Não tem graça nenhuma

Ando me lembrando de uns comerciais muito engraçados que foram veiculados durante a Copa de 2006. Lembro que eu morria de rir com um em que a trave se mexia para os argentinos errarem o gol; em outro, o Maradona, não sei por quê, usava a camisa da seleção brasileira; etc. É meio uma tradição essa coisa de comerciais tirando onda com nossos hermanos - imagino que eles façam o mesmo por lá, dando boas risadas às nossas custas. Acho engraçado, inofensivo, parte da "rivalidade" que, vamos combinar, enfeita nossas Copas. E todo mundo sabe que ninguém odeia a nação Argentina, nem seu povo, apenas a sua seleção que se acha o último biscoito do pacote. Mas não gostei daquele comercial de cerveja em que a latinha chama o argentino de "maricón".

Bom, se eu parecer uma chata de galocha agora, paciência, quero muito falar disso. E até sei que estou escrevendo o óbvio, mas se esse tipo de piada faz tanta gente rir, é sinal de que ainda precisamos repetir uns mantras por aí. Então vamos lá.

Fazer piadas e chacotas tendo homossexuais como alvo alimenta o preconceito, de forma veemente e perigosa. Não é uma coisinha inofensiva, neura dos defensores do politicamente correto. Não estou escrevendo sobre o politicamente correto, estou tentando defender um ponto de vista no qual acredito e que tomei como ponto de partida para minha odisseia particular voltada ao combate ao preconceito.

Um adulto bem resolvido, senhor de suas opções, feliz com suas orientações, dono do seu nariz, ri e dá de ombros, percebe a insignificância do pensamentinho retrógrado e arrogante, e segue seu caminho, seja ele qual for. Mas um adolescente que está começando a lidar com sua sexualidade e se descobre homossexual, por exemplo, pode experimentar a piada boba de modo bem diferente. Ele vai perceber ali, nas risadas da família e dos amigos, que sua "condição" é motivo de chacota, algo a esconder, camuflar, superar. Que ele não é normal. Rir de piadas que têm homossexuais como tema é seguir vida afora praticando bullying, um tipo de bullying que atinge gente grande também, de uma maneira nada suave. E expõe nossa cegueira e nossa arrogância.

Então detesto essas piadas pelo que elas têm de mais cruel: a capacidade de catalisar crises, alimentar neuroses, fomentar o preconceito, perpetuar a arrogância de quem se acha melhor que os outros porque acredita ser "do padrão". Conheço alguns casos patológicos que nasceram da não aceitação da sexualidade; conheço pessoas que enfrentam conflitos absurdos diante da vergonha gerada e alimentada pelo preconceito. É a tristeza que nasce como fruto de um discurso repressor. Não preciso falar dos homossexuais felizes, esses dão de ombros para esse papo chato. Mas eu queria, na boa e sem rancores, convidar todo mundo que se deleita em usar palavras como "boiola" ou "viado" para xingar, ofender ou "tirar onda",  para pensar no mais óbvio e difícil dos exercícios: e se fosse você ali, no lugar do outro? Ou, pior, se fosse seu filho ou filha? Não teria muita graça, né? Não tem graça nenhuma.

Nossas redomas às vezes nos impedem de enxergar que não raro pessoas são assassinadas simplesmente por causa da orientação sexual. Então não dá pra contribuir com essa mentalidade.. É como comentar sobre o absurdo dessa violência toda que toma conta das ruas enquanto fumamos um baseado, como se na outra ponta do baseado não estivesse o revólver apontado para a nossa cara. Com a homofobia é assim: a gente ri do "sai pra lá, seu boiola" para que muitos adolescentes cresçam complexados, frustrados, envergonhados. É verdade que muitos - porque a humanidade tem seu lado bom - superam as crises e descobrem mais tarde que suas vidas lhes pertencem e aprendem a dar de ombros; mas muitos outros não. E eu não quero contribuir com isso.

Quer xingar? Chama de babaca. Porque ser homossexual não diminui ninguém. Pequena é a cabeça de quem se acha melhor.

Aquela latinha é muito babaca.

UPDATE EM 26.07.2010: Veja a punição.

10 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Aquela latinha é muito babaca(2)

E seu blog é cada dia mais encantador e instrutivo pra mim...

Iara disse...

Pra ser muito honesta, eu demorei horrores pra entender a latinha falando "maricón", porque nas primeiras vezes que o comercial passou, eu já estava dando tanta risada nessa hora, que passava batido. Aqui no trabalho estávamos falando da propaganda um dia e alguns dos colegas também não tinham ouvido o tal "maricón".
Não sei se isso deixa as coisas melhores ou piores. Porque se de um lado (ufa!) essa não é a base do humor dela, e sim a nossa rivalidade, por outro, pra quê colocar algo tão desnecessário?
Enfim... eu concordo muito com você. E eu acho que esse povo que se queixa da suposta patrulha do politicamente correto na verdade não tem talento algum pra fazer humor. Eu tava pensando nisso mesmo outro dia, na instituição do bullying, da ofensa, como "piada". Desses carinhas novos do Pânico e do CQC que acham que engraçado é chamar a Preta Gil de gorda.
Sabe o que é pior? Eu tava feliz da vida com as últimas propagandas da Skol. Porque eu tenho quase certeza de que devem ter mudado de agência, já que o machismo explícito que marcou a comunicação das campanhas da marca durante anos tinha dado uma bela trégua. Sinal de que comemorei cedo de mais, infelizmente...

kaka disse...

Por estes motivos todos é que fico louca da vida com as políticas públicas deste país em relação a mídia, o cinema etc... Não há regras, não há limites para o capitalismo selvagem...vale tudo e ninguém faz nada!Parabéns Rita! Você falou tudo!!!

Haline disse...

Oioi, confesso que nem reparei o tal maricon. Qq coisa que propague xingamentos que não são xingamentos, mas sim preconceitos, é terrivel. O que mais vemos durante o jogo é gritarem "não jogou nada, é um viadinho". Oi? Não seria ruim de bola? Pessimo jogador?

Daniela disse...

Eu só ligo a tv pra ver o pré-jogo, o jogo e o pós-jogo, então não vi a propaganda.

Mas eu tenho 3 grupos de Lingua Portuguesa (além dos de Espanhol) então estive trabalhando um projeto com eles sobre diversidade racial, de gênero, de orientação, de origem, etc, etc. Foi MUITO produtivo o negócio, superou minhas expectativas...

O lenga lenga é pra dizer que, pá, acabo de incluir esse texto aí na minha prova bimestral. Espero que você não se importe porque tá lá o crédito: Rita Paschoalin.

Sinara disse...

É isso mesmo. A gente vai dando risada sem problematizar as coisas e, quando percebe, já contribuiu um monte para preconceitos variados: de cor, raça, classe social, sexualidade... Aparentemente inofensivas, as propagandas entram em nosso lares e ficam! Jingles, frases de efeitos e, com elas, o que representam. Bem colodado, Rita.
Mas, devo confessar, é muito bom dar risada dos hermanos... rsrsrsrs
A propósito, tenho um amigo argentino por aqui que, por sinal, vem assistir a um jogo do Brasil comigo! rsrsrsrs Já avisou que torcer pro Brasil jamais, pode??? :-)

Rita disse...

Oi, Borboleta! Obrigada, querida. :*

Oi, Iara! Meu, falando em humor ruim, o que é aquele quadro do Marcelo Madureira no Fantástico? Tive o azar de ver dois, não acreditei! É PÉSSIMO. Aproveitamento zero, não ensina nada, não é engraçado, nada nada nada nada. Credo. Beijo, querida.

Oi, Kaka. Obrigada, linda.

Oi, Haline! Bem vinda, viu? Venha sempre. Então, saco isso né? Sei que muita gente entra na onda sem nem se dar conta de que pode estar sendo bem indelicado com outras pessoas, mas dou o toque, quando posso. Mas, na maioria das vezes, é puro preconceito mesmo. Bjinho!

Dani, querida, obrigadinha, linda! Você tem de indicar é o seu blog, de textos maravilhosos! Agora fiquei fofa. :-P Beijão!

Poxa, Si! Vc tá pagando promessa? Vai ver o jogo ao lado de um argentino?? HIHIHI. Abraços pra ele. Beijão! ADORO ver você por aqui, venha sempre, viu? Saudades!

Rita

Vivien Morgato : disse...

Pois é, outro dia um amigo defendia a pueridade dessas brincadeiras ( brincadeiras?) mas insisti que SER PALAVRÃO é sempre complicado, bem resolvido ou não.
Sua "Vivien"!!!!

L. Archilla disse...

Ótimo texto, Rita!! Milagre não ter aparecido ninguém pra te chamar de patrulheira ainda. Mas concordo plenamente.

Ah! E não sei se já comentei no meu blog e vc já leu, mas viajei pra Floripa com amigos (ah, é, vc é daí, né?), onde tem muuuuuuito argentino de férias (e vc sabe), e fiquei boba sobre como meus então amigos (dei uma boa afastada deles depois dessa viagem, e esse foi um dos motivos) levavam a sério o lance de odiar argentino! Era só ouvir alguém falando espanhol que fechavam a cara. Quando a maioria num lugar era argentino, a gente tinha que ir embora, ou então era ficar o resto do dia ouvindo reclamação. Certo dia, um argentino simpaticíssimo puxou papo com a gente. Foi o único que se comunicou diretamente conosco. Sabe o que eles falaram? "Há exceções!"

Sem falar que esse mesmo pessoal foi embora de uma praia gay reclamando que tinha "muito viado".

Rita disse...

Oi, L'Archilla! Que bom te ver aqui! Olha, acho uma pena vc ter parado com seu blog, viu? Ou será que você voltou e eu não estou sabendo? Eu era "assinante" do seu blog, mas retirei da minha lista quando você parou. Vou lá ver.

Já tive amigos argentinos (não vejo há séculos) e outros amigos meus perguntavam "como você consegue", sem nem conhecer as pessoas de quem estavam falando. Não dá, né? Na minha cabeça está muito clara a divisão futebol/povo. Uma coisa é eu festejar hoje (como estou fazendo agora) a derrota da seleção argentina (como muitos deles certamente celebraram a nossa ontem); outra bem diferente é eu deixar de ser amiga de alguém porque esse alguém nasceu do lado de lá da fronteira.

Adorei vê-la aqui, espero que venha sempre! Obrigada pela visita, beijos!
Rita

 
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