Gol!

 

Hoje acompanhei, no twitter, parte de uma conversa interessante sobre a adesão do Kaká à campanha iniciada pelo ator americano Ashton Kutcher. Alguém observou que certa Fulana tinha rechaçado o mote da campanha (Real men don’t buy girls - ou homens de verdade não compram garotas), alegando que a frase trazia em si certa falta de respeito às prostitutas. O papo seguiu oscilando entre a relevância da campanha e aspectos sociais vinculados à prostituição (como falei, a discussão tava boa mesmo, bem articulada e tal). Meti meu bedelho dizendo que achei superpertinente o Kaká entrar na campanha agora, durante a Copa, quando ele está em evidência, já que anda servindo de modelo e inspiração para muitos meninos mundo afora. É que acho que, se queremos combater condutas e posturas machistas, a formação de nossos adolescentes tem de se manter na pauta.

Tenho pensado muito nisso desde que me tornei mãe. Acho um desafio imenso criar meus dois filhos, um menino e uma menina, semeando naquelas cabecinhas, desde cedo, que o respeito ao próximo deve ser ingrediente universal em nossas relações, independentemente de gênero, origem, crenças, etc. Alguém pode perguntar: ué, mas não é o óbvio do óbvio? A ideia é, certamente, mas o contexto social às vezes atrapalha pra caramba. Porque as propagandas estão aí, o discurso está aí, o mundo é isso aí que vemos todo dia e muitas vezes a cena não é boa. E não me parece coerente esperar que a violência contra a mulher acabe (esperamos que toda violência seja combatida, mas estou falando de machismo aqui), por exemplo, enquanto ensinamos a nossas meninas que elas devem ser um poço de candura ao mesmo tempo em que aplaudimos (ou fazemos vista grossa para) as atitudes mais, digamos, “viris” dos meninos. Porque essa aparente obviedade às vezes toma rumos indesejados e, se o ingrediente respeito não estiver ali, candura vira submissão, enquanto virilidade vira sinônimo de brutalidade. E não é assim que a banda deveria tocar.

Daí que o Kaká falar, agora, quando todos estão ouvindo, que não é legal comprar garotas (tudo bem, podemos problematizar o conceito de “homens de verdade”, mas ainda assim) pode, no mínimo, levantar a discussão entre a gurizada (e, espero, entre seus pais, seus educadores, seus quem quer que esteja antenado), contribuindo um pouco para, por um lado, desmitificar a crença de que o homem é um ser tão descontrolado que pode (e deve) apelar para qualquer recurso a fim de satisfazer suas “necessidades” e, por outro,  questionar ideias que reduzem as meninas a objetos de desejo.

Porque, né, os adolescentes adoram o assunto - e episódios exacerbados de condutas machistas não são, infelizmente, casos raros entre a meninada.

Ainda é cedo para esse papo rolar aqui em casa (meus filhos ainda estão na primeira infância), a vida ainda está mais simples por aqui, mas eu achei que o Kaká fez um gol bacana. (Já que não faz no campo, né... ôôôô, maldade...)

6 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Cara Rita, agradeci lá, como agradeço aqui, suas palavras tão gentis. Gosto imenso das suas visitas. O meu filho tem 13 anos e eu já estou passando pelas dificuldades de imaginá-lo em relações afetivas e tentando manter a calma e transmitir valores éticos e construtivos. Dureza...

Caso me esqueçam disse...

mas as vezes penso que ser decente tah fora de moda, rita. cresci vendo alguns dos meus amigos tratarem mulheres como se fossem bichos. e tipo, na nossa frente. ex: "peguei, eh muito boa, chupou aqui, chupou ali". dai, quando aparece um cara que nao comenta nada, eh logo chamado de "viado". como eh que se ensina ao filho a ser legal entre os amigos e, ao mesmo tempo, ser um homem decente? porque, nessa fase, eh todo mundo inseguro. tem que entrar na onda.

olha um exemplo que aconteceu mes passado: meu melhor amigo tem uma banda e viajou com ela pelo nordeste. ele tem uma namorada linda, tah com ela ha um ano. ele queria que ela fizesse a turne com eles, mas nenhum outro integrante da banda (todos com namoradas) aceitou. resultado: meu amigo ficou sendo chamado de otario durante toda a turne pelo simples fato de querer estar com a namorada. porque, segundo ele explicou, banda que faz turne trai a namorada ("inclusive, tem fulano que tem esposa e filha e tava com outra menina"). nao sei que tipo de cultura babaca eh essa. mas eh assim: eh pra ser legal? tem que meter chifre na namorada.

eu poderia simplesmente pensar que gente que pensa assim nao deveria ter atencao da gente, mas sao ESSAS pessoas que reproduzem o machismo, preconceito etc etc. eu gostaria muito de simplesmente ignorar e pedir pro amigo procurar outra banda, pro meu filho procurar outros amigos, mas nao dah. uma hora ou outra, eles aparecem.

Luz! disse...

Hmm, Rita...

você de cara já me abriu outra perspectiva... porque minha primeira reação com certeza seria pensar nos aspectos problemáticos da tal campanha. tipo o "homem de verdade", e sobre o trato com as prostitutas. mas, realmente, é interessante esse ponto de vista de que Kaká, enquanto jogador-ídolo do futebol, é referência pra tantos meninos que estão se formando nessa sociedade dominada por padrões e valores machistas...

concordo que deve ser duro para os adolescentes lidarem com esse mundo, em que a insegurança, como disse a moça do comentário acima, os pressiona para que reproduzam os comportamentos valororizados como próprios do "macho". sendo assim, posicionamentos que vão na direção contrária disso, devem mesmo ser bem vindos!

foi bom ver as coisas por esse ângulo!

um beijo!

:)

Rita disse...

Ois!

Borboleta, de nada, querida. Adoro sua escrita inspiradíssima!
Então vc tem um filho adolescente! Trocaremos figurinhas no futuro... :-)

Luci, esses exemplos que você mencionou são horrendos e me entristecem muito. Mas só reforçam minha convicção de que precisamos discutir o machismo com os adolescentes. Ninguém acorda e se descobre machista da noite para o dia. A coisa é plantada e cultivada ao longo da formação da pessoa... não tem outro jeito.
Beijo!

Luz, adorei seu comentário. A expressão "homem de verdade" é bem ruinzinha mesmo, escolheram mal. Mas o ponto de fazer a gurizada discutir o assunto vale a pena, né?

Beijo, queridas, obrigada pelo papo!
Rita

Angela disse...

Rita, vou baixar o nivel da conversa do jeito que sabes que sou mestra: Tem sido uma loooonga semana, e estou tao desnorteada eh que quando li real men don't buy girls eu pensei em homens de verdade nao usam diamantes, carros, etc como modo de fisgar mulheres. Nao precisa dizer mais nada ne. Acho melhor ir dormir. Passo aqui outro dia :)Beijao!

Rita disse...

Oi, Anginha. Espero que esteja tudo bem aí, já estava imaginando o porquê do teu sumiço.

Olha, sua observação é superpertinente mesmo! Será que a ideia da campanha não é essa, também? Porque eu fiquei sabendo dela pela polêmica toda quando a moça da Daspu reclamou de preconceito contra as prostitutas. Então já parti do pressuposto de que o lance era esse mesmo, assim como o pessoal da tal convversa no twitter. Vai ver que desnorteado estamos todos nós, e você foi na mosca. A conferir. Seeeeja como for, a discussão sugerida permanece válida! :-)

Beijos!

Rita

 
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