Fora de ordem

 

Eu, em Marte, com meus bisnetos, organizando as fotos que tirei ontem: "essa aqui é a sua avó Amanda, bem pequenina".
 

Essa coisa de visualizar as fotos imediatamente após o clic tem lá suas consequências (os leitores mais novos vão dizer: ué, e não foi sempre assim, não? Não, pititicos, não foi.). Antigamente era diferente, claro: revelar era condição sine qua non para que a gente pudesse atingir o objetivo que normalmente temos em mente quando tiramos uma foto: ver a foto. Hoje não. Hoje em dia reclamamos que "ai, essa máquina é muito lerda! Leva um ano (um segundo) para exibir a foto que acabei de fazer agora-mesmo-nesse-instante-muito-rápido-que-tudo-hoje-em-dia-é-corrido-não-quero-esperar-anda-anda-anda-mostra!". Ui. E aí, pronto, já vi, nossa, ficou ótima, depois eu mando revelar. A-hã. Depois.
 
Daí que virou o ano e meus arquivos de fotos no computador ainda respondem pelos nomes de ...2007, 2008, 2009 e só. Enquanto isso na máquina já se espremem dezenas (centenas?) de fotos por editar, à espera de uma alma piedosa que as transfira para o computador, dê-lhes legendas lindas e originais (Arthur nadando; Arthur nadando.2; ...Arthur nadando.8 - meu deus, por onde andam meus neurônios) e essenciais para que se entendam as fotos (Amanda dormindo; Amanda tomando suco; Arthur olhando para a câmera; Arthur e Amanda de mãos dadas). Mas essa tal alma caridosa não vem. Além disso, desde que ganhei a máquina mais recente (deixe-me ver, há uns três anos?) venho jurando que vou instalar o programinha que gera a data na foto. Mas não instalo. Então as minhas obras de arte, reveladas muito tempo depois de tiradas, recebem legendas vagas nos álbuns: abril de 2008 (pode ser maio); verão de 2008/2009. Mas tá bom.
 
Quer dizer, bom não está, pois imagino que um dia, a bordo de uma nave espacial, viajando para visitar os bisnetos que terão se mudado para Marte, vou querer rever esses álbuns e curtir os detalhes, vasculhar minhas lembranças à cata de algum eventinho absolutamente insignificante para o mundo e fundamental para minha própria história e então vou querer vinculá-lo aos tais registros fotográficos. E aí as datas estarão ausentes ou erradas, alguma sequência burlada ou, horror dos horrores, umas tantas fotinhas sem suas valiosas legendas. E minha memória caquética vai me confundir toda: isso foi em Florianópolis ou em João Pessoa? Nessa foto Amanda tinha um ano e oito meses ou um ano e sete meses e meio? Nossa, vai ser a maior confusão.
 
Mas, olha, eu ando em um processo de desestressização. É, inventei. Não vou, digamos, forçar minha natureza, sabe? Não sou o que comumente se chama de uma pessoa desorganizada, mas bagunça e perfeccionismo me incomodam quase que na mesma medida. Até que convivo bem com pessoas perfeccionistas e chego mesmo a admirar sua capacidade de... perfeição (?), mas não é algo que eu almeje, honestamente. Vou deixando que minha vontade me guie (afinal, de que me serve ser adulta?). Às vezes lamento que alguns lindos momentos (aawwww...) de meus filhotes passem sem registro, mas não se pode controlar tudo. Não sei, acho que passei a ver um pouco de ansiedade demais na tentativa de registrar cada passo da criançada. Quero não. Vou fotografando assim, quando der na telha, sabendo que para cada flagrante impagável haverá dezenas de momentos que se cumprirão inteiros em sua fugacidade. E só. Puf, foi. A vida é assim. No final das contas, por mais fotografias que eu produza, elas serão apenas recortes de algo infinitamente maior que as tentativas de aprisionar aqueles segundos. Eu as adoro, claro, mas não quero ser dominada por uma ânsia maluca de registrar cada movimento dos pequenos. Então pisei no freio. E olha, ainda haverá milhares delas. Aff...
 
E é óbvio que adoro chegar à casa da minha mãe e ver os álbuns de minha infância (sempre fonte inesgotável de boas risadas - o que eram aqueles cabelos?!!) ou as poucas fotos da juventude dela (sempre fonte inesgotável de espanto: o que era aquela pele?!!). Mas não vou cair na armadilha fácil de me achar uma mãe desleixada por não atingir o mesmo primor de "cada foto com sua legenda, em ordem cronológica irretocável", porque não há como comparar o volume de fotos de outrora com a nossa loucura clic-clic de hoje. E eu vivo hoje. 
 
Então vou arrumando quando dá, colocando minhas legendas quase fiéis, revelando fotos tiradas há seis meses. E, quer saber? Quero mesmo um álbum digital que me liberte da necessidade de imprimi-las. Ou pelo menos que me deixe imprimir apenas aquelas com que pretendo presentear as vovós e os titios. Não, não servem os flickrs ou picasas. Quero algo portátil que eu ponha na estante e, quando quiser, olhe deitada na cama com as crianças. É isso. Um kindle para fotos. Alguém tem um aí? É bom? Vende onde? Custa quanto? Aceita cartão? Quero um. Vai ser mais fácil de levar pra Marte.
 
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Desculpa, mãe. Vou revelar e mando já, tá?  Prometo.
 

4 comentários:

Nardele disse...

Acabei de criar uma tese instantânea para dizer o que eu penso! Então dê um desconto...rs

Estamos vivendo uma espécie de limbo! É que nós crescemos num tempo em que as fotos impressas eram as únicas fotos, e nos apegamos a elas porque formavam o único registro que havia. A geração que ainda é criança hoje não teve contato com as fotos impressas como nós, então pra elas não faz falta alguma, e daqui pra frente vai ser assim. Então ficamos nesse meio termo entre imprimir e não imprimir.

Por outro lado, os pequenos hoje não acham nada de mais ver a foto 1 segundo após o clic, e nós vivemos esse "milagre"! Foi emocionante a primeira vez que vi uma foto logo depois de ser tirada. Hoje eles olham e dizem: ah, ok.

E para o futuro, como estaremos viajando para Marte a essas alturas, é bem melhor a gente 'scannear' nossas fotos de infância do que imprimir as atuais...

Colou?!

Beijo!

Renata disse...

Ei, mulher, acho que tem um negócio desse que vc precisa na casa de um amigo meu. É um porta-retrato que fica passando as fotos que ele armazena lá. Ele coloca na sala, e é como um... porta-retrato :o) É bem legal, vou perguntar pra ele onde ele arrumou. Beijos

Rita disse...

Oi, meninas!

Nardele: é, acho que a coisa está mais para escanear fotos antigas do que revelas as novas... aguardemos o desenrolar da bagunça.

Renata,

com certeza é disso que estou falando. O Ulisses acredita que esse porta-retratos comporta muuuitas fotos. A conferir.

Beijocas!

Rita

Daniela disse...

Desde 2004, que foi quando eu comprei minha primeira câmera digital, eu não revelo uma foto. E eu tenho TANTAS que gostaria de revelar que até pus esse item na minha lista. Pois é. Eu funciono super bem com listas. \0/

 
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