Domingo teve...

 


 
 
Casa cheia de amigos, rock & roll e churrasquinho;
 
Sol dando de ombros para a previsão, dia anil;
 
Crianças a mil, bola no telhado e cortinas pintadas;
 
Hóspedes gracinhas, comida boa e gargalhadas;
 
Futebol no rádio (ou na minitv, sei lá o que era aquilo; afe, brasileiro, não tem jeito), bolhas de sabão, brinquedos pelo chão;
 
Torta mineira, vela e parabéns;
 
Meu amor no vocal, minha pequena na bateria e eu na gritaria;
 
Smiths, Cure, Pixies, Interpol, Baby Shakers, Weezer;
 
Barulho, conversas e sorvetes esquecidos no freezer;
 
E muita, muita alegria para celebrar o dia em que meu amor veio ao mundo. No finalzinho da tarde, teve ainda a primeira ida do meu outro gatinho, o de quatro anos, a casa do amigo - sem mim! Tudo bem, sem crises, eu o deixo crescer, sim.
 
Mais uma vez, feliz aniversário, Ulisses. E, como de costume, o dia ao seu lado foi just perfect.
 
_______________
 
p.s. Houve quem tentasse azedar a festa: arrombaram nosso carro na calçada de casa e levaram nosso som (obviamente) e o capacete de ciclista da Amanda (!!? - como assim? Deixaram para trás itens mais valiosos como uma boa lanterna. Bom, eu concordo que o capacete era uma graça. O ladrão não resistiu).
 
p.s. 2. Por falar nela, entre uma balada do Smiths e uma sonzeira do Weezer, eis que rola um sambinha com o Zeca Baleiro e o Zeca Pagodinho (Samba do Approach, sabem?). A Amandinha, que até então brincava na garagem indiferente à sonzeira, arregala os olhos nos primeiros batuques, pergunta "barulho esse, mamãe?" e sai se sacudindo toda serelepe em direção à sala do barulho. Minha menina, ao que parece, é do samba. Seguuuura!
 
p.s.3. "Arthur, por que suas mãos estão sujas de tinta verde? O que você tava pintando lá em cima?"

- "Ahhnnn, deixa eu ver... um caderno."
- "Que caderno, Arthur? Que caderno?"
- "Pera, mãe, vou brincar" - sai correndo. Subo as escadas, abro a porta do meu quarto e vejo na cortina a resposta para minha pergunta. Dia de festa. Acontece. :-/
 
p.s.3 atualizado: o castigo veio em forma de limpar a "obra". Não deu certo, a tinta não sai. *Suspiro*
 
p.s.4. "Baby Shakers" é a banda do Odisseus. Rock & roll delícia. Lado a lado com canções de bandas como Pixies, ontem eles também tocaram produções próprias. E eu já não sei do que gosto mais. Podem fazer essa cara, nem ligo. ;-P 
 

Feliz aniversário, meu amor



Hoje é aniversário de Ulisses. Eu gostaria muito de ter tido tempo para fazer uma longa homenagem para ele aqui no blog. Mas não vou me queixar porque o motivo que tem me mantido longe do teclado de ontem para cá é um motivo delicioso. Estamos tendo a alegria de hospedar amigos muito queridos, o que já tem tornado o aniversário dele mais legal ainda. Sim, porque já seria um dia pra lá de especial para nós de qualquer jeito, mas quanto mais amigos por perto, melhor.

Ele anda ocupadíssimo também, já recebendo mil telefonemas agora de manhã e preparando a voz que pretende soltar mais tarde... sim, porque hoje é dia de rock & roll! Prometo voltar aqui depois para contar tudo sobre o dia de hoje que, como vocês podem ver aí em cima, nós embalamos e demos de presente para ele.

***

Meu amor, é uma alegria imensa dividir seu dia com você. E é tudo de bom perceber que nosso amor é como você: quanto mais o tempo passa, melhor fica. Curta bem o seu dia e que sua vida continue sendo essa fonte maravilhosa de alegria que é para todos nós. Porque é assim: é só você chegar, que tudo fica bom. Te amamos muito.

Feliz aniversário!

Rita, Arthur e Amanda

A volta




E assim como foram, os comentários voltaram. Honestamente, não achei que isso fosse acontecer, mas pelo jeito o pessoal do Blogger não é como eu: eles fazem back up. :-) Bom, agora eu também faço e, aliás, foi a primeira coisa que fiz assim que vi que os sumidos estavam de volta.

Meus queridos leitores podem continuar registrando aqui suas sábias palavras.

Agora uma outra coisa me intriga: o que vocês acharam da historinha do Ping? Deu o maior ibope aqui em casa. Aí não?

Bem, vou indo, preciso descansar. O final de semana promete. ;-)

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Atualização em 30.11.09: e sumiram outra vez...


Palavras ao vento - o blog está menor

 

 
Não sei se você que me lê agora tem ideia do valor que dou a este blog. Talvez aqueles que não tenham um blog não consigam entender bem o que estou sentindo agora, mas vamos lá.
 
Não tenho muitas pretensões com o Estrada Anil, ele é principalmente um diário e acho que as maiores alegrias virão no futuro quando, de cabelos totalmente brancos e lupa na mão, eu viajarei por cada post e cada comentário relembrando momentos que sem o blog correriam o sério risco de se perderem para sempre nos caminhos escuros da minha péssima memória. Sei que darei muitas risadas e me emocionarei muito também.
 
Escrever é um exercício maravilhoso, mas o faço sem almejar grandes trunfos, escrevo porque gosto e vejo na escrita uma forma de vida. Mas o blog tem me mostrado outras delícias além do registro que faço principalmente para mim e minha família. Eu adoro a interação com os leitores e sou verdadeiramente grata por cada momento que vocês dedicam a passear por aqui. E sei que muitos de vocês passeiam calados, o que absolutamente não me aflige porque eu mesma passeio calada por vários blogs que adoro. Mas é claro que recebo com muita alegria todos os comentários que vocês gentilmente publicam aqui.
 
E é por isso que hoje meu coração ficou apertadinho ao ver que, inexplicavelmente, muitos dos preciosos comentários publicados em posts mais antigos do Estrada simplesmente desapareceram. Não sei ao certo quantos sumiram, se o processo já parou ou se outros ainda sumirão, sequer se conseguirei recuperá-los. Estou muito triste por cada linha desaparecida, mas o sumiço de alguns comentários em particular simplesmente partiu meu coração em mil pedaços, como nos que foram publicados nos posts sobre amamentação. Eram comentários que partilhavam experiências marcantes e que poderiam ser de muita valia para eventuais leitoras (muita gente chega ao Estrada em busca de dicas sobre amamentação).
 
Eu nem sei se conseguirei ajuda sobre esse problema. Busquei blogs especializados e o próprio fórum do blogger (a plataforma do google onde o blog é hospedado), mas até agora não recebi nenhum retorno.
 
Como uma coisa ruim nunca vem sozinha, descobri que todos os back ups que fiz até hoje eram back ups do modelo do blog apenas (layout) e não do conteúdo. É o preço da ignorância. Somente hoje fiz o primeiro back up de verdade, mas os comentários já estavam sumidos.
 
Eu sinto muito se algum comentário seu sumiu. Sinto muito mesmo, o retorno dos leitores vale muito para qualquer blogueiro e eu valorizo muito cada visita a este espaço.
 
Espero que os outros comentários não sumam também - vi no fórum que uma blogueira perdeu todos os comentários de seu blog.
 
Não há muito o que eu possa fazer a não ser esperar alguma resposta dos blogs que consultei e torcer muito para que isso não se repita. E peço desculpas pelos back ups não feitos.

E, principalmente, espero que esse maldito incidente não desestimule nossas conversas por aqui. Este parece ser um grande momento para brincar de Jogo do Contente. Vamos ver se consigo: hum... podia ser pior.. o blog inteiro poderia ter sumido. Bem, é verdade. Já aconteceu com outros blogueiros. Vou tentar sorrir.
 
***
 
p.s. Atualização: no momento em termino este post, o Dicas Blogger publicou um post sobre o bug no sistema de comentários do blogspot. Aguardemos.
p.s.2. Já que você está aqui, não deixe de ler a historinha publicada no post anterior, também de hoje. É uma graça. Beijos.
 

O vaso vazio

 
Navega daqui, navega dali, hoje conheci essa historinha e gostaria de dividir com vocês. É mais ou menos assim:
 
Há muito tempo, havia na China um menino chamado Ping. Ping adorava plantas, especialmente as flores, e era muito bom em seu cultivo. Tudo que Ping plantava florescia com graça e beleza.
 
 

 
Naquela época a China tinha um imperador que também amava plantas. Cultivava imensos jardins no palácio e nutria um profundo amor por árvores e flores. Com a idade já avançada e sem herdeiros, o imperador decidiu escolher seu sucessor de uma maneira inusitada. Convocou todas as crianças do império, deu a cada uma delas uma semente e disse que o futuro imperador seria aquela criança que, após um ano, apresentasse a ele o melhor resultado.
 
Todas as crianças ficaram em polvorosa! Receberam as sementes das mãos do próprio imperador e voltaram para suas casas, cada uma com a esperança de um dia vir a ser o governante de seu grande país.
 
 

 
Ping também pegou sua semente. Colocou-a em um vaso, adicionou terra boa, regou, conversou, cuidou. Passada uma semana, nada germinou. Intrigado e preocupado, Ping suspeitou que talvez o vaso não fosse adequado. Transferiu, então, a semente para um outro vaso maior, adicionou terra ainda melhor, regou, conversou, cuidou. Os meses passaram sem que nada crescesse no vaso de Ping, para sua profunda tristeza. Ao vê-lo chorar de desapontamento, seu pai disse:
 
- Enxugue as lágrimas, meu filho. Você fez seu melhor, e isso é o que importa.
 
Ping secou suas lágrimas, pegou seu vaso vazio e dirigiu-se ao palácio do imperador para a grande escolha.
 
Milhares de crianças exibiam orgulhosas suas lindas flores coloridas. Ping mal podia acreditar naquilo, logo ele, que já havia cultivado tantas flores lindas antes, falhara na sua mais importante missão. O imperador caminhou em silêncio por entre as crianças que o olhavam com grande expectativa, até que se deparou com Ping e seu vaso vazio. Franzindo a testa, olhou bem nos olhos de Ping e perguntou:
 
- Meu filho, onde está sua planta?
 
Ao que Ping respondeu:
 
- Eu fiz o melhor que pude. Usei terra boa e dei muito carinho, mas nada germinou da semente que há um ano peguei de suas mãos.
 
Nesse momento, o imperador abriu um largo sorriso e declarou a todos que havia feito sua escolha: Ping seria o futuro imperador!
 
Perplexas, as outras crianças começaram a protestar que aquilo não era justo, afinal elas traziam flores lindas, enquanto o escolhido tinha apenas um vaso vazio! Com serenidade, o imperador respondeu:
 
- Há um ano cada uma de vocês recebeu de mim uma semente queimada e morta. Nenhuma delas poderia germinar. Tudo o que pedi foi que vocês fizessem o melhor.
 
Envergonhadas, as outras crianças baixaram a cabeça em silêncio. E dizem que Ping foi um excelente imperador.
 
___________
 
Você pode ouvir a historinha na voz do excelente contador Ilan Brenman, no site dele. E todos nós podemos tentar fazer nosso melhor.
 

O sorriso de Odisseus - o fim de uma era




 
 
2009 já estava com pinta de ser um ano em que coisas antes tidas como improváveis, para dizer o mínimo, acontecem - viramos sede de Olimpíadas (bacana), o Brasil se tornou credor do FMI (pôxa!), um negro assumiu a presidência dos Estados Unidos (clap, clap, clap!) e por aí vai. Mas somente hoje se deu o acontecimento que carimbou de vez o passaporte de 2009 para o rol dos inesquecíveis: Ulisses, meu digníssimo marido, tirou o aparelho dos dentes! (Uuuuooohhhhhhh!!! - aquele barulho que a torcida faz em lances incríveis.)
 
Ainda lembro da primeira vez que o vi com os ferrinhos na boca. O ano era 1527, o Brasil tinha acabado de ser descoberto e eu já era apaixonada por ele. Lembro que fiquei um pouco intrigada com aqueles ferrinhos porque o que ele queria "corrigir" era invisível para mim. Eu o achava na medida... óóóó, sweet.
 
Pois bem, os séculos passaram, o mundo girou muito, muito, muito. Aí girou mais ainda. Nós nos reencontramos (ufa, quando penso no tamanho do mundo e que a gente poderia nunca mais ter se achado, ai) e ele continuava com o sorriso metálico. Fiquei então sabendo que aquela era a 78º fase do tratamento que àquelas alturas era conduzido pelo 16º ortodontista. Eu honestamente desconfio que ele virou uma espécie de cobaia de novas tendências da ortodontia pós-colonial, mas não vamos contar isso para ele, tá? Faz de conta que o tratamento estava no rumo certo.
 
Ocorre que tanto tempo de aparelho transformou Ulisses numa pessoa... de aparelho. Não alguém que estava de aparelho, mas alguém que era de aparelho, compreendem? Eu nem achava mais que aquilo era alguma coisa que sairia dele um dia.
 
Mas hoje saiu. Só a parte de cima, é verdade, mas não importa. Era improvável, mas aconteceu. E estou felicíssima por ele. Eu já usei a geringonça ortodóntica e lembro bem das dores e do incômodo que nos atormentam após cada visita para 'ajustes". E presenciei muitas dessas indesejáveis situações enfrentadas com louvor por Ulisses ao longo desses mil anos. Há muito para comemorar hoje (e não só hoje, vou logo avisando que esta semana tem mais - aguardem) e ele já começou: mastigou o jantar na maior alegria, mostrando os dentes sujos de pão, um amor. Eu vou fazer minha parte e tentar falar umas coisas engraçadas para dar a ele motivos para um sorriso largo e orgulhoso. Ele merece.
 
Parabéns, meu gatinho. Well done!
 
________________________________
 
Bom, e aí hoje vi num blog legal uma listinha de pequenas coisas surpreendentemente prazerosas e imediatamente pensei que elas dariam bons motivos para sorrisos. O que segue abaixo é apenas uma parte do último post do blog Hello, Lolla. Tem muito mais por lá - recomendo a visita, seja para ler, seja para se deslumbrar com ótimas fotos. Quer sorrir, meu amor? Pense nisso:
 
"- O momento em que você acorda e percebe que aquela situação horrível era apenas sonho.
- Voltar a dormir na sua própria cama depois de uma viagem longa.
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- Tirar todo o catchup ou mostarda grudados em volta do bico.
- Quando você compra um aparelho na loja e descobre que ele vem com pilhas incluídas.
- As primeiras duas horas de uma longa viagem de carro.
- Puxar aquele filme plástico que protege aparelhos eletrônicos.
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- Entrar no cinema com doces/pipocas mais baratas escondidos na bolsa.
- Quando a pessoa coçando suas costas encontra a parte que realmente coça.
- Ouvir sua nova música favorita, várias vezes.
- O momento em que a plateia percebe qual música a banda está começando a tocar.
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- Os segundos finais do processo de desatar um nó bem grande (essa também vale no sentido figurativo).
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- Rir tanto a ponto de não fazer nenhum som.
- Quando você abre a porta de um banheiro público esperando o pior e o encontra limpíssimo.
- Quando você chega no ponto de ônibus e o ônibus chega também, cinco segundos depois."
 
Minha contribuição para a lista:
 
- Quando você passa a língua nos dentes e percebe que tirou o aparelho.
 

Nove anos


Oi, pai.

Sabe aquele olhar que trocamos quando cheguei ao hospital onde você estava? Valeu muito mais do que eu seria capaz de dizer; tinha uma vida inteira não conversada ali. E eu queria que você soubesse que entendo. Talvez eu não saiba tudo, mas acho que li o suficiente nos seus olhos cansados pela brava luta que você travou naqueles meses para perceber que as formas de amor são infinitas. E torço muito para que você tenha percebido isso também. 

***

Vou cantar um pouquinho, uma música que você adorava. Não tenho o vozeirão do Nelson Gonçalves, mas acho que você nem vai se importar:

"Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim"


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"E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."

                                                                                     Cecília Meireles

Divagações noturnas: o belo é simples


 Always.

Li num blog que adoro um comentário meio constrangido sobre repetições. A dona do blog se desculpa com seus leitores por publicar mais do mesmo, digamos assim. Achei uma graça aquele delicado pedido de desculpas, aquela consideração com os leitores, como se ela não fosse dona absoluta do blog e não tivesse o direito de publicar nele o que bem entendesse. Mas gente boa é assim mesmo: faz bem feito, mas jamais esquece que o que realmente importa é a nossa relação com as pessoas em nossa volta.

E aí fiquei aqui pensando com meus botões, digo, com meu pijama sem botões, como é prazeroso conviver com pessoas assim. E fiquei refletindo que, com o tempo, passei a achar que isso é quase uma condição sine qua non para o verdadeiro "saber fazer bem feito": não se tornar arrogante, não se sentir por cima da carne seca. Porque, no fim das contas, ninguém está sempre por cima da carne seca; e mesmo que assim fosse, arrogância é algo difícil de se justificar.

Às vezes me pego dizendo algo do tipo "ah, fulano pode ser besta! Ele sabe tudo". E lembro de uma ou duas situações em que cheguei mesmo a defender essa visão. Em uma delas, assisti a uma reportagem sobre transplante de pulmão e fiquei tão profundamente impressionada com o valor do trabalho daquelas pessoas envolvidas na cirurgia, com a magnitude da coragem de alguém que retira um órgão de uma pessoa doente e o substitui por outro, que rege uma equipe que precisa ser ótima em todos os aspectos, que se entrega a uma situação onde erros não serão revisados, que falei mesmo: meu, esse médico pode se permitir ser a pessoa mais arrogante e insuportável do mundo; ele pode.

Mas na verdade, descontando momentos em que a emoção camufla nossas ideias, continuo defendendo o argumento de que arrogância não combina muito com sabedoria. Talvez uma coisa não tenha absolutamente nada a ver com a outra e ser gênio ou legal sejam assuntos pertencentes a esferas totalmente distintas. Talvez o que eu digo aqui equivala à pergunta "você gosta mais de matemática ou de viajar de carro?", sabe? Mas não consigo me libertar da sensação de que a verdadeira sabedoria caminha de mãos dadas com a gentileza.

Um bom professor me fez ver certa vez que aquele que acha que já sabe tudo não aprendeu muita coisa, apenas vislumbrou o conhecimento, mas não mergulhou nele. Por outro lado, aquele que se reconhece como eterno aprendiz parece já ter percebido onde nasce todo o conhecimento, na humildade necessária para aceitar que sempre sabemos menos do que há para se saber.

Então quando vejo algo como o pedido de desculpas bonitinho da minha competente colega blogueira não consigo evitar algumas comparações e imediatamente sou bombardeada por lembranças de episódios quase diários nos quais a arrogância impera sobre parcas centelhas de conhecimento. Como é triste ver que o mundo ainda está cheio de falsos cultos, de preconceitos emburrecedores travestidos de senso comum. Por outro lado, como é bom saber que sempre se pode aprender e que, bem, a esperança é a última que morre.

Viajei, eu sei. Deve ser o calor.

Natal II - dos símbolos

 

 
Não adianta. Eu sei que aqui a neve não vem e que o Noel morre de calor dentro de toda aquela vestimenta; que os pinheiros não nascem no nosso quintal e que bolas vermelhas têm um pezinho na breguice. Mas o encanto causado pelas luzinhas na árvore me faz empurrar o senso crítico para baixo do tapete. As crianças adoram (tudo bem, nós os contaminamos), nós adoramos, todo mundo se diverte. A casa fica com cara de festa e a gente imediatamente associa o pinheiro às viagens de final de ano, aos bons reencontros que se aproximam. Pegamos o simbolismo todo que o norte do mundo nos mandou e, na falta dos nossos próprios rituais, seguimos montando pinheiros e arrumando botas na janela. Às vezes somos assim, facinhos, não queremos resistir muito. E até guirlanda na porta a gente pendura. Fazer o quê, né? ;-)
 

 

Domingo indoors

- Bom dia! Que tal sairmos para pedalar?

CABRUUUUMMMMM!!!!!!!!!!!!!!

- Deixa pra outro dia...

Com a chuva despencando lá fora, ainda nos restava uma boa leva de torradas, um café quentinho e muitos planos para um 2010 cheio de malas e novos horizontes... Hummm, tomara.

* * *

- Mamãe, caça minha sandaia...
- Deixa, mãe! Eu ajudo! Vem, maninha, senta aqui.
- Pá bom.




:-) (cara de mãe boba)

Corpinho de boneca


 

 
Há dois dias levamos nossos filhotes a uma festinha de criança, aniversário de uma coleguinha do Arthur. Eles adoram a bagunça toda de brinquedos e comilança, correria e cantoria. Para nós, marmanjos de companhia, vale por ver a alegria deles, mas também por papear com os outros marmanjos babões e parceiros daquele que é, de longe, o programa social mais frequentado pelo grupo.
 
E aí olha o pula-pula aqui, come uma coxinha ali, acompanhei a Amanda a uma casinha de boneca montada no meio do salão da festa. "Casinha" é modo de dizer, porque o casarão da Barbie só não tem sauna, mas logo, logo, eles instalam uma. Mas não foi bem o luxo das carruagens e penteadeiras da boneca que prendeu minha atenção por alguns minutos. Foi o corpinho da boneca e a crueldade que ele representa.
 
Digam-me se exagero, mas o padrão corpo-de-barbie é pressão demais na vida de qualquer futura adolescente. E antes de chegar à vida adulta (quando, espera-se, boa parte consegue se despir de tamanha ditadura), aquela garotada vai necessariamente atravessar o furacão das confusões adolescentes. E adolescência inclui inevitavelmente crises, como quase toda grande mudança traz. E aí a gente "ajuda" bombardeando as coitadas com um padrão de beleza tão raro no mundo real quanto um canguru falante. Sim, porque não bastam os olhos lindos. É preciso ser magra e beeeem alta. E ter cinturinha. E cabelão. E mãos perfeitas, afiladas, lindas. É preciso ser assim, uma brastemp.
 
E antes que vocês digam "é só uma boneca", eis que volto para a mesa onde uma animada linha se organiza para uma foto e vejo uma mãe preocupada em não mostrar o braço "gordo" para a câmera. Já é um bom exemplo de como nos policiamos para caber nos rígidos padrões que nos empurram goela abaixo desde a infância, mas a frase que se seguiu ilustra ainda melhor o que escrevo aqui: ela olhou para sua linda filha de quatro anos e disse, enquanto ensinava ao grupo um novo truque para disfarçar gordurinhas em fotos, "viu, filha, vai aprendendo essas coisas".
 
Não quero que entendam que estou criticando a amiga que se preocupou com o braço supostamente gordo na foto (e eu juro que não é gordo, mas também se o fosse não faria a menor diferença). Se eu fizer um mea culpa, vou elencar mil rituais de vaidade a que eu mesma me submeto para "me sentir bem". Então se eu quiser falar mal de quem tem vaidades com seu próprio corpo, começarei por mim mesma. Estou, sim, convidando-nos a pensar no que nos torna tão obcecadas com os tais padrões de beleza e tão rígidas com nosso corpo e, pior, no porquê de não hesitarmos em transmitir essa obsessão às nossas filhas. 
 
Em um outro post, já falei que gosto de fazer as unhas, por exemplo, e continuo achando natural e saudável cuidar bem de nosso corpo. O que questiono aqui, contudo, vai um pouco além. Falo de quando abdicamos do direito de não seguir qualquer padrão, porque é isso que muitas de nós fazemos. Parece que esquecemos que é perfeitamente possível ser vaidosa sem ser cruel, ou seja, cuidar-se aceitando as diferenças genéticas como o que elas são: diferenças genéticas, não mais. E aí é claro que o conceito de crueldade varia imensamente e o que é absurdo para mim pode ser natural para você, mas bem que a gente podia dar uma folga para as nossas crianças porque, vamos combinar, infância não é tempo de se preocupar com o braço na foto.



O cara legal por trás dos óculos (e do tampão)



Quando eu tinha cerca de 10 anos comecei a usar óculos. Não foi o fim do mundo, mas passou bem longe de ser legal. Porque eu achava que ninguém iria mais ver meus olhos, minhas amigas mais próximas não usavam e eu já estava muito bem, obrigada, com tantos problemas de autoestima (branca demais, magra demais, cabelo feio demais e outras coisinhas que algumas crianças adoráveis diziam de mim). Mas me acostumei aos trancos e barrancos, aprendi a ignorar as eventuais gozações, usei lentes por um tempo, voltei aos óculos e hoje em dia uso quando lembro. Minha vista se recuperou ao longo do tempo e meu grau diminuiu sensivelmente a ponto de eu só recorrer aos óculos para ler (quase nunca), ir ao cinema (quando lembro) e dirigir à noite.

Com meu filho (que você pode ver aí em cima, de camiseta vermelha) a necessidade de usar óculos chegou muito mais cedo, aos dois anos de idade. É claro que minha experiência gritou na minha memória e temi por sua felicidade por trás das lentes, ah, as mães. Mas logo percebi que, no que se refere à autoestima da criança, começar a usar óculos mais cedo pode ser uma vantagem. É que por volta dos dois anos as crianças tendem a ser bem desprendidas de padrões socialmente estabelecidos. Elas não ligam se o amiguinho foge a algum modelo mais recorrente de corpo, altura, tipo de cabelo. No mundo deles, uma criança de óculos é alguém que usa um acessório curioso e alguns amiguinhos até pedem para "usar um também, mamãe". Nenhum amiguinho do Arthur o olhou atravessado por causa dos óculos.

O Arthur se adaptou muito bem à novidade e em poucos dias foi eleito o intelectual mais charmoso do bairro. Eu elegi. E aqui preciso registrar nosso agradecimento aos amigos queridos que foram a nossa casa no dia em que o Arthur recebeu seu primeiro par de óculos. Tínhamos um jantar programado para aquela noite e, no final da tarde, liguei para eles e comuniquei o acontecimento mais recente, a "inaguração" dos óculos do Arthur. E fiquei muito feliz ao ver que todos eles chegaram a nossa casa com seus respectivos pares de óculos, num gesto tão lindo de solidariedade e inclusão que nunca vou esquecer. Então foi suave, logo as lentes foram totalmente integradas à rotina do nosso filho e tudo bem. Mas esse era só o primeiro passo.

O Arthur tem o que os médicos chamam de ambliopia, condição que ocorre quando um dos olhos não desenvolve a visão da mesma forma que o outro. No caso do Arthur, essa condição está associada ao desvio de um dos olhos, o estrabismo. O olho que se desvia do eixo desenvolve-se menos que aquele que fixa bem os objetos. Com o tempo, o cérebro passa a priorizar o "olho bom" e corre o risco de "esquecer" do outro. Se não tratada, a ambliopia leva à perda de visão do olho "fraco". O tratamento então precisa ensinar o olho "fraco" a fixar os objetos tão bem quanto o outro, precisa fortalecer o olho e permitir o desenvolvimetno da visão. Então além dos óculos o Arthur precisou integrar outro elemento à sua rotina: o tampão ocular.



E aí o início foi difícil para todo mundo. Lamentávamos muito ter de insistir para que o Arthur usasse algo tão desconfortável (já experimentaram?). Eu sempre achei que ele se acostumaria, ele é um forte, mas confesso que não foi fácil. Na verdade, foi uma forte avalanche de conflitos. Cortava nossos corações vê-lo argumentar que já tinha se adaptado aos óculos (com as entrelinhas de "olha, já estou sendo um bom menino, vocês ainda querem mais?"); vê-lo reclamar que incomodava, algo irrefutável, diferente dos óculos que, sempre dizíamos, "é só se acostumar e você nem vai sentir"; vê-lo tristonho, pedindo para retirar o tampão a cada cinco minutos. Mas quem educa sabe que, muitas vezes, precisamos ser mais firmes do que gostaríamos e que ceder significa jogar contra o que é melhor para um filho. Então insistimos, insistimos, insistimos. Premiamos cada avanço com elogios derramados (e muito sinceros) e nos sentimos profundamente orgulhosos da valentia de nosso piratinha.

Nesses dois últimos anos (e meio) o Arthur já passou por várias fases: usou o tampão por quatro horas diárias, durante o dia todo, voltou às quatro horas e agora usa (ou deveria usar, estamos bem mais relaxados, admito) por duas horas diárias. Nosso relaxamento (ainda que recriminável) tem uma razão de ser: o sucesso do tratamento. O ex-olho fraco já atingiu o mesmo desenvolvimento que o outro olho (ÊÊêêêêêêê!!!! Yuuupppiiiiii!!! É o maior! É o maior!) e o uso do tampão agora tem a função única de evitar a perda do que já ganhamos. É que durante a primeira infância, período em que a nossa visão se desenvolve completamente, existe o risco de o olho "bom" ser ainda preferido pelo cérebro (porque o desvio ainda ocorre quando o Arthur tira os óculos).

O prognóstico, segundo a oftalmologista, é excelente. O uso do tampão deve seguir "homeopaticamente" até os seis ou sete anos, quando não existirá mais o risco de perda da capacidade visual, e ele seguirá com o uso dos óculos para corrigir o grau, simplesmente. Também poderá optar por lentes de contato quando estiver um pouco maior (ou permanecer com os óculos, com os quais já está tão acostumado). Aos 18 anos poderá recorrer a uma cirurgia relativamente simples (se for necessário) e deixar tudo para trás.

Quero enfatizar que o sucesso que estamos tendo com o tratamento do Arthur tem tudo a ver com o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo a criança começa a tratar o estrabismo ou qualquer outro probleminha que afete o desenvolvimento de sua visão, mais chances ela tem de recuperar totalmente o quadro. Note-se que, muitas vezes, enfrentamos mais os nossos próprios medos do que os da criança. É normal sentir "pena" de uma criança que precisa usar um tampão ocular? Pode ser. Mas e o que dizer de uma criança que não recebe a assistência devida, em qualquer tratamento? Não é fácil, é verdade. Existe, sim, a tentação de deixar o tampão de lado, fazer pouco caso do que dizem os médicos, seguir só com os óculos. Nunca saberemos o que teria acontecido com a visão do Arthur se não tivéssemos feito uso do tampão, mas, do nosso ponto de vista, há riscos que não se justificam.



Então é preciso ficar de olho nos olhinhos. E, mais uma vez, palmas para o papai Ulisses que percebeu de cara os primeiros desvios no lindo olhinho do Arthur. E palmas, assobios e fogos de artifício para o nosso valente piratinha que coloca o tampão, iça velas e singra os mares da sala, mapa em punho, rumo ao maravilhoso futuro de olhos bem afiados. Quer tesouro melhor? Parabéns, meus amores. Como sempre, vocês arrasam.

Essa história continua aqui, aqui e aqui.

Era uma casa muito engraçada


(Arthur, 4 anos; Amanda, 2 anos)

Ele anda todo orgulhoso por ter aprendido recentemente umas palavrinhas proparoxítonas bem difíceis. Então quer usá-las, do jeito que for...

- Olha, mãe, um inseto bípede. Que estranho! Todo inseto é quadrúpede.
- Na verdade, filho, os insetos têm seis pernas.
- Ah, é mesmo. São sêispedes.

***

Pela sala, Power Arthur Ranger brada suas terríveis ameaças contra o poderoso inimigo invisível:

- Aahhhhhhhh, eu tenho esta espada mágica!! Aaahhhhhhhh, você nunca vai conseguir me defender!!

***

- Mãe, sabe como se chama o cientista que estuda os dinossauros?
- Não, filho, como é?
- Paleontógalo.
- :-) ... Ah, é...

***

Do quintal, a pequena me viu praticando yoga na sala:

- Olha, tia, a mamãe bincando de Ben 10!

***

No balanço, olhar voltado para o alto, com aquele semblante bom de infância, ela canta minha versão favorita para o clássico A Casa:

"Era uma tasa muito ingaçada.
Num tinha teto, num tinha naaaaadaaaa.
Ninguém podia fazer xixi, sshhiiiiiii
puque o pinico num tinha chããããão.
Mas era feita com muito melo,
Rua do bobo, numéro zeeeelo..."


Eu adoooro o "pinico sem chão"...  ;-)

Crianças presenteadas são crianças estragadas?


  



Uma coisa leva à outra e por causa do post de ontem me vi pensando na questão da frequência com que presenteamos nossas crianças.

Quando engravidei do meu primeiro filho, lembro que eu e meu marido concordamos sem muitas delongas sobre um ponto (concordamos sobre muitos, mas vamos falar de um deles): nossos filhos só ganhariam presentes em ocasiões "próprias", ou seja, aniversário, Natal (ver conflito no post anterior) e Dia da Criança (é preciso manter os comerciantes de brinquedos felizes). Nossa decisão comedida tinha, naturalmente, a melhor das intenções. Partíamos do pressuposto de que criança que ganha presente à toa deixa de dar valor ao que tem e corre sérios riscos de se transformar em alguém excessivamente materialista e descontroladamente consumista (além de egoísta, pidão, birrento, essas coisas). Não abandonei de todo essas crenças, mas confesso aqui que não tenho sido uma boa aluna da minha própria pregação.




As "razões" por trás de cada compra de brinquedo (ou roupa, livro, revistinha) para nossos filhos são várias. Basicamente (excluindo as tais datas comemorativas citadas acima):

- Nossa, ele(a) vai adorar!
- Meu, é a cara dele(a)!
- Ah, viu na loja, agarrou e não largou mais!
- Livro nunca é demais.
- Revistinha nunca é demais.
- As camisetas estão todas apertadas (com as variações "as meias estão pequenas", "os sapatos estão apertados", "os casacos estão curtos", etc.).
- É só um carrinho.
- Nunca mais eles ganharam nada.
- Outros.

Acho urgente esclarecer uma coisinha quanto ao terceiro item da lista acima. Meus filhos não costumam dar piti em loja (na verdade, nunca deram). Quando escrevo "agarrou e não largou mais", refiro-me a duas situações em que Amanda caiu de amores por um urso e uma onça e nós deixamos que o amor se fortalecesse. Já houve outras inúmeras situações em que ela e o irmão entraram em lojas de brinquedos (para comprar presentes para outra criança, geralmente) e saíram de mãos abanando e sorriso no rosto. Como o passatempo preferido dos pequenos parece ser contradizer os pais, aguardem notícias do primeiro piti em loja.




Meu ponto aqui é o seguinte: já não sei mais quão nociva é a prática de dar presentes (posso ouvir a risadinha maligna de algumas amigas...). Porque, para ser bem franca, conheço muita gente que (suponho) deve ter tido acesso a tudo quanto é brinquedo na infância e nem por isso se transformou em materialistas desprezíveis. Longe disso. Por outro lado, não acho impossível que o consumismo exagerado aflore em uma fase posterior da vida de alguém que teve muita privação na infância, como uma forma inconsciente de compensação, sabe? Na boa, não sei. Seria bom se o mundo fosse simples e as equações infalíveis, mas nem sempre é assim.

Não quero passar a ideia de que estou tentando fugir da raia e varrer para debaixo do tapete minha responsabilidade por, teoricamente, "estragar" meus filhos com brinquedos. É que até agora, honestamente, não vi muito estrago. Tudo bem, ainda é cedo. Mas ando me perguntando se o problema não está em como se lida com o fato de se ter muito brinquedo. Porque, no fim das contas, não importa quantos brinquedos meus filhos tenham, tentamos ensiná-los a zelar por todos eles. Sem neuras, porque infância é infância e ninguém quer transformar um filho em um robô que não brinca para não quebrar o brinquedo. Mas aqui em casa o fato de ter muitas opções na hora da bagunça não significa poder destruir por destruir, quebrar por quebrar. Nem é permitido rasgar a revistinha (é claro que acontece, mas uma rasgação deliberada certamente será severamente repreendida). E brinquedo que não se divide é coisa que não existe.




Eu ainda tento pisar no freio porque algumas coisas realmente me incomodam, como abrir uma caixa de lápis nova (que veio de brinde em alguma outra compra), mesmo tendo um milhão de lápis já à disposição. Ou brinquedos esquecidos no fundo do baú. Mas admito que as tais datas especiais têm se multiplicado um pouquinho. Quanto aos brinquedos esquecidos, meu filho mais velho me ajuda a selecionar aqueles que eventualmente seguem para outras crianças. Percebo que é um momento difícil para ele, mas gosto de ver sua generosidade. Porque se fosse fácil, seria fácil, certo? Mas o fato de que é difícil se desfazer de um brinquedo, mas, mesmo assim, ele o faz, demonstra sua generosidade. Às vezes se arrepende, lamenta a doação e pede para eu comprar o mesmo brinquedo de novo. Explico que ele deve ter feito alguma criança muito feliz e que o brinquedo foi doado porque estava abandonado há muito tempo. Às vezes ele reluta um pouco, mas sempre acaba aceitando. Assim aprende que é preciso pesar bem suas decisões no futuro e a ficar feliz pela felicidade de alguém que ele nem conhece, o que é muito bom.




Mas voltemos ao dilema. Passei muita vontade (de brinquedos) na infância. Lá em casa o regime aniversário/natal/dia da criança funcionava para valer. Então eu babava quando visitava meus amigos ou primos mais abastados e, principalmente, babava muito na loja de brinquedos. Mas eu não estava nem perto de ser infeliz por isso, é bom que se diga. Minha imaginação tinha fôlego para muitas manhãs de monólogos no quintal e quem tem mil amigos invisíveis nem precisa de boneca. Mas não posso mentir e dizer que meus amigos-cheios-de-brinquedos brincavam menos. Então acabo achando que criança brinca de qualquer jeito e que o desenvolvimento social de uma criança passa muito mais pela orientação que ela recebe acerca de como lidar com seu mundo (seja ele como for) do que pela quantidade de brinquedos que ela tem no baú (na estante, no armário, na gaveta). Será que estou tapando o sol com a peneira? E aí, querido leitor? Você ganhou muito brinquedo na infância? Você virou um monstro? (eheheh) Mas, enfim, criança que ganha muito presente é, necessariamente, uma criança estragada?




Natal I - dos presentes


 


Estive pensando no final do ano que está logo aí. Ainda temos meio novembro pela frente, mas o que são quinze dias na avalanche que o consumismo transformou nossos finais de ano, não é mesmo? Já foi dada a grande largada para a tradicional corrida de final de ano, e não estou falando da São Silvestre. E não pensem que estou já querendo dar um tom natalino ao blog, antecipando as coisas também por aqui. O que me leva a falar disso agora é justamente o fato de que não consigo me acostumar com guirlandas e pinheiros enfeitando lojas em outubro.Todo ano é a mesma coisa: mal os lojistas comemoram as vendas de brinquedos do Dia da Criança, lá vêm eles com seus badulaques natalinos. E todo ano tomo susto: já?!
Nós sabemos que, nos países cristãos, o Natal há muito virou a mina de ouro dos comerciantes. É inegável o caráter consumista da festa e acho difícil alguém discordar disso. Sabemos também que não é preciso comprar presente para confraternizar com os amigos, familiares e colegas de trabalho, e que nenhuma criança do mundo precisa de tanto presente, mas não adianta: a ladainha “compre compre compre” gritada aos quatro ventos por onde quer que a gente circule nos dois meses que antecedem a noite de Natal não nos dá muita chance. E ainda que ninguém nos obrigue a comprar nada, nós mesmos damos nosso jeitinho e, via de regra, seguimos pela via do “mas como vou deixar passar em branco?”... Quem foi que disse que lavagem cerebral não funciona, certo?
Então vamos pensar sobre o “passar em branco”: não é lamentável que nosso consumismo consiga dominar até a época do ano em que todo mundo resolve brincar de confraternizar? Porque, pensando direitinho, se eu sou cristã e o Natal para mim é uma festa religiosa, não há muito sentido em transformá-la em um momento de presentear as pessoas; seria mais um momento de reflexão, meditação, oração, de não esperar receber nada em troca. Se, por outro lado, não sou cristã, a festa simplesmente nem tem muita razão de existir, já que ainda que o Natal tenha sido um dia inventado, inaugurado e depois perpetuado, sua motivação está inegavelmente ligada à religião. O Natal é uma comemoração cristã.
O contra-argumento mais óbvio salta aos nossos ouvidos: mas, Rita, presentear é uma forma de confraternizar! É, eu sei. É uma forma, não necessariamente a única. Mas é claro que a coisa é toda muito bem feita, então ninguém nem pensa em não comemorar o Natal com presentes nos países onde a ordem é comprar e sair presenteando. E tudo bem se você quer (ou acredita que quer) presentear alguém, é claro que é uma forma de demonstrar carinho – ninguém sai por aí presenteando os inimigos e os desafetos (normalmente). Eu adoro dar presentes. O problema está na aparente obrigação do gesto. E seguimos, ano após ano, alimentando a tradição às custas do nosso bolso. E tudo bem para quem pode. Mas e a frustração de quem não pode?
Lembro de um certo Dia das Mães, quando eu era criança. Na minha casa funcionava assim: no Dia dos Pais, minha mãe bancava o presente. No Dia das Mães, meu pai nem lembrava. Então simplesmente não tínhamos fundos para presentear nossa mãe. Eu era bem pequena, mas já sabia que não fazia muito sentido pedir dinheiro a ela para lhe comprar um presente (e cheguei a fazê-lo, mesmo assim, tudo para não "passar em branco"). Mas o pior é que, apesar de pequena, já me sentia na obrigação de presenteá-la no Dia das Mães. Era terrível, uma agonia mesmo, como se eu faltasse com uma obrigação de filha. Não é um absurdo? Então não acho muito difícil imaginar a frustração de um pai ou uma mãe que não tem dinheiro para presentear os filhos no Natal. E essa frustração simplesmente não precisaria existir se o alardeado clima de confraternização fosse para valer e não um pretexto para todo mundo sair gastando o décimo-terceiro salário (nos países onde há décimo-terceiro, obviamente).
Este texto não é um clamor anti-Natal ou anti-presentes. Eu mesma já estou alinhada na largada, com o joelho no chão. Já fiz minha lista de livros infantis e os brinquedos certamente virão também – de preferência ainda em novembro, porque odeio_loja_lotada.com.br. Mas queria convidar meus queridos leitores e amigos a compartilhar aqui suas experiências ligadas ao desenfreado consumo natalino e também a outros aspectos que envolvem a festa. Quem já não experimentou aquela melancolia na semana do Natal, diante da obrigação de felicidade que nos leva a acreditar que o mundo inteiro está mais feliz que a gente? Quem já não levou a coisa ao extremo a ponto de transformar a véspera de Natal no dia mais estressante do ano? Com a palavra, vocês.
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Depois que eu e Odisseus ficamos juntos novamente e nossos filhos nasceram o Natal ganhou novo significado para mim. Como nossa alegria dura o ano inteiro, faz o maior sentido nos reunirmos para fazer festa e todo pretexto é válido. Na próxima semana vamos montar nossa árvore e os presentes aos poucos serão depositados ali, à espera da grande bagunça da rasgação de papel. E tento ensiná-los que aquilo é bom, mas confraternização mesmo é brincar junto. Todo dia.

De aquarelas


(Alerta: modo coruja ativado) 

Um blog é uma espaço que pode se prestar a vários serviços: este, por exemplo, é um misto de diário pessoal com álbum de família, veículo para troca de ideias, para divagações, registro de memórias, uma tentativa de diminuir algumas distâncias... a lista é longa.

Às vezes, este blog é apenas uma caixa de papelão onde guardo alguns papéis e objetos que, tenho certeza, trarão sorrisos e saudades no futuro. Como os desenhos que mostro neste post.

O Arthur fez o mapa do tesouro (repare na rosa dos ventos, no canto superior direito; embaixo, em laranja, a armadilha para pegar o crocodilo. Que crocodilo? Aquele no lago azul ao lado, ora). A Amanda fez os outros "desenhos" e explicou o que era cada um; a Tia Néia, companheira de muitas brincadeiras, fez as anotações necessárias para a posteridade e, puxa-saco que é, acrescentou os bigodes do leão e deu uma caprichada no tronco da árvore. Eu babei sem o menor constrangimento. Sigam-me os bons.












 
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