A cafeteira, o termômetro, o sapato e a mala


 
Certa vez, quando passávamos férias na Pensilvânia, Ulisses comprou uma máquina de café expresso. Eu lamentei um pouco aquele trambolho todo (teríamos que fazer aquilo caber na mala, na volta para casa), já que não sou muito fã do expresso, mas fiquei feliz por ele, que adora a coisa. Chegando à casa dos nossos amigos, ele e nosso anfitrião foram testar a novidade. Fracasso total. O chafé que a geringonça fazia passava bem longe do que o Ulisses esperava e foi uma frustração sem tamanho. Só para garantir, Ulisses resolveu experimentar vários dos sachês que vinham de brinde junto com a máquina - vai que era o tipo do café desse ou daquele sachê, e aquele outro seria melhor. Mas nada, tudo uma porcaria.
 
Inconformado em trazer para o Brasil uma máquina de chafé, Ulisses voltou à loja para tentar uma troca. Tentar nem é o termo, porque a coisa foi tão simples que nem parecia uma loja, parecia uma central de escambo mesmo. Tipo assim:
 
- Oi, eu queria devolver essa máquina de café expresso, mas eu já usei uns sachês.
 
- Tudo bem. O senhor quer reembolso ou outra mercadoria?
 
- Reembolso, por favor.
 
- Tudo bem. Qual o motivo da devolução, senhor?
 
- Ah, não gostei do café, fraco demais.
 
- Entendo.
 
Pronto. Máquina lá, crédito aqui, acabou-se o problema e a loja recebeu de volta a máquina com vários sachês a menos, simplesmente porque o cliente não gostou do café. Não havia nada de errado com a máquina, funcionava perfeitamente, só não sabia fazer café.
 
(Fastforward de semanas: zzzuuuuuuummmmm)
 
Na mesma viagem, trouxemos para casa um daqueles termômetros com dois sensores. Aquele item absolutamente dispensável, mas bem legal porque nos permite saber qual a temperatura dentro e fora de casa, bom para os dias em que faz 19 graus dentro, mas 9 lá fora. Então. Semanas depois, o treco parou de funcionar, aaaahhhhhh, que lástima. Ulisses então acessou o site do fabricante do produto - não o site da loja onde tínhamos comprado a bugiganga, mas o do fabricante mesmo - e contou a historinha: eu comprei isso em tal lugar, tal cidade, mas pifou. Assim, bem simples. Imediatamente o fabricante respondeu pedindo nosso endereço. Tá. Dias depois, recebemos em casa outro termômetro igual, novinho em folha. Assim. Sem comprovação da compra, sem contato com a loja, nada. Não foi preciso enviar cópia de nada para lugar nenhum, ou enviar o produto quebrado, nada. Aliás, o tal quebrado jaz em alguma gaveta aqui de casa até hoje.
 
Fastforward de meses (ou anos, não lembro): zzzzzzzzzzzzuuuuuuuummmm (saudades de Lost, gente, deixa)
 
Certa tarde fatídica, comprei um par de sapatos em uma loja cujo nome começa com A e termina com ezzo, aqui em Florianópolis. Na primeira vez em que usei o sapato, que, na verdade, era um tamanco com salto de madeira, duas lascas de madeira se soltaram da parte posterior de um dos saltos. Descolaram-se, assim, sem mais nem menos;  não houve pancada ou tropeçada ou queda, eu não bati com o tamanco na cabeça de ninguém. Simplesmente o troço se desmanchou. Voltei à loja, feliz e serelepe, mostrei o estrago, contei minha história. Tá. A vendedora:
 
- Nós precisamos ficar com o sapato e enviar para nossa perícia que vai emitir um parecer e averiguar se o dano foi causado por mau uso do produto pelo cliente. Mas, olha, já vou adiantando pra senhora, é muito difícil que essa troca seja feita, bla bla bla.
 
- Tá. Vamos tentar, mesmo assim.
 
Semanas depois, recebi um telefonema da loja, voltei lá e recebi meu sapato estragado de volta e um singelo "sinto muito". Chorei minhas pitangas, falei que era um absurdo, e eu era cliente da loja há séculos, chuif, chuif. Sinto muito. Mas e o interesse da própria loja pela satisfação do cliente, chuif, chuif. Sinto muito.
 
Escrevi para o SAC da A...ezzo e recebi uma resposta do tipo "vamos estudar o seu caso". Vários dias depois escrevi de  novo e recebi a mesma resposta - eu estava conversando com uma máquina. Desisti e passei a usar a única arma possível, o boicote. 
 
Fastforward (último, juro): zzzzzzzzzuuuuuuuuum
 
Minha mala novinha quebrou na volta pra casa. Eu paguei caro pela mala porque acreditei na conversa de que aquele era o melhor material do mercado, superresistente e coisa e tal. Sei. A mala chegou quebrada. Como deixamos para reclamar junto à companhia aérea um dia depois de chegarmos, recebemos um "sinto muito", pois teríamos de ter reclamado imediatamente, logo após a retirada da mala da esteira. Bom, munida de minha convicção de que a propaganda em torno do material da mala me levou a pagar mais caro por ela, voltei à loja onde havia comprado a dita cuja. Levei a mala, que ficou "retida" para perícia. Na semana passada a loja me ligou e recebi outra mala, igualzinha, novinha em folha. Yes! Ah, a loja começa com Le e termina com iche. A marca da mala começa com S e termina com ini.
 
O que eu queria dizer com essa ladainha toda é que a sensação de que a nossa palavra vale alguma coisa não tem preço. Nos casos da cafeteira e do termômetro nossa palavra foi tudo de que precisamos para sermos tratados de forma respeitosa. No caso da mala, apesar da nítida hesitação da vendedora em receber o produto quebrado no dia em que procurei a loja, a postura do fabricante foi também uma atitude de respeito. No caso do tamanco, o fato de nunca ter recebido uma mensagem sequer do SAC da marca me mostrou o quanto, na escala de valores deles, o lucro está bem acima da satisfação dos clientes com a qualidade do produto. Esses episódios são, para mim, pequenas amostras de que o mundo poderia ser um pouco melhor. A sensação de ser tratado com respeito, atenção e até carinho (ah, o termômetro novo mandado para nossa casa, vindo lá da caixa prego, foi um ato carinhoso, foi ou não foi?) deveria ser a mais comum de todas. Mas não é assim, infelizmente, e receber a mala nova me deixou muito surpresa. E, principalmente, bem feliz por colocar na lista de trocas felizes uma ocorrida em solo brasileiro, nem que seja só para fugir dos clichês "ai, o Brasil..." - é sempre bom poder puxar a brasa boa para a nossa sardinha também. 
 
Por fim, a França saiu da Copa, olha só, e eu não sabia como encaixar esta frase neste post, então vai assim mesmo, em um parágrafo à parte. Au revoir.

10 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Gostei de tudo, mas especialmente da idéia de valorizar a palavra. Começar confiando. Acreditar.

PS. Não sei ainda como reagir à saída da França. Meu lado apreciador do futebol acha que Riberry ainda podia apresentar mais. Meu lado revanchista aponta o dedo e morre de rir. Sei não, acho que não sou uma boa pessoa

Daniela disse...

Olha, eu já tive grandes problemas ao tentar trocar qualquer coisa com defeito. É um descaso monumental. De ficar sem o celular ( de conta) por 40 dias pq foi mandando pra perícia sabe-se deus onde. Ou levar 2 meses pra receber de volta um sapato que foi mandando da Bahia pro Rio Grande do Sul e voltou todo remendado, costurado.

Hj em dia, se a coisa não é muito cara, eu penso duas vezes antes de reclamar. Porque eu ODEIO burocracia e fujo dela de todas as formas e perco meus direitos se for pra não me estressar.

Mas sempre bate a revolta.É fogo. Fico feliz de ver que a tal história de "o cliente sempre tem razão" funcionou pra você mesmo em terra brasilis. E nos EUA que se supera nisso.

Nem te conto como foi qdo tentei reclamar de uma bota que soltou o salto no "El Cortés Inglés" (a loja de departamentos de luxo, da Espanha): "mas parece que mesmo depois do salto ter caído a sra continuou usando pq tá muito estragado!!!". Eu fiquei com cara de QUE, né? Porque como explicar que em pleno inverno, se o salto cai, eu não vou tirar a bota e passar a andar na rua sem ela, ou que não posso parar tudo que tou fazendo e voltar imediatamente a casa...

Daniela disse...

E to aqui tentando advinhar...começa com S e termina com ini?
Já procurei mas só achei aquela que começa com Sam e termina com nite...

Patricia Scarpin disse...

Na segunda vez em que comprei livros pela Amazon a caixa chegou estourada e os livros, por conseqüência, todos amassados/sujos/meio molhados. Mandei um email pra eles contando a história, já tinha tirado foto e o escambau pra mandar, quando dali a 4 dias recebo uma caixa com todos os livros novinhos. Não precisei provar nada, devolver nada. O cuidado com o consumidor que alguns países têm é impressionante.
Comprei um sapato na A...rezzo também e ele soltava tinta no meu pé. Passei por tudo isso que vc descreveu e no final não trocaram (pois o prazo de 30 dias já havia passado) nem me devolveram o dinheiro.

Ah, querida, pra finalizar - bem feito pra França!

Beijão!

Anônimo disse...

Ola Rita! Leio sempre o seu Blog, mas esta eh a primeira vez que escrevo.
O meu marido ama cafe expresso e ate hoje a melhor "maquina" de cafe expresso que encontramos eh a famosa Moka italiana da Bialetti. Eh maravilhosa! Com certeza seu marido ira aprovar o "caffè espresso italiano"!!! Beijos Mariah

Caso me esqueçam disse...

a foto foi tirada no dia do meu aniversario! hihi e por falar nisso, antes que eu esqueça, parabens pelo teu aniversario! :D

ai, tu me apresentasse um mundo novo em que as pessoas reclamam e sao atendidas, olha! quer dizer, uma vez camilo comprou uma caixas de som e elas queimaram. passaram-se meses, ele juntou dinheiro, comprou outras e adivinha o que eu fiz no mesmo dia em que ele estreou as caixas? sim! eu as queimei novamente (nao me pergunte como tive essa capacidade, mas eu tive, foi sem querer). fiquei supermal com aquilo, quase chorei. alias, quase choramos. aih ele foi na loja e disse que a caixa tava com problema e deram outra pra ele. acho que, nesse caso, o pessoal da loja deve ter pensado "ninguem seria tao estupido de estragar as caixas no mesmo dia, deve ter sido defeito do fabricante" hihihi

Sinara disse...

Eh... E você não mencionou os problemas com a telefonia... Eu tenho um processo contra a T ... ... im. Faz um ano já e a coisa se arrasta... Comprei uma linha chamada T... Fixo e só tive problemas... Paguei todo o serviço por cerca de 6 meses e só funcionou 1 mês, pode?! Não quiseram prestar atendimento técnico (o aparelho é terceirizado) e não orientaram em como ter tal serviço. Quis simplesmente cancelar o contrato e foi negado - contrato de 18 meses, se cancelado antes, paga-se multa... Bem, o processo rola, o meu nome já foi para o spc porque não paguei um mês em que já estava em processo... O juiz exigiu a retirada (pelo menos isso).
Isso é o Brasil... Infelizmente, não vejo outra explicação... Aqui, os corruptos, sonegadores de imposto etc são beneficiados com leis que não punem. Quem age corretamente não ouse sair da linha... Nós somos punidos... Não quero nem mencionar o que você já sabe: processos trabalhistas que nunca tem solução... Ai, ai... Vamos mudar pra Marte??? :-) Bjs!

Bela disse...

Sestini é fantástica mesmo, a minha tem garantia eterna contra qualquer coisa e eles consertam mesmo. =)

Rita disse...

Borboleta, oi. Seria simples se só a palavra fosse suficiente, né? Mas ainda precisamos do carimbo e da perícia. E não se preocupe, você não é má pessoa por rir da França. Copa é, no fundo, uma grande brincadeira. Bj!

Oi, Dani. Já desisti de meus direitos por puro cansaço também. Até já contei aqui do dia em que bateram no meu carro, mas deixei pra lá pq tinha acabado de passar por uma via crucis por causa de outro acidente.. ui. Ah, e o comentário da Bela tirou sua dúvida, não? Bj!

Oi, Patrícia, bonitinha. Não é uma delícia ser tratada com carinho? Vamos fazer uma campanha? Trate o cliente como se ele fosse uma pessoa! Que tal?
Beijão!

Oi, Mariah! Seja muito bem vinda, volte sempre. Fiquei bem feliz por seu silêncio quebrado. :-) Dica anotada e devidamente repassada para o marido fã de café forte. Bj!

Oi, Luci! Obrigada, querida. Vamos combinar assim: quando você vier na minha casa, eu ligo as caixas de som, tá bom? ;-P Bj!

Oi, Si. Também, você quer demais, né? Além de trabalhar, ainda quer receber? Gulosa!
Beijos e bom São João! Manda minha canjicaaaaaaaa!!!!!!!!!!

Oi, Bela! Não é? Tudo de bom! Beijos!

Boa noite, pessoas!
Beijão,
Rita

Anônimo disse...

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