Tchau, 2009. Pode entrar, 2010!




Para 2010? Força, amor, saúde. Para toda a vida, generosidade, porque todos caminhamos juntos.

Obrigada pelas caminhadas por esta estrada em 2009, que elas continuem e se multipliquem em 2010.

Um grande abraço, meus amigos, leitores, familiares, meus amores. Um grande ano cheio de alegrias iluminadas para todos nós. Um ano de passos firmes e cores lindas. Um ano assim.. anil.

Saúde e paz,

Rita

Dia de pescaria




Rumo à pescaria

Daí que hoje fomos pescar. A primeira visita da Amanda ao Sítio do Tio Paulo, que o Arthur já conhecia de férias passadas, foi marcada por minhocas, cajus docinhos colhidos e devorados sem demora, peixinhos e conversas de pescador.

A ideia era pescar os pequenos moradores do açude do lugar e eu já antecipava a alegria da Amanda diante dos peixinhos, mas também das galinhas e eventuais vaquinhas, além de um certo entusiasmo (não confirmado) do Arthur pela pescaria. O que eu não previ é que Amanda cairia de amores pelas minhocas. As infelizes iscas previamente separadas e, digamos, engarrafadas (v. fotos) foram o atrativo maior para ela, enquanto eu assistia incrédula, do alto da minha frescurite, aquele emaranhado de tripinhas vermelhas passeando e se contorcendo pelas mãos da minha pequena. "Óia, mióca...", dizia ela, enquanto, de pé no chão e unhas pretas, vasculhava a terra em busca de mais amiguinhas escorregadias.



Óia, mióca!

A catação de "miócas" só se interrompia para atirar de volta à água os peixinhos gulosos que devoravam suas amiguinhas e que eram contabilizados pelos empolgados pescadores, a saber, Ulisses, Arthur, Tio Paulo e dois de seus bilhões de netos. Esta que vos escreve também experimentou a brincadeira e devo dizer que a sensação da fisgada é tudo de bom, principalmente quando se alivia a consciência devolvendo os coitadinhos ao açude. No placar final Tio Paulo fisgou mais vezes, mas Ulisses fisgou o maior: juro, gente, era enoooooooorme, deeeeesse tamanhão!!



Devolvendo o peixinho ao lar (ao fundo, a garrafa de minhocas onde Amanda enfiava as mãozinhas: "vem, mióca").

Finda a pescaria, colheram-se os cajus e nos esbaldamos na doçura dessa fruta que é a cara da minha terra. De-lí-cia.

Tia Lu, nós adoramos o suco dos seus maracujás e a gostosa acolhida em sua casa. Parabéns pelo seu quintal maravilhoso.
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Abaixo, todo o stress de nosso anfitrião e a prova de que a gente não mente - só aumenta um pouquinho.





Esquisitices gastronômicas do hexágono do tempo






A vida na casa da minha mãe passa lentamente. Dá tempo de brincar com as crianças, visitar a tia, ler um pouquinho, cochilar, papear, ler o blog e, principalmente, comer. Comer muito. Não sei se pelo fato de a cozinha estar estrategicamente localizada entre a sala e os quartos que ficam nos fundos da casa (onde eu e minha trupe nos instalamos), mas a verdade é que tenho passado boas horas dos últimos dias acampada na mesa hexagonal da cozinha da minha mãe. Sim, pessoas, a mesa da cozinha da minha mãe é hexagonal. Achei o fato digno de registro - ou alguém aí conhece alguma outra cozinha com mesa de seis lados?

Bom, mas o que importa não é o formato da mesa (a não ser que você tenha o azar de se sentar em frente a uma das pontas do hexágono), mas o que fica em cima dela. Desde que chegamos há alguns dias tenho revisitado meu passado gastronômico e me deliciado com pratos e guloseimas que só como quando estou aqui. E não adianta fazê-los em outro lugar, não combinaria. Tem de ser aqui.

No jantar de hoje, por exemplo, comemos arroz de leite com carne moída. Humm... Para os não nordestinos, explico que arroz de leite não é um prato doce, como o nome pode erroneamente sugerir, mas um prato salgado feito com arroz bem ligadinho (nada de grãos soltinhos aqui), cujo acompanhamento tradicional é a carne de sol. Mas eu prefiro a carne moída e devo dizer que Arthur adorou também: foi apresentado à iguaria e, de cara, bateu dois pratos, meu pedreiro. Amanda, mais enjoada, comeu quatro colheradas e correu para os sucrilhos. Mas a pequena não esnobou a boa e velha geleia de mocotó (aquela do copinho) que também ressuscitei por aqui. Ela é enjoada, mas não é boba.

O cardápio de minha viagem ao passado tem incluído galinha caipira com o sangue da infeliz penosa cozido todinho para mim - na infância os miúdos da galinha eram motivo de muitas discórdias e o sangue, em particular, gerava disputas acirradíssimas. Mas juro que fui generosa no almoço do domingo e dividi o sangue com meu filhote - que, é claro, adorou. Viram, dou sangue pelos meus filhos, hehe. Também não costumo ver os acompanhamentos da galinha caipira por aí: nosso arroz "de festa" (ou arroz "de graxa") e o feijão de corda (já falei dessa combinação aqui) também estiveram presentes no hexágono das lembranças no domingo passado e geraram muitas repetições.

Se eu dependesse apenas do olfato e do paladar para me situar no tempo e no espaço, todas as tardes juraria estar de volta aos anos 80/90, quando o aroma do café da Rosa enche a casa e, sem qualquer chance de resistência, seguimos flutuando, puxados pelo nariz, rumo ao templo hexagonal da comilança. O pão francês vem da mesma padaria onde fui tantas vezes por tantos anos e eu imediatamente me encarrego de lambuzá-lo generosamente com manteiga da terra, esse que é, de longe, o sabor que mais me remete ao passado. Algumas coisas não mudam nunca, e eu continuo completamente rendida à essa delícia que, para mim, supera de longe qualquer requeijão ou patê.

E como se eu já não estivesse completamente envolta nessa atmosfera um tanto saudosista, uma ida ao supermercado me rendeu mais um passeiozinho pela minha memória, digamos, gustativa. Ali, quase escondido na prateleira mais baixa da seção de biscoitos, encontrei um saco de uma bolachinha até bem sem graça, mas que era figurinha fácil em nossos lanches das férias de nossa adolescência. Não sei quem inventou a moda, mas adorávamos comer a tal bolachinha frita em generosas quantidades de margarina, o que a deixava mais salgada e crocante. Comíamos como quem come pipoca, assistindo a Curtindo a Vida Adoidado ou a qualquer outro sucesso da Sessão da Tarde. Hoje Rosa fritou as tais bolachinhas e mandamos ver. Arthur, claro, gostou bem.

O queijo de coalho deixo para o Ulisses (e o Arthur que, advinhem, também gostou), o cheiro forte já me basta.

Logo seguiremos viagem para a casa do meu sogro e as lembranças culinárias do Ulisses. E eu fico me perguntando se, no futuro, o Arthur e a Amanda vão comentar: ah, a minha mãe.. queimava todos os biscoitos... Fazer o quê, né? Pelo menos eles terão o peixinho do pai para lembrar com alegria.

 

Diário de Férias - Dos Patos

 


Sempre que volto a Esperança, lugar onde passei toda minha infância e quase toda a adolescência, viajo no tempo. Na maioria das vezes, limito-me aos cheiros e cômodos de minha antiga casa, o lar de minha mãe até os dias de hoje. Quase sempre chego, percorro as duas ou três ruas que separam a entrada da cidade do meu destino, entro em meu antigo endereço e de lá não saio até o dia do retorno. Há muito perdi os laços com o restante da cidade e, além de minha mãe, sinto-me conectada aos familiares queridos que ainda moram aqui e uns poucos e valiosos amigos. Não há más lembranças ou rancores, apenas o afastamento natural experimentado por quem já se mudou daqui há tantos anos. A viagem no tempo normalmente ocorre em meio aos quartos da casa, os móveis antigos, as fotos espalhadas por cada canto, antigos hábitos culinários.

Mas hoje fui um pouquinho mais longe. Arthur e Amanda, felizes da vida com a companhia do priminho queridíssimo, coroaram um longo dia de bagunças descalças e descabeladas com um passeio ao parquinho que sempre compõe o cenário das comemorações em homenagem à padroeira da cidade. Comecemos por definir "parquinho": um conjunto de brinquedos, digamos, beeem usados, com instalações elétricas aparentes e temerárias e grau de segurança melhor-nem-pensar. Isso aos meus olhos de adulta, claro. Aos olhos das crianças que conduzíamos pela mão, o lugar era um parque de diversões, ponto. Respiramos fundo, selecionamos os brinquedos que julgamos capazes de não explodir, cair ou desmontar na próxima hora e compramos meia dúzia de ingressos.

Começamos pelo pula-pula e ficamos ali torcendo para que eles pulassem bem no centro da cama elástica de modo a não quebrar o nariz nas barras de sustentação, de ferro, desprovidas de qualquer revestimento. Minha resistência durou 20 segundos até que transferimos as crianças ao brinquedo vizinho que dispunha da luxuosa proteção. De lá seguimos para os patinhos, ah, os patinhos... sentei com minha pequena no enferrujado e descascado penoso e, aí sim, visitei minha infância novamente. Lembrei como eu adorava dar voltas sentada naquele pato (na verdade, são cisnes, mas sempre chamei de patinhos, deixemos assim), subindo a pequena elevação do trilho e me sentindo tão sortuda por ter enfim chegado minha vez - as filas eram sempre longas. Vi a alegria no rosto do Arthur, que seguiu ao lado do primo no primeiro pato da fila, aos gritos, feliz da vida. É,
infância é mesmo coisa simples. Aposto que meus olhos também brilharam anos atrás; hoje, foi só mico, mas por uma boa causa.

Depois de rodar nos patos, rodamos nos cavalos. Rodamos, rodamos, rodamos, e os coitados dos cavalinhos, que nem fazem mais o emocionante sobe-e-desce, entraram para a história como o brinquedo mais sonolento do pedaço. Encerramos nossa aventura a bordo dos carrinhos bate-bate, cuja corrida foi interrompida por umas faíscas malucas que surgiram bem no cabo guia do carrinho pilotado por Ulisses e Amanda. Deu. Fomos para casa. E foi só anunciar que o passeio pelo parque da ferrugem tinha acabado para Arthur, fã do Beto Carrero, abrir um berreiro daqueles e chorá-lo todinho até o fim. Tô falando. Crianças.

Eu continuo me empaturrando de manteiga da terra. Ulisses pretende comer todo o estoque de queijo de coalho do Nordeste em uma semana. Mas está tudo absolutamente liberado. Para acompanhar o pique da tropinha, toda fonte de energia tá valendo.


Casa da vovó - é logo ali



Então chegamos e aqui estamos.

Resumidamente, nossa jornada até a casa da minha mãe pode ser assim descrita: às 4:00h da manhã, estávamos todos a mil por hora. Assim que chegamos ao aeroporto de Floripa, as crianças foram acometidas pela Síndrome do Aeroporto - aquela que eleva à quinta potência o pique deles para fazer bagunça, sabem? - e só se livraram dela quando dormiram agora à noite. Nosso tempo de conexão em Guarulhos passou de 3 para 4 horas e meia, tempo legal para as crianças exercitarem os efeitos da Síndrome e nós gastarmos todo nosso repertório de castigos e ameaças sem qualquer sucesso.

O tempo de voo até João Pessoa também ganhou mais de uma hora de bônus por causa de uns tais "desvios meteorológicos" (ah, justiça seja feita, os pequenos dormiram boa parte desse trecho). Durante 90% do tempo sofri com uma forte dor de cabeça que só cedeu com paracetamol, já em João Pessoa. Amanda, recém-saída das fraldas, só deixou escapar 4 xixis na calcinha durante a viagem, um amor... Depois de João Pessoa, só mais duas horinhas de carro até a casa da minha mãe. Ainda bem que o nome da cidade onde ela mora é Esperança - ajuda a acreditar que a gente vai conseguir chegar. E chegamos. Ou seja, a viagem foi ótima. Toda nossa bagagem chegou junto com a gente, o que, em se tratando de minha pessoa, é algo realmente impressionante.

Depois de banho tomado, dor de cabeça curada, crianças mais calmas e manteiga da terra no pão francês mais gostoso do planeta, sinto-me interiamente de férias e certa de que faria a jornada outra vez se preciso fosse. Já revi parentes que não via há muuuuuuuitos anos (detalhe: parentes que moram em Curitiba e que também estão de férias por aqui, olha só) e, principalmente, já abracei minha mãe. Amanda e Arthur já a abraçaram também e isso faz qualquer atraso da Tam parecer algo absolutamente insignificante.

Mas agora preciso dormir. Perdoem-me o post sem fotos, a conexão via celular está a cinco por hora, sem chances para grandes aventuras como fazer dowload de arquivos mais, digamos, complexos. Prometo tentar baixar umas fotinhas amanhã, ok?

E vocês? Por onde andam nesse final de ano?

No ar (ou fora dele)

Olá, pessoas!

Que todos estejam tendo um Natal na medida do esperado ou um tanto melhor.

Estou a poucas horas de embarcar com meu respectivo e meus respectivinhos rumo ao Nordeste - para casas de vovôs e vovós. Se tudo der certo com o pacote de dados do celular, vou conseguir blogar normalmente de lá. Caso contrário, como não tenho a menor simpatia por lan houses... bom, veremos. Seja como for, falarei com vocês em breve, já que não vamos ficar mais que poucos dias por lá.

Beijos a todos e obrigada pela visitas e andanças por aqui. Fiquem à vontade.

Natal IV - da espera




Tudo pronto.

***

Feliz Natal!

Avatar




Ganhei meu primeiro presente de Natal. Veio na forma de graciosas figuras azuis que caminham pela floresta mais linda de todos os mundos, dormem em redes presas nas alturas de galhos iluminados e rasgam os céus em voos alucinantes.

O que dizer de Avatar? Vou chover no molhado, tanto já foi dito, mas hoje não conseguiria escrever sobre outra coisa. Fecho os olhos e tento me transportar de novo para a sala de cinema. Na sessão 3D, lotada como todos os espaços de Floripa nesse final de ano, acho que cheguei a incomodar meu vizinho de poltrona com meus "uaaau", "nooossa" e "caaara" (meu vizinho de poltrona não era o Ulisses, já que ele teve de sentar atrás de mim porque não conseguimos dois lugares juntos). Mas não devo ter falado alto, porque eu estava meio em transe, deslumbrada com tanta beleza. Avatar é mágico, uma obra prima que merece cada linha elogiosa escrita na rede desde sua estreia.

Eu me apaixonei pelo filme. O início já é legal porque os efeitos da projeção 3D são bacanas, a história parece boa desde o princípio e, putz, eu estava cheia de expectativas por tudo que já tinha lido a seu respeito. Mas quando Jake se perdeu na mata de Pandora, e Neytiri nos apresentou à floresta dos Na'vis, fui fisgada de vez. Confesso sem qualquer pudor que tive de me controlar em alguns momentos para não estender minha mão e tocar as sementes iluminadas que flutuavam e foram responsáveis pelos meus primeiros "uaau". Não dava para saber quem era mais deslumbrado, se o Jake, tocando todas as plantas ao seu alcance, ou se eu, abobada, tentando me controlar para não tentar tocar também. Tudo é bonito, até os bichos mais "horrendos" ganharam minha simpatia imediatamente. Se a história fosse muito ruim e tudo se resumisse às imagens, eu já estaria aqui recomendando que você corresse para o cinema mais próximo.

Mas não é assim. O recado de Avatar é tão bem dado que incomoda profundamente. Nós, humanos, somos aquilo ali. É aquilo que fazemos quando queremos explorar uma fonte de riqueza: nós atropelamos geral, tocamos o terror e destruímos nossa casa. E é um pouco incômodo assistir a uma história na qual simpatizamos absolutamente com os "outros" e torcemos muito contra os humanos - bem, pelo menos não contra todos os humanos (é bom saber que, de repente, nem tudo está perdido). As batalhas de Avatar me fizeram pensar em nossos índios, no povo iraquiano e em outros povos que têm o azar de terem erguido sua civilização sobre terras preciosas aos olhos dos caçadores de tesouros. E chorei com a queda da primeira árvore. E não me olhe assim, não era uma árvore qualquer e aposto que você vai, pelo menos, ficar com um nó na garganta. E não tenho vergonha nenhuma de dizer que chorei várias outras vezes ao longo do filme, às vezes por tristeza, outas por pura emoção.

Sei que vou ver Avatar outras mil vezes, mas acho que não vou mais experimentar o encantamento dessa primeira vez. E não só pelos maravilhosos efeitos 3D, mas porque a primeira vez é de descoberta: eu voei junto com os banshees, atirei as flechas certeiras de Neytiri e quase me juntei aos Na'vis em seus gritos de guerra - seria, certamente, o mico do ano e talvez Ulisses, aproveitando que já estava sentado um pouco longe, sairia de fininho do cinema, jurando não me conhecer. Mas me contive. Como também me contive quando, em um ponto chave da história, a personagem de Michele Rodriguez se rebela e mostra a que veio. Ai, quase gritei "yes, Ana Lucia!!" (Na verdade, o nome dela no filme é Trudy, mas não adianta, Michele Rodrigues, para mim, vai ser eternamente a Ana Lucia de Lost. Mas isso é outro papo; registre-se, apenas, que a mulherada toda manda muito bem em Avatar).

Pois bem, não sei o que você está fazendo aí lendo este post. Corra, compre seu ingresso para Pandora e vá assistir ao filme do ano.


Tantos compromissos




Até o final dessa semana ainda preciso:

- diminuir o ritmo;
- deitar no sofá;
- apreciar o jardim pela janela da sala;
- fazer trufas (torçam por mim, por favor);
- dançar no tapete da sala com as crianças;
- comer trufas;
- abraçar Ulisses longamente;
- entrar de férias.

Não vou esquecer.


Quero o simples.
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p.s. E vocês não se esqueçam do concurso de blogueiras da Lola. :-) (E muuuuuuuito obrigada a todos que votaram no Estrada até aqui. Mesmo, recebo como um carinho. Bom demais.)

Natal III - da mudança de espírito

 
Eu: -  Estou sem inspiração. Dá uma dica sobre o que escrever no blog hoje.
Ulisses: - Ah, escreve sobre o Natal.
Eu: - Nã! Tenho nada a dizer sobre o Natal.
 
***
 


Caramba. Que coisa estranha.

Não sei bem em que momento isso aconteceu, mas é inegável que esse é de longe o ano em que menos me senti envolvida pelo tal espírito natalino. Não sei se isso é bom ou ruim, nem passa pela minha cabeça emitir qualquer juízo de valor sobre esse ou aquele modo de encarar as festas de final de ano. Estou apenas registrando o fato de que Papai Noel e Jingle Bells nunca foram tratados por mim com tamanha indiferença.

Desconfio que a coisa toda tem um pouco a ver com a consciência em torno da veia consumista dessa época do ano e com o fato de que estou cansada da muvuca do comércio. Não que eu tenha feito mil compras agora, não, mal e mal comprei os presentes das crianças e de alguns familiares e amigos, tudo concentrado em duas idas ao shopping mais próximo para não me irritar demais. Mas só a ideia e a lembrança da correria de idos anos já bastam para me deixar à beira de uma estafa. Férias é para descanso, certo? Ora, ora, ora. Bom, já falei que ando meio desgostosa com a tal obrigação de dar presentes, então não vou me estender muito no assunto.

Mas não é só isso. Acho perfeitamente possível entrar no clima de confraternização e de festa sem embarcar na loucura do compre-porque-compre. Mas não entrei. O ponto alto da semana para mim deve mesmo ser o dia 26, quando embarcarei para o Nordeste rumo á casa da minha mãe - aeroportos e aviões apertados com duas crianças pilhadas dão um banho em qualquer véspera de Natal em termos de agito, concordam? Talvez seja isso, o fato de eu não poder viajar antes do Natal (trabalhamos até a manhã do dia 24 e aí, sim, entraremos em férias), de lembrar das comemorações que fazemos na casa da minha mãe nos anos em que consigo estar lá na noite da festa. Talvez eu já me programe internamente para não me envolver e, portanto, não encarar aquela melancolia pesada que nos abate no final de ano quando algo não está do jeito que gostaríamos.

Mas não pensem que reclamo, longe disso, não sou amarga a ponto de maldizer 12 meses de alegria contínua em nome de uma noite. Mas eu lembro do tempo em que mandava cartões da Natal para todo mundo - com votos sinceros, sempre; de quando ficava ansiosa com a chegada do final de ano, de como importava a forma como passaria a noite de 24 de dezembro. De novo, não pensem que fico triste - talvez eu lamente ter abandonado os cartões, porque adorei receber um de uma amiga queridíssima essa semana. Mas, honestamente, sinto-me livre. Livre para encarar a noite de Natal como uma construção cultural na qual posso embarcar quando quiser. Não me sinto obrigada a nada. Mas essa sou eu. Ponto, parágrafo.




Para os dois pititicos que estão salivando diante da nossa árvore, que acreditam em Papai Noel; para a pequena Amanda que recebe o embrulho colorido e ao ouvir "só pode abrir no Natal" deposita-o pacientemente sob a árvore (ela tem dois aninhos...); para o Arthur que canta "se você pode ser assim, tão enorme assim, eu vou creeeeeeer, que ninguém é triste...", ah, para eles a história é bem outra. Eu não tive muitos natais felizes na infância - experimentei mais a melancolia do que os deslumbres embalados com papel colorido. Aos meus filhos quero dar bons natais para lembrar depois. Pode parecer contraditório, mas não pretendo derrubar por terra a magia do Natal deles. Então aposto em seus rostinhos iluminados para dar a essa semana a magia que não vi ainda. Vou ver se consigo não queimar os biscoitos e vou procurar aquele CD com Christmas Carols que sempre me deixa com um nó na garganta. Montamos nossa árvore, os presentes estão lá, e o trenó do Papai Noel vai rasgar a noite em nosso quintal, com certeza. E sei que vou ver nos olhos do Arthur o Natal que eu quis ver na minha própria infância (certamente há outras formas de ensiná-lo a lidar com o consumismo que não seja privando-o da visita do Noel, hehe). E pretendo tentar mergulhar fundo na viagem. Quer saber? Tomara que eu consiga.

Credo, esse blog é mágico. Estou totalmente no clima. Feliz Natal, pessoas! (Obrigada pela dica, meu amor.)

O vidão da duquesa


 
Hoje assisti ao filme A Duquesa, aquele com Ralph Fiennes e Keira Knightley. O melhor de ver filmes desse tipo é ver como é bom ter nascido no século XX (sei que já estamos no XXI, mas eu nasci no século passado). Temos nossas mazelas, estamos asfixiando o planeta porque não conseguimos parar de consumir, mas para mim é inegável que, sendo mulher, tenho uma sorte danada.
 
Tudo spoiler, sorry; se você pretende ver o filme e não gosta de saber o final antes, faça uma pausa, leia outros posts, veja o filme e volte depois. :-)
 
Basicamente temos: ainda adolescente, Georgiana é entregue por sua família a um casamento cujo único propósito é gerar um herdeiro homem para a linhagem do Duque de Devonshire. Ao receber a notícia ela até que fica toda animadinha, tadinha, imaginando que se iniciava ali seu conto de fadas, afinal viraria duquesa, seria amada, adorada, admirada. Mas a carruagem logo vira abóbora quando ela percebe que seu cônjuge não é lá o homem mais carinhoso do mundo e a trata como um pedaço de carne com útero. Mas nada é tão ruim que não possa piorar e logo G. se vê cuidando da filha que o marido teve com uma finada criada e, ao invés do tão sonhado herdeiro, "fornece" ao duque apenas duas meninas.
 
Mas além de gerar herdeiros varões e filhas indesejadas, as mulheres daquela época (século XVIII, acho) também serviam para enfeitar os salões. Ah, e G. era linda e elegantérrima, o que permitiu que ela visse parte de seu sonho de princesa, ou duquesa, virar realidade: tornou-se referência no mundinho da moda e centro das atenções das altas rodas inglesas (e foi até mais longe, exercendo certa influência no mundo político, usando sua presença para atrair atenções ao partido do marido), a despeito de sua abominável vida conjugal: além de conviver com o rancor do marido que não se conformava com sua terrível sina de ser pai de, argh, meninas, e de cuidar da filha nascida fora do casamento, ela ainda tinha de dividir seu palácio com a outra amante que seu querido arrumou lá pelas tantas. Vidão, hein?
 
Pois bem, "se ele pode, eu também posso", pensou a inocente G., e se entregou aos braços do amante, o aspirante a revolucionário Charles Grey. Ah, mas não era assim que a banda tocava e logo ela se viu diante da ameaça de não mais rever suas filhas e seu bebê homem (que finalmente chegou, fruto de um estupro que seu marido executou com maestria de troglodita, tudo perfeitamente dentro das tais "obrigações conjugais"). Para não abdicar de seus filhos, G. abandona o amante e segue sua vidinha miserável (não sem antes ser forçada a doar a filha que gerou com seu amante). Não é uma delícia? Não dá vontade de embarcar em uma máquina do tempo e virar duquesa também??! No, thanks. Até fiquei com vontade, mas não gosto daquelas perucas e os vestidos deviam ser muito quentes.
 
E aí fico aqui pensando, geeente, que bom que as coisas mudam. O mundo ainda está cheio de trogloditas, mas hoje podemos tomar as rédeas de nossas vidas e mandá-los pastar. E não precisamos usar aquelas roupas, principalmente. :-) E, se brincar, ainda vamos eleger uma mulher presidente... Tomara que nunca construam uma máquina do tempo. Vai que a gente desce na parada errada, já pensou?? Ui!

Mas o filme já acabou...



 Xô! Xôôô!!! Passa, passa!

Então ontem arrumei tempo (na forma de babá dormindo em casa) e fui ao cinema com meu respectivo. Como eu estava cheia de curiosidades acerca do tal Atividade Paranormal, e já que Julie & Julia não entrou em cartaz em Floripa (*suspiro*), lá fomos nós, destemidos e cheios de vontade, tomar susto.

Até aí, tuuudo bem. Na última vez que eu tinha ficado impressionada com um filme de suspense/terror/whatever devia ter uns, sei lá, dezesseis anos? Foi com O Exorcista e, ainda assim, não senti metade do pavor que senti enquanto lia o livro (lembro que eu não ficava sozinha lendo o troço de jeito nenhum. Seguia minha mãe pela casa e discretamente sentava para ler bem perto dela, podia ser na cozinha, na sala, no quarto dela, onde fosse). Então mesmo tendo lido e ouvido todo o auê em torno de Atividade, dei de ombros e fui conferir que taaanta coisa é essa que acontece nesse filme.

E vi. Não digo que estou arrependida por ter pago para ficar com medo, porque eu realmente estava muito curiosa e sei que daria meu jeito de ver o filme, cedo ou tarde. Mas confesso que não esperava me impressionar tanto com aquilo. Não acredito em quase nada do que vi na tela (mas ninguém precisa se dar ao trabalho de me convencer, sabe como é?), mas a história segue a única linha de filmes de suspense que realmente consegue me meter um medinho. Porque é fácil esquecer monstros verdes, vampiros sanguinolentos, fantasmas de meninas cabeludas que saem da TV para nos matar e zumbis mascarados com serras elétricas em punho: findo o filme, findo o susto (tudo bem, na adolescência é diferente, quem nunca pregou/levou susto em/de primos depois da sessão de Sexta Feira 13 - parte 12?). Mas é um pouquinho mais complicado me desvencilhar das cenas aterrorizantes feitas em um cenário tãããão parecido com aquele em que durmo todas as noites. O filme tinha de se passar quase todo no quarto de dormir?? Ô saco, viu?

Eu sei que é ridículo, estou me sentindo ridícula até agora, mas saí do filme com os braços tensos e aquela sensação de "isso não vai dar certo" (e aposto que não fui a única, vocês precisavam ouvir as risadas nervosas na sala de cinema. Rindo? A-hã. Também ri, mas sei bem do quê. Ri da minha cara de amedrontada). Resolvi escrever sobre isso aqui para tentar me livrar da coisa, sabe? Terapia mesmo: fale, enfrente seus medos, eheh. Eu sei, drama, drama. Mas o fato é que não consegui dormir direito. Ao lado de Ulisses-dorme-como-pedra, acordei várias vezes incomodada com os ruídos da caixa d'água sobre nosso quarto (ruídos que ouço desde que me mudei para nossa casa e que nunca me meteram susto - não nesse nível), consciente de cada farfalhar de folhas na rua, cada passarinho insone que cantava lááá longe. Moorta de sono e cansaço, tentava adormecer, mas tinha medo dos sonhos - sonhos que vieram, sim, cheios de sustinhos-ninguém-merece.

Quando o dia nasceu, um descansado e solidário marido iniciou uma sequência de reforços positivos e tenho ouvido ao longo do dia coisas como "é só um filme, meu amor", "aquilo não acontece de verdade", "não há o que temer", "ah, para, não esquenta a cabeça" e outros carinhos verbais aos quais estou dando toda a atenção do mundo.

Pois bem, espero que meu retorno à adolescência se encerre por aqui e que hoje eu consiga recuperar o sono perdido ou mal dormido. Porque, vamos combinar? Se é para ser assim, melhor não ter tempo de ir ao cinema, né não? ;-)

Papos curtos e textos bons




A Tina me perguntou por que não uso o twitter. Eu respondi que até uso, mas muito pouco. Quer dizer, o blog tem uma conta no twitter e, uma vez a cada encarnação, eu passo por lá para divulgar um post, comentar alguma coisinha. Mas, honestamente, não gosto muito. Quando criei a conta do twitter, tinha o único objetivo de divulgar esta estrada. Maaaas passei a achar que os seguidores do blog costumam mesmo lançar mão de outros recursos (como o google reader, por exemplo) e eu não fazia a menor ideia de como convidar as pessoas para me seguirem no twitter (claro que eu poderia simplesmente colocar um recadinho aí do lado, tipo "sigam-me!", mas fiquei sem graça de convidar o povo para me seguir em uma coisa que eu sentia que não usaria muito).  Então o propósito de divulgar o blog ficou meio descabido e aí o coitado do passarinho ficou por lá a ver navios.

Mas falo disso para exemplificar que não sou muito dada a essas modernices da web e, além do blog, uso apenas o facebook porque o acho mesmo uma boa ferramenta para manter contato com gente que não vejo há muito tempo, gente que não costuma passar pelo blog.

Mas vocês, que passam por aqui, agora têm um outro espacinho para soltar o verbo. Porque mesmo não sendo adepta de muitas novidades internéticas, resolvi disponibilizar o formspring (veja ao lado), um espaço para os leitores fazerem perguntas à minha digníssima pessoa, ainda que as perguntas não tenham nada a ver com o tema dos últimos posts. É uma brincadeira mesmo, uma forma de trocar rapidinhas. Você pode se identificar ou não. E eu posso responder - ou não. ;-) Vamos ver se funciona. Any questions?


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Momento vaidade (deixa, vai): o meu post sobre o exercício de empatia proposto pelo Alex Castro foi super bem recebido por ele. Como diria a Amanda, minha filhota de dois anos: eu fiquei felisse...


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Mas se você quer ler um texto bom mesmo, daqueles que enchem os olhos e, ao final, a gente solta um "Ah, que delícia de texto, é exatamente isso!!", olhem este post. E mergulhem!

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Update: agora o feedburner alimenta o twitter automaticamente. Então, tá. O passarinho meio que voltou à ativa. Só para queimar minha língua, né? Tuudo bem.

Dream on...




Agora que as crianças dormiram, posso dar prosseguimento às divagações sobre o tempo (não sobre o clima). A título de "choro com barriga cheia",  eis uma listinha de coisas que eu gostaria de fazer em um universo platônico onde o dia teria 72 horas:


  • voltar a estudar français, mon cher;

  • voltar a estudar árabe, @$%&)(;

  • estudar alemão, Freund; (tá bom, vou resumir: aprender línguas)

  • ler mais;

  • blogar mais;

  • retomar a terapia;

  • ir ao cinema toda semana;

  • voltar a dar aulas de inglês para turmas de adultos, nível avançado (nada contra ensinar em níveis básicos ou intermediários, mas as discussões tendem a ser mais legais nas turmas com inglês fluente ou quase isso);

  • ouvir muita música;

  • aprender a fazer (bem feito) alguma arte manual, talvez pintar ou fazer mosaicos;

  • antecipar um projetinho que temos alinhavado para a aposentadoria (algo menos umbigo do que os tópicos anteriores - um dia eu conto);

  • (tentar) aprender a tocar piano (aos que acham que estou velha pra isso, respondo que o calendário é uma invenção humana e, portanto, também o é a contagem da idade; talvez meus neurônios não assimilassem a linguagem musical tão bem quanto os de uma criança de 6 anos, é verdade, mas ah, eu iria me divertir um monte. O mesmo não seria verdade para os meus vizinhos);

  • fazer yoga 3 vezes por semana e não apenas duas, como faço hoje;

  • fazer um curso de culinária para aprender, entre outras coisas, a fazer biscoitos sem queimá-los;

  • viajar mais (não apenas na maionese, como estou fazendo agora);

  • escrever um livro (ah... eu trocaria metade da lista aí de cima);

  • viciar-me em um jogo, jogar por horas e horas sem culpa - algo como The Sims ou qualquer coisa do gênero;

  • descobrir onde seriam os próximos três shows do Cake e ir até lá para assistir;

  • não chegar atrasada aos compromissos;

  •  etc.;

  •  etc.;

  •  ...
É claro que, com tempo sobrando, minha família ainda seria prioridade absoluta, mas vejam que estou falando de um mundo hipotético no qual, além de fazer tudo isso aí em cima e muito mais, eu criaria meus dois filhos e manteria um casamento a mil sem me descabelar.

E vocês, o que fariam com muuuuitas horas sobrando?

***

p.s. Não me perguntem sobre o posicionamento dos marcadores aí em cima. Eles têm vida própria e são extremamente temperamentais. E eu não tenho tempo a perder com eles. Ah, falando em tempo, quando sobrar um, votem no concurso de blogueiras do blog da Lola. O Estrada Anil está lá.

Amanhã eu faço





Formiga...


Há dias um assunto martela minha cabeça, um post rascunhado em pensamentos, vamos ver se consigo fazer o download agora. Na verdade, o simples fato de o post estar de molho já é o assunto: falta de tempo. 

Lembro de um certo dia, durante os estudos do Mestrado, em que Monsieur Foucault apareceu na minha frente e disse “preste atenção ao óbvio, querida”. É claro que ele falou em francês. Quer dizer, teria falado se ele de fato tivesse conversado comigo. Vocês entenderam, né? Eu li o Foucault falando qualquer coisa sobre o óbvio. Pois bem. Feliz da vida por ver que Foucault concordava comigo (eheheh, adorei essa frase), passei a dar beeeem mais atenção ao óbvio, ou melhor, à construção do óbvio. Esse papo serviu muitíssimo bem aos meus interesses acadêmicos da época, mas tanto melhor, continua servindo muitíssimo bem à forma como vejo o mundo. E perceber que quase tudo em nossa volta é construído socialmente de acordo com interesses vários pode fazer uma enorme diferença na vida de muita gente.

Nossa, quanta divagação para dizer que estou de saco cheio por não ter tempo para fazer um monte de coisa. Explico: eu queria ter mais tempo para coisas prazerosas sem as quais a rotina fica um tanto esquisita. Ler, por exemplo. Ando morta de saudades da época em que eu podia me esparramar no sofá e me entregar a mundos distantes e tudo mais que a literatura nos traz. Eu queria ir ao cinema toda semana. Duas vezes. Viajar, dormir mais. Cuidar desse blog com o carinho que ele merece, responder cada comentário (precioso, thanks!) com calma, ler as dezenas de blogs bons que tenho descoberto com a atenção devida. Eu tenho dado um jeito, mas faço tudo com pressa e estou com saudade de fazer as coisas leeen-ta-meeen-te.

Ultimamente tenho tido a sensação de que ao fazer uma coisa estou deixando de fazer outra. Parece óbvio (atenção!), mas o que quero dizer é que isso pode ser um indício de que talvez eu não esteja me dedicando direito a nada. Se fico aqui escrevendo esse texto, por exemplo, saibam que o faço com uma certa culpa por não estar ali sentada ao lado do meu marido curtindo sua deliciosa presença. Se opto por tirar um tempinho no final de semana para arrumar pendências no blog, vem a culpa por aquela hora que não passei ao lado dos meus filhos. Se leio, não vejo o filme, se vejo o filme, não leio. Não posso fazer tudo. Claro, ululante, que é assim para muuuita gente, um pouco mais, um pouco menos. Mas ando me perguntando se realmente precisa ser assim. Ver meus filhos crescendo tão rápido tem me alertado para o fato de que a vida é muito curta, tudo passa em um piscar de olhos, o que estamos perseguindo? Por que preciso ficar 8 horas do meu dia trabalhando? Sei a resposta: porque precisamos pagar por todas as necessidades que acreditamos ter. Não é simplesmente porque "a vida é assim, óbvio".

Calma mãe, não se preocupe, não vou largar o emprego. Mas vou repensar muita coisa. Porque eu adoro minha vidinha do jeitinho que ela está. Mas adoro apesar do tempo gasto fazendo coisas outras que não as que eu adoraria fazer. É óbvio que trabalho é prioritário (?dúvidas?) e é a fonte de onde vêm os recursos que me permitem tocar o barco. Além disso gosto de me sentir útil, saber que dou minha contribuição para a sociedade (frase clichezão, mas muito verdadeira) e não consigo me imaginar fora do mercado de trabalho. Se meu trabalho poderia ser mais eficaz, é outra longa história. Mas, honestamente, eu gostaria de trabalhar menos horas por dia, é pedir muito? Não me encarem como preguiçosa, passo longe disso. Pelo contrário, tenho energia de sobra para fazer mil coisas para as quais não tenho tempo. Para me servir de consolo, pelo menos aqui em casa mudamos a resposta para a pergunta do parágrafo anterior: precisamos trabalhar porque queremos nos divertir muito; menos necessidades inventadas, mais regalias ao lazer. Melhora um pouco. Tipo viajar mais e comprar menos, entendem? Mas... viajar quando mesmo?



 ...ou cigarra?

E talvez não tenha jeito, sabe? Porque se eu decidisse balançar as estruturas mesmo, enfrentaria crise bem maior...

***

Paro por aqui, por enquanto. Talvez este post gere post filhinhos, veremos. Quero fazer uma listinha das coisas que eu faria se tivesse mais tempo. É, vou fazer uma lista. Assim que tiver tempo, é óbvio.

Cante O Caderno




A hora da cama é às nove. Mas às vezes, lá pelas dez, onze, rola uma tentativa manhosa de adiar o encontro com Morfeu e ela abre a porta do quarto. Eu a vejo, aqui do escritório, descabelada, os olhinhos enfrentando semicerrados a luz que vem do corredor, beicinho a postos, cara de desconfiada.

Às vezes eu não sirvo, quer o pai. Mas insisto e a conduzo de volta à cama com a firmeza de quem já viu o filho mais velho enfrentar problemas para domir (um dia eu conto). Na última vez que isso aconteceu o colo não foi suficiente e o beicinho explodiu em um berreiro, digamos, inconveniente para o horário. Cafuné, carinhos, beijoquinhas, tudo parecia um catalizador para o choro. Meus afagos foram retribuídos com empurrões desdenhosos de cortar meu coração. Então calmamente a deitei na cama - ápice do choro - e comuniquei que cantaria uma canção. Indiferente, ela prosseguiu com o berreiro. Indiferente, comecei a cantar com voz suave:

"Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco até o be-a-bá..."

Ao final da primeira estrofe minha voz era o único som no quarto e ela pôde ouvir a segunda na íntegra:

"Sou eu que vou ser seu colega, seus problemas ajudar a resolver..."

Na terceira estrofe, permitiu que minha mão caminhasse por seus bracinhos de seda:

"Sou que vou ser seu amigo, vou lhe dar abrigo, se você quiser..."

Quando anunciei que "a vida se abrirá num feroz carrossel", sua voz já se somou à minha - "shéééu..."

E, finalmente, "o que está escrito em mim comigo ficará guardado se lhe dá prazer..." foi cantado entre beijinhos dela em meu rosto que já estava coladinho ao seu, esparramada que fiquei em sua cama, entregue ao insubistituível aconchego do momento. O láiá laiá laiá foi imediatamente seguido por um apressado "de novo, mamãe", ao qual obedeci com prazer.

O melhor de entoar O Caderno é que a melodia acalma também quem canta; bom, pelo menos se a pessoa foi criança na época da Casa de Brinquedos.




O fato narrado acima acontece de vez em quando, mas a última vez foi há alguns minutos. Eu ia escrever sobre outra coisa, mas às vezes o post parece que tem vida própria. É melhor deixarmos seguir. Boa noite.

A boneca e o tênis




Quando o Ulisses leu o post de ontem disse que eu estava com muito preconceito em relação às "Barbies, coitadas". E me perguntou se eu andava prestando atenção nos últimos filmes que têm a boneca como personagem. Ele se referia a "Barbie e as Três Mosqueteiras" e outros afins, onde as bonecas não são apenas dondocas, mas também lutam e coisa e tal. Confesso que não posso falar muito desses desenhos porque, sim, admito meu preconceito e quando as crianças escolhem na locadora um DVD da Barbie para levar para casa, geralmente fico circulando pela sala fazendo qualquer coisa e não assisto ao filme com eles. Minha atitude não deve ser a melhor do mundo, mas é que, para mim, a Barbie é mesmo difícil de engolir. E aí vai precisar mais do que uma espada na mão para eu gostar dela.

É que a Barbie representa muito mais do que dondoquice. O próprio Ulisses já comentou comigo em outra ocasião que há muito tempo a Barbie deixou de ser só um brinquedo e se transformou em um poderoso produto. Acho que conversávamos sobre a Susie, a boneca-desejo da minha infância (não minha boneca-desejo, propriamente dita, mas ela era a grande onda antes da hegemonia da Barbie). Acho que eu disse que um dia a Barbie também seria substituída e ele disse que não, não a Barbie. E talvez ele esteja certo, eu já nem saberia dizer há quanto tempo a danada é objeto de desejo de milhões de meninas pelo mundo. Pois bem, a Barbie, mesmo mosqueteira e boa de luta, remete a um estereótipo de beleza que pode ser uma das coisas mais cruéis na vida de uma menina. Talvez o Ulisses vá de novo dizer que exagero, mas eu peço licença a ele e aos demais leitores homens deste blog para dizer que sei do que estou falando - de um modo que eles nunca saberão. Não quero com isso excluí-los da discussão, obviamente, mas é que pode ser fácil para eles ver exagero em um cenário que não interfere tanto na formação da personalidade masculina.



Digamos que eu admita que a Barbie mudou e que agora ela tem personagens mais valentes e menos frescas (adoraria ter visto os DVDs - poderia falar melhor sobre isso agora, vejam vocês). Ainda assim ela continua linda, esbelta, loira e chique. Ela continua aparecendo nos comerciais de TV com produtos de beleza para meninas e sempre cercada de muito luxo, sim, porque a Barbie é rica. Mora em castelos, toma banho de banheira e anda de carrão. Tem mihares de roupas e acessórios e um cabelão. A Barbie é uma ode à vaidade feminina e ao consumismo.

Já falei aqui que sou vaidosa, e honestamente não concordo com leituras lineares que veem todo vaidoso como pessoa burra. Mas o que a Barbie faz vai além de dizer "ei, é legal se achar bonita". A Barbie impõe um modelo de beleza inatingível para 90% (no mínimo) das meninas e ainda o faz ensinando-as a consumir muito. Ulisses me disse que se a boneca fosse feia, ninguém compraria. Bom, eu acho a Barbie feia na verdade, mas esse não é o ponto. O fato é que há inúmeros modelos de bonecas que não impõem padrão de beleza nenhum e que permitem às meninas exercitarem sua imaginação e desenvolverem seus relacionamentos sociais. A Barbie não tem isso como fim: a finalidade da Barbie é transformar meninas em consumidoras e eternas caçadoras da beleza dita padrão. E eu me preocupo com isso em um país onde boa parte das meninas é negra ou mulata, por exemplo. E não sei quanto por cento são gordas, não sei quanto por cento têm cabelo crespo e não sei quanto por cento serão baixinhas quando adultas. E eu não queria que meus filhos crescessem achando que o branco alto bonito é o padrão, porque não é. É o padrão imposto pelo consumo, é um padrão inventado que faz com que a maioria gaste boa parte de seu tempo vida afora perseguindo a custa de muito tempo, dinheiro e frustração. E é um padrão que alimenta preconceitos.



E não é exagero: é muito difícil para uma menina que tem cabelo crespo se aceitar e se achar bonita em uma sociedade que diz desde que ela se entende por gente que bonito mesmo é liso e comprido. Eu queria que meus filhos crescessem vendo beleza na diversidade, no barato que é ter um amigo magro, um alto, um baixo, um negro, um nissei, enfim, uma salada de amigos como a diversidade racial que o Brasil permite. Esse pode ser um passo importantíssimo rumo à formação de cidadãos do bem.

Quando penso nas barbie-girls, penso como os papéis se inverteram e as meninas passaram a imitar a boneca, um brinquedo inspirado na forma humana. Pode ser um fenômeno natural, pode ser inevitável, não sei. Mas o fato é que dá para brincar de boneca sem ser bombardeada diariamente por um modelo de beleza que é símbolo de consumo e status. Porque consumismo e status não deveriam fazer parte da infância.



O Ulisses (atendendo a pedidos) leu o post da Lola que linkei na frase acima. Ele acha que cabe aos pais controlar a relação dos filhos com o consumo. E aí fico pensando que ando falhando bem. Não sei exatamente como, mas o fato é que meu filho de quatro anos mostrou o par de tênis ao amigo no sábado passado (enquanto aguardavam em um fila o momento de usar um brinquedo) e perguntou ao amigo: "viu meu tênis? Né chique?" Quase caí pra trás. Whaaat? Meu filho de quatro anos anda exibindo o par de tênis e perguntando se é chique!!! Se isso não for consumismo, não sei o nome. Sei de quem é a culpa - parcialmente, pelo menos. E por isso estou dedicando tantas horas a pensar no assunto nos últimos dias. Porque o plano era criar filhos não-consumistas. Então preciso rever minhas estratégias, urgentemente.

Após ler o post da Lola, Ulisses comentou que é legal ter mais interação com os personagens que povoam nossa imaginação na infância. O Arthur gosta do Ben 10, que mal há em usar a toalha do Ben 10 e dormir com o pijama do Ben 10? E aí ele falou do tempo em que a escrita passou a possibilitar o registro das historias contadas apenas oralmente - uma nova camada na interação com os personagens da nossa imaginação. E que um boneco, um quebra-cabeças e um carrinho com a estampa do Ben 10 viabilizam outras camadas de interação com o personagem que habita a imaginação do Arthur. Pode ser. Seja como for, eu ainda me incomodo um pouco em saber que alguns empresários estão a dar risadas em cima de uma montanha de dinheiro às custas da imaginação do meu filho. Mas acho que aqui também entra em jogo o bom-senso e sei que se o Ben 10 empunhasse uma arma de fogo ele não estaria estampado no pijama do Arthur.

Essa conversa vai longe aqui em casa. Mas eu não vou dar uma Barbie para a Amanda e vou bater um papo com o Arthur sobre o não-valor do tênis dele. Ah, vou.

All that jazz




Queria contar para vocês o porquê de eu ter curtido tanto a sessão de cinema desta tarde, quando fomos ver A Princesa e o Sapo.

Em primeiro lugar, porque ter chegado lá foi uma façanha.

Ida ao cinema em fast forward:

Soneca interrrompida às 16:15 (sessão iniciaria às 16:40). Acorda Amanda, troca Amanda, troca Arthur, penteia Amanda, põe lanche para Amanda, corre pro shopping, estaciona. Entro na fila do guichê. Ulisses entra na fila da venda eletrônica. Chega minha vez, Ulisses abandona a fila dele. Quatro ingressos, crédito por favor, só aceitamos débito, não temos cartão de débito. Retomamos a fila da venda eletrônica. Somente débito, não temos cartão de débito. Ah, que coisa, se tivéssemos dinheiro. Mas eu tenho dinheiro. Por que não falou antes, stress, stress, não vai dar tempo. Voltei à fila do guichê, olha moça, tenho dinheiro, obrigada. Corre, corre, corre. Deu tempo. Viva os milhares de traillers.

Aí começou o filme e já torci a cara. Na primeira cena, uma garota branca mimada e uma garota negra simpática ouvem uma história contada pela mãe negra que é estilista e costura para a família da garota branca. Já fiz toda uma leitura carregada de traumas, com raiva daquele desenho que perpetuava a supremacia branca e bla bla bla. Mas não demorou muito e percebi que a protagonista era a garota negra, enquanto à garota branca restou o "papel" de coadjuvante, mimada e pateticamente ridícula. Boazinha, vá lá, mas ridícula. Aí respirei aliviada, porque até que enfim me vi diante de um desenho animado com protagonistas negros - Ulisses disse que há outros, mas não lembramos quais. Alguém aí lembra? Bom, ainda assim, vamos combinar, é raridade. 

Segue o filme e logo descobrimos que a história se passa todinha em Nova Orleans, cidade que não conheço, mas que sempre me deixa com água na boca quando a vejo nos filmes. E foi uma delícia ouvir aquela música boa, rir com personagens bem divertidos e ver uma história que, ainda que de raspão, confronta alguns clichês. Então a mulher dá as cartas, o homem é um bobão que depois aprende com ela e, por amor, revê seus conceitos, entendem? Ele é quem tem de se esforçar muito para ficar à altura dela. Tudo bem que rola uma certa abdicação de sonhos em nome do amor por parte dela também (nada contra, cada um com seu cada qual), mas, ainda assim, o filme não retrata a "princesa" apenas como uma sonhadora romântica, alguém que espera um príncipe com quem se casar, mas como alguém de personalidade e força de vontade que desdenha dos galanteios e vai em busca de seu sonho. E acho muito bom a meninada ter uns modelinhos nessa linha também, além das Barbies que sonham com um banho de espuma, um Ken e uma penteadeira rosa. 

Enquanto isso na plateia, Amanda, em sua primeira ida à sala escura, passou metade do tempo no colo do pai. Mas all that jazz mexeu com ela e na segunda metade do filme, totalmente ambientada, dançou a cada trompetada do crocodilo muuuuito legal chamado, claro, Louis. Arthur perambulou entre o encantamento, a indiferença e o medo (das cenas "assustadoras"). Só Amanda gargalhava. Às vezes só ela gargalhava na sala inteira, sabe? Animada, a menina.



Depois nos empaturramos de coxinha, pão de queijo, brigadeiro, torta de cappuccino, suco de manga (crianças) e coca-cola (eu). Adorei nosso programinha estreia-férias do Arthur. E ficamos um tempo ali na lanchonete, administrando a mão de brigadeiro da Amanda e os pulos do Arthur. Eu ainda tinha os olhos úmidos por causa da cena do vagalume (sooo cute), mas estava bem satisfeita.

Fiquei com a nítida sensação de que fizemos um negócio bem melhor do que horas no trânsito voltando da praia.

* * *

Gente, o concurso de blogueiras do blog da Lola continua. Não deixem de votar, o Estrada Anil está lá!

Para Arthur

 

 "Fóssil" produzido, quer dizer, escavado pela turminha do Arthur na escola.
 
Filhote, 
 
Chegaram as férias (oba!). Vamos guardar a mochila da escola, esconder os uniformes bem no fundo da gaveta, comprar milho de pipoca e filtro solar. Daqui a pouco vamos arrumar as malas para visitar as vovós e o vovô, os primos. Depois voltaremos para o verão de Floripa, nossas pedaladas e suas recém-aprendidas braçadas. 
 

Título do livro lido no final de semana.
 
Quando o ano letivo começar de novo, você vai viver outas aventuras e as letrinhas que você já começou a decifrar vão te revelar um mundo grande, infinito, cheinho de novas estradas. Talvez isso aconteça em uma escola diferente da que você já conhece, mas não há razão para medo: nós estaremos com você durante todo o percurso e temos certeza de que você vai continuar se divertindo e nos surpreendendo com suas sacadas iluminadas.
 
Mas hoje eu queria deixar registradinho algumas de suas últimas conquistas, mostrar a quem passar por aqui que você anda mandando muito bem. Nós quase nos engasgamos de tanta babação, mas acho que tem de ser assim mesmo, porque uma boa descoberta científica hoje em dia nos alegra, mas as suas descobertas nos alegram e emocionam. Não acho pouco que você agora, aos quatro anos, leia cada placa ou rótulo que encontra pela frente (pateta, festa, convite, ninho, pirata, escola, natação, pare, maizena) nem que cante I'm a sea star com sua linda pronúncia de bom aluno. Adoro perceber a evolução em seus desenhos - e olha como você escolhe bem as cores! - e ver você montando seus quebra-cabeças de cem peças "como quem já tem seis anos, nééé?".
 

Em junho.
  

Em outubro.
 
E você sabe que não precisaria fazer nada disso tão cedo, que não há cobranças ou marcação cerrada. Mas esse é você e queria registrar isso aqui para que, daqui a alguns anos, você possa relembrar um pouquinho desses seus passinhos muito importantes. Desejamos que que eles te conduzam muito longe, muito mesmo, e que, acima de tudo, você leve com você o que mais importa: um coração generoso e um olhar antenado voltado aos que compartilham a estrada com você.
 

Não troco por nenhum vaso chinês.
 

Os paleontólogos do Infantil IV.
 
Te amamos muito, grande pititico! Boas férias, garotada!
 
_________
 
Às professoras do Arthur neste ano, um beijo grande. Desejamos sucesso na linda carreira que vocês escolheram e um 2010 cheio de alunos espertos como esses que vocês tiveram em 2009! ;-)
 

 
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