O melhor da Copa



Os planos eram escrever sobre outra coisa, mas a onipresença da Copa do Mundo me fez adiar o post sobre supermercados (olha, como vocês têm sorte!). Como falar de outra coisa se os horários do trabalho já não são os mesmos, as bandeirinhas nos carros lembram época de eleição, não há comercial na TV que não remeta ao mundial e, olha só, a terça-feira virou o melhor dia da semana (espero que continue assim depois do jogo).

Agora eu e minha mãe trocamos telefonemas para falar do frango do goleiro ou do nervosismo dos dias dos jogos do Brasil. E nos últimos dias tenho me lembrado muito das copas passadas na minha infância e adolescência, quando nos reuníamos para assistir aos jogos em nossa casa, que ficava cheinha de parentes e amigos barulhentos, exaltados e cheios de razão. Eram festas memoráveis - não que fossem grandiosas, nada disso - pelo prazer de reunir todo mundo na sala, sentar no chão, enrolar-se na bandeira e gritar goooooooool aos pulos e abraços: não tem preço e dispensa requinte. Tinha pipoca, refri, comida de milho e amizade - e isso era tudo do que precisávamos, além de um bom ataque e uma defesa confiável. Infelizmente, os mundiais dos anos 80 e o de 1990 deixaram também lembranças bem amargas. E eu lamento mesmo que a gente nunca tenha comemorado um título mundial lá em casa, porque imagino que a festa teria sido algo maravilhoso para guardar na memória. Em 1994, quando fomos tetra, eu já não morava mais com meus pais e comemorei na casa de amigos.

Mas, estranhamente, não é essa comemoração - nem as outras mais recentes, nem mesmo a alegria de ter ido ver o Brasil jogar na França, em 1998 - que tem ocupado minha cabeça esses dias. As lembranças que têm me visitado a toda hora são aquelas das copas passadas em casa, lá em Esperança, sofrendo junto com toda a família a desilusão de ver a França nos eliminar nos pênaltis bem no dia do meu aniversário; o Paulo Rossi da Esquadra Azurra nos massacrar com três gols; ou, horror, horror, a Argentina nos mandar embora com um golzinho chorado do Cannigia. Talvez pela idade que eu tinha à época, quando tudo parecia maior e mais definitivo, aquelas derrotas eram mais intensas. Porque quando o Zidane acabou com nossa festa em 1998, ou quando tropeçamos neles de novo na última copa, honestamente, dei de ombros e perguntei "onde é a próxima?". Mas lá nos anos 80 eu curtia o luto mesmo. E, ai, como pesava.

Mesmo assim, um dia passava. E aí eu guardava na memória as canções que tinham embalado nossos sonhos de campeão por várias semanas. E uma dessas canções simplesmente não quer desgrudar da minha cabeça esses dias. E cada vez que meu filho embala o "gool de placa, de triveeela.." eu me vejo cantando "dá-lhe, dá-lhe bola, meu canarinho vai deixar a gaiola... vai pra Espanha de mala e viola, vai dar olé à espanhola e rola, e rola, e rola, rooola essa booola..." Ah, que saudades!

Sou muito grata à minha mãe por ter deixado a casa virar uma bagunça cada vez que o Brasil entrava em campo. Jamais esqueci, jamais vou esquecer. E agora vou me encarregando de fazer o mesmo por aqui. Vai ter cachorro-quente, muito barulho e bebida derramada na sala na hora do gol. Vai ter calor humano, telefonemas para a minha mãe no intervalo do jogo, gargalhadas e momentos de tensão, ui! Vai ser bom, muito bom. O tanto que durar. Tomara que seja um mês.

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Da série "Adoro Copa".

6 comentários:

Angela disse...

Olha, para nos que conhecemos D Bernadete sabemos o que significa o evento de ela deixar a casa virar uma bagunca viu? Viva! E olha, as copas durante a infancia para mim tambem foram aumentadas e a da Espanha a mais marcante na minha memoria.

Ja esse ano estava preocupada com o que eu estava me tornando. O calor de 28 graus estava me torrando, nao fiquei de muito banzo na epoca do carnaval e nao estava nem ai para a copa. Minha cabeca ate que estava na Africa, mas era devido a familia de refugiados que estavam para chegar. Do Congo, que tem experimentado o maior numero de exterminacoes do planeta desde a 2.a guerra mundial. A populacao tem sido morta, estrupada, criancas forcadas a ser soldados. A mae dessa familia sofreu estrupo, mae morta no mesmo evento, filha do estrupo eventualmente mantida pela familia do agressor, mas recapturada por ela antes de sua fuga ao campo de refugiados no Kenya. E estavam chegando aqui na quinta, gracas a doacao de muitas horas do meu vizinho para aprovar a papelada em um ano. Passei meus preciosos fins de semana nao brincando com minhas criancas mas escavacando a casa inteira limpando e restaurando bens a ser doados. Roupas de bebe, cortinas, luzes, talheres, comida, colchao, roupa de cama, cadeiras. Que copa que nada. Mas ai chegaram, parte I da missao cumprida, eu assistia televisao e vi o documentario sobre o processo para adquirir-se o direito de jogar futebol na ilha Robben. Politica, direitos humanos e o esporte se juntaram em um e o futebol ganhou um sentido mais especial que eu ainda nao tinha captado ate entao... Nessa terca feira vou estar grudada!!!!!

Caso me esqueçam disse...

ai, rita, eu tou numa tristeza soh porque essa eh a primeira copa que eu passo fora do brasil e, acredite, eh chocante! ninguem faz festa, ninguem se importa. eu moro com dez pessoas que simplesmente nao se importam, meu deus! aqui em casa tem uma televisao que eh ligada uma vez a cada seis meses. nao vou assitir o jogo no brasil naquela porcariazinha. e, como ninguem aqui se importa, vou pra um bar com uma brasileira que eu nunca vi na vida soh pra curtir esse jogo. espero ao menos que o resultado seja positivo.

atravessar uma copa sozinha, ainda vai, mas atravessar na derrota, eh foda. que virgem abencoe esses jogadores hehehe

beijoooo!

Rita disse...

Nossa, Anginha, fiquei com o coração todo apertado lendo seu comentário. Foi um baldinho de água fria, mas vamos em frente. Talvez eu me refira ao seu comentário em um próximo post.
Bjs!

Luci, querida, que coisa chata! Olha, tomara que sua parceira de jogos seja gente finíssima e que vocês contagiem uma galerona com muitos gritos de gol!
Vou lembrar de você amanhã na hora do jogo (é uma forma de aumentar a torcida daí!).

Beijos,
Rita

Angela disse...

Nao Rita, considere um balde de agua quente. Minha comunicacao eh que nao deve ter sido eficaz (effective?) :) Equanto estava preocupada em me unir com outros para ajudar alguem, a sequencia me lembrou que a uniao de pessoas podem ocorrer por varios motivos, o esporte sendo um. Na realidade o documentario me inspirou, e no processo lembrei do que me fazia vibrar com o Brasil nas copas: garra de jogadores nascidos em condicoes bem piores do que muitos dos adversarios, mas mesmo assim os superando a nivel mundial. Provando que sonhos regados de organizacao, estrategia, disciplina e pratica podem levar cada um de nos longe. Beneficial termos isso em mente, nao? Lembrei tambem de um fato avulso, de quando conheci um amigo chamado Lasse, da Noruega. Por causa do futebol, no primeiro momento do nosso encontro nao eramos dois estrangeiros em terras tambem estrangeiras, mas instantaneamente eu era uma irma. Se era brasileira, entao eramos irmaos no futebol. O esporte como um agregador... Deu??? :) Beijao! (desulpa o longo commentario. vou tentar ficar um pouco mais caladinha por uns dias para compensar!!)

Borboletas nos Olhos disse...

Oi, é a primeira vez que visito seu blog e que prazer! Chorei - um choro bom, de saudade, de lembrança, de ternura, e ri, na mesma medida. Sua estrada é linda e inspiradora...se não se importa, partilharei um tantinho da caminhada vez em quando.

Rita disse...

Oi, Anginha! Não cala não!! Pode tagarelar à vontade, adoro todos seus comentários, você sabe. Aliás, você é minha eterna convidada para fazer um guest post qualquer dia que der na telha. Quanto ao futebol, não tem jeito, tá no nosso sangue. Quase tive um treco hoje e foi só o primeiro jogo.

Beijão!

Borboletas, seja muitíssimo bem vinda, venha sempre e fique inteiramente à vontade. Vou adorar tê-la por aqui, caminhando junto. Seu comentário me deixou muito feliz, acredite. Muito obrigada, viu?

Beijos,
Rita

 
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