Rosa sem choque





Eu sempre quis ser mãe de meninos. No dia em que o médico nos falou que eu estava grávida de uma menina (mas vai se chamar Henrique, ou, sei lá, Matheus!), meu primeiro pensamento foi: mas o que eu vou fazer com uma menina? Eu tinha certeza de que esperava outro menino e torcia muito por isso. Nada grave, bastaram algumas horas depois da notícia estarrecedora para que eu já me sentisse bem habituada à ideia, coisas de grávida. 

Depois que a Amanda nasceu, todo o receio antigo de não saber como criar uma menina deu lugar a um gostinho bom de aventura e à certeza de que aquela pessoinha tinha muito a me ensinar. A mistura que já prometia com nosso filho mais velho ganhou um novo ingrediente de peso e hoje nem consigo pensar como seria não ter uma menina em nossas vidas. Amanda mudou alguns parâmetros, derrubou crenças, nocauteou preconceitos. 

Uma das mudanças drásticas trazidas pelo fenômeno L'Amanda se deu na minha relação com a cor rosa. Devo dizer que, apesar de bem acostumada à ideia de parir uma garota, mantive-me agarrada a algumas decisões (insustentáveis) como se daquilo dependesse em parte meu "sucesso" como mãe. Patético. Então bradei aos quatro ventos que "não vou vestir minha filha de rosa da cabeça aos pés como se ela fosse uma Barbie"; "não vou comprar nada rosa"; etc.


Minha resistência à cor refletia certo receio de ver minha filha tratada como um enfeite, um bibelô, uma bonequinha. Não sei bem quando a coisa começou, mas a certa altura de minha vida passei a associar à cor rosa rótulos como "feminino", "delicado", "doce", "meigo" e outros mais asquerosos como "patricinha" e "perua". Comecei a ver no uso da cor uma aceitação de que a condição feminina (seja lá o que isso for) passa necessariamente pela ideia da mulher como ser passivo, submisso, docinho demais. Eca. 

Em outras palavras, eu me enchi de preconceito contra a cor. 

Amanda nasceu e ganhou um monte de coisas cor de rosa. Eu tentava me manter fiel às blusinhas e calças nas cores amarela, lilás, vermelha, marrom, verde, branca, azul, qualquer outra. Ainda assim, sempre voltava para casa com alguma peça cor de rosa, pela simples razão de que as lojas não me davam muitas alternativas. Quem tem filha sabe, não é fácil se manter longe do rosa. Pois bem, Amanda adora rosa. É, de longe, sua cor favorita. Ela gosta de tudo rosa: biscoitos, sapatos, brinquedos, lápis. Ela quer rosa, sempre. Mas, ao contrário do esperado, essa preferência passou a me incomodar cada vez menos (se é que, de fato, incomodou alguma vez). E eu voltei a enxergar algo que eu tinha deixado de ver há muitos anos: rosa é uma cor linda. 



É claro que o uso de uma cor pode ser simbólico em várias situações, para o bem ou para o mal. A partir de sexta-feira, vestir amarelo no Brasil vai imediatamente identificar alguém como torcedor da seleção. Daqui a alguns meses, o vermelho pintará o país. Mas eu não preciso temer o rosa. Vesti-lo não me limita, não me amarra, não mancha minha reputação. Claro, algum desavisado pode me achar bem perua se eu sair por aí com um casaco rosa ou com minha filha toda de rosa. Mas não ligo. Para mim, agora, rosa é mais uma cor bonita que combina com as bochechas da Amanda. Só isso.

A associação com o Barbie way of life continua existindo e ainda me incomoda em algum  nível, mas, ah, não vou me prender tanto a isso, não mais. Quero trazer o rosa de volta ao patamar das cores bonitas, só. Uma a mais, que cai bem com branco, sem stress. Preocupar-me com isso hoje parece uma bobagem sem tamanho: já vejo personalidade na Amanda suficiente para desdenhar de mutias amarras e isso me faz abrir um sorrisão. Menina moleca, dá gosto de ver. Quer ir de rosa, querida? Vai, sim, que fica lindo. 




12 comentários:

Angela disse...

Ai Rita. Lembro como hoje de voce me falando que gostaria de ter cinco ou seis meninos. So meninos. Nenhuma menina, nao obrigada. Eu nao entendia, pois queria um par de meninas gemeas, moreninhas dos cabelos pretos. Meu susto ocorreu na primeira gravidez, sabes o resultado. Apesar de ter nao ter sido uma crianca muito ameninada, nao tinha ideia do que ia fazer com um menino. Tenho so irmas e sobrinha, nunca houve meninos na familia imediata. Mas nao demorou tanto para comecar a sentir que nao teria ideia do que teria feito SEM um menino... sao tudo de bom. Na segunda gravidez, outro susto. Uma menina. A essa altura nao sabia o que ia fazer com uma, e continuo um pouco sem saber. Julia ja ta com quase um ano e meio e ainda nao brincamos de boneca. Nao consigo, nao tenho animo, desaprendi. Me preocupo pois gostaria de expor ambos mais ao mundo culinario-plastico, ao dos cuidados de bebes, etc... mas quando chego do trabalho cansada brincar com hot wheels color switchers. jogar bola e correr la fora eh muito mais atrativo. Por que eh divertido. E eu (juro) que mereco tambem.

Ah, mas o rosa eh lindo mesmo. Eu uso e gosto bastante. Pete tambem fica bonitao. Max fica apagado, ja que ele em si eh transparente rosado. Julia fica a coisa mais sem graca do mundo. E de lilas (a alternativa nao rosa de meninas por aqui) fica uma coitada. Ela fica absolutamente lin-da de azul e tambem de branco. Entao desse ponto de vista, sorte que nao moramos ai pois ia ser dificil encontrar roupinhas para a morenoca linda.

Eu tambem tinha alguns preconceitos, a muito tempo completamente vencidos: Max teve sim tenis de Lightning McQueen E com luzinhas. E tem carrinhos militares doados pelo vizinho. Mas isso renderia um livro.

Entao, parabens pelo desprendimento. Se pararmos para analisar muito a vida passa, analisada ou nao. Talvez quem sabe melhor seja curtir de tudo um pouco com o coracao aberto e gentileza na alma. Tenho notado durante as ultimas decadas que parece que quanto menos julgo/assumo/concluo/estereotipo mais paro de me preocupar em como estou sendo vista/julgada, mais livre me sinto e mais intensamente eu vivo.

Beijo grande na Amanda ja decidida em suas escolhas e esbanjando atitude. sigh... nao vejo a hora dessa turma se encontrar.

Angela disse...

Ah, for the records: saudades...

Iara disse...

Que post legal, Rita! Muito mesmo. Porque eu ainda não decidi se terei filhos (por enquanto decidi que sim, depois da copa, a de 2014 - note o super planejamento), mas eu sempre preferi meninos. O marido curte meninas, até porque não teve irmãs, mas como tem duas sobrinhas lindas, acha que pode ser legal ter um menino na família.
Mas enfim, minha resistência sempre foi ao lance "bibelô" mesmo, sabe? E a gente sabe que isso não é obrigatório, né? Que não tem que ser assim. Pelo contrário, é bacana justamente ter a oportunidade de educar uma menina pra não ser assim. E a coisa do rosa. Eu não gosto de rosa, mas adoro lilás, mas rosa não. E tem uma campanha na internet feita por duas irmãs britânicas, que chama "pink stinks". Mas lógico que a "inimiga" não é a cor, mas a lógica que meninas são bibelôs. Por outro lado, o bacana de ter meninos é ter a oportunidade de educar um meninos desde cedo pra que não se ache melhor que metade que o resto da humanidade por ter um "pipi".
Mas, no fundo no fundo, eu acho bacana quando gente bacana têm filhos, sejam meninos ou meninas. E deve ser bacaninha ter um de cada, né? Além de tudo, os seus são lindos demais. :-)

Caso me esqueçam disse...

nossa, nunca imaginei que alguem pudesse querer ter meninos hahahaha eh que eu tive dois irmaos superdanados! minha mae faltou pouco enfartar (e eu, claro, apanhei muito deles). alias, ainda hoje eles sao uns loucos. por isso, na minha cabeça, sempre foi mais seguro pensar em ter filhas. meninas sao mais tranquilas, estudam mais, acho que leem mais. e camilo tambem gostaria de ter uma filha (acho que porque ele nao tem irmas, nao sei). bom, mas tanto faz. hoje em dia nao me doi pensar em ter um filho homem, acho que foi depois de ter virado babah hehehe

mas eu pensava igualzinho a voce em relacao a cor rosa. e mais: se eu tiver um filhO, gostaria de usar essa cor nele, mesmo sabendo que as pessoas vao achar esquisito. acho tao idiota isso, como se uma cor ou um brinquedo fosse influenciar no desenvolimento (sexual) da criança.

quando fui faxineira, tive muito prazer em ver uma casa com tres menininhos (4 anos, 3 anos e dois meses) repleta de brinquedos ditos "para meninas" como fogao, pia, vassoura, aspirador de poh e bonecas. o gurizinho que tomo conta tem pijamas rosas. acho lindo. e acho otimo a mae nao ter preocupacao com isso.

outro dia, no orkut, ofereci umas roupas de bebes pras gravidas de uma comunidade (tinha ganho de uma das patroas e, como eu nao pretendo ter filhos agora, doei). mas elas soh quiseram as roupas nao rosas, porque iam ter meninos.

depois, eh importante entender que tudo eh influencia. minha irma eh a pessoa mais vaidosa (perua mesmo) que eu conheco. tem 15 e adora rosa, como suas amigas. a cor do quarto eh rosa. fiquei revoltada quando dividia o quarto com ela. mas hoje me dei conta que ela tah longe de ter a cabecinha de vento. ainda bem que cor influencia menos do que possam imaginar...

Caso me esqueçam disse...

sobre minha concepcao de meninas, nem preciso explicar que tudo eh relativo, neh? nao quero ninguem dizendo "meu irmao eh superestudioso, voce estah com preconceito". credo.

Paula Betzold disse...

Nossa, que engraçado!!! Fiz tudo exatamente ao contrario de vc... Nunca me imaginei mãe de meninO. Quando soube que era uma meninA, corri pra comprar tudo rosa... e a minha Duda, ama rosa, então aqui em casa quase não sobra espaço pras outras cores... e visto com orgulho a Duda como uma barbie, ou outra princesa, ela mesma me pede... desde os sapatos até o cabelinho dela... que engraçado... agora to até me sentindo culpada!!! beijos

Rita disse...

Anginha, acho que se libertar de amarras é uma das melhores coisas de envelhecer, oops, digo, amadurecer (é que amadurecer pode soar pedante, né? Mas você me entendeu). Eu continuo ficando de estômago embrulhado quando vejo alguém cheeeeeeio de badulaques cor de rosa, mas não há dúvida de que gostar de rosa não é necessariamente sinônimo de ser fútil-cabeça-oca. Então tento separar as coisas: uma coisa é usar rosa como qualquer outra cor, porque achamos bonito; outra coisa é se cobrir de rosa para parecer um enfeite.

Iara, oi. Pois então, eu entendo bem a ideologia do pink stinks, mas é como você falou, não é a cor em si. Nem todo mundo que se veste de vermelho se identifica com ideias esquerdistas, por exemplo. É claro que o contexto pesa muito. Em uma manifestação (imaginária) contra a submissão feminina, camisetas rosas poderiam ser queimadas em público (hihihihi, que ideia)... O que eu quis dizer no post é que esse não é mais o único "lado" do rosa que eu enxergo. Sucumbi à Amanda, no fim das contas.

Luci, então, sua irmã ilustra bem meu ponto. E eu também lembro que, aos 15 anos, meu quarto era todo cor de rosa, com ursos e almofadas em formato de coração (vc comeu há pouco?), na mesma época em que eu descobria e me identificava com ideais esquerdistas, sonhava em ganhar o mundo e vivia questionando o machismo na família (tipo homem pode tudo, mulher não pode nada). Quer dizer. Né?

Paula, não se sinta culpada! Vide comentários aí em cima. Eu odeio a Barbie pela figura de mulherzinha (no pior sentido) que ela representa pra mim - fiz uns posts sobre isso: "corpinho de boneca", em novembro, e "a boneca e o tênis", em dezembro/09. Mas nem assim acho que toda menina que brinca de Barbie está com sua sina de megavaidosa definida. Seres humanos são imprevisíveis, não é verdade? Mas tenho minhas reservas, porque me incomodo muito com vaidade excessiva na infância. Acho um desperdício e uma fábrica de consumidores... e a vida é muito mais do que enfeites. Dito isso, lembrei que não fiz as unhas hoje, ó céus. :-)

Beijos para todas,
Rita

Ana Flavia disse...

Oi Rita,
Nossa é a primeira vez que eu vejo uma mulher que quisesse ter tido só meninos. MInha irma tem tres garotos e até chorou pq nao veio uma menina. MInha sogra tb teve tres meninos e me mima toda, pq ela sempre quis uma filha. A irma dela a mesma historia: tres brigoes, nem uma pricensinha.

Fugir da ditatura do rosa é mesmo dificil, até porque é uma linda cor né. Eu escapei de ser uma barbie, mas agora, aos 30 tenho um monte de pecas rosas no guarda roupa e me sinto fofa quando as uso!

beijinho pra vc e a Amanda

Rita disse...

Oi, Ana! Pois eu, menina, só falava em ter meus três cruzetas. Aí veio minha pipoca e pronto. Tá tudo no lugar. :-)

Beijocas!
Rita

Marina disse...

Oi Ritinha!
Eu acompanhei suas duas gestações e sei de sua preferência declarada por meninos. Diferentemente, eu nunca me imaginei mãe de um menino, mas agora que tenho o João Vitor, sei o quanto é bom.
Quem sabe numa próxima (bem próxima) gestação vem uma menininha. Ficaríamos muito felizes.

Trocando experiências Pedagogia disse...

O movimento feminista influenciou muito todas nós. Retalhar cores, objetos e tabus que refletiram a alienação das mulheres por séculos é intrínseco a nós mulheres do século XXI. Observo está questão de gênero nas escolas. Muitas famílias estão com esta cultura enraizada e isto prejudica a noção de mundo das crianças. Por observação e escuta as crianças se condicionam a eleger o azul para os meninos e o rosa para as meninas. Sob influência dos adultos eles aprendem que rosa é de menina e azul é de meninos. Quando as famílias tentam mudar a cultura posta, muitas vezes são rotuladas com preconceito. Acredito que ainda levará uns 20 anos para mudar esta visão. Infelizmente!!!
Estou esperando seus pitacos. Beijos Kaká

Rita disse...

Marina, tenho certeza de que você vai curtir muito se tiver uma menina. Mas, pensa bem, uma dupla do barulho, um outro João Vitor para formar a dupla dinâmica... ah, lindo também, vai. Beijão!

Kaka, então, essa coisa das cores é, claro, totalmente condicionada socialmente. Mais uma das muitas tolices que a gente inventa para rotular, classificar, enquadrar, enfim. No caso do rosa, a coisa ficou um pouco pior por causa da simbologia toda do sexo frágil, delicadinho e tal. Mas estou trabalhando meu preconceito. :-)

Beijinhos!
Rita

 
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