O feijão

Ontem perdemos o sono, Odisseus e eu. Assim:

- Você tá acordada?
- Um-hum. Perdi o sono.
- Eu também. Quer conversar?
- Um-hum, se você quiser.
- ...
- ...
- Será que é ansiedade pré-viagem?
- Serááá? Não, acho que não...
- ...
- ...
- Cê num tá se sentindo ansiosa?
- Vou tentar não me sentir, por causa das crianças.
- Hum...
- ...
- ... zz..zzzz
- zzzzzz

Ai, ai, ai... a minha inocência: "vou tentar não me sentir ansiosa". Assim, sabe? Não vou me sentir, pronto. Sei. Bom, também não era assim um superinsônia e logo dormimos. Mas hoje fiquei pensando se não estou ficando eh... ansiosa com a história de cruzar o Atlântico com meus pititicos. Não há muitos motivos para grandes barulhos, na verdade, porque, afinal, vamos ali e logo voltamos, dois meses são um passeio no parque.



Quando penso nessa viagem, na verdade, o que mais me vem à cabeça é que estamos tirando férias prolongadas. Vocês vão me achar muito folgada se eu falar que às vezes mal me lembro que estou de licença e que estou indo pra lá para estudar? É que não adianta, o grande lance dessa viagem é mesmo ficar o tempo todo com as crianças. Porque mesmo sendo pais deles desde que eles nasceram, o fato é que, excetuando-se as licenças maternidade (e mesmo aí não se inclui o Ulisses), nunca ficamos tanto tempo o tempo todo com eles. O convívio com nossos filhos inclui creches, escolas e babá e muito do nosso tempo acaba mesmo sendo vivido longe deles.


Em Londres, não, seremos os quatro o tempo todo. Mais minha sogra. E meu cunhado, por uma semana. Bom, mas seremos nós quatro, é isso que quero dizer. Nas manhãs em que teremos aulas, minha sogra assumirá o comando da duplinha (ou a duplinha assumirá o comando dela, logo saberemos), mas, fora isso, seremos nós em todos os banhos, refeições, trocas de roupa e mudança de humores. E é isso que mais me empolga nessa história toda, porque sei que será muito bom ficar mais perto da Amanda agora, em sua primeira adolescência (pra quem chegou agora, Amanda tem 2 anos e muita vontade), e que vou curtir um monte as descobertas do Arthur.


Mas mesmo sabendo que tudo vai ser uma grande folia e que dois meses passam num piscar de olhos (o Natal foi bom? Já estamos em março), sair do ninho deles por oito semanas vai ser a maior aventurinha das vidinhas deles até aqui. Ou não, né? Se brincar, por estarem conosco o tempo todo, eles até vão se sentir mais "em casa" do que normalmente se sentem. Hum... talvez não. Ah, não sei. A conferir.


Seja como for, quem tem raiz é árvore e eu quero mais é que eles cresçam com a sensação de que o mundo por aí afora pode ser bem diferente das paredes de nossa casa. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Com comidas, sons, cheiros e cores diferentes. Com pessoas cheias de hábitos diferentes. Com carros com a direção do outro lado e ônibus de dois andares. Nem que seja só para lembrar depois, dentro do aconchego insubstituível de nossa sala. Aconchego que também levaremos junto, porque vem da companhia que fazemos uns aos outros.


E, além do mais, quem foi que disse que criança precisa comer feijão todo dia, né?


Ai, o feijão... lembrei do motivo da insônia.

8 comentários:

Anônimo disse...

Se o motivo da insônia for só o feijão, pode ficar tranquila, porque lá tem feijão (mulatinho, também conhecido por carioca) enlatado bem gostosinho.

Angela disse...

Oh Rita e feijao tu faz la tambem ne? Por falar nisso, ontem a comida aqui foi feijao com arroz, que Max comia com vontade no Brasil e Julia comeu logo que fiz aqui. Os dois esnobaram repetidamente e acabou tudo se estragando. :\
Olha, sei que cada crianca eh diferente, mas viajei para distante com Max quatro vezes e Julia dois, em etapas diferentes da vida deles, e se sua experiencia for parecida com a minha: Essa viajem vai ser um pouco cansativa mas nada que uma noite de sono (uminha so) nao resolva. As criancas vao entrar no ritmo e nova rotina em poucos dias. A partir desse ponto acho que Amanda nem vai ligar muito com as diferencas and is going to go with the flow, e o Arthur vai estar super antenado observando, assimilando, perguntando, aprendendo e adorando tudo. Vao fazer muitas surpresas a voces. Vao fazer voces babarem e aprenderem com a atitude deles. Vai ver, vai ser tudo de bom!!!

Barbara disse...

Mas aqui tem feijao!! :)) Eu sou carioca, como feijao preto, e compro aqui de vez em quando sem problemas. Voce vai estar em Kensington, nao vai? Vai no Sainsbury de Gloucester Road e eu garanto que voce vai achar feijao de varias cores. Provavelmente vai estar na area de feijoes e lentilhas, mas de uma olhada tambem na "foods of the world" (ou "ethnic foods", nao lembro exatamente). Voce vai achar varias coisas interessantes.
(esse papo me deixou com vontade de comer feijao!)

Rita disse...

Oi, pessoas.

É tão bonitinho vocês entrando aqui pra me dizer que não vai faltar feijão. :-) Obrigada, viu?

A Mila até já tinha me dito que iríamos encontrar comidas com as quais as crianças estão acostumadas sem problemas, mas eu sou chorona assim mesmo. E, honestamente, quando morei em Londres anos atrás comia qualquer coisa e tava tudo certo - sozinha, o esquema é outro. Minha preocupação é mesmo com a Amanda, mais resmungona. O Arthur prova tudo, sem muitos grilos. Mas até a Amanda vai ter de entrar na dança, então vamos ver como ela se vira.

Anõnimo, Anginha, Bárbara: abraços e thanks!

Rita

Livia Luzete disse...

Rita, relaxa, vai ser novidade para as crianças, tenho certeza que vão adorar tudo e essa oportunidade deles experimentarem outras coisas e na fonte será uma experiência para sempre e boa!
Beijokas.

Rita disse...

Oi, Livia!

Relaxo, juro que relaxo, querida! Às vezes pareço mais estressada do que estou na verdade. Estamos na maior empolgação, pode apostar. Bjs!!

Rita

Bela disse...

rita, ha uns 2 meses conheci meus vizinhos aqui nos eua e sao uma familia de argentinos. o pai viaja muito a trabalho (ele eh convidado por faculdades pra estudar um tempo) e a mae aproveitar e leva os dois filhos pra ficarem todos juntos. aqui foram 3 meses so (nas ferias de verao nossas), e a mae deu um jeito de colocar os filhos na escola pra eles sentirem como eh (a menina tinha uns 12 anos, o menino uns 10). achei o maximo - com 12 anos a menina ja foi em muito mais lugares que eu com 26! =) acho que pra eles vivenciar tudo isso deve ser fantastico, deve abrir a cabeca, e eles devem acabar sendo pessoas muito mais abertas, flexiveis e tranquilas! e nesse dia eu pensei que, se eu pudesse, queria poder proporcionar isso pros meus filhos. e eh o que vc ta fazendo =)

Rita disse...

Oi, Bela, obrigada pela visita e pelo comentário! Pois é, na verdade será meio uma viagem de férias mesmo, só dois meses. Mas acho que vai dar pra gente curtir bem... não sei ao certo quanto meus filhos vão lembrar de tudo depois, provavelmente não muito, são ainda bem pequenos, 2 e 4 (quase 5) anos. Mas tenho certeza de que, agora, vamos aproveitar o que vier!

Beijos e volte sempre!
Rita

 
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