A fila

 
Achou a capa melancólica? Espere até abrir o livro...
 
Houve um tempo em que eu me negava a abandonar um livro, uma vez que tivesse iniciado a leitura. Fosse bom ou ruim, seguia a coisa até o final, ainda que, por vezes, tivesse a nítida sensação de estar perdendo um tempo danado. Depois passei a achar isso uma enorme bobagem e ignorei a suposta sensação ruim gerada por deixar algo pela metade e passei a valorizar mais meu tempo e a largar de lado qualquer livro que não me cativasse depois dos primeiros capítulos ou, em alguns casos, das primeiras linhas. É bem verdade que continuei fazendo alguns sacrifícios aqui e ali - li um romance da Marian Keyes inteirinho (argh!) - mas, no geral, não vejo mais problema algum em admitir que simplesmente não quero continuar uma leitura.
 
Mas uma mania foi substituída por outra e agora vivo começando vários livros ao mesmo tempo. Começo um, dou uma espiadela em outro, uma folheada naquele que anda na mesa de cabeceira há um tempinho, até que a coisa decola e sigo até o final com o escolhido da vez. Tudo ansiedade. Foi-se o tempo em que eu podia me largar no sofá e esquecer o mundo com a cara enfiada nas páginas. Agora não, minhas leituras duram semanas ou meses, leio poucas linhas por dia e essa história de ficar espiando as primeiras páginas de vários livros nada mais é do que a dor de cotovelo por não mais poder me entregar a eles como antes.
 
Porém quem persevera chega lá e hoje terminei de ler o livro que comecei a ler em maio - yupiiii! Aleluias, aleluias. O blog tem um pouco de culpa nisso, claro, mas tenho aprendido tanto com a blogosfera que não pretendo lutar contra ela, não agora. Sempre haverá as noites e os finais de semana em que o blog ficará aqui, abandonadinho, enquanto converso com o papel.
 
Falling leaves estava esquecido na velha estante do primeiro apartamento em que ficamos hospedados em Londres. Ninguém sabia a quem pertencia, nosso landlord disse que não fazia a menor ideia de como aquilo tinha ido parar ali e que ele não tinha mais contato com os antigos inquilinos. E que, por favor, eu ficasse com ele. Thanks. Parei de ler Wuthering Heights, da Emily Brontee, que tinha começado a ler por lá, em abril, depois de interromper a leitura de A Viagem do Elefante, do Saramago... (não falei?)
 
Pois bem, Falling Leaves: o livro conta a história real da chinesa Adeline Yen Mah, a filha indesejada em uma família contaminada pelo ódio, o preconceito e a inveja. Falling Leaves é uma daquelas histórias em que todo episódio de sofrimento é seguido por outro, a ponto de nos fazer voltar à capa algumas vezes só para conferir se estamos mesmo lendo o relato de fatos reais. Só para vocês terem uma ideia, a mãe da protagonista morre por complicações no parto após seu nascimento, seu pai e seus irmãos a desprezam e sua madrasta é a encarnação do demônio - juro por tudo, gente, a mulher era um praga. A história de Adeline nos lembra que existem diversas formas de se abandonar uma criança - no caso dela, o abandono se deu no seio de sua própria família, ao longo de uma infância permeada de crueldade. É uma história triste, de uma menina que procurou o amor de sua família a todo custo, encontrando sempre um muro de frieza, indiferença e malícia. Mas também é a história de uma pessoa forte, amorosa e capaz de estender a mão, sempre, ainda que aquele que pede sua mão tenha cuspido em seu prato por décadas e décadas. Ou seja, é um livro que mostra que o mundo não é justo.
 
Agora que vocês já estão com o astral lá em cima, vamos à novidade do blog. Vou deixar aí do ladinho a fotinha do livro que estou lendo no momento. Não é necessariamente uma indicação, já que o fato de eu estar lendo não significa que estou gostando a ponto de recomendar. No caso de Falling Leaves, por exemplo, o livro é bom, mas não empolga. Para mim, valeu um pouco pelo background político e social da coisa, já que eu não sabia absolutamente nada da história da China - e agora, pelo menos, tenho uma vaga ideia do que foi a Revolução Cultural, por exemplo. Seja como for, a ideia é mesmo me empurrar pra frente: quem sabe vendo a carinha do livrinho aí do lado, eu não desligo o computador mais cedo e faço a fila andar mais rápido? Depois eu conto se funcionou.
 
E após a agonia sem fim da vida de Adeline, vamos ver se o Rubem Alves me conta umas historinhas mais amenas.

5 comentários:

Luz! disse...

Rita!

eu sou, também, de abandonar alguns livros. e nem cosegui, ainda, me desprender da culpazinha que fico sentindo quando o faço. com alguns livros nutro uma relação de resistência imensa. e é incrível, porque um deles por exemplo é de um dos meus autores prediletos (eduardo galeano) e simplesmente não vai pra frente.

ai, ai. dá uma agonia ficar sentindo essa pendência a cada vez que o vejo na estante! rs

adorei o post!

eu acabei de ler ontem o "A Trégua", de Mario Benedetti. É muito bom. Estou até agora afetada pelo desfecho.

Um beijo. Boa semana! :)

Borboletas nos Olhos disse...

Lindo post e quanta coragem! Eu começo a ler vários, também, mas não abandono nenhum. Eu já compreendi que devia aproveitar melhor meu tempo, mas ainda não consegui ficar sem saber o destino de tantas letras...

Caso me esqueçam disse...

nossa! quando comecei a ler o post, lembrei logo de wuthering heights, porque ja tentei ler esse livro duas vezes e eu parei justamente na metade (que coincidencia! ou nao...). eu fico com tanta curiosidade pra terminar! mas o troço desanda de uma forma insuportavel. como eh dom casmurro. eu amo os dois primeiros tercos, mas depois, nao consigo. dai, quando coisas desse tipo acontecem, eh adeus.

Lud disse...

Ritinha,
é para esses casos é que serve... a leitura dinâmica! Aquela leitura rapidíssima que é um passar de olhos nas páginas, que só pára se se deparar com algum episódio interessante ou com o último capítulo.
Você acaba o livro em quinze minutos, fica sabendo o que acontece no final, pode falar dele com a maior autoridade (he), e tudo isso sem ter gasto preciosas horas ou neurônios!
Beijos,
Lud

Rita disse...

Ois!

Luz, vi você comentando no twitter sobre A Trégua e fiquei bem curiosa. Quanto ao Galeano, relaxe, a hora dele vai chegar. O lance de não sentir mais culpa veio com a leitura de alguns livros ruins. Assim: ah, não; não vou mais perder meu tempo desse jeito. Agora me permito. Dou uma mordida, se for bom, como tudo. Se não, faço como criança birrenta e empurro o prato. :-) Bjs!

Borboleta, tudo passa pela falta de tempo. Não dá, não dá. Pre-ci-so selecionar. Claro, nem sempre farei as escolhas certas (tenho certeza de que A Viagem do Elefante vai me dar muito mais prazer do que o livro da Adeline, p.ex.), mas viver é assim, né? Bj!

Luci, só larguei Wuthering Heights porque fiquei muito curiosa com o início da história da Adeline, mas até que estava gostando. Agora, falando muito sério: não desista de Dom Casmurro. Vale muito a pena, muito muito muito. Vai lá. Bj!

Lud, sabe que nesse último curso que fiz descobri que sou uma leitora lenta? Os testes foram pro inglês, mas sei que os resultados servem para minhas leituras em português também. Sempre desconfiei que demoro muito para ler alguma coisa, mastigo as frases, talvez. O Ulisses devora um livro em poucas horas enquanto preciso de bem mais tempo. É engraçado isso, não acho que a leitura lenta tenha me prejudicado, nos estudos, p.ex., mas eu bem que gostaria de conseguir ler mais rapidinho. Vou ver se arrumo tempo (tipo, de madrugada) para fazer os exercícios que o professor me ensinou. Quem sabe.

Beijocas, suas traças!
Rita

 
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