E se eu derramasse o mesmo leite?



(Tudo confuso, parcial, panfletário; este não é um texto crítico, é um texto de fã.)



Para tomar de um gole só, em poucas horas: Leite Derramado, de Chico Buarque.

***

"Não era loucura minha, a Balbina também notava que cada dia você perdia mais um traço da mãe, e nesse passo já perdera todo o desenho original da boca, fora o negro dos olhos e a tez acastanhada. Era como se, na calada da noite, Matilde passasse para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou os brincos na gaveta".

***

Vamos ver se consigo explicar a ambiguidade de meus sentimentos em relação ao último livro do Chico Buarque. A narrativa se constrói a partir das memórias desordenadas de um velho moribundo e suas lembranças quebradas em torno de sua família decadente. Tá. Nas idas e vindas da memória, as lembranças são sempre alinhavadas com retalhos de história descritos com fina ironia - beleza, é o Chico. Em minha singela opinião, não é o mais original nem o melhor escrito dele, mas algumas passagens divertidas e umas tantas imagens deixam na gente uma vontade danada de ter escrito aquilo. Com o devido desconto, é claro, já que minha leitura seguiu carregadinha de minha admiração pela obra toda do escritor-compositor. 

Ainda assim, oh céus, uma pergunta não me larga, como a vida é difícil. Vamos a ela. Seeee euzinha da silva publicasse um romance em que o protagonista lembrasse muito um outro, de um certo clássico de Machado de Assis; seee uma certa traição não confirmada na trama nos remetesse inevitavelmente a Capitu, também do Machado; seeee o título fosse fraquinho, óbvio demais (mesmo assim, não resisti à brincadeirinha "tomar de um gole só"; eu sou assim, previsível); e, finalmente, vai que eu optasse por dar aos personagens das várias gerações da família retratada na trama o mesmo nome (avô, pai, filho, neto, etc.), ecoando os Buendía de Cem Anos de Solidão, do Marquez, pergunto: eu seria acusada de picareta, escritora medíocre, de modelos copiados? Ou outros pontos considerados fortes da obra transformariam essas características em referências literárias que refletiriam a minha erudição? Seriam diálogos literários interessantes, sacadas legais? Ou plágio, deus me livre? Hein? Respondam-me, por favor, que agora fiquei confusa. Eu sei, eu sei, é o cara. Mas, ai, a pergunta não me deixa, o que posso fazer?

Se recomendo? Ué, e eu não vou recomendar um livro do Chico Buarque? Claro que sim. Qualquer semelhança com outras obras pode nem ser mera coincidência, mas ele pode.

;-)
(Eu avisei.)





Não me olhe assim, minha pergunta tem cabimento!

5 comentários:

Tatiana disse...

Concordo com voc~e..pergunta cabível..mas é o Chico e aqueles olhos azuis, aquelas músicas todas..preciso ler o livro...mas concordo com vc...
Obrigada pela atenção e delicadeza da visita..Abração

lola aronovich disse...

Ai, Rita, como vc é presunçosa! Quem disse que o Chico tá olhando pra vc? Desculpe, mas ele só tem olhos pra mim! Ou vc também tem um autógrafo dele dizendo "Lola, eu te amo. Chico Buarque de Hollanda"? Imaginei que não! Chico, meu amor, se vc estiver me lendo aqui no blog da Rita, saiba que estou com muitas saudades e que meu autógrafo vai completar 20 anos no próximo dia 25/1. Acho que o prazo de validade já expirou! Se puder renovar o autógrafo, me escreva. Grata.

Rita disse...

Oi, Tatiana, bom vê-la aqui. Pois é, fiquei pensando nisso depois que escrevi e, sinceramente, não sei se viajei na maionese. Eu gostei do livro, só que as referências são tão evidentes... sei não. E se ele quis mesmo fazê-lo assim... ah, não sei, não sei..

Lola,

será que entro nessa discussão. Não sei, você nem teria chance, não seria justo... porque se um dia o Chico me escrever, não vai ser um autógrafo. Vai ser para cobrar o sorriso e o assunto dele que eu levei embora quando calei o violão dele... ou talvez ele me faça outra canção. Ah, ele também fez uma pra você? Qual, diz aí...

;-)

Bjs!!

(Odisseus: licença poética, my love, licença poética)

Paulo disse...

ROFL!!Você tem dúvida disso? Estaria na prisão se fizesse o mesmo, e é claro, se vivesse em um país onde as leis valessem alguma coisa! Se fosse uma tese acadêmica não teria chegado à banca. Outra coisa: Licença poética nada! Se fosse comigo ia dormir no sofá!!

Rita disse...

Ôôôôôôô, Paulo... quanto rancor nesse coração... Relaxe. E, olha, nem estou convicta de que o Chico intencionalmente sugou ninguém, sabe? Acho que ele não precisa apelar pra isso, talento não lhe falta. E pode mesmo ser ignorância minha de não ler o tal livro com a mente mais aberta, vá saber. Só dividi com vocês uma impressão que ficou muito forte assim que acabei de ler o livro. Mas é isso, palavra escrita é palavra escrita: pertence a quem lê. Só é inevitável a sensação de que haveria, sim, dois pesos e duas medidas para avaliar a mesma obra se ela tivesse sido escrita por um Chico Ninguém.

Dormir no sofá?? Só se fôssemos eu e ele (Odisseus, não Chico), bem apertadinhos. ;-)

Bjs,
Rita

 
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