O grande susto


Amigos

No último domingo comprei um carrinho com controle remoto para o Arthur. Um modelinho bem simples, com poucos centímetros, mas que julguei ser útil para as manhãs em casa quando eu e Ulisses estamos em aula e os dois ficam por conta da D. Tereza. A intenção foi ótima. Só a intenção.

Na manhã de segunda-feira ficamos em casa. Não tínhamos aula e os planos incluíam almoço caseiro e uma espiada nas coleções do British Museum à tarde, antes de despachar o Dudu para o Brasil. Tudo estava bem e decidi juntar-me ao Ulisses na cozinha e contribuir com uma saladinha para o almoço que ele preparava. Pois bem, fui para a cozinha e deixei o Arthur na sala ao lado controlando seu carrinho pra lá e pra cá, enquanto a Amanda zanzava pela mesma sala entretida com outros brinquedecos. Os dois ambientes ficam lado a lado e eu sabia que podia monitorar os dois com incursões à sala a cada minuto entre um tomate fatiado e um kiwi descascado. Quer dizer, eu achava que podia.

Mas a verdade é que eu ainda nem tinha lavado a alface quando ouvimos o choro forte da Amanda. Ulisses correu primeiro e perguntou ao Arthur o motivo do choro da irmã. Sem uma resposta convincente, questionou a própria, que só chorava. Comecei a achar aquele choro forte demais e desconfiei que ela pudesse estar mesmo machucada. Tentei em vão fazer com que ela me dissesse o que tinha acontecido. Em seguida, sabatinei o Arthur:


-Você empurrou a Amanda?

-Não.
-Bateu nela?
-Não.
-O que aconteceu, então?

Foi aí que ele me mostrou a antena do controle remoto. Imediatamente examinei as orelhas da Amanda. Só precisei olhar para o primeiro ouvido e já vi o sangue. Chamei Ulisses novamente, que inspecionou o brinquedo e viu horrorizado a marca do cerume há mais de um centímetro da extremidade da antena. Amanda agora berrava. Entrei em pânico.

Apavorados, catamos os casacos e corremos para o pronto-socorro da esquina, a um minuto da nossa casa, deixando o Arthur com D. Tereza e Dudu. Fomos instruídos a seguir direto para o hospital do bairro, pois ela precisaria ser examinada por um especialista, segundo a recepcionista. Com sorte conseguimos um taxi imediatamente e rumamos por eternos 10 minutos para o Chelsea Westminster Hospital. Na recepção contei ao atendente o que tinha ocorrido, inclusive sobre nossa passagem pelo pronto-socorro, e ele me pediu que preenchesse um formulário curto, com dados meus e da Amanda: nome, endereços no Brasil e na Inglaterra, idade da Amanda. Em seguida, fomos encaminhados ao setor pediátrico e esperamos por cerca de vinte minutos. Uma enfermeira fez um exame superficial no ouvido da Amanda, que já não chorava, mas parecia muito assustada, pesou a criança para poder dosar os possíveis analgésicos, e nos pediu para aguardar o tal exame pelo especialista.

Não sei ao certo qual o posto da pessoa que nos atendeu em seguida, se médica ou enfermeira especializada, mas gostei profundamente daquela mulher de sorriso acolhedor e voz mansa, que medicou minha menina com paracetamol e outro medicamento cujo nome esqueci, provavelmente um antinflamatório, e nos acalmou com sua explicação tranquilizadora. Após examinar o estrago, explicou que a membrana perfurada (é, houve perfuração do tímpano) se recupera em poucas semanas e que não deve haver qualquer dano permanente no ouvido da Amanda; que ruptura semelhante ocorre em alguns quadros infecciosos devido à presença de grandes quantidades de pus. Sugeriu que mantivéssemos os analgésicos até que ficasse evidente que Amanda não estava mais sentindo qualquer incômodo e que procurássemos o pronto-socorro em 3 semanas para confirmar o fechamento da membrana. Pedi que ela confirmasse trezentas e quinze vezes que não haveria qualquer sequela e a cada repetição seu sorriso era ainda mais largo e meu coração ficava um pouco mais leve.

Voltamos para casa com Amanda já adormecida (dormiu por toda a tarde) e então conversei com o Arthur. É claro que ele fez algo muito grave, mas eu sei que ele não tem a dimensão exata do seu ato. Ele sabe que machucou a irmã, mas não sabe que poderia ter causado um dano muito grave à sua saúde. Então tentei dar à nossa conversa um tom firme, mas com calma, porque não acho que foi o mesmo que, por exemplo, se ele tivesse deliberadamente dado um soco nela. Isso ele já sabe que não se faz, ponto. Enfiar uma antena no ouvido me parece mais travessura infeliz que agressão gratuita. Não estou querendo passar a mão na cabeça do Arthur, quem me conhece sabe que pego firme com eles, mas não acho que seria o caso de dar uma bronca gigantesca. Estou aberta a opiniões diversas. Do meu ponto de vista, sou eu a merecedora da bronca gigantesca, por tê-los deixados sozinhos na sala com um brinquedo pontudo. Chorei muito e a culpa me envergonha, sinto arrepios só de pensar que algo ainda mais grave poderia ter ocorrido por causa da minha negligência. Recolho moedas e todo tipo de pequenos objetos pela casa, tenho verdadeira neurose com janelas e fogões. E ponho uma antena na mão do Arthur. Podem me parabenizar.

Mandei um e-mail para o pediatra deles, que gentilmente me respondeu corroborando o diagnóstico dado pela médica/enfermeira inglesa e dizendo que “a evolução é para cura completa sem perda auditiva”. O melhor e-mail que recebi em décadas.

Amanda nem chegou a tomar a segunda dose do analgésico porque acordou espoletíssima, visivelmente sem dor, rindo alto e correndo pela casa, alimentando-se do jeito dela, brigando e brincando com o irmão, sem rancores. Dormiu a noite inteira e acordou como se nada tivesse acontecido. Vou seguir protegendo o ouvido na hora do banho durante semanas, até que o próximo exame confirme que tudo voltou ao normal.

E hoje à tarde vamos ao British Museum.

12 comentários:

Daniela disse...

ui, susto enorme. Mas fica calma né? Eu acho que esse tipo de coisa não se pode imaginar até que aconteça. Eu que não tenho filhos sou sempre surpreendida pelas coisas que crianças podem fazer e jamais pensei que pudessem. Vocês que são pais então...Sem culpas, o pior já passou. Beijos

Marcia disse...

Querida Rita,
Nossa, que susto horrivel.
Ainda bem que passou, que voce achou um taxi, que voce fala ingles como uma nativa, que voce tem o apoio de um cara nota 1000 como o seu marido, que voce foi atendida por uma medica competente e humana, que a Amanda melhorou... enfim... agradeca a seu anjinho da guarda por tanta protecao e nao culpe ninguem, muito menos a si mesma, afinal, acidentes acontecem.
Beijo,
Marcia

Kaka disse...

Bom, amiga! Passei por um susto grande este final de semana também...O Luan brincava no pátio de casa enquanto o pai capinava tudo tranquilo, quando por meio segundo o Luan se pendurou no portão de ferro que caiu sobre ele, se não fosse o pé do pai dele conseguir desequilibrar o portão, não sei o que seria da cabeça do meu lindo! Machucou a bochecha que inchou imediatamente. Fomos para o hospital infantil tirou oito raios X e tudo bem com ele, porque eu estou em pedaços! Por estes momentos é que acredito em anjos da guarda!

Barbara disse...

Ai, que nervoso!!! Ainda bem que nao foi nada demais e ficou tudo bem (caramba, meu primeiro filho ainda nem nasceu e ja estou me preocupando com o que eles vao fazer quando brigarem!).

Pela sua descricao, a tal moca simpatica parece ser uma enfermeira. Enfermeiros aqui costumam ser otimos, ultra bem treinados, e tem mais tempo para dar atencao ao paciente do que os medicos.

(ainda estou passando a mao no meu ouvido, com aflicao da sua descricao)

DEYSE disse...

Oi Rita, nossa que susto!
Fica tranquila vai cicatrizar, você vai ver a Amanda é pequena, vai dar tudo certo, digo isso porque minha filha fez uma cirurgia na qual o médico teve que furar o timpano dela, isso quando ela tinha 3 anos de idade porque estava com muito pus e os antibióticos não estavam mais fazendo efeito, demorou um ano e meio para cicatrizar totalmente, fiz 3 vezes sessões de audiometria para ver se estava tudo bem, e graças a DEUS o timpano fechou e a minha filha não ficou com nenhuma sequela. Então vou te dar uma dica compre um tampão de silicone para colocar no ouvidinho da Amanda para não entrar água quando você for dar banho nela, isso me ajudou bastante qundo eu ia dar banho na minha pequena e Rita cuida com o barulho, embora ela não reclame o barulho é muito prejudicial. Minha amiga não se culpe, as crianças adoram fazer travessuras é normal, o negócio é conversar com eles, são crianças maravilhosas, eles vão acabar entendendo você. Vou orar pela Amada tá. Fica com DEUS!

Beijos

Angela disse...

UFA! Susto seu, susto nosso! Que bom que a perspectiva certa eh de regeneracao completa! Nao se culpe nem um pouquinho, eu vivo deixando Max e Julia aqui na sala quando estou na cozinha e as vezes no meu quarto. Sabes que eh pertinho, mas eh a mesma situacao. Realmente nao conseguimos imaginar todos os riscos possiveis a nossa volta, e sabemos que nao podemos ficar grudados com eles integralmente 100% do tempo. Entao o que aconteceu foi um acidente mesmo. Ontem mesmo vi Max tentando enfiar o dedo no ouvido de Julia. Dei a maior bronca (desco o sarrafo mesmo, prefiro assustar e as vezes ate magoar do que arriscar nao ter passado a mensagem clara - entao ta aqui a minha opiniao...), e a noite eu estava investigando para ver se tinha posto algo la na orelhinha dela... Nao tinha mas no ano passado levei o proprio duas vezes a emergencia pois ele pos bolinhas que achou na baba no ouvido. Hoje mesmo fui a medica mas era por que tinha areia de praia do Brasil. Era "WHAT?" pra tudo quanto era lado, ha umas semanas limpei mas resolvi levar mesmo assim so para garantir. Tava tudo ok.
Entao, beijo grande e que a melhora continue a jato para a Amandinha!

Rita disse...

Oi, pessoas!

De coração, muito obrigada pelas mensagens de apoio. No fim foi isso mesmo, um susto, mas quem é mãe (e até quem não é, certo Dani e Baxt?) pode imaginar como me senti. Obrigada também às amigas que mandaram e-mails depois de lerem o post. Amandinha está bem, nem parece que passou pela dor que passou, tadinha. Não tem se alimentado tão bem de ontem pra cá, mas desconfio que pode haver algum desconforto durante a mastigação. Tranquilo, depois ela tira o atraso. :-)

Beijos!

Rita

Claudia Serey Guerrero disse...

Que susto Rita!!! Ainda bem que ja esta tudo bem!!! cuidem-se , beijinhos Claudia

Anônimo disse...

OI... QUE SUSTO. MEU CORAÇÃO FICOU DISPARADO QUANDO COMECEI A LER.UFA! AINDA BEM QUE DEU TUDO CERTO. ESTOU MORRENDO DE SAUDADES DOS MEUS PIMPOLHOS.BEIJINHOS, CUIDEM-SE. NÉIA

Vivien Morgato : disse...

Cara, que susto. Fiquei com o coração na mão.;0(
Ainda bem que tudo deu certo.

Rita disse...

Oi, Claudinha! Tá tudo bem, sim, obrigada.

Néiaaaaaaaaaaa!! Você por aqui!! Que delícia! As crianças hoje estavam falando em você: elas assistem a um desenho e dizem que cada personagem é um deles; tem o Arthur, a Amanda, a vovó e você! Uma graça! O cartão postal está pronto, manda o endereço pro meu e-mail! Beijão!

Vivien, ufa, viu? Sustaço!! Mas tá tudo bem, obrigada!

Beijos, pessoas!

Livia Luzete disse...

Eita, coração de mãe que aguenta e não arrebenta!!
Rita, NO STRESS,vc não tem culpa nenhuma. Isso poderia ter acontecido com você alí do lado,ao se abaixar para ver qualquer coisa no cháo ou ir a janela fechar as cortinas,enfim...ao lado deles. o que o Arthur precisava? Só ter o alcance do ouvido da Amanda para penetrá-lo. Tb concordo que foi uma traquinagem...talvez ele tenha já introduzido a antena nele mesmo,fez cócegas e achou engraçado fazer o mesmo na Amanda!
Beijo.

 
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