O Haiti e a fé





Uma das coisas boas de não se ter muito tempo livre é o pouco desperdício de tempo. Não vou falar das crises devido ao desperdício de tempo no trabalho para não soar repetitiva demais, agora quero me ater às horas verdadeiramente disponíveis ao uso como me aprouver. Então com pouco tempo, vejo pouca ou nenhuma TV. O pouco que sobra para a telinha acaba sendo gasto com os eternamente repetidos filmes da TV a cabo, melhor assim. Porque TV aberta fica difícil, às vezes beira o insuportável. Mas admito que eu gosto de um noticiário, nem que seja para xingar as manipulações da imprensa, acompanhar a notícia sobre algo que já vi na web ou mesmo para ver como o William fica mais e mais grisalho a cada dia sem que ninguém se importe com isso – quero ver a Fátima grisalha, quero ver. Eu sei, existem os canais de notícias a cabo também, mas não me perguntem o porquê, quando decido “hoje vou ver o Jornal”, pimba, lá vou eu para o Jornal Nacional, provavelmente o mais questionável de todos os telejornais disponíveis. Mas não era disso que eu queria falar.
Queria dizer que, por andar assistindo muito pouca TV, somente ontem parei para ver o noticiário sobre o terremoto do Haiti. Eu já tinha lido sobre o fato, obviamente, em alguns sites, notícias cortadas aqui e ali. E minha mãe, antenadíssima com o que acontece mundo afora, já tinha me deixado por dentro do terror todo. Mas ontem eu quis ver. E vou dividir com vocês o que mais me impressionou.
Um terremoto no Haiti me parece uma terrível brincadeira da Natureza, de muito mau gosto. Parece humor negro do pior tipo. Nenhum povo precisa de um terremoto, obviamente, mas em um país como o Haiti a coisa extrapola a minha noção de má sorte. É como um incêndio numa favela muito, muito pobre, ou uma enchente em uma comunidade miserável. Tudo bem, existem os fatores sociais que favorecem as tragédias em alguns lugares e já li repetidas vezes que as frágeis construções do Haiti contribuíram em muito para os números absurdos da tragédia. Mas isso não invalida a tese: é justamente por ser pobre que o país ostenta as tais más condições de moradia, é justamente por isso que seu destino me parece ir além da má sorte.
Mas ligo a TV e o que vejo? No meio dos escombros, não muito longe de pilhas de cadáveres, em meio ao horror da morte e da destruição de um país já miserável, há um aglomerado de pessoas. Elas estão entre as "sortudas" que apenas perderam parentes e casas, mas estão vivas para continuar suas vidas miseráveis, em seu país semidestruído. Então elas rezam. O aglomerado de pessoas assiste a uma missa, cujo altar improvisado foi montado no meio da rua, uma mesa, um crucifixo, um padre sortudo, porque sobrevivente, temos a missa. E eu me calei diante daquela cena e minha cabeça entrou em parafuso, é muita, muita fé. Inevitavelmente me perguntei "o que eles pedem, agradecem pelo quê?"; e, consequentemente, "como acreditam que alguém olha por eles?" Suas vidas foram sacudidas como se nada valessem, suas casas caíram sobre suas cabeças sem que nenhum governo desmiolado tivesse bombardeado o lugar, seus velhos estão abandonados em asilos esquecidos - ei, eles tiveram sorte! o asilo não caiu! - suas crianças estão órfãs porque seus pais estão soterrados, outros estão sem filhos que não podem enterrar porque, na era dos aceleradores de partículas, o Haiti não tem escavadeiras para remover os entulhos e permitir a retirada dos corpos. E eles rezam, no meio do inferno, eles rezam. 
Eu não tenho essa fé. Minha fé é abalável, questionada, enfrentada, eu quero entender. Eu não renovo a fé quando vejo uma foto da criança salva e entregue à mãe - "milagre!", gritam - não, eu me ponho no lugar das milhares que ainda nem choram pela casa destruída porque perderam os filhos. Então a missa me deixou profundamente impressionada. Foi como um soco na minha barriga me mostrando que, no lugar deles, eu já teria sucumbido, quem sabe. Mas a falta de questionamento deles os mantêm de pé. Eles rezam e encontram algum conforto. O meu único conforto egoísta é olhar para o lado e ver meus filhos em segurança. Mas isso não afasta o pânico por saber que ninguém está imune ao sofrimento. Nem a desconfiança de que a fé não me serve de consolo.
Eu poderia me ater ao pensamento puramente científico e ver que as falhas geológicas estão ali e os tremores virão, cedo ou tarde, azar. Ou eu poderia me prender a uma análise sociológica e pensar o porquê de o Haiti não ser tecnologicamente desenvolvido como o Japão - algo que não impediria de todo o sofrimento, mas em muito ajudaria na recuperação do país e, consequentemente, mitigaria os sofrimentos que ainda estão por vir para os famintos e desabrigados haitianos.
Mas nada disso. Muda de tristeza, eu só me perguntava "quem ouve aquelas preces?". E de repente eu soube. Não importa, na verdade. Em meio ao meu espanto, pensei: que bom que eles acreditam. Porque não lhes resta muita coisa.   

11 comentários:

Nakereba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nakereba disse...

Sua frase final resume tudo o que eu penso a respeito disso.

Nardele disse...

Oi Rita, "olhaí", voltei! Menina, essa coisa do Haiti tem me abalado tanto... Eu sou jornalista, então não há como me blindar dos terrores dessa tragédia. Hoje eu recebi umas fotos, que tecnicamente são fotografias maravilhosas, mas a gente só falta tremer. Haja sofrimento, viu? Mas sabe, eu parei aqui pra pensar, minha fé não se abala. Eu acredito em Deus. Mas eu acho que não seria justo livrar os haitianos e não livrar as vítimas dos tsunamis, os europeus mortos de frio, os americanos vítimas de furacões, de brasileiros mortos em enchentes... são coisas da vida. A vida é maravilhosa, mas às vezes pode ser bem cruel. É o mundo. Às vezes uma pessoa vive uma pequena tragédia particular, e nem por isso o mundo inteiro se abala. Talvez eu esteja sendo um pouco fria, ou até muito crente, mas foi a reflexão que fiz agora. Não sei se me fiz entender direito!

O meu blog é agoramesmo.wordpress.com. Acho que eu que fiz algo errado, veja se agora aparece!

beijos!

Rita disse...

Oi, pessoas!

Nardele, sabe que quando publiquei esse post fiquei com o maior receio de que tivesse deixado um pouco a impressão de que eu estava fazendo pouco caso da fé alheia. Muito pelo contrário!! Tenho profundo respeito pelas crenças, seus dogmas e rituais. O fato de eu não compartilhar deles não me torna uma pessoa que não os respeite, sabe? O que eu quis mesmo dizer é que fiquei verdadeiramente impressionada com a fé de um povo devastado... e, na boa, acho que é mesmo uma dádiva, porque a que mais eles se agarrariam diante de tamanho horror?

Bom, acho que nos entendemos, sim!

Vou ver seu blog, sim! Dou notícias por lá!
bjs!
Rita

Nardele disse...

Arrasada! Ontem deixei um comentário gigantesco no seu 'post gigante para a crise idem', e ele não está lá! Menina, desabafei até alma e foi tudo para as cucuias do universo virtual! Estou pretérita...rs

Rita disse...

Ah, Nardele, eu não acredito!!!!! Meu, devia existir indenização para esse tipo de coisa!! Snif!! Envio minha solidariedade a você. Será que o comentário ainda vai aparecer?? O blogspot andou apagando uns comentários antigos que depois de algum tempo voltaram. Putz! dureza.... sinto muito. :-(

luci disse...

muito bom post! nesse sentido, temos a linha de raciocinio parecida. eu ja teria morrido. de tristeza, de solidao, de abandono... afinal, a gente tem que rezar pro deus que deixou a desgraca acontecer? eh isso mesmo?

Rita disse...

Oi, Luci.

É tão complicado isso, né? Eu entendo demais o fato de eles recorrerem à fé - afinal, é nas horas mais difíceis que a fé mostra seu valor (para quem tem). Mas, olha, fico com a impressão de que é preciso parar de pensar, viu? Mas aí... putz, e se eles não acreditassem em nada?? O desespero tomaria conta de vez? Na boa, quando vi aquela cena pensei mesmo que era uma tábua de salvação contra a loucura. O mundo deles está praticamente acabado, alguns não vão recuperar as perdas nunca, vão enfrentar doenças, desamparo, falta de abrigo... será que eu não rezaria também? Vai saber... Esse mundo é estranho e nossas cabeças também. ;-)

Beijos e obrigada pelas visitas!! Toda vez que vou no seu blog, morro de rir!

Rita

Vivien Morgato : disse...

Essa coisa toda mexe com qualquer convicção, não tenho dúvida disso.
Meu filho é ateu e questiona minha fé todo o tempo, eu digo pra ele que quero ficar "dentro da Matrix".
E é mais ou menos isso...rs
Não me interessa elocubrar sobre a existência divina ou não, porque minha fé é uma tremenda bengala e sem ela acho que não teria caminhado.;0)
E acho que funciona mesmo por aí.

Um dia, no meio de uma tempestade de problemas, Daniel tentava me provar - com esse problemas..ahahah - e inexistência de Deus.
O que eu respondi?
Caraca, ninguém se atreva a me provar que não existe, porque essa crença me faz bem, me mantém em pé, sai pra lá...rs

Mulher, é no caos que isso surge. Algumas pessoas não precisam. Eu preciso.

Grande beijo, delicioso texto, como sempre.

Rita disse...

Vivien, querida, compartilho de sua visão em relação ao papel bengala da fé. Por isso defendo com unhas e dentes o respeito a qualquer manifestação de fé, de qualquer credo. E foi justamente isso que tentei passar no final do texto: nem importa se de fato há alguém ouvindo as preces ou não! Para alguém que encontra ali apoio e força... sou que vou balançar essa bengala? E como eu iria substituí-la para aquela pessoa, hein?? A manipulação das igrejas é outro papo. Meu espanto caminha de mãos dadas com o meu respeito! E diga ao Daniel que ninguém consegue provar que Deus de fato existe; mas ninguém consegue provar que não existe. Cada um no seu quadrado... hehehehe...

Beijos, querida, obrigada pela visita, adoro seus comentários.

Rita

Mik, disse...

Olá, Rita! Encontrei vc no blog da Jarid e decidi expiar ^^

Primeiro, deixa eu te falar que o seu blog me deixou curiosa.. pelo jeito como vc escreve - e sou grande apreciadora da 'escrita' em todas as formas. Parabéns!

Eu estava me sentindo um pouco de mãos atadas quanto ao que está acontecendo no Haiti; foi por isso que também decidi publicar algo no meu blog sobre isso tudo e, de alguma forma, fazer a minha parte e ajudar.. e foi essa a impressão que o seu post me causou, que escrevendo a gente consegue ajudar - mesmo que seja "só" despertando o tão famoso amor ao próximo nos corações dos homens, não é mesmo?

Beijos!

 
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