Quando eu vim



Há onze anos vendi minha parte das cotas da escola de inglês que ajudei a fundar, pus minhas roupas, meus livros, cds, liquidificador, pratos e xícaras dentro de um palio, entreguei o carro a uma transportadora que o traria a Florianópolis, fechei meu apartamento em Campina Grande/PB e vim pra cá fazer mestrado na UFSC. Tinha concluído a graduação dois anos antes, viajado um pouco, trabalhado muito e decidido que era hora de voltar a estudar forte, abrir um pouco mais a cabeça e os horizontes. 

Eu não sabia quanto tempo ficaria por aqui, nem que meu mestrado se transformaria em um doutorado; sabia que ia aprender muita coisa, mas não tinha noção da avalanche de ideias que invadiria minha cabeça e me transformaria para sempre. Eu desconfiava que gostaria muito de Floripa, mas nem por um segundo imaginava que meus filhos nasceriam aqui. Talvez eu acreditasse que encontraria alguém com quem dividir os planos, mas jamais poderia supor que reencontraria aqui o  amor da minha vida, que àquela época morava em Minas. Eu não sabia nada. Mas vim. 

Vim apesar do medo que minha mãe sentia ao me ver seguir para tão longe, de certa indignação que ela expressava por me ver largar algo profissionalmente estável e com futuro mais ou menos certo. Vim porque "futuro certo" é coisa que não existe. Vim apesar de minha vinda significar trocar um bom salário por uma bolsa de estudos de valor bem inferior. Vim porque sabia que encontraria nos estudos os desafios que sempre me empurraram estrada afora, porque sabia que, independentemente do rumo profissional que minha vida tomasse, aprender é o que me mantém viva. Vim porque precisava interromper uma rotina profissional viciada em discussões vencidas, porque queria renovar as conversas, os ares, os vínculos. Porque precisava mudar e sabia que cabia a mim fazer chegar a hora certa. 

Sempre vou ser uma forasteira em Florianópolis, não sou daqui. Mas isso há muito assumiu relevância questionável para mim. Ser de um lugar ou outro não me define. Certamente interfere, mas a pluralidade que trago comigo me traduz muito melhor do que qualquer termo que se enquadre  no quesito "naturalidade". Sou da estrada, talvez. E talvez isso mude, como saber? E mesmo que um dia eu deixe Floripa e suas belezas para trás, guardaremos para sempre as lembranças do que construímos por aqui nos últimos anos. 

Hoje é aniversário de Florianópolis, feriado na cidade. E hoje lembrei de quando cheguei aqui e nossos queridos anfitriões aproveitaram o feriado para nos mostrar, a mim e à minha amiga, que me acompanhou na mudança, a vista deslumbrante da Lagoa da Conceição. O que naquele dia foi deslumbre é hoje cenário familiar, parte do meu horizonte, um morro com trânsito difícil e com o verde que pinta Floripa. E o futuro que naquele dia começava a se descortinar diante de mim, incógnito desconhecido, é hoje uma trilha boa, construída com estudo, esforço, saudade, amor. E a maior de todas as lições: é preciso seguir o coração.

* * *

Para minha mãe, que segura minha mão todos os dias - não para me ajudar a atravessar a rua, que já cruzei tantas sozinha, mas para me transmitir o calor de sua força e de seu amor: obrigada por vencer seus medos e me apoiar sempre. Obrigada por esse sentimento imenso que vence qualquer distância com um pensamento. Obrigada por ter entendido que eu precisava partir. Eu sinto sua mão, vejo seu olhar, ouço sua voz, todos os dias. Nunca estamos longe. Te amo. 


6 comentários:

nildoforte disse...

i, Rita, tudo bom?

Acabei de ler seu texto. Este é o primeiro que leio, pois só agora tive contanto com seu blog, e confesso que achei seu texto maravilhoso. Nele está contida a história de uma mulher corajosa, determinada, sem apego ao material, que foi em busca de uma nova perspectiva de vida e de novos conhecimentos. Acabou, sem querer, encontrando a felicidade em um lugar desconhecido, mas que hoje lhe é familiar!! Parabéns Rita!!

Josenildo Forte

Angela disse...

Epa que a Veronica amanha vai levar a D Bernadete um presente extra especial. :)
Adorei o post, me transportou ao passado. Lembrei de quanto estudo e esforço... E quando o amor chegou (novamente) veio com forca!!!! Com uma fundacao dessas nao tinha como a construcao dar errado.
Tambem lembrei um pouco de mim mesma, e aposto que esse post vai transportar muita gente por ai.
Ah e que delicia ser cidada do mundo. Doce amargo, mas esse eh o gosto da vida! :)

Nardele disse...

Rita! Lindo seu texto. E sua coragem de desamarrar o barco e deixar sua vida conhecer outros horizontes, outros mares. Hoje é só olhar pra trás e dizer "e não é que foi a melhor coisa que eu fiz?". E isso dá coragem pra continuar confiando em suas escolhas!

Ando demorando de aparecer, mas de tempos em tempos venho me reabastecer de beleza nesse seu blog lindo!

Beijo grande! :-)

Maiza disse...

Oi, Rita! Não sei se lembrará de mim. Estudei com vc na graduação quando vc fazia o estágio docência.
Acabei encontrando seu twitter e blog, pois precisava da referência de sua tese, que tenho lido e relido!
fico feliz de te encontrar por aqui, assim posso ver de perto oq ue vc tem feito!

beijoca

Anônimo disse...

Que post lindo Rita! Parabéns pela mulher corajosa que é você! Estou emocionada com seu post, que fez relembrar sua história e também parte da minha trajetória de vida.
Abraço forte,
Ju

Rita disse...

Oi, pessoas!

Nildo, que bom ver você aqui, menino! Venha sempre, viu? E traz aquele povo bom todo junto! Por onde andam, meu deus?! Obrigada!

Anginha, thanks. O amargo fica por conta da saudade que vira companheira constante. Mas a gente se apega aos dribles e sai tocando...

Nardele, obrigada, querida. Confiar nas escolhas, esse é o ponto, mesmo!

Maiza, lembro de você sim, menina! Que bom ver você aqui, fico muito feliz! Morro de saudades da academia e seu comentário me fez viajar no tempo... então você anda lendo minha tese.... ui, que medo! Hehehe Se quiser trocar uma ideia, podemos usar o e-mail aí do lado. Será um prazer! Venha sempre, muito obrigada pela visita!

Ju, obrigada! De coragem você entende bem, né? ;-)

Beijos, pessoas! Muito obrigada pelo carinho!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }