o telefone reinava, não... Na verdade, nunca fui fan dele... rsrsrsrs Bjs!

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, Rita, Rita,

como você sempre acerta? o tema, o ritmo do texto, a abordagem...como estou de volta ao mundo das paqueras e namoricos depois de 15 anos, devo ocnfessar que o excesso de canais me entontece.Ainda gosto da voz ao pé do ouvido. Ai, ai, beijos e beijos

Rita disse...

Oie, pessoas boas!! Li alguns comentários durante o dia, estava louca para passar aqui e responder! Depois do "pequeno" post de hoje, vamos lá!

Julianaaaaaaaaaa, sua docinha! Fiquei toda fofa, até corei! Obrigada, viu, você é muito carinhosa. Que bom, que bom, venha sempre, sempre. É um prazer enorme tê-la aqui. Ah, eu sou a maior cara de pau de não ter falado dos torpedos, inúmeros, que troquei no meu reencontro com o Ulisses (vixe, história longa, conto qualquer dia). Mas a omissão foi por licença poética, então pode, né? Hihihi... Beijos!!

Oi, Ana! Pois é, vi que você anda calada. Que bom que teve um tempinho de passar aqui pra dizer oi. Então, acho que os telefones tocam cada vez menos. Agora eles cantam, gritam e apitam. Né? Ah, o Saramago: estou a-do-ran-do A Caverna. E acabei de ler Caim, você viu? É bom, também, bem no estilo do Evangelho. Não sei qual sua orientação religiosa, mas acredito que você sabe qual era a não orientação do Saramago, ne? Então é aquela coisa: você vai gostar ou se apavorar. Ou não, vai só apreciar.. ui, lê logo e me conta, anda! Aí a gente troca figurinha. Mas é bom ter em mente que para o Saramago a Bíblia é só um livro de histórias. Beijos!

Rita

Rita disse...

Luci, PELAMORDEDEUS, DEIXA EU FALAR: assim que publiquei o post, pensei: vixxxxe, a mulherada vai me destruir com esse papo de sentar e ficar esperando o telefone tocar! Mas veja la, no meio do post falei que a coisa vale pro dois lados! Então é lá e cá, ne? A gente também não ligava e pronto! Entendeu? É isso aí. Beijocas!

Oi, Pati, linda. Ai, a Jessica tá com 16? Aposto que, se ela lesse esse post, diria: essa mulher tá louca? É uma velha, só pode. Não é?? Pergunta pra ela e me conta depois? Beijos!

Sinara, ai, ai, ai. Não gosta de telefone??? Hum.. vou dar outra chance: não gosta, tem certeza???? Pensa bem aí e me diz depois!(hihihihi... agora fui cruel...) Beijos, bruxa, morro de saudades!

Borboletinha, li seu comment e fiquei com preguiça. Brincadeira! Hehehe. Boa sorte, linda, boa sorte. Aliás, a fila de fãs encantados deve ser bem longa.
Beijos, querida!

Valeu, pessoas!!

Rita

Juliana disse...

rita, vi sua resposta pra Ana sobre o Evangelho segundo jesus Cristo. Me intrometendo no papo de vcs: eu sou cristã desde sempre e o ESJC é um dos meus livros favoritos.

Entendo que não deve ser fácil, para alguns cristãos lê-lo,mas pra mim , esse livro MARAVILHOSO só serviu pra refletir, pra pensar. Fora que Saramago é um artista incrível,né? Tem coisa mais bonita que a cena de amor entre madalena e jesus, toda entremeada com os trechos do Cântico dos Cânticos. Choro sempre relendo aquilo.

Ah, rita, vc já leu O Ano da Morte de Ricardo Reis? é o meu favorito dele!

Ah, vou ler Caim em breve.

beijooss

Rita disse...

Oi, Juliana. Vi lá que você ganhou a Biografia do Saramago, legal demais! Depois me conta se gostou.

Olha, ainda não li O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas pretendo fazê-lo, sim. Como falei no post de hoje, bateu uma vontade de ler Marquez de novo, então devo dar um tempo no Saramago depois de A Caverna (que tá bem bom, viu?). Mas, ó, você que gosta dele, não pode deixar de ler As Intermitências da Morte - é engraçadíssimo!

Beijocas, intrometida! Hohoho! Joking!!

Rita

larissa disse...

rsrsrsrs
Não sei quem inventou essa coisa de fazer pose ao lado do telefone, mas eu tenho uma foto lá naquele telefone vermelho no auge dos meus 3 anos de idade!

Rita disse...

Larissa, ri alto do seu comentário. Hahaha... ninguém merece. Não me diga que era na "mesinha do telefone"!

Beijos, querida!

Rita

larissa disse...

Pois é, pra rir mesmo, na mesinha do telefone.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }