Os dias


Depois que voltei a Florianópolis alguma coisa mudou dentro de mim. A dor ficou mais pungente, a distância de sua casa, e agora também de seu túmulo, parece ter outra dimensão em um espaço novo, diferente. Não são só os quilômetros, mas também esse abismo diluído em meus pensamentos. Eu penso, sinto, experimento, mas não consigo descrevê-lo muito bem: é como se o conjunto de coisas e pessoas que compõem o meu mundo girasse de forma diferente agora, mais disforme, mais indefinida, como uma enorme esfera de geleia se mexendo de maneira imprevisível.

Tentei voltar ao trabalho, mas não consegui. Até fiquei por lá, mexendo aqui e ali, resolvendo pequenas pendências, mas era só parar por um segundo e meu rosto se banhava de novo nas lágrimas que não param de brotar cada vez que alguma quietude me permite pensar só em você. E, sabe, eu não vou bancar a forte, não ainda. Eu dou sorrisos e abraços às crianças e tenho imenso prazer na companhia do Ulisses, tenho meus momentos de papo jogado fora, mas não vou tentar mais do que isso, não agora. Meu coração e minha cabeça são um poço de sensações e pensamentos que me levam a você o tempo inteiro. E eu quero isso.

Você. Onde está? O que aconteceu com o que você sentia e pensava e achava das coisas? O que restou daquilo tudo que formava você? O que é essa coisa absurda e impressionante que arranca as pessoas do nosso mundo?

Então eu me volto às arrumações que me envolvem e me fazem tocar os dias. Os 21 dias. Eu abri as caixas, espalhei seus copos decorados pela minha sala. Pus os azuis com flores, cujas primeiras lembranças se confundem em minha memória com as primeiras lembranças que trago de minha infância, ao lado de outros copos coloridos e você iria gostar. As cores suaves são alegres e eles são lindos mesmo. Os outros, alaranjados, mais delicados, ficam em outro pequeno armário embaixo da escada porque só lá consegui encaixar a grande jarra que acompanha os três copos sobreviventes - um deles colado por você, certamente o mais valioso deles (obrigada, Ulisses, por garantir que ele também viesse). A chaleira de vovó Alice está na cozinha, assim como o conjunto de xícaras de café que morou em sua cozinha por tantos anos. E eu trouxe os pratos que você tinha pedido que eu trouxesse. Guardei e vou usar seu faqueiro, sua bandeja, sua fruteira. Guardei seu vestido preto e branco e duas de suas blusas e eles se parecem tanto com você que meu coração se contrai inteiro quando os toco. Guardei seus documentos, nossas correspondências que você guardou com tanto zelo e aquela pasta rosa em que você arquivou todos os meus boletins, diplomas, certificados, toda minha história assistida por você que vibrava a cada prova, cada teste tolo, cada passinho. Olho aquilo e sinto tanto carinho, mãe. Obrigada.

Pus em ordem cronológica os cartões e cartas que lhe mandei e vi que os anos de 1999 e 2000 foram campeões, estávamos bem tagarelas. Há alguns sem data, mas posso imaginar a época com alguma precisão, pela minha caligrafia, minhas letras tortas de menina confusa. Também abri meus próprios arquivos e reli suas cartas e pude ouvir sua voz; ouço sua voz quando me concentro, fecho os olhos e o eco vem. Eu não quero me esquecer de sua voz. Você começava as frases assim: "ô, minha filha..." Antes de ontem eu quis muito ligar para você e o que senti virou minha referência de saudade.

O ano acabou e será para sempre o ano em que você foi embora. 2010. Você não sofre mais. Nós não temos mais você por perto. Mas Ulisses insiste na indiscutível evidência de que você continua na gente, em mim, nos seus netos. A vida é estranha, mãe. Que coisa louca isso. Nós entramos o ano juntas e hoje vejo minha vida dividida em antes e depois de você.

*** 

Sempre gostei da imagem que nos une às estrelas. Ser pó de estrelas. Nascemos delas; em um tempo qualquer no futuro voltaremos a elas no ciclo infinito que mantém o universo vivo. No dia de Natal levamos flores ao seu túmulo e as crianças desmancharam o ramalhete e arrumaram as flores brancas e amarelas por sobre todo o túmulo. Eram flores frágeis, isoladas em talos que devem ter secado um dia depois ou no seguinte, mas ficaram lindas do jeito que as crianças arrumaram, balançando com a brisa tranquila do final de tarde. Por um momento elas pareceram infinitas porque me lembraram da continuidade da vida. Olhei para as outras florzinhas que estão plantadas lá, muitas ainda botões, e vi que seu corpo as alimenta, que os insetos as visitam e espalham vida por aí. Olho para meus filhos e sinto como se uma mão enorme pousasse sobre meu coração tristonho reforçando minha certeza de que o que fiz de maior em minha vida foi ter Arthur e Amanda. As crianças, as flores. É assim que a vida se renova, que você ressurge neles.

Não sei ainda como me comportar nessa fase de minha vida, agora que habito um mundo onde você é invisível. Mas sei que vou me reencontrar em algum momento e espero ter mais de você dentro de mim a cada dia.

***

Gostei tanto de ler uma de suas cartas hoje: você estava toda animada, escrevendo sobre amenidades, fazendo graça. Vou reler essa carta inúmeras vezes e fazer de seu sorriso minha estrela.

A quem passa por aqui


Meus queridos leitores (e amigos que têm usado o blog para manter contato),

Li cada e-mail, comentário publicado aqui e mensagem enviada ao meu celular nos últimos doze dias, bem como as DMs que chegam do twitter para a minha caixa de entrada. Tenho certeza de que todos compreendem meu silêncio, mas as manifestações de carinho de vocês me deixaram com vontade de explicitar o fato de que recebi cada uma delas com profunda emoção e gratidão. Muitos de vocês disseram que gostariam de me dar um abraço e quero que saibam que conseguiram me abraçar, sim, e que vocês têm participado dessa fase tão espinhosa com presença vívida e muito significativa. Não pensem, nem por um segundo, que estou alheia ao afago de vocês pelo fato de não ter respondido às mensagens ou comentários. Fico emocionada cada vez que leio uma palavra de apoio vinda de vocês, seja dos amigos cujas vozes quase ouço nos comentários, seja dos leitores que me emocionam com tanto carinho enviado a alguém que conhecem apenas através deste blog. Do fundo do meu coração, envio a vocês minha eterna gratidão por tentarem diminuir a solidão inevitável que tenho experimentado nesses dias. Eu espero sinceramente que em breve eu volte a sentir algo parecido com o entusiasmo que sempre senti por escrever aqui, mas entendo que as coisas seguem em seu próprio ritmo e que eu preciso passar pelo que estou atravessando agora. Tenho certeza de que voltarei a visitar os blogs de que gosto tanto, a me interessar por assuntos vários e a trocar ideias com todos vocês.

Os dias seguem em meio às coisas dela, na casa dela. Estou cercada de família e amigos, meus filhos me fazem rir um pouco e ocupam pequenas partes dos meus dias que são quase inteiramente dedicados à difícil tarefa de organizar coisas. Ulisses é minha força, meu amor, meu amigo, meu mundo.

***

Reencontrei cada cartão de Dia das Mães entregue à minha mãe desde que eu tinha quatro anos de idade, todos guardados e preservados segundo o mesmo rigor de organização que empregava em todas suas coisas. Reli cada carta, e-mails impressos, cartões, bilhetes, tudo guardado. Algumas cartinhas mais preciosas estavam plastificadas. Separei fotos, cartões, documentos, objetos. Suas roupas. Dentro de dois sacos plásticos, encontrei todos os posts deste blog que sua amiga Verônica imprimia para que ela lesse. Dentro de uma importante pasta de documentos, encontrei a foto de minha avó Rita, sua mãe; há dias minha tia e eu tentávamos adivinhar onde ela poderia ter guardado a tal foto, que por anos e anos e anos habitou a parede da sala. Ela guardou ali, entre documentos meus. Foi como um abraço.

É preciso fazer. Antes do retorno a Florianópolis, após o Natal, preciso deixar a casa pronta para ser ocupada por meus tios. Às vezes é como mexer no que não me pertence e peço licença o tempo todo. Às vezes é como mexer em uma ferida aberta e magoar, magoar. Mas há aqueles momentos em que ela surge das coisas como uma planta que cresce rápido diante dos meus olhos: eu abro o álbum e ela sorri, toco a roupa e ela me toca, olho a colcha da cama e a infância inteira vem.

Um dia por vez.

Não haverá Natal para mim, mas meu desejo de felicidades a vocês é verdadeiro. 

Obrigada por tudo,

Rita 


Pequeno réquiem de amor


Minha mãe e eu, dezembro de 1972.

Eu tenho muito medo de esquecer esses dias e tudo que tenho vivido. Hoje, segunda-feira, dia 13, acordei com a sensação de que as palavras não vão chegar e eu não vou conseguir dizer. Hoje não consegui chorar e meu peito tem um nó enorme que rouba meu fôlego e me deixa sem forças. Eu olhei inúmeras fotos e em algumas delas seu rosto se funde com sua voz em minha cabeça e você ressurge firme, bonita, viva.

Acho que você gostaria de saber que choveu no dia em que você foi embora, quinta-feira, dia 09 de dezembro. Há muito não chovia em sua cidade e você andava reclamando disso, mas no momento em que trouxemos você para ser velada em sua sala, como havia pedido que fizéssemos, havia um cheiro bom de mato molhado na entrada da cidade, ruas lavadas e ar limpo esperando por você e por todos que vieram se despedir.

Nós tentamos fazer tudo como achávamos que você gostaria que fosse feito, buscando em você as forças para cada passo. Nós vestimos seu corpo com a roupa que você escolheu. Você foi envolta em um tapete de flores e seu rosto sereno como há muito não víamos parecia flutuar entre pétalas brancas e lilases. Você estava linda e causou muitas expressões de encantamento e foram muitas as lágrimas que regaram aquele jardim.

Eu não sabia como fazer nada. Ficamos todos desnorteados, divididos entre o enorme susto da notícia de sua despedida e um caminho que parecia escuro e pedregoso à nossa frente. Fizemos apenas o que você tinha pedido: tentamos atender seus desejos e montamos um ritual de despedida que acreditamos ser bem parecido com o que você tantas vezes sinalizou que gostaria de ter. Todos ajudaram, com os corações aos pedaços, mas decididos a transformar aqueles momentos em momentos de comunhão com você.

Nossa família e muitos amigos se reuniram para falar de você, chorar junto, dividir a dor de ter de dizer adeus à mulher impressionante que você foi. Muito foi dito sobre o fim de seu sofrimento também, mas tudo me confunde tanto que não sei ainda como lidar com aceitação tão difícil. Eu não queria vê-la na UTI por muito tempo, mas eu quis com cada pedaço do meu coração que você voltasse para casa após mais uma virada de mesa daquelas que você deu com tanta maestria ao longo de sua vida. Eu até expliquei à médica que você tinha experiência em vencer aquele tipo de desafio, mas tive de entender depois que dessa vez você não queria mais.

Você nos deixou aos pouquinhos, preparando o terreno para o que viria pela frente, ajudando-nos, como era seu costume, a enfrentar nossas dores. Você não queria sustos ou desespero então você fez devagar sua saída e ela incluiu 36 horas de UTI onde aprendemos que seu coração precisava de drogas para bater e seus pulmões precisavam descansar; onde entendemos que o restante de seu corpo estava negligenciado para que os órgãos centrais tivessem a última chance de cumprir a imensa tarefa de manter você conosco. Saber que não era mais possível ainda chega ao meu entendimento em etapas. Às vezes preciso dizer em voz alta: mamãe foi embora. Só assim assimilo o conjunto de dias que tenho vivido. Em outros momentos sou outra que não enfrentou nada ainda e tomo um enorme, absurdo susto.

Durante as horas em que velamos seu corpo o mundo sumiu. Tudo que vi foi você em seu jardim flutuando para longe enquanto eu tocava a madeira, o tule, as pétalas, suas mãos, sua testa. A sala inteira se encheu de flores, a casa se encheu de amor. Todos vieram e quem não podia estar ali se fez presente de tantas maneiras quantas eram as maneiras de gostar de você. Ulisses ficou muito triste por não ter conseguido viajar a tempo e eu gostaria muito que meus filhos tivessem visto você mais uma vez, mas eles também estavam ali comigo, segurando minhas mãos à distância como você fez por tanto tempo em tantos momentos importantes de minha vida, mantendo-me sã. Em pé, aos pés de seu jardim, eu via você tão linda, você não faz ideia. Se eu fosse pintora, faria o quadro mais lindo do mundo.

Eu queria muito falar de todo mundo que veio se despedir de você. Sei que antigos colegas vieram, que suas cunhadas cuidaram de você e de mim, que seus  grandes amigos e amigas pareciam não acreditar e que muitos personagens de sua vida estiveram conosco durante horas, relembrando o que tinham aprendido com você. De algumas pessoas nem consigo dizer muita coisa, tamanha a dor deles. Olho para eles e vejo o vazio no olhar, a saudade no jeito de andar, seu nome a cada frase: seus irmãos, seus sobrinhos, suas amigas, sua inseparável Rosa... Seu netinho Lucas mandou beijos pelo ar, como havia feito no hospital, e a mãe dele veio ver você trazendo com ela o mesmo carinho que você conheceu. Sua cunhada Marilinda celebrou o tempo que você passou em nossas vidas, tudo que você nos ensinou, tanta troca. Seu filho se despediu e falou de sua luz. Tia Maria relembrou emocionada o dia em que viu você dar seus primeiros passinhos e todos nós ficamos com inveja dela... Eu falei de sua doçura nunca perdida, apesar de tantas subidas, tantos penhascos, tantos desafios. Seu sobrinho, com quem você conversou por telefone no hospital pela última vez, fez-se presente enviando uma mensagem, que foi lida por sua sobrinha, amiga e confidente: ele nos lembrou de que agora precisamos ficar alertas para não nos esquecermos dos aniversários uns dos outros porque você não vai mais ligar para todo mundo avisando "não se esqueça de telefonar para fulano". (E é bem verdade: estamos meio perdidos e corremos sérios riscos de perder prazos, esquecer datas, atrasar tudo.) Muitas outras pessoas estiveram conosco naquele dia, vários rezaram, alguns cantaram, muitos estiveram comigo e com nossa família naquela que foi a hora mais dolorida de toda minha vida e eu nunca serei grata o suficiente a quem me amparou e me ajudou a ficar de pé para dizer adeus ao seu corpo. E nós cobrimos você de flores lindas e ficamos ali, naquele pesadelo. Ainda era dia, havia luz, mas tudo ficou absolutamente escuro.

Sua casa está aqui e acho que você gostaria de saber que ela, que foi seu lar por trinta anos, será agora habitada por seu irmão, o que, na prática, significa que seguirá cheia, barulhenta, visitada pelas mesmas pessoas que não saberiam passar pela calçada sem tocar a campainha e entrar para um café. E assim seu nome será falado todos os dias na mesma sala, na mesma mesa, nos mesmos quartos, no mesmo jardim quente, no mesmo quintal cheio de caixas d'água. E eu trarei seus netos para brincar e correr na casa que você construiu e, principalmente, dormir no quarto que você fez pra eles. Já entendemos que não somos capazes de prever o futuro, mas ainda que, um dia, outros venham morar aqui, aposto que sentirão a casa sempre iluminada e, de vez em quando, a presença que você deixou aqui será sentida como uma brisa boa, um ventinho que aliviou o calor da tarde enquanto alguém observava as paredes sem nem suspeitar toda a energia que você precisou empregar para erguê-las. Porque a vida é assim.

Passo os dias vendo fotos antigas. Há sempre alguém comigo, não se preocupe, mas passo o dia sozinha em minha cabeça. Muitas fotos são para mim bem mais do que as imagens congeladas e ouço a voz da minha infância, meu nome em sua boca. Existe um peso que desce pelos meus braços e outro no peito: as fotos apertam, mas às vezes aliviam um pouco e abrem passagem para o pranto que impede que eu me afogue em meu silêncio surdo. Quando as fotos falam, se eu me concentrar bem, quase consigo tocar aqueles tempos em que você já sofria, mas ainda tinha viço, força, fôlego para andar, trabalhar, fazer canjica, reclamar do som muito alto e falar, falar, falar. Sua voz é absolutamente inesquecível e eu adoro essas fotos que de alguma maneira ecoam suas palavras, seus mantras, aquele jeito de chamar nossos nomes, de mandar tomar cuidado.

Nós nos reunimos na sala e providenciamos a lista com os aniversários da família, mas há três ou quatro que não sabemos e precisamos telefonar para perguntar. Veja só. Nós simplesmente não sabemos, como pode? Como você conseguia? Nós vamos ter de consultar a listinha o ano inteiro. 

Hoje é terça-feira. Tenho ido ao cemitério ver seu túmulo e é a coisa mais estranha da vida inteira. Hoje não fui porque ia viajar para minha casa abraçar Ulisses e as crianças. Mas o voo foi cancelado e eu fiquei naquele aeroporto sem conseguir sequer me mexer. Eu preciso vê-los. Agora não há mais tempo de voar antes da hora do retorno - antes da viagem já programada para passar o Natal com você e que mantemos na mesma data. Eu queria voar junto com eles, mas vou ter de esperar aqui, torcendo para que Ulisses consiga dar conta da odisseia que será viajar com Arthur e Amanda.

Hoje é quarta-feira e seu túmulo tem plantas novas que logo abrirão flores brancas e amarelas. Sinto você bem perto agora e acho bonito você e as flores. Ontem perguntei à minha tia quando você foi mais feliz e ela me disse que, sem dúvida, você era mais feliz quando estava grávida. Você era mais feliz quando seus filhos estavam dentro de você. Eu me lembro do dia em que você fez uma dancinha na sala porque sua amiga querida chegou, e é esse o momento, para mim. Pessoas, você ficava feliz com pessoas.

Hoje senti muito amor perto de mim. É como se estivesse começando a transbordar porque não posso mais ligar para você, ou guardar um comentário para fazer depois; não posso mais reservar dúvidas que só você esclareceria ou contar uma coisa engraçada que seus netos fizeram; não vou mais escrever posts pensando que Verônica levaria impressos para você ler, nem vou te dar a bandeja de tomar café na cama que pensei em trazer no Natal. Não há mais Natal, mas você ainda me faz transbordar de amor. Hoje fui à sua primeira missa - você sabe que missas não me dizem muita coisa, mas eu quis ir porque falariam seu nome e amigos estariam lá pensando em você; além do mais, você acharia bem ruim se eu não fosse, eu sei. E valeu pelo abraço que ganhei de sua amiga, pelo tempo que fiquei ali sentada pensando na minha infância e nos dias em que você me vestia de anjo para cantar no altar. Mas o anjo não era eu. Era você, com seu cabelo já grisalho, suas asas imensas em formato de coração acolhedor, sua luz boa.

Ah, mãe, essa dor ninguém conhece. Não é uma dor que se repete ou que a gente possa treinar antes. E eu não sei se quero andar para a frente. Há momentos em que resolver coisas chega a doer no meu peito, como uma dor de doença mesmo. Porque resolver coisas tem o poder devastador de evidenciar que nada tem volta. É preciso resolver isso e aquilo. Suas coisas, seus papéis, eu não consigo. Suas roupas, ainda não. Sua cadeira, mal consigo olhar para ela. É uma cadeira, mas é você inteirinha ali.

Está ventando forte agora de madrugada, conto as horas para Ulisses chegar com as crianças. Quero as vozes delas aqui se misturando com a sua que ouço quando procuro ou que chega às vezes como uma musiquinha distante: oi, meu amor, você diria ao Arthur; oi, minha boneca, você diria à Amanda. E eles diriam oi, vovó, o som de que você mais gostava. Eu acho que eles vão fazer a maior bagunça na sua cadeira.

Hoje é sábado. Hoje nos reunimos novamente para celebrar sua memória. Muitos vieram, amigas suas que se parecem tanto com você - elas compõem em minha memória as lembranças de minha infância, dias em que você as visitava comigo, alguém que trabalhava com você; olho para elas e vejo você. As crianças e o Ulisses estão aqui, finalmente. Reencontrar meus filhos e meu marido me traz um alento enorme e coloca um pouco as coisas no lugar. Mas a alegria de olhar para a Amanda agora vem manchada pela tristeza diante do fato de que você não vai mais vê-la.  E torço muito para que aquilo que todos dizem seja verdadeiro, que o tempo vai mudar as coisas, que a dor vai ser saudade serena. Saudade serena.

Levei as crianças para ver seu túmulo e eles fizeram bagunça por lá também.

Ontem choveu muito. Hoje está tudo como você gostaria. Eu estou aqui, o Ulisses lê histórias para as crianças no jardim, mais tarde os tios chegarão para café e papos. Agora você é nosso assunto e eu sigo com essa pergunta enorme, como vou gostar das coisas da mesma forma, sabendo que você não vai mais usufruir de nada. Onde está você, o que aconteceu com sua consciência? Eu queria morar em um romance, em uma casa cheia de espíritos, onde você mandaria sinais evidentes de presença. 

Ulisses disse que você vive nas crianças. Na quinta à noite, olhei Amanda dormir e ela é tão linda, cheia de infância. E todos dizem que ela é a minha cara e sempre diziam que eu era tão parecida com você. Eu vou por aí, parece um caminho bom. Vou procurar você neles, todos os dias, eles a quem amo como você me amava. Você sempre dizia que havia coisas que eu só entenderia quando me tornasse mãe e é verdade. Você falava de seu amor infinito, suas dores compartilhadas, seus sacrifícios. Agora quando penso que faria qualquer coisa pelo bem de meus filhos, sei que é um pouco você falando por mim. Foi isso que você deixou mais forte: que a gente vem para amar, cuidar, dividir. Você me mostrou que as pessoas importam mais e que nos tornamos maiores quando amamos. Eu quero amar, mãe. Mais e sempre. Meu marido, meus filhos, quem cruzar meu caminho, sua memória. Eu vou amá-la sempre, do meu cantinho pequeno de filha que teve tanta sorte e se sentiu amada e protegida todos os dias até quinta-feira da semana passada e agora sente, vindas dos ares que você respirou e dos chãos por onde você andou, as ondas daquele amor completo e sem fim. Como sua presença em minha memória, sem fim, mãe, mãe...

Difficult


Estou de volta aos aeroportos, voltando para o Nordeste por causa da piora que minha mãe sofreu ontem. Mal pus os pés em Floripa, recebi a notícia de que ela tinha sido encaminhada à UTI. Ainda tive tempo de receber o abraço infinito do Ulisses, dormir três horas, conversar com meus filhotes e pegar o próximo voo. Eu vou faltar à apresentação do Arthur hoje na escola, mas ele entendeu, do jeito dele. Eu detestei só ficar com a Amanda por tão pouco tempo hoje de manhã, mas ela também pareceu compreensiva. O estado de saúde de minha mãe é gravíssimo e eu agradeço emocionada o carinho de todos vocês que torcem tanto por ela sem sequer a conhecer.

Abraços,
Rita

Em conexão


A minha amiga está desolada porque o cachorrinho dela não resistiu a uma aplicação de vermífugo injetável e morreu. Eu sinto muito, ainda vou falar mais disso depois.

***

Hoje recebi um e-mail de uma outra amiga que adoro e foi como se ela estivesse segurando minha mão, impressionante.

***

Era para ser uma escala rápida em Recife, mas tivemos de descer do avião, o que foi bom porque eu não tinha nada pra ler comigo, já que o conto que comecei a ler ontem está em formato digital e o laptop estava sem bateria, bla bla bla. Então comprei um livro da Allende e ai que coisa boa essa mulher.

***

Agora estou no Rio aguardando o voo pra Floripa e acabo de receber um telefonema me informando de que a alta da minha mãe foi cancelada. Com uma crise respiratória ela permanece em observação até amanhã. Acabei de saber, assim, na conexão. No fundo, fico um pouco mais tranquila, porque confesso que deixei a clínica com cinco pulgas atrás da orelha, vendo que ela não estava tão bem quanto ontem. Mas, né, a médica tinha examinado e coisa e tal, ela queria voltar para casa de qualquer jeito e já tinha me dado uns cinco chega pra lá só por eu tentar convencê-la a ficar lá por mais uma noite. Mas no final do dia foi reavaliada e se convenceu. Reza a lenda que ela está mais tranquila, mas que quando eu disser a ela amanhã, por telefone, "eu não disse?", ela vai responder "bobagem, eu poderia ter tido alta". Enfim.  Bom, eu vou dizer coisa mais útil também, né, tadinha. A quem interessar possa, os exames feitos indicam estabilidade. Mas tá na hora de começarem a vender pulmões novos na esquina, pelamordedeus. Jogo do contente on: menos mau que a crise foi ainda na clínica, como todo o aparato para ajudá-la e tal. *suspiro*

***


Um moço largou a mala dele do meu lado e pediu para eu dar uma olhadinha. Falei: "minha religião não permite olhar bolsas em aeroportos". E ele: "Religião estranha essa sua, hein." Sou grossa? Muito cismada? Vocês tomam conta de bolsa de estranhos nos aeroportos? (Eu continuei lanchando, ele largou a bolsa em uma cadeira na mesa ao lado e voltou logo, repetindo que minha religião era estranha. Eu desejei boa viagem e fui embora, mas ainda o ouvi explicar que tudo que havia dentro da bolsa era uma panela de pedra. E eu que sou estranha.)

Gente fina, queijo quente e salada de frutas


O importante é não perder a fé. Hoje concluí a leitura d'O Vermelho e o Negro, de Stendhal - comecei em setembro, acho. Uma eleição e muitas digressões depois, hoje conheci o destino final de Julien Sorel. E o livro que fui empurrando com a barriga por boa parte da história transformou-se, no final, numa sequência de amores e horrores dignos de... romances do século XIX, hehe. Pretendo interromper a vibe "a França é meu país", depois de ter lido Flaubert e Stendhal in a roll: chega, por ora, de damas enlouquecidas em amores proibidos, desmaios histéricos e marqueses em crise; chega de guilhotinas, bailes luxuosos e títulos disputados como se deles dependesse o sentido da vida.

Imagino que o impacto do livro de Stendhal ao ser lançado, em 1830, tenha sido marcante, já que ele se esbalda na hipocrisia e superficialidade reinantes entre os franceses bem nascidos da época. Stendhal expõe com requintes de crueldade toda frivolidade e ambição daqueles que não olhariam duas vezes para quem não fosse duque ou marquês, rei ou membro das altas rodas da igreja. E a gente segue lendo e imaginando se, afinal, o filho de um carpinteiro que despreza a futilidade das classes abastadas e sonha em subir na escala para curar seus traumas de plebeu e, de quebra, humilhar os esnobes aristocratas com sua cultura de leitor voraz e latinista (uia) exemplar, vai ou não encontrar seu lugar ao sol. Mas, para mim, os melhores momentos da história ficam mesmo por conta da ironia com que Stendhal expõe os ares "democráticos" do convívio entre gente tão "phyna":

"Mesmo neste século entediado, ainda é tamanha a necessidade de divertimento que mesmo nos dias de jantares, logo que o marquês deixava o salão, todos fugiam. Contanto que não pilheriassem a respeito de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas de posição, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo o que está estabelecido; contanto que não falassem bem de Béranger, nem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de todos os que se permitiam certa linguagem franca; contanto, sobretudo, que nunca falassem em política, podiam comentar tudo livremente." - hehehe - aah, a aristocracia... (juro que me lembrei da demissão da Khel). 

E nem vou falar muito dos romances de Julien com suas escolhidas, no melhor estilo puxa-encolhe: quando se afasta um pouco das cenas políticas e reais dos donos do dinheiro, Stendhal escancara a mania que o ser humano tem de desejar o que não pode - até poder para, em seguida, parar de desejar. E aí a história, apesar de recheada por vocábulos dos tempos de Napoleão, torna-se bem atual... a gente muda o século, o endereço e alguns costumes, mas, lá no fundo, somos um povinho bem difícil desde sempre, aqui ou na França, em qualquer tempo. E aqui Stendhal não deixa ninguém com fome: os amores de Julien têm olhares, cartas de amor, volúpia, ciúmes, vidas em risco, drama, ironia, caminhadas no jardim ao luar *suspiros*, prisão, traição, escada na sacada, suborno, honras de donzelas e senhoras jogadas ao vento e mais não digo.

Gostei de ter lido, o livro é um marco na literatura francesa e nos ajuda a perceber o ridículo das ganâncias que tantas vezes determinam o destino de povos e países - o que é sempre útil. 

E a fila andou, ufa.

p.s. Talvez eu volte a falar do livro para tratar um pouco da mulherada da história, num dia em que eu não estiver com sono e derretendo de calor sem poder ligar o ar-condicionado porque minha mãe não gosta.

***

Enquanto isso, ainda no hospital:

- Mãe, vou pedir um lanche pra mim.
- Tá.
triiiimm, triiimmm
- Copa, boa tarde.
- Oi, posso pedir um lanche pro 502?
- Sim, o que você quer? (Atenção, ela me perguntou o que eu queria!)
- Humm, quais as opções?
- Só temos queijo-quente.
- ... Então eu quero um queijo-quente.  

O que me fez lembrar daquele dia, na praia, quando eu e minha amiga avistamos uma barraca de salada de frutas. Jamais imaginávamos que a coisa fosse ainda melhor e que eles servissem a salada com leite condensado, yummy!!

- Moço, duas, por favor!
- Com ou sem leite condensado?
- Uau! Leite condensado?! Com, bastante!
- Hoje não tem, só tem sem leite condensado.

É mole? Alô, Salvador! :-)

7 mares, 7 cores... 7 leitores?


Ainda vou pintar.

Se eu fosse um Bandeira, um Byron ou uma Woolf, aproveitava o banzo e extraía de lá um conto profundo ou um poema dolorido, escrevia meu nome na história e me esbaldava na catarse. Mas eu não sou, não, então escrevo frases com conjugações duvidosas e saco um meme para me salvar nessa tarde de domingo em hospital.

07 coisas para fazer antes de morrer:

viajar pelo mundo, o tanto que der, onde for; com a tropa, claro;
andar com Ulisses pelas ruas de Viena, nem que seja por uma noite apenas;
assistir a uma apresentação da Nona de Beethoven, em um grande teatro, com uma grande orquestra e grandes vozes;
pintar pelo menos um quadro decente;
publicar pelo menos um livro - um dia sai;
aprender a falar francês decentemente;
aprender a fazer cookies - sem queimar nenhum, sem jogar nada no lixo, sem incensar a cozinha, etc.

07 coisas que mais digo:

Arthuuur!
Amaaanda!
Amor, acorda, tá na hora.
Arthur, vira pra frente e come.
Alguém viu meu telefone?
Vou fazer um lanchinho.
Aff, num acredito (não sei por quê, mas vivo me surpreendendo).

07 coisas que faço bem:

bolo (se a receita for boa; não faço nada no improviso);
gafes;
café (no improviso, olha!);
reclamações e mimimis em geral;
cócegas;
conversar miolo de pote;
mala, bolsas, necessáires, sacolas - o que for para pôr o pé no mundo.

07 defeitos meus:

Só sete??

impaciente;
ansiosa;
reclamona;
de humores imprevisíveis no final;
esquentadinha (aff, odeio);
acomodada (é pontual, mas é uma longa história e isso é só um meme)
insegura.

07 qualidades:

Tudo isso?

boa amiga;
apaixonada (tô falando do marido não; isso também, mas é mais geral a coisa);
generosa;
exercito a empatia;
de riso fácil;
persistente;
disciplinada, se necessário.

07 coisas que amo:

Coisas, tá? Não pessoas.

pessoas (rá!);
manga na salada do almoço;
sucrilhos de chocolate com iogurte de morango;
acordar depois de sonhar com Odisseus e ver que ele está ali, do meu lado, todo dia;
os cachinhos do cabelo da Amanda;
yoga;
ouvir o Arthur narrar hoje, aos cinco anos, fatos que ele viveu aos dois ou três anos - meu filhote já tem história.

Vocês podem escolher uma das listinhas e soltar o verbo. Vou adorar, já que amanhã ainda estarei aqui, à cata de coisas mais interessantes para ler do que os crachás da enfermeiras.

***

Minha mãe segue se recuperando, de novo. Agradece a torcida e fala que a cama dela é melhor. Não duvido. 

Blue



Eu tinha meus momentos de tristeza quando era criança. Tinha muitos, na verdade. Minha infância fácil e com relativo conforto tinha lá suas nuances azedas e me lembro daquela tristeza que hoje já tem cara de antiga (ui). Era relativamente fácil me esconder dela, eu adorava falar sozinha, brincava o tempo inteiro, até quando parecia que eu estava apenas almoçando ou indo tomar banho. Mas a tristeza estava ali, esperando; de vez em quando eu me esquecia de brincar e ela me pegava.

Quando a adolescência chegou zombando das tristezinhas da infância e me mandando sentar porque vinha mais, eu já sabia me esconder. Não falava mais sozinha (tanto), mas os livros estão aí pra isso. E a vida era boa e tal, eu me satisfazia com pouco, era feliz traduzindo letras das músicas do Elton John com ajuda de um dicionário ruim. And I guess that's why they call it the blues... (sem constrangimentos)

Na minha cabeça, a ideia do que é sofrimento esbarra nos velhos conflitos dos limites da linguagem (que às vezes caímos na besteira de achar que expressa tudo). Mas para mim nunca fez muito sentido associar a mesma palavra que usamos para descrever o momento em que descobrimos que o ladrão roubou o CD do Smashing Pumpkins para descrever a certeza de que aquela pessoa não volta mais. E é tudo tristeza, em maior ou menor grau. Mas o tal maior ou menor grau não é detalhe e ah se tivéssemos palavras para cada sensaçãozinha de perda; talvez a coisa ficasse meio caótica e o entendimento fosse prejudicado a limites impensáveis, mas seria mais justo assim - sempre achei um milagre a gente conseguir se entender anyway

Eu ainda me escondo das tristezas. Crescer não muda tudo. E tem uma coisa que rola comigo que não sei se é mero jogo do contente ou acúmulo de angústias. Quando o bicho pega, presto atenção em cantinhos protegidos que cultivo dentro de mim; logo depois olho pro lado e não demoro, nesse mundo, a ver dores maiores. É horrível, eu sei. Não é nobre nem motivo de orgulho, mas não consigo evitar. Vem de longe, da infância, e acho que faz parte do que sou. Eu procuro ver o bom e às vezes os caminhos são bem tortuosos.

Não faz muito tempo meus filhos me ligaram: ele disse que sabe que penso nele porque é "o melhor filho"; ela avisou que ia fazer xixi. Na TV a novela é péssima. Leio blogs, comento por aí na tentativa de mudar de assunto. Mas, na real, taí uma forma de detonar os assuntos: hospital. E quase acho que "tristeza" define tão bem quanto definia os medos da infância e que é melhor que seja assim. Se tem uma coisa que esse mundo nunca vai ser é justo.

***

É, eu sei, ninguém merece mimimi. Mas eu não mando em nada.

***

A viagem foi tranquila. Stendhal de companhia, a pior coxinha do mundo, pão de queijo velho. No aeroporto vi um cartaz que dizia que na China há mais estudantes de inglês do que há pessoas na Inglaterra. And I couldn`t care less.

To be

Na frente da minha casa, do outro lado da rua, há uma pequena mata. Da sacada do meu quarto, para além das copas de nosso ipê e de nossas palmeiras, posso ver os eucaliptos de pescoço comprido que às vezes se balançam tanto que é um espanto não se quebrarem. Agora há pouco, depois de desligar o telefone, fiquei sentada na cama, olhando esse verde todo emoldurado pela porta da sacada. E fiquei pensando na mansidão das árvores que vivem muito tempo: ficam lá, o mundo girando, as pessoas passando apressadas rumo a sabe-se lá onde; e elas ali, existindo somente. E fiquei pensando que viver é algo que se aprende todo dia - mas não para elas, que já parecem saber que toda pressa é meio boba.

***

Fisicamente, vou sozinha, mas quem me vê no aeroporto nem desconfia da legião.

E toda torcida é bem vinda.

O laço


Existem laços dentro de nós que nos amarram às outras pessoas. Às vezes os nós apertam e incomodam e desatá-los se mostra uma tarefa bem mais exigente que o esperado. Desamarrar certos nós pode ser doído, demorado, sacrificante, extenuante até. Mas a gente aprende. Outras vezes, no entanto, nem nos lembramos dos laços, de tão eficientes que eles são. Ficam ali, invisíveis, unindo o mundo. Os nós frouxinhos, confortáveis, apenas conduzem nossos pensamentos, nossos sentimentos e carinhos rumo àquelas pessoas por quem nutrimos as mais variadas formas de amor. Tem laço bom, elástico, que nem liga para milhas ou quilômetros - mantém tudo ligadinho, sem qualquer pressão. Outros são mais frágeis, arrebentam-se e às vezes não há remendo que dê jeito.

O laço que trago comigo tem muitas pontas. Mas com algumas delas o vínculo é tamanho que parece definir minhas trilhas. E deve ser por isso que meu coração se aperta tanto quando algo vai mal na ponta de lá. Porque não deveria ser assim. Algo não se encaixa quando as coisas andam suaves por aqui, mas difíceis por lá. E aí eu sinto um desconforto enorme por não poder usar o laço para dar uma manipulada geral e transferir umas coisinhas para a outra ponta. Porque eu faria, se pudesse. Eu dividiria parte de mim, sem piscar. Eu doaria saúde, por exemplo.

Há dias em que eu queria ser bem ingênua e acreditar naqueles papos esotéricos de que o universo conspira e bla bla bla. Ou que tem alguém prestando atenção do lado de lá da prece. Há dias em que eu queria agarrar o laço e puxar a outra ponta, misturar os extremos e equilibrar tudo. Mas eu não sei como é que se faz.

Cara de pau


Quer ver uma blogueira bem cara de pau? Eu. É assim, ó: a pessoa vê um comentário interessante no twitter, aí vem no blog e comenta o comentário, assim meio disfarçando, como quem escreve um post. E aí vocês vão lendo e achando que, olha, a Rita fez um post novo. Não fiz não, gente. Isso aqui é só enrolação.

E tudo bem, tudo bem, se eu pegasse o tal comentário interessante e o transformasse em um texto decente, explorando o tema, desenvolvendo e tal - aí seria um post “inspirado" no comentário, né? Mas né não, eu não vou desenvolver nada, tô só enrolando. É que hoje não tenho tempo (inspiração tenho aos montes hoje, cof cof... #not), e eu morro se não dividir com vocês o tal comentário interessante. Nem é um comentário, na verdade. Ponto, parágrafo.

É um texto que vi, indicado lá no twitter pela @cdiurno. Ah, eu ri muito. É esse aqui. A notícia já é meio velhinha (em tempo de internet, notícia das 10:00h já é velha às 11:00h, imagine; o texto tem umas semaninhas, já). Mas se você não lê inglês, eu vou dizer o que é: um casal polonês, engajadíssimo em um movimento neo-nazista, resolveu fuçar uns arquivos de certo instituto de Varsóvia e descobriu um segredinho de família daqueles de arrepiar: eles são... judeus! Oh my God! /0\ Olha, que coisa, nós fazemos parte do grupo que queríamos varrer do planeta, e agora, como faz, ó vida ingrata?

Pronto, olha só, contei o que vi, não acrescentei nada de nada e fica assim, parecendo um post. A vida é assim, às vezes, meio sem muita coisa. E hoje vou jogar boliche, não me julguem.

(Ah, eles agora vão à sinagoga e não são mais neo-nazistas, não. Mudaram de ideia. Aff, povo mais vira-casaca, sem personalidade, né?)

Bits and bobs


Então, afinal, fui ver o Harry Potter. Não posso falar muita coisa, foi o único da série que vi até agora e o que ficou foi: é legal, sim, bem feitinho e tal. A história é bacana, com pitadas (generosas) de Tolkien e momentos cute cute. Mas não me vejo, ainda, lendo os livros da série. Talvez eu veja os outros filmes... será? Não sei. Mas para que ninguém me chame de ranzinza, digo que é bem bonitinho, sim, e que entendo all the buzz about it. Pronto, não sou mais tão herege assim. Já sei quem é o menino. Ah, e gostei bem da Hermione (olha, tenho até personagem favorita - sou quase uma expert).
:-)

***

Daí que abrimos a mochila que o Arthur sempre leva para a escola e o que há lá dentro? Um regador, claro. Um regador de verdade, não de brinquedo.

- Arthur, por que tem um regador na sua mochila?
- Ah, o G. me deu.
- O G. te deu um regador?
- É.
- Assim, do nada?
- Nãããão, não foi assim, do nada! Você me deixou na sala de aula, eu coloquei minha lancheira no cabide, entreguei a agenda pra professora e o G. me deu o regador. Um pra mim e outro pra H.
-...

E tudo bem. Mas, né, a curiosidade e tal. Liguei para a mãe do G.

- Querida, o G. deu um...
- Deu, deu sim!
- Ah...
- É que ele tem um daqueles e queria que os amigos tivessem um igual, para cada um cuidar de seu jardim.

***

Na loja de brinquedos, o Arthur me pediu para perguntar ao moço o preço de um alienígena qualquer. Um segundo depois, falou:

- Não, não precisa perguntar! Não importa o preço, esse quem vai me dar é o Papai Noel.

E agora? Olha pro lado, diz que “Ah, é!” ou vai logo dizendo que não é assim que a banda toca?

***

De manhã cedinho Amanda fugiu para nossa cama. Chegou lindamente descabelada, com aqueles cachos todos se engalfinhando em torno de seu rostinho de menina de Renoir, olhinho inchado - não só pelo soninho inacabado, mas também por causa da última peraltice. Escalou nossa cama e cavou um cantinho ali entre os travesseiros; deitou e voltou a dormir. Eu ainda tinha uns minutinhos para curtir aqueles melhores momentos da cama quando o dia nasce e fiquei por ali, entre cochilos rasos e conferidas no relógio. Uns dez minutos depois, Amandinha embarcou em um sonho bom e sua risadinha enquanto dormia foi a coisa mais gostosa ever. Fiquei olhando aquilo e pagaria caro para poder entrar naquele sonho e conhecer o motivo por trás daqueles giggles tão gostosinhos. Risadinha de prazer, como quando ela acha muita graça em alguma parte de um desenho animado. Ria, dormindo, enfeitando meu dia sem o menor esforço. Linda, apaixonante, minha menina.

Ajoelhou...


Foi só eu dizer que toparia qualquer negócio e o aniversariante tratou logo de se aproveitar da minha boa vontade, vejam vocês que descaramento. Conseguiu me arrastar, digo, levar ao cinema para ver a primeira parte da segunda saga do terceiro nível do sétimo livro que conta a história daquele menino-bruxo, como é mesmo o nome? Ah, isso, Harry Potter. Vou ao cinema ver isso aí. Sugestão de aniversariante não se discute.

Odisseus quarentão


Aproveitando a vida

Há um velho clichê que diz que a vida começa aos quarenta. Encaro como uma tentativa bonitinha de tentar driblar a ansiedade que nossa mania de juventude costuma gerar. Ei, não é de todo mau, esquenta não, o bom da vida começa agora. A verdade é que "o bom da vida" pode começar na infância, na juventude ou em qualquer outra fase da vida, dependendo de tantas variáveis que nem me arrisco a começar uma listinha. Por ora, basta que a gente saiba que cada um de nós pode ter muitos começos e recomeços e que o que importa mesmo não é o número de anos que marcam as velinhas no bolo, mas o que andamos fazendo deles.

No meu caso, por exemplo, tive um dos meus principais começos aos vinte e quatro anos. Foi quando conheci você. Desde então, "a vida começa aos vinte e quatro" faz muito sentido para mim. Foi quando conheci você e toda a avalanche que veio junto que me senti viva como nunca nem supunha que me sentiria. Aos vinte e quatro anos, aprendi que meu coração era elástico e estava pronto para se expandir o que fosse preciso para abarcar tanto sentimento. Minha revolução não foi aos quinze, aos dezoito ou aos vinte e um. Meu nascimento para o vasto mundo dos amores e suas dores veio ali uns anos depois, arrebatou-me de minhas confortáveis certezas e me lançou numa estrada todinha nova - outra vida mesmo. Muito do que sou hoje nasceu quando vi você pela primeira vez.

E eu tenho cá comigo que sua vida também não começa nesta segunda-feira, no seu aniversário de quarenta anos. Tenho a impressão de que hoje você comemora mais essa jornada boa que temos desenhado juntos do que o início de uma nova fase. Desconfio que seus marcos também não venham na forma de números pré-definidos, mas na forma das conquistas boas, das decisões bem tomadas, dos passos que fazem de você o grande homem que você é. Olho por cima dos ombros para esse quadro que desenhamos ao longo dos anos e vejo vários marcos em sua vida, nenhum deles definidos pela idade, não; vejo vários determinados por seu brilho ou seja lá o que for essa coisa que você carrega com você - já celebrado por vários amigos, não só por mim - e que faz com que você deixe um rastro bom por onde passa.

Mas antes que alguém pense que isso desautoriza a comemoração, que faço pouco caso da data ou que acho que não há tanto assim para se badalar, grito que não, não é bem assim. Eu não conseguiria brindar o suficiente. Seu aniversário é o dia de festejar você, de comemorar sua vinda a esse mundo que, digo sem medos, seria outro se tivesse umas tantas meias-dúzias de você espalhados aqui e ali. Mas você, nessa maluquice que é a vida, é único e eu tenho esse tanto de sorte de fazer parte de sua caminhada. E eu ainda não entendi o que fiz para merecer tamanha ventura, mas enquanto as respostas não chegam vou me esbaldando e curtindo com o coração estufado de alegria - alegria que celebro todos os dias, bem sei, mas que hoje ganha ares de grande evento.

Então, se é assim, hoje comemoramos mais o que você tem feito dos seus quarenta anos do que os números que vêm de carona. Quatro décadas dessa presença que alegra, que faz bem. Ter você por perto é bom, simples assim, e essa riqueza vale muito, vale muito. Meu gatinho, se você quiser brincar de que a vida começa agora, eu topo. Se quiser festejar mais, estou aqui. Se quiser silenciar e refletir, fico quietinha. Se quiser dizer por aí que tem  um corpinho de trinta e nove, eu assino embaixo. Qualquer coisa, sou parceira. Eu, todinha em festa, estou comemorando a continuação da caminhada rumo ao que vier, que nem ligo o que seja, porque de mãos dadas com você não tem caminho nesse mundo que eu não tope seguir.

Feliz aniversário, quarentão. Te amo grande.

Quem não tem cão...

Lembram daquele ingresso que não ganhei? Era para o show do Legião Urbana, em algum dia do finalzinho da década de 80.

Uma turma de amigos foi ao show do Chico uma vez, há muito tempo. Minha mãe não me deixou ir.

Em algum momento dos anos 90, eu senti uma dor de cotovelo enorme por não ter ido ao show do Cure, no Rio.

Eu já saí de casa para ver um show com cinco bandas e só vi três delas, porque me perdi no caminho e cheguei pra lá de atrasada.

Certa vez, mais recentemente, comprei ingressos para o show do Cake e, quando estava começando a me arrumar para pegar a estrada, meu amigo descobriu que o show tinha sido cancelado.

Mas hoje tudo isso deixou de ter importância. Porque, tchan-tchan-tchan-tchaan!!, nós fomos para o show do Patati Patatá!


É, gente. A vida muda. ;-)

P.s. Foi legal pra caramba.

E depois?



Arthur, cinco anos, tem demonstrado cada vez mais interesse por questões abstratas e já começaram a surgir perguntas um pouquinho mais complexas do que "o que é turbina?". Muitas surgem no carro, nos papos a caminho da escola. Quando o bicho pega, rola uma certa torcida de minha parte para que o Odisseus responda primeiro e vice-versa...  Hoje foi assim:

- Mãe, esse jardim é tão bonito, né?
- O cemitério, filho? É, bem bonito ali.
- Aquele é o cemitério?!
- Sim...
- Onde... enterram as pessoas?
- Sim.
- Por que enterra, hein?
- Bem, nem todo mundo enterra. Tem gente que crema, que é como queimar, sabe...
- QUEIMA??
- É... e aí a pessoa vira cinzas que podem ser guardadas ou jogadas em algum lugar bonito e...
- Vocês dois vão morrer, não vão?
- Todo mundo morre um dia, filho. E todo dia nasce mais um monte de gente. É assim.
- Eu seeeeei! E o que acontece com as pessoas que morrem?
- Eh... na verdade, ninguém sabe ao certo. Tem gente que acredita que, quando a gente morre, vai pro céu. Tem gente que acha que nasce de novo...
- É! Eu acredito nisso aí! Que a gente cresce de novo.
- É, é uma ideia bem bonita, mas eu não sei se é assim e acho que não é, não. Mas tudo bem, é uma ideia legal. Normalmente, se as pessoas acreditam em Deus...
- Ah, eu sei, Deus, que morreu com o prego...
- Eh... acho que você tá falando de Jesus, mas... Bem, e tem gente que acha que morre e pronto, acaba tudo e...
- Pai, vamos brincar de adivinhar desenho?
-... (*ufa*)

E aí, como me saí? A parte que eu mais gostei foi brincar de adivinhar desenho. O Arthur ganhou, era Pokemon.

***

E tem o Rio, né. Tô torcendo.

***

Hoje foi dia de combate à violência contra a mulher: muitos textos bons blogosfera afora, muitos dados alarmantes por aí, muito machismo - ainda. Sigamos. A quem ainda não leu o post da terça, fica o convite. Se você é homem, tem um bom texto para você aqui - porque, na real, o problema é de todo mundo.


Distraída



Ainda não entendi direito o papel que meu pai teve em minha formação. Foi uma relação difícil, cercada por um distanciamento que parecia ignorar o fato de que vivíamos sob o mesmo teto. Não tive um pai que brincasse comigo na sala ou na praça, risadas divididas. Não tive sequer as discussões alimentadas por conflitos de gerações.

Só muito tempo depois, adulta e mais desconfiada de certas obviedades, mudei o ângulo e vi coisas que nunca vira antes. Mas né, a vida. Era meio tarde. Acho que passei tempo demais distraída. 

Hoje já faz dez anos que ele parou de lutar contra a doença que o levou embora. Ainda não desisti de tentar encontrar as tais respostas para os conflitos que nasceram lá na minha infância, até porque, ainda que aos pouquinhos, vou captando uma coisinha aqui, outra ali, então sei que vale a pena procurar.

Ainda outro dia, bem distraída que estava (olha, só), encontrei uma: aquela mania dele de roçar as juntas dos dedos na minha cabeça, quando voltava da rua e passava apressado pela sala, sem muita conversa, não era uma provocação para me irritar; era um jeito bem tímido de me fazer carinho. Eu nunca gostei daquilo, nossa, eu detestava. Mas, se fosse hoje, e ele fizesse aquilo com seus netos, é bem provável que eu explicasse aos meus filhos, assim:

- Ai, esse vovô tem um jeito tão engraçado de fazer carinho, né?

Porque hoje vejo muita coisa com outros olhos. Não sei se "acordei' ou se, na verdade, fiquei ainda mais distraída. O fato é que muitos quadros do passado mudam de cor com o tempo a ponto de, às vezes, eu nem reconhecer que foram pintados por mim.  

"E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te. "
Mário Quintana

Parem o mundo, os meninos precisam lutar


Meninos gentis? Onde esse mundo vai parar?!!

Vocês viram esse texto?

Como é que pode, né? Minha primeira reação foi de riso mesmo. Fui lendo e pensando “ele tá falando sério?”. Na verdade, a pergunta já me veio quando vi o título - que foi o que me levou a ler o texto, de pura curiosidade. É óbvio que o título me desagrada deveras... há nele, em poucas palavras, tanto do pior machismo patriarcal que ensebou a vida de tantas gerações - “o marido que queremos para nossas filhas”. Oi? Como se o autor fosse o dono delas, das filhas, e a ele coubesse escolher quem será o companheiro mantenedor de cada uma delas - já partindo do pressuposto de que elas vão querer se casar, lógico (mas, claro, que opções há? Imagina uma mulher sem um marido, horror dos horrores). Século XIX feelings.

Durante boa parte da leitura, nem levei o texto exatamente a sério, fiquei procurando o turning point, o momento em que o autor do texto revelaria o gancho da piada e eu entenderia a crítica. Mas que nada. Era isso mesmo: onde é que esse mundo vai parar, com esses meninos que não brincam de armas (e de brigas - as melhores “formas masculinas de diversão” de que se tem notícia!), com esses homens que não sabem mais mandar em nada e esse bando de mulheres que não vão mais achar quem as sustente! É o fim do mundo! Ou, em bom latim, mimimi, quero mandar de novo, sozinho.

Gente, o país elegendo mulher pra presidência e ainda tem homem preocupado porque não vai mais achar um troglodita “rijo” pra mandar na filha. E, claro, para arrastar as coisas pesadas, né, o maior sonho de toda mulher quando o assunto é relacionamento amoroso.

Talvez ele não saiba, mas o mundo está cheio de homens bem resolvidos, gentis, antenados e que recebem de braços abertos os debates propostos pelo movimento feminista, por uma razão muito simples: eles entenderam do que se trata e sabem que todos saem ganhando e o mundo, consequentemente, só melhora. Menos para aqueles que, em 2010, ainda estão esperneando pelos "ideais de masculinidade"... é, aí acho que não tem jeito mesmo. O mundo tá virando uma desgraça.

***

A semana de combate à violência contra à mulher tenta alertar para os altíssimos índices de violência doméstica contra mulheres... algo me diz que ensinar filhos a cultuar a imagem do homem machão não é uma boa pro mundo. Por que será, hein?

Arte, beleza e felicidade



Blue dancers, Degas

A Nardele perguntou o que faz a gente feliz pra valer - não aquela felicidade momentânea de comer sushi, mas aquela que nos dá a sensação de que a vida vale a pena. Eu falei por lá, entre outras coisitas, que fico feliz de verdade com a criação, e é mesmo.

Não preciso ser a criadora, eu me contento em admirar os feitos alheios. E a pergunta da Nardele, que li cedinho, antes de sair pro trabalho - as crianças esticaram o soninho hoje, embaladas pela chuva tilintando na janela - passou o dia na minha cabeça, tilintando também. E por causa disso, tive vários meio-sorrisos desenhados no rosto ao longo do dia. Porque toda vez que eu pensava em coisas que me fazem ver sentido na vida, sentia uma pontinha do prazer que sinto ao me colocar diante dessas mesmas coisas.

Dans la prairie, Monet

E como o mundo é vasto e a história da humanidade já vai aí com seus arquivos bem gordinhos, a fonte da alegria é infinita. Há um prazer que carrego comigo que vem lá da infância e preservá-lo causa quase tanta alegria quanto aquela que sinto diante de uma obra de arte que me encanta: a capacidade de me deslumbrar. Porque a verdade é que sem ela, eu sequer enxergaria a tal beleza que, para mim, dá sentido à vida. Então eu ainda ando por aí chorando à toa, encantada com canções, filmes, versos, histórias bem contadas, palavras bem combinadas, desenhos impossíveis, telas, passos esvoaçantes, sinfonias de outros mundos, textos que nos desnudam, construções que me embasbacam. E esse deslumbramento todo é feito daquela mesma matéria que gera o amor pelas pessoas, é o que trago de melhor em mim. A arte me faz feliz. Pertencer à raça humana que carrega consigo sua inesgotável capacidade criadora me faz feliz. Eu gosto de ver criações, coisas que antes do Fulano ou da Fulana não existiam. Eu me encanto e me emociono com o trabalho dessas pessoas. Gosto de arte porque gosto de gente.

Esse deslumbramento infantil que alimento todo dia me permite cair de amores de novo, de novo, de novo. E me faz viajar ad infinitum. Então quando vejo o quadro, imagino que antes ele era uma tela branca; uma tela branca que o artista transformou naquilo. E fico pensando que o mundo ficou mais bonito porque Rafael existiu, porque Bach compôs, Marquez escreve e Gaudí desenhou. E também porque Lily Allen tem aquela voz, Morrissey canta aquelas coisas e o cara do Cake usa aquele timbre. E meu marido faz umas canções tão lindas que dão dor no coração e aquela amiga faz aqueles bolos bonitos, aquele cara conta umas historinhas que fazem a gente querer a infância outra vez, alguém pega um pedaço de pano e transforma em uma roupa linda e uns caras um dia inventaram a internet. A beleza invade nossa vida toda hora, se a gente puder ver.

The Lady of Shallot, Waterhouse

Então é isso, o que me faz feliz é o encantamento.

E chuva tilintando na janela, também.

Tá tocando no nosso carro. Há dias.

***

A Borboleta está a mil na campanha da semana. Passem lá. ;-) 
 
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