Mães (assim, no plural)



Tenho um punhado de amigas e colegas que se tornaram mães há pouco tempo. Seus bebês têm algo entre dois e seis meses e todas estão em licença maternidade, dedicando-se com a "devida" exclusividade à tarefa de acertar os ponteiros com seus respectivos rebentos e atoladas até o pescoço em fraldas, mamadas e pediatras. E conflitos. Nem todas, ao que parece, mas algumas delas estão encarando um ingrediente extra na já animada salada que é a chegada de um filho: certa culpa por sentir saudades da antiga rotina.

Ontem, quando li esse texto da Amanda, blogueira do Porte Dorée, fiquei pensando nelas e no tamanho da pressão que algumas mulheres enfrentam pelo fato de destoarem de certas tendências mainstream no quesito "ser mãe". E aí me pergunto: se admitimos com relativo conforto que cada cabeça é um mundo, que somos livres para adotar o estilo de vida que quisermos, para seguir a carreira que nos der na telha, para investirmos no tipo de relacionamento que julgarmos bom, para fazermos o que quisermos com nosso dinheiro, etc., por que cargas d'água não podemos pegar um pouco mais leve quando o assunto é maternidade? Por que descer o martelo com tanta inclemência e sair rotulando de egoísta a mãe que resolveu interromper mais cedo a amamentação direta de uma criança saudável para retomar seu trabalho? Sim, porque não basta tirar o leite materno e oferecê-lo na mamadeira: mãe que é mãe amamenta direto do peito, sempre.

Minha desconfiança de que o desconforto enfrentado por algumas amigas tinha suas raízes na aura supermãe que anda rondando nossas cabeças se confirmou quando uma delas comentou que tinha certeza de que estava sendo vista como uma megera por não entrar de férias logo após a licença maternidade. Ansiosa, começou a comparar sua decisão com a de outras conhecidas, medindo as escolhas e se sentindo a última das criaturas. Tipo assim, uma mãe ruim.

O irônico é que essa amiga em particular tem dedicado ao cuidado com os filhos muito mais do que ela jamais suspeitou que faria. Sua jornada de mãe de dois filhos pequenos, ambos com fraldas, tem sido árdua, com horas incertas de sono e muito cansaço. Não há monotonia e ela se sente apaixonada por suas crianças, daria um braço por uma cólica a menos, mas também sente falta de sua rotina de mulher do mundo, de seu trabalho, de sua carreira, seus investimentos intelectuais. E, honestamente, o que há para se censurar?

E eu fico aqui pensando que parte (parte, tá?) dessa culpa toda vem do fato de aceitarmos de maneira inquestionável que cabe exclusivamente à mãe o cuidado com os recém-nascidos, já que ela amamenta e coisa e tal. E sabemos que há em vigor certa alteração de paradigma que tem aproximado os homens de suas crianças, mas aparentemente não o necessário para livrar da culpa aquelas mulheres que, mesmo diante do maior amor da vida delas, sentem-se arrancadas de seu mundo quando o filho ou filha nasce. E talvez um bom fator para explicar melhor o que quero dizer seja a diferença entre as licenças maternidade e paternidade. Seis meses versus quatro dias.

A diferença nas licenças, a meu ver, já oficializa sobre quem a pressão vai cair. E antes que alguém esperneie e me pergunte se estou advogando a diminuição da licença maternidade, digo que não, eu queria era aumentar a deles. Ou, ao menos, quem sabe, que fosse dado a cada casal o direito de optar ou não pela divisão do tempo de licença, como se faz na Suécia, segundo li em alguns blogs de brasileiras que moram lá (como tem brasileiro na Suécia, gente!). Ou qualquer outro modelo melhor que alguém tenha em mente. Porque se governo e sociedade sinalizarem que os cuidados com os filhos cabem de igual forma a homens e mulheres, a balança da pressão muda. E é bom pensar nessas coisas, porque se morássemos nos EUA, por exemplo, teríamos que nos acostumar rapidinho com bombinhas extratoras de leite e mamadeiras porque lá a licença maternidade é minúscula. Para outros contextos distintos, vide texto da Amanda. E não dá para dizer que as mães americanas que não largam seus empregos são todas egoístas desalmadas, dá?

Mas o principal mesmo, algo que faria uma imensa diferença na forma como algumas mulheres experimentam a culpa por quererem sair de casa enquanto têm seus bebês pititicos, é revisarmos os rótulos que distribuímos por aí. Porque a verdade é que não é fácil mudar de forma tão radical nossas rotinas. Pode ser a maior alegria de nossas vidas, mas filhos trazem junto uma carga imensa de responsabilidade que assusta algumas, impressiona outras, desafia muitas. E as engenheiras não deixam de ser engenheiras quando viram mães, as domésticas continuam domésticas, as médicas ainda serão médicas, professoras serão professoras com filhos, etc. Não somos mães ponto final. Somos mães também, em um mundo instigante, com espaço conquistado a duras penas por quem veio antes de nós. E queremos continuar nele, sem culpa. Ou não! Porque o barato é a escolha e muitas mães vão até abdicar de suas carreiras e tudo bem também. São escolhas pessoais que apertam em lugares diferentes conforme o pé de cada uma. De minha parte, ando mesmo buscando uma jornada inversa que me dê mais tempo para os pequenos prazeres que o convívio com minha família me traz do que grandes conquistas profissionais. Mas  essa sou eu agora, nesse mês.

Então não rotulemos. Não tenho nenhuma amiga que não ame seus filhos. Tenho amigas com culpa por se sentirem julgadas. Aí não, né?

Então recomendo o texto da Amanda porque aponta para diferenças culturais interessantes que nos ajudam a lembrar que o mundo é enorme, mas que, aonde quer que a gente vá, está cheio de mães com condutas mais ou menos atraentes a nossos olhos. Talvez possamos ensinar algo às mães do mundo com nossas escolhas, e talvez possamos aprender um pouco também. Mente e coração abertos, sempre. Deixemos o "mãe é tudo igual" para quando quisermos rir de nossos conflitos de gerações; na real, se cada mulher é única, como é que toda mãe vai ser igual?


9 comentários:

Amanda disse...

Oi Rita! Eh verdade, essa diferença enorme entre a licença materna e paterna é um absurdo mesmo! So serve pra alimentar esse mito de que a mãe é a unica pessoa capaz de sanar as necessidades do bebê. Eu como baba, digo que eles precisam de qualquer um que cuide com carinho deles, não importa se é a mãe, o pai, a baba, a vovo.

Essa discussão é importante e da muito pano pra manga... Valeu pela linkagem! Beijos!

Angela disse...

Pete ate que teve direito a licenca paternidade de 6 semanas, mas nenhum tira e ele nao tirou. Ja ali no Canada, eh de um ano e pode ser tirada pela mae, pai ou dividida.

Eu lembro que senti falta da rotina antiga, mas depois de quatro anos ela nao voltou, nao esta muito perto de voltar, e eu tambem acostumei com a nova!
Pra falar a verdade nunca senti muito a pressao da sociedade para voltar ao trabalho ou ficar em casa, e apesar de ter sentido falta da rotina pre filhos, se pudesse ficaria 1 ano (ou 6) em casa com as criancas. Mas ai ficaria dificil conseguir uma brechinha no mercado de trabalho depois.

No fim das contas, ainda acho que tem uma coisa que a grande maioria das maes fazem em comum: o melhor para os filhos, o que varia dependendo das personalidades e da sua situacao especifica!

Barbara disse...

Tem uma coisa que voce esqueceu de mencionar: se a licenca maternidade e peternidade fossem mais parecidas e/ou pudessem ser compartilhadas, os nossos salarios nao seriam mais baixos que os dos homens!

Consequentemente, poderiamos escolher qual dos dois ficaria em casa e qual continuaria a trabalhar (nos casos em que existe a opcao, claro), o que quase nunca acontece... ja que os homens quase sempre ganham mais!

(Utopias...)

Mas falando sobre o tema geral do seu post, eu concordo, cada mae eh de um jeito, conheco algumas que nao curtem bebe e passam a ser maes otimas depois que as criancas crescem um pouco. Mas olha, tem muita mae que tem filho para "bater ponto" e sai largando com qualquer um na primeira oportunidade! E isso eu acho errado (sabe aquele ditado antigo, "quem pariu Mateus que o embale"? Pois eh).

E tem as que nao entendem que crianca nao precisa das melhores roupas, dos brinquedos mais caros, da maior casa. Crianca, principalmente pequena, precisa dos pais, de apoio, de companhia. Nao adianta passar 14 horas no escritorio para dar "o melhor" pro filho, porque desculpa, isso nao eh dar o melhor.

E vou ficar por aqui porque o comentario ja esta enorme.

Rita disse...

Oi, Amanda

Não é? E muitos ainda usam isso como "prova": "tanto é que sua licença é muito maior - é a mãe quem cuida mesmo". Cansaço, viu?


Oi, Anginha

É engraçado isso: os homens têm o direito, mas não usufruem? Por quê, né?

Acho que o ponto que eu quis levantar no post nem foi de "voltar à rotina antiga", no sentido de se levar a vida que se tinha antes, porque isso (para pais e mães comprometidos) é simplesmente impossível; além do mais, acho a nova vida, com filhos, infinitamente melhor (cada fase da vida tem seu brilho); meu ponto é que, via de regra, parece que encaramos com muita naturalidade o fato de que as mulheres têm mais é que dar seu jeito mesmo, sozinhas, para adequarem suas carreiras à nova vida, enquanto que muito pouco, ou quase nada, é dito sobre a influência da chegada dos filhos na carreira dos homens - vide EUA, como você mesma mencionou. E filhos são dos dois. Salvo, claro nas produções voluntariamente independentes, quando é o caso.

Beijão, meninas! Rita

Rita disse...

Oi, Bárbara!
Você tocou num ponto muito bom: a responsabilidade quando botamos filhos no mundo. E a neura de achar que precisamos de muito e aí criamos futuros adultos igualmente consumistas. Dá pra se viver bem com menos, principalmente com menos ansiedade. Claro que tudo fica mais fácil se o país onde se vive permite um vida digna com menos, caso contrário fica difícil abrir mão de escolas particulares e carro para levar os filhos pra la e pra ca, por exemplo, certo? Nossa, isso rende outro blog inteiro.

Quanto ao "quem pariu que balance", não podemos esquecer que os homens também devem balançar junto e esse é o ponto: se a divisão ficar mais negociável, a pressão de que falei no post diminui também. Eu experimentei muito pouco da vontade de voltar à rotina quando estava com recém-nascidos porque o Ulisses sempre pegou junto e eu embarquei na novidade com gosto mesmo. Mas eu queria que ele tivesse ficado em casa mais tempo, sim. E entendo muuuito quando vejo uma mulher em crise nessa fase. Sei do que elas estão falando e é normal a gente se sentir um pouco sozinha quando o mundo tá girando lá fora a mil e todos os nossos dias giram em torno de fraldas e afins. Normal. E se o homem quiser, pode tocar a vidinha nele numa boa, com muito pouca mudança. Vejo isso acontecendo o tempo todo.

Viu como esse blog adora comentários longos? Fique à vontade, querida. :-)

Beijinho,
Rita

Anônimo disse...

Mais do mesmo: Essa pressão é muito difícil mesmo, e não só a da maternidade, algumas coisas da casa são "pra mulher" fazer, e aí vc precisa ser uma super-mulher pra dar conta de tudo. Mas falando só da parte de ser mãe, na minha licença maternidade, tirei os quatro meses, pedi extensão da licença por quinze dias e ainda tirei férias. Não me arrependo, quando voltei a trabalhar fiquei com muita dor no coração, mas durante o período que estava em casa, eu me sentia excluída do mundo dos adultos, e foi ótimo pra mim ter voltado a trabalhar. Quando estava em casa, queria poder conversar sobre alguma coisa que não fosse criança, mas fiquei eu mesma sem assunto, ficava em casa o dia inteiro... E até nas programações socias, quando eu tentava ir levando meu pequeno, as pessoas me olhavam como uma criminosa que não pode sossegar o facho nem com um bebê. E eu adoro sair!!! Amamentei meu pequeno durante um ano, fui dessas sortudas que não tem problema com amamentação, mas tirei o peito de graça, porque estava louca pra tomar umas (várias) cervejas. Meu marido é um anjo, ficou sempre comigo e nunca precisei dizer nada a respeito, mas eu era tida por alguns colegas de trabalho dele como uma megera que não deixa o cara tomar um chopp inocente com os amigos. Passar o dia inteiro só em casa cuidando do filho deixa a gente ansiosa pro marido abrir a porta e ficar com a gente, imagina se ele não vem? E ainda pra ir tomar um chopp com uns marmanjos sem futuro? Ah, tem dó...

Rita disse...

Oi, Anônimo!

Hehehe, ah, os happy hours.. ainda farei um post protesto sobre os NOSSOS happy hours que NÃO fazemos. ;-)

Olha, eu faço parte do grupo que adoooora licença maternidade, sabe? Mas fico com aperto no coração quando vejo algumas mamães se sentindo cheias de culpa porque não compartilham do mesmo entusiasmo. Porque isso não quer dizer que elas não curtam o papel de mãe, só quer dizer que elas não querem só ele. Mas acho que ficou claro aqui, né?

Bjinhos!
Rita

Ana disse...

Oi Rita, vim conferir o texto que vc comentou lá no cafofo e te digo que achei muito interessante. De fato, temos sempre que repensar antigos paradigmas que ouvimos desde pequenas e nunca paramos para analisá-los, como esse de que "toda mãe é igual". Se eu não sou igual a todo mundo pq raios tenho que ser uma mãe igual às outras? Faz todo o sentido para mim agora, rs.
Gostei muito do seu estilo: simples, direto, mas com suavidade e bom humor. Parabéns!
Ainda não sou mãe, mas confesso que esse assunto começou a ser mais constante em minha vida, agora que me tornei "balzaca".
Seu texto me trouxe um pouco de alento quanto a questão de que cada uma tem uma solução e que dividir as experiências pode ajudar muito!
Um beijo,
Ana

Rita disse...

Oi, Ana!
Muito obrigada pela visita! Espero que volte outras vezes para trocarmos ideias sobre maternidade ou o que der na telha. Gostei de seu blog e a gente vai se ver por lá também!

Beijinhos,
Rita

 
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