A primeira vez de novo


Escapadelas: Catedral de Canterbury, Kent, Inglaterra (não sou mesmo uma pessoas das igrejas, mas... putz, pode ficar com a arquitetura?).


Em algum dia de janeiro de 1998, voei sozinha para Londres pela primeira vez, com duas malas enormes, um curso a fazer e muita curiosidade. Levava comigo minhas expectativas construídas ao longo de anos de contato com a língua inglesa (meu instrumento de trabalho, à época) e com o pouco que conhecia daquela cultura, seus mitos e fama. Fui em busca de aperfeiçoamento profissional, crescimento pessoal, diferenças, outros ares. E bater perna, claro.

Encontrei o que buscava, certamente, mas acabei levando ainda mais do que comprei. Desembarquei em uma cidade gelada e (aparentemente) sóbria, e lembro de ter varrido com o olhar aquelas ruas largas e limpas, filtrando, da janela do taxi, as primeiras impresões do lugar pelo qual me apaixonaria nas semanas que se seguiriam. Lembro que achei escura a casa que me hospedou, mas também que a simpatia dos meus anfitriões logo afastou a sensação de penumbra. Sim, vejam só, "meus" londrinos eram uma simpatia. Tudo bem, um deles tinha sangue italiano; mas deixemos os rótulos para as maioneses, que precisam deles. O fato é que, assim que cheguei, fiquei. Inteiramente.

Eu gostava de estar lá e as razões para isso aumentavam à medida que os meses iam passando. Aqueles foram tempos de diversão e arte, cultura e história, sair pra dançar e viver no cinema, fazer descobertas diárias e novos amigos, comer coisas estranhas, ir a shows de rock e admirar cabelos esquisitos, oh dear. Nem sei por onde andam noventa por cento das pessoas com quem partilhei aquele meio ano, eram de tantas nacionalidades quanto há países; mas mesmo que não mantenham comigo qualquer contato, foram fundamentais em minhas muitas horas de descobridora de mundos. Porque é isso que Londres tem: um monte de mundos.

Fiz o que pude para habitá-los, do jeito que dava, com meu dinheiro de estudante/turista, e minha vontade contínua de explorar outros limites europeus, tudo ali tão pertinho. Assim fiz uma boa escolha, optei por comprar pouco e andar muito. Estudei um bocado, é verdade, mas não desperdicei as chances de bons passeios - e eles eram muitos. E cada vez que saía para uma espiadela aqui outra ali, voltava como quem volta para um lar alegre, feliz em retornar para seus parques, suas galerias apaixonantes, sua noite, seus pubs, minhas ruas, meus amigos. (Ah, tá, tá, tá bom: sua chuva, seus moradores carrancudos, bla bla bla. Não tive tempo para os chatos, reservei minha atenção para os legais e não fui em busca de tapinhas nas costas. E em Floripa chove muito mais, pode apostar.)

Então tudo é memória boa, vontade de ver novamente. O olhar agora será outro, a cidade, certamente, também. De certa forma, será como ir de novo pela primeira vez. :-) Mas com algumas vantagens, que experiência serve pra isso. Então sei que não vou tomar de novo o típico café da manhã inglês, não vou pedir informações aos taxistas, não vou usar taxis não registrados, não vou levar o cartão de crédito para certas lojas e não vou acreditar que o dia seguinte vai ser mais quente. De resto, vou esquecer do tempo quando estiver no parque e fazer o que der pra fazer com duas crianças. Porque nisso essa viagem terá seu maior diferencial: é uma viagem com elas, portanto não vou me prender a planejamentos detalhados.

É que não precisa, mesmo: o plano era voltar lá. Estamos indo, então.

***
 
Update: depois de ler alguns dos comentários docinhos de vocês, vi que posso ter passado a impressão de que já estava indo pro aeroporto. Ainda não, tá? É só no sábado que vem. :-)  Por enquanto, ainda na boa terra brasilis.
 

 

8 comentários:

Livia Luzete disse...

Maravilhoso!
Rita, certamente esse "novo" com outro olhar em outro momento e situação, será uma descoberta tão boa quanto foi a primeira.
Fotos fotos muitas fotos e o registro dos pequeno com esse novo velho mundo que elas verão.

Pensei agora...
imagina quantos olhares novos terão seus filho ao longo de suas vidas quando retornarem a Londres?

Beijinho bom domingo, hoje madruguei(rsr) tenho prova já já para o Conselho Tutelar!
Eu devia estar estudando mais um pouquinho,mas não, estou na blogsfera..rsrs
#minterna

Vivien Morgato : disse...

Estou me lembrando dos livros de Erico Verissimo que contam sua estadia nos EUA com os filhos: estes aprenderam rapidamente todas as gírias e tiravam o maior sarro do inglês correto dele.;0)
Viagem com criança é viagem em dobro. Parabéns!

Iara disse...

Olha tenho acompanhado o blog apesar de não comentar (putz, que raiva da receita federal!). Só posso dizer que estou torcendo muito pra que você e sua família passem dias maravilhosos por lá! Boa viagem!

Anônimo disse...

Oi, Rita! Oi, Uli! Oi, família!!!


Ri bastante, aqui sozinha, lendo as coisas mais recentes.

Que bom que vocês viajam e que o plano de saúde lembrou de sua existência! Que chato o nariz entupido ou a grana preta que a Receita Federal resolveu, assim, sem mais, capturar de vocês!

Que bom (de novo) que você resolveu delegar. Chutar o balde!!!

Enfim... Há mais 'bons' do que 'mals' (plural recém-criado por mim mesma. O acordo de língua portuguesa também não sabe que eu existo, então está tudo bem).

E para vocês eu desejo o que aconteceu comigo, na primeira viagem aérea em que o Pedro - que ia fazer dois anos - já podia entender o que era 'andar de avião'.

Na hora da decolagem, com a máquina a toda a velocidade na pista, ele, com o entusiasmo próprio da infância, disparou: "Lá vai eu"!!!!

Então, lá vão vocês!!! Que Deus os abençoe sempre, os leve e os traga em perfeita segurança (e,se der, que faça mesmo comigo, para que eu faça uma visitinha básica).

Com amor grande e saudades antecipadas,

Lílian.

Marcia disse...

querida Rita!

Que delícia.
Divirta-se muito, tenho certeza que vai ser delicioso e vai render muito assunto para cafés com você mais tarde...
Beijo e boa viagem.

Rita disse...

Oiii, pessoas!

Livia, Vivien, Iara, Lílian, Marcia: ainda bem que minhas malas são bem grandes! Nelas cabe toda a energia boa de vocês! (Resta saber se as malas vão caber no apartamento onde vamos ficar, oh my God!!)

Vocês viram que coloquei um complemento no post explicando que ainda não estou indo, assim hoje agora, né? Vi que posso ter causado essa impressão no post, mas ainda temos uma semana antes da grande muvuca.

Beijocas, pessoas queridas!

Rita

Nina Vieira disse...

Poxa, eu fico só na vontade absurda de ir a Londres, viver a cidade que é tao fria quanto as pessoas de lá. Tomar chá no fim do dia e ler muito de literatura inglesa, que sonho!

Um beijo.

Rita disse...

Oi, Nina!

Dá pra ler Brontee e Eyre daqui mesmo, e tomar chá também. :-P E, acredite, Londres tem um monte de londrinos com coração quentinho, ainda bem! Agora... quanto à sua vontade de ir pra lá, só posso torcer para que você consiga e vá mesmo, descobrir o lugar a seu modo, com seu olhar e sua energia de quem ainda vai andar muuuitoooo. Tudo a seu tempo, querida. Você vai, sim. Beijos (continuo acompanhando sua escrita boa)!

Rita

 
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