Uma certa Maria

 
 
Muitos, muitos anos atrás, dei à minha tia um pequeno vaso com uma plantinha de pequenas flores amarelas. Ela recebeu, gostou e cuidou. Em minha última viagem de férias, há pouco mais de um mês, ela me entregou a foto acima. A plantinha ganhou floreira grande e enfeita seu quintal até hoje. E ela diz que as pequenas flores a fazem lembrar-se de mim todos os dias. Essa é a minha tia.
***

Eu me lembro bem do Otacílio, com quem convivi por algum tempo em minha infância. Ele era o marido da minha Tia Maria, irmã da minha mãe, aquela tia mais próxima que a gente guarda no setor do coração reservado às pessoas mais queridas. Otacílio era um senhor de certa idade e se enquadrava perfeitamente na imagem que eu fazia de um avô, eu que não conheci nenhum dos meus. Então eu o chamava de vovô, gostava da brincadeira e acho que ele também gostava.

Durante vários anos eu praticamente morei com eles, porque passava toda a semana hospedada na casa dos dois, na cidade onde ficava meu colégio. Chegava por lá já no domingo à noite e só retornava para minha própria casa nas tardes de sexta-feira. Então eu me sentia com duas casas, um avô e praticamente duas mães. Eram regras demais, mas eu me virava bem.

Lembro de muitas coisas da época em que "semimorei" na casa da minha tia: das mangas muito doces que eu chupava após o almoço, dos banhos de cuia, porque sempre faltava água, do frio serrano, hoje impensável, que tomava conta da cidade de Areia, lá no brejo paraibano, e que me deixava cheia de preguiça de sair da cama, dos fins de tarde na pracinha em frente à sua casa, onde eu encontrava amigos e sonhava com um futuro grande, da deliciosa convivência com meu colégio (que eu amava verdadeiramente), do insuperável doce de mamão-verde com coco, da inesquecível Lourdes que cozinhava aquele feijãozinho delícia e, principalmente, do quintal impossível da casa da minha tia, uma ribanceira vertiginosa que descia mata adentro e me parecia cenário de filme de aventuras. Tenho certeza de que aquele jardim suspenso era habitado por ninfas e gnomos que trocavam muitas figurinhas com minha tia, em horas e horas dedicadas ao cuidado com as plantas.

E também me lembro da relação muito carinhosa que ela tinha com o Otacílio, certamente um dos casamentos mais felizes da família. Eles se casaram quando ele era já um viúvo e os dois não tiveram filhos juntos. Então eu sei que, em certa medida, ocupei também esse espaço na casa deles. E de lá, do meu recanto de sobrinha/neta/filha, eu observava aquela cumplicidade toda, meu velho pra cá, minha velha pra lá, não esqueça o remédio, tome aqui o seu casaco, onde deixei meus óculos, estão no meu bolso, deixe que corto suas unhas, não precisa levantar, eu busco pra você, não coma muito sal, sente aqui do meu lado, perdi a caneta, tome, fique com a minha. E era tanta TV e tanta palavra cruzada e tanta comida boa, tudo sempre com muito carinho e cafuné. Era, mesmo, muito aconchegante e me sinto muito feliz por ter tido mais aquele pedaço bom de harmonia em minha infância.

Quando Otacílio morreu eu ainda era muito nova, mas lembro que chorei muito em seu enterro. Chorei por minha tia porque, mesmo sem ainda poder imaginar quão grande e valioso pode se tornar um amor, eu já intuía que sua perda era imensa e muito dolorida. E eu entendo que ela não tenha percebido o tamanho da minha dor solidária, afinal eu não passava de uma pirralha magricela e descabelada.

Tia Maria tocou o bonde, manteve seu trabalho, seu amor pelas plantas, suas palavras cruzadas, seu companheirismo, seu abraço bom. Os anos passaram, terminei o colégio, mudei, mudei de novo, fui para longe, depois para mais longe. Tia Maria também se mudou, foi para a cidade onde mora minha mãe e hoje são as vizinhas mais gracinhas do pedaço. Não faz mais frio em Areia, Otacílio habita outros ares e não sei se outras crianças conseguem conversar com as ninfas que certamente ainda moram no desfiladeiro por trás da antiga casa dela. Mas Tia Maria continua única. É, de longe, a pessoa mais descansada, displicente, relaxada, distraída e engraçada que alguém pode vir a conhecer. 
 
Este post poderia se tornar ainda mais quilométrico, caso eu me dispusesse a enumerar as muitas ocasiões em que minha fofíssima tia perde as coisas, esquece as coisas, troca as coisas, muda as coisas, exagera as coisas e toma decisões baseadas no mais puro senso de falta de noção. E nós a adoramos assim, com toda a confusão que lhe é peculiar, porque não seria Tia Maria se ela não guardasse a agulha de costura enfiada no colchão como se fosse a coisa mais certa a se fazer. Não seria ela se não usasse vinte e cinco panelas para fritar um único ovo. Não seria ela se não usasse a faca como quem usa um garfo, não trocasse os remédios nas embalagens "para facilitar", não guardasse moedas na gaveta de talheres, não contasse piadas que ninguém entende, não abrisse a porta do carro no meio do trânsito, enquanto aguardamos o sinal verde, para "ir ali tirar uma foto". Muitos, muitos etecéteras. É, adoramos. Os feitos da Tia Maria rendem muita conversa boa. Mas o que adoro mesmo é sua voz mansa, sua fala lenta, suas histórias looongas, seu sorriso acolhedor, suas mãos muito macias, seus olhos lindos, seus vestidos floridos, tudo que a compõe e a faz pessoa boa de se ter por perto.

Hoje, especialmente, eu queria muito que Otacílio pudesse nos fazer uma visita. É que neste final de semana, Tia Maria completa 80 anos e não consigo nem mensurar o tamanho de nossa sorte por tê-la conosco tão cheia de vida. Há muito que comemorar, minha Tia Cebolinha. E muito que agradecer também. Porque você é presente, é generosa, é engraçada - e isso é muito importante - é ouvinte, é carinhosa, é amorosa, companheira e, como se fosse pouco, ainda faz doce de caju (é, eu sei, esqueci na geladeira, né? Sou sua sobrinha, olha aí). Então, Tia Batatinha, receba hoje meu beijo à distância, eu que estou aqui com dor de cotovelo porque não vou poder descer a rua para lhe dar um abraço em sua casa. Mas saiba que se eu pudesse, hoje retribuiria cada um daqueles abraços com que você me recebia nas noites de domingo. Se fosse possível, também, hoje eu pegaria a linha do tempo e a estenderia à minha frente; assim distribuiria ao longo desses últimos oitenta anos todo meu amor e minha gratidão pelo papel fundamental que você tem em minha vida e na vida de minha mãe. Quem sabe assim, espalhado por oitenta anos, você conseguisse olhar para o que sinto e entender que, mesmo que eu não telefone, meu coração está com você todos os dias.

FELIZ ANIVERSÁRIO! 80 ANOS, CARAMBA!! UAU! YUHUUUUUUUUUU!!!!!! VIVA VIVA VIVA!!!!

E não reclame comigo, por favor, hoje eu vou telefonar.
 
Um beijo grande de sua sobrinha-filha-neta, de seu sobrinho-genro, e de seus sobrinhos-netos-bisnetos,
 
Rita, Ulisses, Arthur e Amanda

11 comentários:

Nardele disse...

Beautiful!

Só quem ama assim sabe. Parabéns à sua tia Cebolinha! Longa vida às pessas especiais que amamos!

Beijo carinhoso,

Nardele

Sinara disse...

Feliz Aniversário, Tia Cebolinha!!!! Você a descreveu tão bem que pude vê-la na minha frente... Sim, com a fala mansa e o jeito de quem não tem problema nenhum na vida...
Como é bom ter essas pessoas tão especiais em nossas vidas...
Quando falares com ela, diz que mando um beijinho muito especial, da amiga que 'rouba' um pouquinho do carinho da tia da amiga, que é meio tia de todo mundo... :-) Bom demais! :-)

Vivien Morgato : disse...

Rita, esse foi um dos textos mais delicados e saborosos que já li nos últimos tempos, lindo, lindo demais.
Adorei seus tios, parabéns tia Cebolinha.;0)

Bau disse...

Rita, faço das palavras de Vivien as minhas. Seu texto é lindo! Beijos, flor!

Jarid Arraes Singh disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rita disse...

Meninas, vocês são todas uns doces. De mamão-verde com coco. :-)

Vou transmitir os parabéns à Tia Maria é ela vai ficar ainda mais fofa.

Obrigada!!

Beijos,
Rita

Nilma disse...

Rita, li esse texto como todas, mas, com um gostinho especial, por saber que mesmo de um jeito meio torto, tenho um poquinho dessa tia maravilhosa, ela realmente é única e especial!!!!
Um abração...bjs nas crianças.

Rita disse...

Nilma,

"meio torto" nada, querida. Você é tão sobrinha quanto eu. ;-)

Beijos nos seus também!

Rita

Richie disse...

Rita, que texto mais lindo!
Nao tem como nao ler e nao lembrar dos nossos proprios avós, ou tios, enfim, daquele casal de velhinhos que todo mundo tem no coraçao e nas lembranças boas.
As confusoes lembram as dos meus. Meus avós tem 60 anos de casados, e são tao confusos, mas tão unidos na sua confusao que a gente percebe q só é confuso pra nós, do lado de fora. Eles sempre se entendem.
Deu saudade de ouvi-los, ao ler teu texto.

Boa semana!

Rita disse...

Oi, Richie!

A gente tem é de se espelhar nos velhinhos legais para quando chegar nossa vez, né? ;-p Leveza e um pouquinho de confusão, tenho concluído, faz bem à saúde! Vida longa aos atrapalhados!!

Bjs,
Rita

Fal disse...

Amor, beijos muitos, meu coração no seu.

 
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