Tanta história



A quem interessar possa, a temperatura despencou, a máxima hoje não passou dos 10 graus Celsius e agora à noite curtimos um friozinho de 3 graus enquanto voltávamos da nossa (finalmente) primeira sessão de cinema aqui (e provavelmente a última). O fato é que o ingresso sai por mais de trinta reais e a sala que escolhemos hoje (na verdade, não foi exatamente uma escolha; era a única sala exibindo o filme que queríamos ver, em um horário viável para nós) não chega aos pés do maravilhoso cinema que temos em Florianópolis, na esquina de casa. Ou seja, no, thanks. Maaaas o que importa é que curtimos nossa sessão única e, yes, vimos The Clash of the Titans - eu andava louca para matar as saudades do filme campeão de audiência nas sessões da tarde de minha infância. Adoramos o remake de Fúria de Titans, curtimos inclusive a odisseia para chegar ao cinema: dar o lanche das crianças, escovar os dentinhos, dar beijinhos, pôr na cama, interromper o cochilo da sogra (maldade), pegar luvas e cachecol, correr para a estação de metrô, seguir por sete estações, correr para o complexo de cinemas, esperar na fila, comprar o ingresso, achar a sala, respirar... tudo em 40 minutos. Yes, we did it! Putz, falando assim parece um tempão, mas juro que foi beeem corrido. 

Bem diferente de nosso dia gelado, em que seguimos devagar, saindo de casa tarde rumo a um passeio sem agitos (quer dizer, nunca é sem agito quando saímos com Arthur e Amanda, mas pelo menos não tínhamos a intenção de fazer bagunça). Hoje voltamos à Abadia de Westminster, minha favorita entre as igrejas e catedrais que já visitei na Inglaterra. Gosto do estilo gótico com seus arcos e torres que parecem alcançar as nuvens, sua história que nos leva a tempos tão distantes de nossa realidade que mal consigo visualizá-los, de saber que, ainda que de forma meio sombria, sua história se cruza com a de nomes como Isaac Newton, William Wordsworth, Jane Austen, Charles Darwin, Geoffrey Chaucer e tantos outros que estão enterrados ou reverenciados em seus muitos túmulos e monumentos. 

A Abadia como se encontra atualmente foi construída e restaurada ao longo de vários séculos. Sua história remonta ao século X, mas as obras da igreja atual tiveram início no século XIII. Cerca de cinquenta anos após sua construção, a coroação dos reis e rainhas que se sucedem no trono inglês começou a ser realizada lá e assim permanece até os dias atuais. Cada rei ou rainha da Inglaterra, desde 1308, tem sido coroado na Abadia, no trono construído em 1301. A atual rainha, Elizabeth II, foi coroada lá em 1953 e lá também ocorreram os funerais da princesa Diana, em 1997, e da Rainha Mãe, em 2002. 

Muitos monarcas e seus assessores estão sepultados lá, mas é na esquina dos poetas que a manteiga derretida aqui se emociona. Como também me emociona imaginar o trabalho monumental que deve ter sido erguer toda aquela estrutura sem o aparato tecnológico que nos cerca atualmente. Fico espantada que tudo aquilo se mantenha de pé por tanto tempo e sou tomada por um profundo respeito pelo talento e esforço de cada trabalhador envolvido naquilo. 

Alguns setores da Abadia revelam pinturas e mosaicos datados do século XIII, que permaneceram ocultos por vários séculos e que foram revelados durante restaurações posteriores. Para preservar a delicadeza desses registros históricos e sabe-se lá por quais outras razões, não é permitido fotografia ou filmagem no interior da Abadia. Fiz o que pude para registrar nossa passagem pelo jardim do antigo mosteiro Beneditino que tinha a abadia como sede até ser dissolvido no século XVI - as fotografias são permitida por se tratar de um setor aberto. 



Sinto muitíssimo por não poder fotografar o interior da Abadia. Algumas poucas fotos podem ser vistas no website, mas recomendo muito a visita a quem tiver a oportunidade. 

Nossa visita foi encerrada ao som do ensaio do coral de meninos da Abadia, enquanto comparávamos o monumento erguido sobre o túmulo de Isaac Newton (Código da Vinci feelings) à simplicidade da pedra cinza sobre o túmulo de Darwin, onde estão gravados seu nome, data de nascimento e da morte, e nada mais. 

Ficamos um pouco por ali, no meio daquela imensa nave, ouvindo o canto dos meninos; em meu coração, a certeza de que há vários motivos para se deixar encantar por aquele lugar. Seja devoção religiosa, amor ao país (para os ingleses), sensibilidade artística, admiração diante do talento humano, o que for, qualquer um pode ser levado pela atmosfera do lugar. Saímos do interior acolhedor do imenso prédio e rumamos para o vento gelado da praça, deixando para trás mais de mil anos de história. Foi um daqueles dias em que me lembro porque gosto tanto desta cidade. Mesmo a 3 graus.

Minha turma, passando frio.

2 comentários:

Anônimo disse...

Minha querida professora de História...
Temos nos deliciado e aprendido muito com tuas narrativas dessa maravilhosa viagem.
Estamos com saudades de vocês e das crianças.

beijos!
Nilton

Rita disse...

OI, Nilton, obrigada pelas visitas ao blog. Seja sempre bem vindo!

Abraços,
Rita

 
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