Juntos



Se Ulisses fosse um bichinho, pelo pai que é, seria um pinguim imperador.


Penúltimo dia de nossas férias em João Pessoa, acabamos de chegar de uma saída rápida para alguns presentes atrasados. As crianças já estão na cama, o Ulisses está assistindo não sei o quê na TV e eu estou aqui lendo blogs. Aí me deparo com um comentário bem interessante de uma certa leitora em um certo blog no qual ela diz que se recusa a dizer que seu marido a ajuda nas tarefas domésticas, porque isso significaria assumir que ela é a responsável primeira por tais tarefas, cabendo a ele apenas o papel de coadjuvante. Resolvi tocar no assunto aqui porque eu poderia ter escrito esse comentário, é bem a minha cara. E sempre que penso nesse assunto, sinto uma profunda alegria pelo fato de meu companheiro ser tão companheiro de verdade e passar tão longe de certos machismos arraigados em nossa cultura.

Vejamos a criação dos filhos, por exemplo. Agora há pouco chegamos em casa (casa de meu sogro) e distribuímos alguns presentes; em seguida, as crianças se plantaram na mesa para a última comilança antes da hora da cama. Enquanto eu examinava alguns presentes e jogava conversa fora, Ulisses prontamente providenciou o lanche da garotada e auxiliou a Amanda com suas gulodices. Tão logo Arthur encheu a pança, fui com ele para o quarto para a escovação de dentes, troca de roupas, etc. Minutos depois, chegam Ulisses e Amanda e o ritual se repete com a pequena e o pai, enquanto lambuzo o Arthur de repelente. Beijos e boas noites, rumo para o computador e deixo Ulisses por lá para as últimas recomendações ("deita, Amanda", "não mexe aí, Arthur", "tira o pé daí, Amanda", "Arthur, não empurra, fica do seu lado do colchão", Amanda, dei-ta!", etc.).

Em praticamente todas as tarefas com os pequenos a história é bem parecida: faz quem toma a iniciativa, não existe a ideia pré-concebida de que isso é obrigação puramente minha ou dele. Ulisses troca fraldas, dá banhos, escova dentes, alimenta, brinca, passeia, leva e busca na escola comigo, dá remédios e o que mais vier. E algumas tarefas acabam sobrando quase inteiramente para ele por várias razões (o Arthur adora que ele conte histórias antes de dormir, só ele consegue correr pela casa com as crianças nos braços como se fossem aviões, etc.). E para ser bem honesta, devo reconhecer que ele pega bem mais pesado que eu. Porque quem tem filho pequeno sabe que o bicho pega mesmo é na hora de brincar, de manter a criançada ocupada. E aí ele dá um banho na criatividade e nas brincadeiras mais, digamos, barra pesada. E, além de tudo, devo a eles muitas manhãs de sono nos finais de semana, já que em 80% das vezes, no mínimo, é ele quem pula da cama primeiro, serve o café da manhã para eles e segue brincando enquanto curto o décimo sono.

Costumo dizer que quando nosso primeiro filho nasceu, eu ajudei bastante o Ulisses. Dizer o contrário me parece menosprezar o pai maravilhoso que ele mostrou ser desde a primeira madrugada em que ninou o pequeno e faminto Arthur. E assim seguimos criando nossos filhos, juntos.

Então penso assim: qualquer desculpa para empurrar a responsabilidade pela rotina pesadíssima de criar os filhos para as costas da mãe é só uma desculpa. Uma desculpa fácil de ser usada, já que vem com o poderoso reforço de uma sociedade machista que ainda prega que certas tarefas cabem apenas à mulher. Criar filhos cabe aos dois. Em todos os aspectos. E eu estou me contradizendo, mas só porque não consigo carregar o Arthurzinho pela casa como se ele fosse um avião.

Agora me deem licença. Vou preparar um lanchinho para nós dois. Poderia ser ele, mas eu estou com mais fome. Só por isso.

***

O post que inspirou este post é este aqui, e a comentarista em questão é a Luci.

8 comentários:

Angela disse...

Menina, ha dois anos atras Max so tinha mae, e uma bem acabadinha que trabalhava tempo integral e fazia de tudo muito e bem feitissimo para ele. Quem diria que hoje em dia entre eu e Pete, praticamente cada um cuida de uma crianca. Infelizmente este ano eu fiquei muito mais com Julia e ele muito mais com Max devido a amamentacao e depois virou costume. Digo infelizmente, mas nao que nao goste da Fofinha, mas gostaria que tivesse sido mais balanceado. A unica coisa que nessa altura acho estranho eh quando Max nao me quer, e quer o pai para certas (e maioria das) coisas. Apesar de nao termos responsabilidades definidas por contrato, tem coisas que Pete faz a maioria das vezes e outras que eu faco. Mas a qualquer momento ele sabe me cobrir e vice versa.
Entao quando a baba pediu ferias de uma semana na epoca de fim de ano, falei que eu teria que ir para o Brasil, pois gastar uma semana aqui (uma semana a menos com minha familia) nao ia dar. Ele nao podia ir nessa epoca, entao ficou com os dois a semana inteira. NUNCA pensei, ha dois anos atras, que isso aconteceria! O mundo da voltas heim? A unica parte infortuna (unfortunate) eh que vez ou outra ele comenta que "eh o unico pai" em tal lugar fazendo isso ou aquilo. E eh mesmo. Mas do fundo do coracao, acho que os outros pais eh que estao perdendo.

dannah5 disse...

Rita, eu concordo com vc em genero numero e grau, o problema eh que, as maes de menino sempre enraizam neles a ideia do homem como provedor financeiro e detentor dos direitos de paxa da casa, eles nao lavam louça, nao guardam suas coisas, muitos nao cozinham e nao cuidam da casa e quando cuidam eh aquela coisa meia boca de pega sem jeito e deixa o lixo no meio do caminho. Obviamente q o mundo nao esta perdido e temos muitos pais que sao participativos e maravilhosamente conscientes como o seu marido ( preciso dele emprestado para ensinar pro meu que ele nao sofre, ta certo? :D) mas temos alguns como o meu que vivem em conflito e se acham os caras mais azarados da face da terra quando tem que dividir as tarefas. Ja conversei aqui que to tendo um trabalho digno de Hercules para tardiamente educar ele, pq a mae ( minha dignissima sogra) tambem tem uma visao machista e super protetora. Teve uma vez aqui que tivemos um pequeno embate frente a sogra, na verdade nao era vontade minha impor algo em sua frente mas fui compelida. Imagina que ele eh cheio das frescuras pra comer, so come comida fresquinha, nao come algo que nao esteja afim e assim vai. Não tem condiçoes, casa nao eh restaurante, todos tem que comer o q tem, chato eh q eu tenho q ensinar isso, assim como varrer direito, lavar roupa e outras tarefas que todos deveriam ser capazes de fazer bem.

Familia eh isso, eh dividir as coisas, eh cuidar em conjunto dos filhos, brincar e acredite se quiser isso nao eh algo normal pra muitos. Ele ja ajuda melhor hj em dia, da banho nelas, troca fralda, alimentar eh um caos mas ainda chego lá!hehe

Eu acho muito legal algumas coisas que vejo nas escolas japonesas, obviamente tem que muita coisa ruim tbm mas la eles tem o hábito de dividirem as tarefas de limpeza da sala com os alunos, sorteiam e todos ajudam, além de terem aula onde aprendem a cozinhar e cozer e eh pra todos. Eu acho isso o maximo, pq ate parece que so mulher tem que gostar de uma casa limpinha, bonita com cuma comidinha gostosa, sao prazeres humanos nao sexistas, nesse ponto acho q nao eh legal tbm quando feministas atacam as mulheres que curtem cuidar da casa, isso eh um prazer e deve ser como cuidar do proprio corpo ou ler um bom livro, tudo conspira para uma qualidade de vida melhor, sao prazeres diferentes. Eh muito significativo ensinar a criança desde cedo a curtir esse processo, fazer coisas gostosas, limpar o quarto, palpitar na decoração da casa, ler junto, ver um bom filme, ta tudo ligado.

Vou criar uma campanha para os pais serem mais conscientes sobre essas coisas! haha (até parece!!!) Mas eh verdade em certo ponto, ne?

Acho muito legal a relaçao de amizade e cumplicidade de vcs que transparece nos textos!!

beijocas, adorei o texto!
Beijocas

Tata disse...

concordo contigo. acho uó quando me dizem que meu marido é um paizão pq sai com as meninas sozinho, pq dá banho, providencia comida, brinca, enfim, é pai. ele é um pai maravilhoso, sem dúvida. mas os comentários sempre carregam um quê de "vc tem sorte...", como se o normal fossem os pais 'meia-boca'... =D

Mari Hessel disse...

Olá! Sou a Mari, mamãe de um garotinho chamado Pedrinho (1 ano e 9 meses). Acompanho o blog já tem um tempinho(estou te seguindo rsrs). Hoje passei para convida-la a conhecer nosso blog. O "Mundo do Pedro" http://mariepe.blogspot.com.
beijinhos e esperamos sua visita!

luci disse...

ah, que legal que meu comentario rendeu alguma coisa! e uma coisa muito boa! fiquei sinceramente satisfeita de ver que você tem um marido com "m" maiusculo. até porque ele é brasileiro. e vamos combinar que homem brasileiro com essas caracteristicas é um ser beeeem raro.

não posso dizer que aqui na europa é raro encontrar um homem consciente, porque a educação que eles recebem é completamente diferente da educação brasileira. não estão acostumados a ter empregada doméstica, então ajudam os pais nas tarefas. também saem de casa aos 18 anos (quando entram na facul) e dai tem que aprender a se virar morando sozinho/com amigos. é por isso (também) que hoje eu tenho um namorado consciente.

eu li um pouco teu blog e, confirme, por favor: você é de esperança, na paraiba? hehehe eu sou de joão pessoa. meu pai é de campina grande e trabalhou em esperança muito tempo. que coindidência, se for isso mesmo... :)

adorei o post em que você falava das comidas nordestinas, mas eu evitei ler o finalzinho que ja tava meio mal de saudade...

bom, la vai eu tagarela! vou nessa! beijos beijos!

luci

ps. o melhor disso tudo é pensar que seus filhos dificilmente sairao machistas... ;)

Rita disse...

Oi, pessoas!

Anginha, você nem imagina como fico feliz cada vez que percebo que agora o Pete "pega junto" - tem muuuito mais a ver com a história de vocês; gosto de pensar na "outra" fase dele como um, digamos, surto passageiro. Foi! Esse, sim, é o cara paizão e supercompanheiro! Ooobaaa!!

Dannah, eu bem que gostaria que o Ulisses servisse de exemplo para um monte de outros pais que vejo por aí, sabe? E pelo bem das crianças mesmo: é tudo de bom ter um pai presente, seja qual for a situação do casal. E, pô, estamos em 2010... vamos combinar, né? Deu de tanto machismo, pelamô!

Tata, que bom vê-la por aqui! Também me incomodo um pouco com um certo deslumbre do tipo "olha, que coisa, ele faz tudo!" Ué, e não é para fazer? Ele é pai, uai!

Oi, Mari! Obrigada pela visita ( e pela "perseguição", hehehe)! Vou visitar seu blog com certeza, mas daqui a uns dois dias quando voltar das minhas férias - só para eu não ficar ocupando o computador do meu sogro o tempo todo... ehehhe. A gente se vê!!

Luci!! Tô te falando que a gente tem assunto! Sou de Esperança, sim e morei um tempão em Campina Grande! E agora, neste momento, estou em João Pessoa, no último dia de nossa viagem de férias - amanhã voltamos a Florianópolis/SC, onde moramos atualmente.

Quanto ao post, sim, infelizmente meu marido ainda me parece uma exceção à regra. Mas as coisas estão mudando no geral, acredito. Tá ficando muito feio ser machista em alguns lugares... E tomara que meus filhos não sejam machistas mesmo! Vou me policiar muito para não repetir velhos modelos do tipo "ele pode, ela não", "ela deve, ela não" e coisas assim.

Bom te encontrar! Manteremos contato!

Beijos, meninas, adorei os comentários!!

Claudia Serey Guerrero disse...

Oi Rita! estou de volta :) Olha eu diria que vc tem sorte sim, tambem acho que tenho, Mathieu faz tudo, da banho, corta unhas, da comida, brinca muitooo... mas, porem dorme muitooooo e pesadoooo hihihi dai sempre sou eu que acordo, de noite, de manha.. acho que é a unica queixa que tenho dele hihi, sabe que nao consigo imaginar ainda em deixa-lo sozinho (caso precise viajar) com Henri... tenho mede dele nao acordar de manha.. etc.. acho que é besteira minha, acho que se eu nao estiver, ele da conta, no fundo ele sabe que eu vou levantar por isso fica na cama né? :) ei vou ler os posts atrasados .... ei, Feliz Ano Novo!!!! sim, antes que eu esqueça.. assisti AVATAR 3D... adorei!!!!beijos, Claudia

Rita disse...

Oi, Claudinha!

Feliz ano novo!1 Saudades de nossos papos, menina!
Olha, tenho certeza de que o Mathieu vai se virar superbem se for preciso, viu? Pode apostar. Pergunta para aquela nossa amiga em comum(ela fez um tratamento de choque uma vez...)

Avatar: não falei? Lindo, né? Quero ver de novo, logo logo.

beijos!
Rita

 
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