Help! Qual a melhor escola para meus filhos?




Nas últimas semanas muito da energia minha e de Odisseus tem sido direcionada à difícil tarefa de escolher a escola de nossos filhos. O Arthur, 4 anos, frequenta a escolinha desde os cinco meses de idade. Amanda, hoje com 2 anos, também já passou por lá, mas precisou ser afastada pelos motivos explicados nesse outro post. Mesmo gostando da escola que tem feito parte de nossas vidas desde 2005, temos considerado mudar de ares por diversas razões. Mas se escolher com que roupa eu vou já é difícil (só às vezes), não ia ser a escolha da escola que ia ser fácil, right?

Vou tentar não fazer propaganda de nenhuma escola aqui ou, muito menos, denegrir a imagem de qualquer outra. Portanto, se isso ocorrer, saibam que se deu de forma absolutamente involuntária. Nada de nomes, então.

Tanto eu quanto Ulisses estudamos em escolas religiosas quando crianças. Tivemos experiências diferentes e nenhum trauma, lembro com carinho do colégio onde estudei boa parte de minha infância e sei que minha mãe, à época, fez a escolha que julgou melhor para mim. Maaaas eu gostaria de manter meus filhos em uma escola laica, simplesmente porque entendo que a doutrinação em escolas vinculadas a uma determinada linha de pensamento religioso é inevitável e pode, sim, limitar e moldar muito do rumo dado às discussões apresentadas em sala de aula ao longo da vida escolar, por exemplo.


Mas nada é assim tão simples e a ironia está no fato de que não sigo a religião católica (mesmo tendo sido aluna de inúmeras freiras) e o fato de ter estudado em um colégio católico pode, na verdade, ter contribuído para meu afastamento da religião. Era contradição demais bem na frente do meu nariz para que eu pudesse me identificar com aquilo. Então escolas religiosas não estão, necessariamente, sumariamente excluídas da nossa lista.



A linha pedagógica adotada pela escola tem, na verdade, um peso maior em nossas ponderações. Eu gostaria muito de fugir das linhas mais tradicionalistas e adotar uma escola em sintonia com os ideais construtivistas de desenvolvimento do pensamento investigativo e da transdisciplinaridade. E aqui vejo perigosas armadilhas. Não espero uma escola que aterrorise a vida de meus filhos com provas semanais e corridas à melhor nota, transformando o aprender a pensar em coadjuvante na busca pelo boletim cinco estrelas. Mas isso não é o mesmo que dizer que não espero que a escola o habilite a encarar o mundo competitivo (clichê, eu sei, mas nem por isso menos verdadeiro) que os espera na saída do colégio. E aí temo pelo preparo de escolas que se propõem a oferecer uma linha de ensino supermoderna e aversa aos rituais tradicionais de "tudo pela decoreba que gera boas notas", mas que talvez não estejam de fato preparadas para o grande desafio de conduzir um ensino transdisciplinar de qualidade. Sim, porque ensinar a pensar de forma globalizada e coordenada é um processo muito mais complexo do que simplesmente apresentar conceitos e fórmulas. E quando percebo que uma determinada escola peca na valorização de seus professores, fico em dúvida quanto ao seu compromisso com um ensino que tanto exige de seus profissionais.


And last, but not least, preocupamo-nos com a estrutura física onde nossos filhos passarão boa parte de seus dias. Evidentemente, não matricularíamos nossos filhos em uma escola medíocre simplesmente por ela ter instalações excelentes. Mas a idéia de que eles não terão acesso a uma boa biblioteca ou a um pátio decente, em um ambiente agradável que os façam querer estar ali, acaba também entrando na já complicada equação.




Bom, podemos dizer que o funil nos levou a duas ou três opções relativamente satisfatórias, mas nenhuma delas, honestamente, assemelha-se à escola que idealizei para eles. Mas talvez o problema esteja comigo porque ando suspeitando seriamente que essa tal escola da minha cabeça não existe. Vejamos: instalações confortáveis e cem por cento seguras, bibliotecas bem equipadas que nos fazem querer ficar lá dentro (como fazia a do meu colégio...), linha de ensino transdisciplinar, investigativa, crítica, formadora de cabeças pensantes e questionadoras, aversa à manutenção de preconceitos e totalmente comprometida com a conscientização de que o mundo precisa da união de forças e não de discriminação de qualquer natureza - bem administrada para que eu não receba a lista de material escolar errada no início do ano, ou coisas do gênero (aconteceu, tudo bem, perdoei), equipe de professores supervalorizada com acesso a reciclagem e aprimoramento constantes, laica e com ensino bilíngue. Ah, e perto de casa, falei? E nem vamos falar que ela deveria ser pública e gratuita porque aí esse post nunca terá fim.

Insights, por favor! Thanks.

Projeta Brasil na Rede Cinemark




Agende-se. Segunda-feira, 09 de novembro, é dia da 10ª edição do Projeta Brasil, na Rede Cinemark. Em cartaz somente produções nacionais com ingressos a R$2,00. 

A renda da bilheteria será revertida para "iniciativas de apoio ao cinema nacional" (meio amplo, mas tudo bem, a gente vai assim mesmo).

A lista dos filmes em cartaz pelo país no dia 09 pode ser vista aqui.

* * *
  
Pequena enquete inútil: que filme teve maior bilheteria na edição do Projeta Brasil de 2007?

a) O Homem que Desafiou o Diabo
b) Tropa de Elite
c) Primo Basilio

Errooooouuuuuu. Tropa de Elite ficou em terceiro lugar (O Homem que Desafiou o Diabo foi o filme mais visto do evento, mostrando quem é o verdadeiro osso duro de roer). Na verdade, a edição do Projeta Brasil aconteceu quando Tropa de Elite já havia estado em cartaz, obviamente, e todas as pessoas desse país (Lula, é você?) já tinham visto o filme. Duas vezes.

Agora peço sua torcida para que os filmes em cartaz por aqui na noite da tal segunda-feira sejam interessantes (à tarde não serve, preciso trabalhar para poder pagar o ingresso), incluindo, de preferência (marque a opção correta):

a) Tropa de Elite
b) E o Vento Levou..
c) Herbert de Perto (marque esta opção)

Muito bem. Agora torça, por favor. E agende-se. Vamos ao cinema? Mas vou logo avisando que é sem legenda. :-)


Dinos, ribalta e toaletes


ALERTA MÁXIMO: MOMENTO CORUJA-MOR, EM GRAU 12 (escala de 1 a 10)



Mãe é bicho bobo, todo mundo sabe. Se você é leitor ou leitora desse blog há algum tempo, também sabe que sou manteiga derretida, já contei aqui. Agora me imagine, mãe-manteiga, assistindo à apresentação anual da escola do meu filho de 4 anos. Pois é.

Já sabíamos que, para o bem ou para o mal, a noite seria uma aventura familiar memorável, visto que resolvemos levar a pequena de dois anos para um evento com cerca de duas horas de duração. Mas como privá-la de ver o mano paleontólogo em sua tão esperada "apresentação do dinossauro"? Como não levá-la para vê-lo caminhar no palco com as passadas largas e pesadas que os dois vinham ensaiando em casa há tantas semanas? Levamos.

As emoções já nos esperavam na entrada. Os portões do teatro permaneceram fechados até poucos momentos antes do início da apresentação, de modo que a chegada cedo para conseguir um bom lugar se transformou em aproximadamente 1 hora de fila. Leia-se uma hora de subidas e descidas na rampa onde se formava a fila porque, obviamente, nossa pequena tem mais o que fazer de sua infância do que ficar parada. Muitos desfiles depois, os portões se abriram e logo estávamos bem instalados, tentando convencer a pequena a ficar sentada, a base de argumentos convincentes como "logo, logo vai começar, filha".

Aí começou. Antes do primeiro número - uma inevitável homenagem ao finado Michael Jackson, com zumbis teens dançando Thriller - a escola premiou os alunos vencedores de um concurso literário e lá estava eu já com lágrimas nos olhos só porque uns pequenos que nem sei quem são recebiam orgulhosos suas merecidas medalhas. Só eu, viu? Aí entram os zumbis e por pouco não subi ao palco matando de vergonha minha família e amigos. Mas me contive, contentei-me com algumas balançadas de cabeça, porque a esperada hora se aproximava.

E aí lá veio meu pequeno garoto, curvado como um bom tiranossauro rex, passos largos, pescoço projetado à frente, varrendo o palco e a plateia com seu olhar "ameaçador". Juntamente com ele, dezenas de outros pequenos dinossauros igualmente adorados por seus familiares babões, cada um o mais querido, o mais dinossauro. Ao som da música tema de Jurassic Park (lágrimas, lágrimas), aqueles pequenos senhores da terra vagaram pelo palco, circulando, posicionando-se para o grande momento. Quando o som de um bom rock & roll infantil tomou conta do pedaço, todos aqueles ameaçadores gigantes pularam e dançaram e ergueram orgulhosos os dino-bonecos. E eu chorei, chorei.




É comum sermos capazes de identificar com um só olhar o estado de espírito de nossos filhotes. Por isso deixei rolar minhas lágrimas de alegria ao ver, no primeiro minuto, como meu pequeno estava se divertindo de verdade naquela deliciosa bagunça jurássica, eu que passara o dia preocupada se ele estava ansioso, se estava cansado, se ficaria emburrado, se ficaria com fome, se, se, se. E o que vi foi uma carinha satisfeita que se abriu em um enorme sorriso quando lááá de cima do palco nos viu abanando os braços como afogados, em tchaus descoordenados cheios de orgulho e satisfação.

Em meu colo, uma maninha animadíssima aplaudia e se balançava. Não sei bem exatamente o que ela conseguiu ver, mas certamente reconheceu a música e entendeu o que estava rolando ali: alguma coisa que juntava mano, dinossauros e rock & roll. E ela curtiu bem. Em certo momento abandonou o colo e dançou espevitada entre as filas de cadeiras e não perdeu nenhum detalhe dos muitos números que se seguiram (salvo nos momentos em que, mocinha que é, pediu para ir ao toalete - não exatamente usando esses termos, mas vocês me entenderam). Ao meu lado, um papai igualmente babão filmava tudinho para podermos babar de novo na sala, no dia seguinte.



Voltamos para casa tagarelando sem parar, todos felizes após mais um insubstituível programa família-com-filhos-pequenos.

Arthur, filhote, foi uma delícia, você arrasou! E nem tricerátops, nem brontossauro, você é, de longe, nosso dinossauro favorito. Parabéns! Rooooooarrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!
____________________

Não posso, não posso, não consigo não registrar também que ontem nossa pequena usou pela primeiríssima vez um banheiro fora de casa. E esperou na fila e tudo! E usou o vaso sem redutor!! E não deixou escapar nada, nada!! E quando terminou, falou "pronto, mamãe, terminei". Ah, gente, desculpa, não tem babador que dê conta. Espera, vou secar o teclado.

Além do fundo do baú




Ponto facultativo. Ah, eu estava precisando, viu? Não que estivesse cansada demais, não - nem faz tanto tempo assim que estivemos de férias. Mas um semiferiado em dia de comércio aberto e babá em casa pode fazer maravilhas.

Eu aproveitei como pude meu dia de vida mansa e fiz coisas que há séculos vinha adiando. Nada grandioso, mas quem disse que precisa ser grande para ser importante, certo? Arrumar o armário, por exemplo, não tem status de manchete de jornal, mas tem lá seu lugarzinho no mundo rotineiro onde vivemos boa parte do tempo. Então.

Hoje pude ver que me recuperei bem de um velho mal, aquele que nos leva, por razões que não compreendo muito bem, a guardar coisas inúteis, velharias que juramos que um dia servirão para alguma coisa, ainda que sejamos incapazes de explicar para o quê, exatamente. Mesmo que eu não me considere muito apegada a roupas velhas e sapatos de estimação, já experimentei diversas vezes aquela sensação de "e se eu precisar?" enquanto seguro à boca da sacola de lixo, ou de doação, aquela peça que não tem me servido de absolutamente nada nos últimos sete ou oito anos.

Mas sinto com alegria que estou me tornando cada vez mais uma abnegada. É bem verdade que nada é absoluto e hoje dei de cara com um relógio que parou há pelo menos dez anos... Mas também pude perceber evidentes sinais de desapego ao me ver descartando sem dó todas as peças de inverno que não usei este ano, ou nos últimos dois invernos, sem a menor sombra de dúvida de que nunca mais as usaria. Chama-se libertação.

Revirar o armário é um pouco como viajar no tempo (mesmo quando se encontra um relógio parado) e é também uma espécie de autorretrato. Diante de bordados abandonados, jóias nunca consertadas e fotos não enviadas, fica difícil negar que não sou a mais metódica das criaturas. Ao mesmo tempo, tênis e saltos revelam versatilidade, o que é bom. Milhões de malas são otimismo e família longe. Mofo, sinal de que a limpeza precisa ser mais constante (ou de que moramos em Florianópolis). Fotos 3x4 do marido, até no meio da maquiagem, é amor mesmo. Já uma calça vermelha em tecido esvoaçante é a prova incontestável de que às vezes sou mesmo uma pessoa completamente sem noção - sacola nela.

Mas ainda que eu tenha descido as escadas com três enormes sacolas de doações e outras tantas de material para reciclagem (não vamos falar a palavra lixo para não me ofender, tá?), preciso confessar que algumas inutilidades permanecem. Ah, eu não consigo, não ainda, me desfazer de velhas camisetas de banda - apoiem-me fãs do U2 e do Pixies, por favor. Talvez vocês me entendam se um dia eu contar a história por trás de cada uma dessas relíquias de pano, mas isso precisa de outro post.

Outras teimosias são mais fáceis e óbvias, no entanto. Um dia "ganhei" de minha mãe (peguei para mim, simplesmente) um velho crucifixo com pedras azuis que, segundo me disseram, são conhecidas como água marinha. Minha mãe guarda com ela uma fotografia de sua juventude em que aparece linda, com o tal crucifixo enfeitando seu colo. Hoje limpei a peça, que atualmente tem uma pedra a menos, e renovei meu compromisso de consertá-la e tirar uma foto semelhante à da minha mãe. Acho que ela gostaria do presente e pretendo fazê-lo antes de seu aniversário de 70 anos, no ano que vem. Não vou aqui falar dos simbolismos confusos do crucifixo, porque acho que está claro que esse, em particular, é simbólico de uma forma bem específica.



Tomara que o velho crucifixo quebrado não tenha o destino daquele bordado que já nem sei mais se vou terminar. Porque algumas velharias são o que de fato arrumam o armário de nossa alma. E é bom, sim, guardar para sempre.

De sombras e sementes




O campo colorido de pequenos arranjos e vasos floridos estende-se até o alto do morro, onde se encontra com a mata verde escura. A grama macia acolhe, além das flores cuidadosamente arrumadas, uma ou outra árvore que, em dias de sol, protege aqueles que buscam o silêncio dos bancos de ferro recostados em seus troncos. Mas não hoje. Hoje uma neblina fina caía umedecendo a grama, disfarçando olhos úmidos e envolvendo amigos de corações tristes.

Subi o morro até chegar à pequena capela erguida às margens do gramado, onde uma despedida tristonha se desenhava, traçada com a melancolia inevitável que nos visita toda vez que alguém se vai. À presença de alguns amigos, lamentei muito reencontrá-los em um cenário onde perda era a palavra mais óbvia.

Após poucos minutos, saí da capela e olhei o céu cinza, o triste dia molhado e me permiti sentir o pavor que sente quem ama. Em meio à minha solidariedade calada, fechei os olhos e abracei com meus pensamentos a família e os amigos órfãos e retornei, descendo a estradinha que margeava o campo colorido do cemitério, com suas flores cheias de saudade. Fui embora pensando que a vida é estranha, que tudo se quebra e que há dias em que nada se explica. Há dias em que só nos resta a consciência de que seguimos, seguimos, plantando nossas próprias sementes. É só o que podemos fazer.

Já no pé do pequeno morro, no entanto, um vento suave, soprado já de muito longe, secou meus olhos e me lembrou que, às vezes, o contínuo se disfarça de finito. O que parece acabado continua em outras formas e não entender não significa necessariamente que algo esteja errado.

Os bons mestres costumam mesmo ensinar que aquele que pensa tudo saber ainda não entendeu muita coisa. Então ainda que me sinta incapaz de muitas explicações, quero plantar nossas sementes e regar as que nos deixaram. Porque aquele campo pareceu-me mesmo infinito e, no fim, tudo o que verdadeiramente importa são as sombras que podemos oferecer e os sorrisos que podemos fazer abrir com nossas flores.

Como eu me tornei parente do Herbert Viana

Alerta: este post contém cenas de tietagem explícita.



E eu aqui me achando a fã do Herbert Viana, só porque estou louca para assistir ao filme Herbert de Perto, como vocês viram nesse post. E aí, na semana passada, entre um suspiro de lamentação e outro pelo fato de o filme não estar em cartaz em nossa cidade, dei uma passada pelo site do longa. Naveguei aqui e ali e, entre outras coisas, vi lá o link para o tal concurso cultural que daria ao vencedor uma guitarra autografada pelo Herbert. Tudo que o candidato à guitarra autografa pelo líder da banda brasileira mais gracinha dos anos 80 tinha de fazer era gravar um vídeo contando qual a música dos Paralamas do Sucesso que mais tinha marcado sua vida, explicando como isso teria acontecido. 

Pois bem. Eu li aquilo, achei interessante e, por alguns segundos, imaginei quanta gente não teria algo para contar envolvendo uma música dos Paralamas...  E como o próprio Herbert assistiria aos vídeos para apontar o vencedor, imaginei-o plantado, por horas e horas, assistindo aos muitos vídeos que certamente invadiriam o site da promoção. Naveguei mais um pouco, e saí do site, xingando mentalmente a programação dos cinemas daqui.

Essa fui eu.

Já o Daniel Mesquini foi um pouco além. Ele navegou no site, achou a promoção bacana e resolveu participar. Gravou um vídeo muito maneiro e enviou. Aí o Herbert assistiu, gostou e ele venceu o concurso, simples assim. Hoje é o feliz proprietário de um troféu com cordas, com o qual, seus vizinhos esperam, vai fazer muito barulhinho bom. Como eu fiquei sabendo disso? Ah, então: o Daniel publicou um comentário muito legal no meu post sobre o filme do Herbert e eu quase caí pra trás. Eu trabalhei com o Daniel durante cerca de um ano, antes de ser removida para Floripa.

Aí me peguei pensando: se eu trabalhei no mesmo ambiente (a mesa dele era do lado da minha!), durante um ano, com o ganhador do concurso como-uma-música-dos-Paralamas-mudou-sua-vida, eu sou praticamente prima do Herbert Vianna, gente. Não sou? E além do mais, eu só mudei de cidade, mas ainda trabalhamos no mesmo órgão, não é Daniel? Gente, eu sou a irmã mais nova do Herbert.

Não deixem de conferir o vídeo! Ele me contou que agora tá todo sem graça, morto de vergonha. Que nada, Daniel, eu concordo com o mano Herbert. Ficou ótimo! Parabéns!! Arrebentou, garoto!
___________________

Aí embaixo, a letra da música que, segundo o Daniel, mudou a vida dele.

Busca Vida

Vou sair pra ver o céu
Vou
me perder entre as estrelas
Ver daonde nasce o sol
Como se guiam os cometas pelo espaço
E os meus passos, nunca mais serão iguais
Se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza
Deixo toda a dor pra trás, perdida num planeta abandonado no espaço.
E volto sem olhar pra trás
No escuro do céu
Mais longe que o sol
Perdido num planeta abandonado
No espaço...
Ele ganhou dinheiro
Ele assinou contratos
E comprou um terno
Trocou o carro
E desaprendeu
A caminhar no céu
E foi o princípio do fim
Se for mais veloz que a luz
Então escapo da tristeza
Deixo toda a dor pra trás
Perdida num planeta abandonado
No espaço e volto sem olhar pra trás...

Queridos leitores,




este post nasceu comentário e virou post. Não demorou muito, após abrir o formulário do post anterior com a intenção de agradecer por todos os deliciosos comentários, para eu perceber que precisava de mais espaço.

Em primeiro lugar, quero que saibam que adorei todos os "depoimentos", que cada comentário de vocês foi uma florzinha plantada em nossa Estrada, aumentando muito o valor que dou a este blog.  

Eu me deliciei com cada história. Como a Márcia, a Cláudia, a Ângela e a Ju, também fui amante dos gibis (Claudinha, você colecionou o álbum Lulu & Bolinha, com figurinhas fofinhas?). Nunca fui Miss, mas também li O Pequeno Príncipe, como não... E lendo os comentários da Renata e da Si eu quase gritei "Pollyanna, é claro!!" Nossa, praticamente uma revolução. Pollyanna foi o primeiro livro não-infantil que li com paixão de leitor dedicado, saboreando cada página. O Jogo do Contente ainda faz parte da minha rotina, em várias versões. A mais recente é o Jogo do Contente Aplicado aos Blogs: "putz, nenhum comentário.. podia ser pior: pelo menos ninguém xingou."

E o que dizer de histórias como as da Anginha, Nakereba, Sinara? Se bibliotecas reabertas, estantes com passagens secretas em um período marcante de nossa história e velhos livros resgatados com um elo de amor tão forte não renderem boas histórias, o que renderia? Pois então tratem de dar um jeito e registrar suas fascinantes experiências para os leitores futuros... Si, ainda assim, devo confessar que, para mim, o ponto forte de seu comentário  foi mesmo a referência à nossa leitura conjunta de Pillars of the Earth! Impagável!



E como fiquei feliz por Ângela ter voltado para nos brindar com a extensão de seu comentário e nos revelar a existência do quartinho subterrâneo. Um dia, Anginha, você vai contar essa história a seus netos, com alguns daqueles volumes em seu colo, misturados com fotos de sua infância e de seu pai. Falará de quando você ainda morava no Brasil, aquele país colorido, e de como seu pai se importou em proteger o que ele sabia ser um valioso tesouro. Seus netinhos vão ouvir de olhos arregalados e vão querer passar todas as férias aqui.

E olha aí O Ursinho Apavorado, mais uma amostra de como estamos sempre juntas - e, pelo jeito, nossos filhos também. No próximo encontro de Max e Arthur, eles vão poder trocar as edições e conhecer a outra versão, um no idioma do outro. [Em tempo: somente agora, meio dia depois de publicar este post, vi que o livro é outro, Anginha. Mas sem problemas, a amizade é a mesma. :-)]



Ju, a rasgação é normal, nossa chance de ensiná-los a proteger e cuidar dos livros. Uma opção pode ser comprar livros com material mais resistente. Esse da foto aí embaixo foi comprado quando o Arthur era ainda um bebezinho e está em excelente estado. O papel parece mesmo um plástico, é difícil de rasgar e superbonito. Mas também temos algumas histórias reconstruídas com durex e cola branca. São curativos nos personagens.



Renata, querida, que bom te ver por aqui! Também tive minha fase de romances açucarados, mas minhas mocinhas eram mais impetuosas, com seus romances impossíveis: eu li muitos volumes de Sabrina, Júlia e Bianca (lembram?) - que eu pegava na biblioteca do colégio de freiras onde eu estudava (!). Aí Jorge Amado me salvou. Mas não por muito tempo, porque também não resisti a Sidney Sheldon... ai, ai, bem que dizem que a gente se expõe muito na rede... Em minha defesa, digo que só descobri Garcia Marquez muito mais tarde.

Isabela, companheira de caminhada, não é uma delícia dividir com os pequenos algo que nos cativou há tanto tempo? Quando vejo o Arthur todo interessado nas fábulas que li quando pequena, viajo no tempo.

Cecilia, fiquei com vontade de conhecer o tal Serafina sem Rotina - porque às vezes tudo que um livro precisa para nos fisgar é um bom título, né? Nunca vou esquecer o dia em que saí da biblioteca do colégio toda ansiosa para chegar em casa e ler O Livro Proibido. O livro era péssimo, o título era pura apelação, mas li inteiro porque, afinal, ele era proibido.

Vocês falaram de livros e autores que passaram pela minha vida e outros tantos que ainda quero ler e poderíamos ter um blog só para falar de nossos livros favoritos, mas o faremos aos poucos por aqui, entre outros assuntos igualmente gostosos. E é claro que blogs não são livros, mas não consigo não dizer que estou que não me aguento por ver que pessoas que leram Hemingway, Dostoievsky e Marquez antes dos 16 anos, que são fãs de Vernes, que se encantam com a deliciosa mitologia das Brumas e que têm um histórico de leitura tão precioso, dedicam alguns minutos de seus dias para ler A Estrada Anil. Ah, vocês me deram um abraço enorme e nem viram. ;-)

Muito obrigada.

O que te fez um leitor?



Amanda, com cerca de 4 meses, lendo seu primeiro livrinho.

Vi no site do Ministério da Cultura (e vocês já devem ter visto também, em outros lugares) que o brasileiro lê, em média, 1,8 livros por ano. Os dados são do início de 2008, mas não creio que tenham mudado muito em menos de dois anos. Sem resistir a comparações, no mesmo período o leitor francês devora lá seus 7 livrinhos e um norte-americano consome uns 5 bons volumes. Honestamente, eu até gostaria de saber quantos livros os chineses, paquistaneses e jamaicanos leem por ano, em média, mas não consegui essas informações. Mas tudo bem, meu ponto é outro.

Ando me perguntando, afinal, o que nos torna bons leitores? Que experiências podem ser garantias de que uma criança será um devorador de livros ao longo da vida? Por "bom leitor", quero dizer alguém que se diverte com os livros, que gosta da companhia deles e que estuda sem sofrimento.

Eu poderia dizer que gosto dos livros desde que me conheço por gente, mas não seria verdade. Tenho lembranças de uma época em que via meu irmão devorar um volume atrás do outro enquanto eu mal conseguia passar da primeira página. Eu gostava do contato, de explorar os volumes, mas me entregar à leitura propriamente dita era outro papo. Não sei o que me fazia desistir, mas desconfio que era a boa e velha preguiça. O fato é que alguma coisa aconteceu, algum dia, que me fez seguir adiante e virar a primeira página, a segunda e seguir virando até hoje.

Se eu comparar os livros de minha infância com os que meus filhos "leem" hoje em dia (eles têm, atualmente, 2 e 4 anos de idade), penso ser inevitável que eles caiam de amores pela leitura. Muitos dos livros infantis disponíveis no mercado atualmente são absolutamente irresistíveis.

Não foi assim comigo. Acho que o primeiro livro que realmente me fisgou foi um de histórias, cujo nome não me recordo, com uma capa azul-sumido, onde um pato sem graça tentava convencer as crianças a se aventurarem naquelas páginas. Não sei o que vi de diferente naquele livro sem muitos apelos, com parcas gravuras em preto e branco, mas o li do começo ao fim, incluindo O Patinho Feio, que encerrava o volume.

Ou talvez, antes disso, eu tenha lido aquele do grilo que se escondia em um tronco de árvore para apavorar os outros bichos da floresta imitando um vozeirão de monstro... delícia! Esse sim, era lindo, cheio de gravuras que enriqueciam a história, mas, ainda assim, bem longe da abundância de estímulos que habitam os livros dos meus filhos - quando digo que era "lindo", quero dizer que era todinho roxo, com uma grande árvore, também roxa, repetida praticamente em todas as páginas, de onde um par de olhos esbugalhados espiava o leitor assustado. Um primor.

Mas tempos depois veio Lobato e aí ficou fácil, eu queria mergulhar no mundo do Sítio. Ainda assim, recordo que os volumes de nosso Obras Completas de Monteiro Lobato eram encadernados em capa dura azul escuro, sem nenhuma figurinha, e o texto era sempre dividido em duas colunas. Gravuras existiam, mas eram distribuídas em doses homeopáticas a cada dezena de páginas, pelo menos.


Arthur, com 4 meses, lendo seu primeiro livrinho.


Agora vejo meu filhote devorando seus livrinhos, "lendo" suas histórias e já contando para a pequena - que também "lê" com empolgação (ah, isso vocês precisam ver...) - e fico na torcida para que essa brincadeira siga pela vida afora. Eles - cujos livros bilíngues se abrem em castelos, apitam e brilham, revelam esconderijos e passagens secretas, trazem todos os personagens da TV e do cinema para a estante, e são lindos e coloridos como eu jamais poderia supor em minha infância - e que só vão para a cama depois de ouvir o papai contador de histórias, têm, e ainda nem sabem, o mundo inteiro ali entre os dedinhos, bem diante dos olhinhos curiosos. Tomara que eles o agarrem com vontade e não larguem nunca, nunca, e que 1,8 seja muito pouco para preencher cada um de seus muitos anos de imaginação faminta.

_________

No carro III - pequeno episódio em interlúdio:

- Mamãe e papai?
- Oi, filho.
- Quer ver como sei ler O Ursinho Apavorado todinho, sem o livro?
- Ah, é?! Queremos!!

E assim foi: "leu", ou melhor, recitou a história toda, com todas as entonações e barulhinhos devidos, sem o livro. Ah, os neurônios aos quatro anos....


Antes de dormir.
__________

E você, transeunte? Lembra do seu primeiro livro? Que livros marcaram sua infância?

Confira a previsão




Ouvindo o telejornal matinal enquanto nos arrumávamos para começar mais uma segunda-feira sem sol, eu e Ulisses nos divertimos com uma reportagem sobre um certo serviço de previsão do tempo localizado, se não me engano, em algum município do interior paulista. A reportagem falava algo sobre o telefone da tal agência tocar o dia inteiro, já que não são poucas as pessoas interessadas em saber como o céu pretende se comportar nas próximas horas - pelos mais variados motivos.

Alguns casos exibidos pelo noticiário incluíram uma mulher querendo saber que roupa usar para ir a um casamento, o dono de uma fábrica de sorvetes preocupado com sua produção diária e, finalmente, uma temerosa senhora ocupada em descobrir se precisaria desligar os aparelhos elétricos de sua casa antecipadamente, ela que muito teme os possíveis desvarios dos raios.

Oh, well, daí Ulisses e eu começamos prontamente a imaginar como seria fácil gerir um serviço dessa natureza aqui em Florianópolis... E nos pusemos a ensaiar alguns possíveis diálogos em nosso 0800-disque-eu-já-sabia:

- Bom dia, eu gostaria de saber a previsão do tempo para esta tarde.
- Pois não, senhor. Esta tarde trará chuva.
- Tem certeza? Mas está um dia tão bonito!
- Sim, senhor. Está bonito agora, mas não se engane. Vai chover.
- Não é possível... o céu está completamente azul...
- É... eu sei. Mas pode esperar.
- Sei não, viu? Vamos ver se vocês sabem o que estão dizendo.. obrigado.
- Disponha, senhor. Clic.

Mais tarde, no mesmo dia:

- Boa tarde, eu gostaria de saber quanto tempo essa chuvarada vai durar.
- Boa tarde, senhora. Vai durar 3 dias.
- De novo?
- Pois é...
- Obrigada.
- Por nada, senhora. Clic.

Três dias depois:

- Alô? Agora que parou de chover, quanto tempo vai ficar esse céu brancão, hein?
- Bom dia, garoto. O sol vai voltar a brilhar dentro de 5 dias.
- Pô, mas aí já vai ser segunda-feira!!!
- Sinto muito.
- Humpf! Clic.

E em nossas horas vagas:

- Oi, Rita! Sou eu, a Fulana. Tô indo te visitar!! Como está o tempo?
- Oi, querida! O clima tá ótimo, mas  você sabe, sempre vira quando os turistas chegam.
- Hum, que roupas levo, então?
- O de sempre, biquini e capa de chuva. O biquini é só para garantir, você sabe como o tempo é imprevisível...
- É, né? Tá bom. Bj!

- Tchau! Clic.
 

___________________

Antes o que a Secretaria de Turismo da prefeitura tente boicotar meu blog: é claro que estou exagerando. Mas tenho certeza de que alguns amigos queridíssimos vão se identificar muito com este post (oi, Anginha, Marcinha, Renato, tudo bem?). Mas também é verdade que um pouquinho só de sol já resolve tudo, viu gente? Floripa é linda e a gente sempre dá um jeito de entreter os amigos, nem que seja em torno da mesa da cozinha, com chocolate quente, ou numa praia nublada, com pastelzinho de camarão. ;-)


Tio passarinho




Quando Ulisses era criança, o Tio João era o maioral. Que criança não gostaria de ter um tio que adorava levar os sobrinhos para passear, presenteando os pequenos com picolés e brinquedos?  O Tio João o fazia não porque estivesse comprometido com uma tarde de babysitting pré-agendada; não, ia pelo prazer de estar na companhia das crianças.

Além de picolé e brinquedos, um passeio com o Tio João poderia incluir um inusitado banho de fonte, bem ali no meio da praça. Ulisses pode não lembrar de detalhes de sua última ida à praia em nosso último verão, mas nunca esqueceu dos banhos de chafariz liberados pelo Tio João. Meu marido guarda em um lugarzinho privilegiado de suas memórias de infância os passeios feitos na companhia do tio bonachão - e, de verdade, desconfio que as sementinhas plantadas nesses banhos de fonte e chupe-chupes devorados com alegria contribuíram para o adulto brincalhão que meus filhos têm a sorte de ter como pai.

E o Tio João podia ir mais longe. Uma das bonecas ganhadas por minha cunhada, irmã do Ulisses, veio como uma espécie de "calmante" para que ela relaxasse e encarasse um certo passeio a bordo de um teco-teco da vida. Com o Tio João era assim. Boneca era agradinho. Presente era banho de fonte e passeio de avião.

Essa semana, com 86 anos, Tio João partiu. Eu não o conheci, vejo apenas reflexos de sua presença no paizão que se tornou o meu marido. Mas se me perguntarem que palavra eu associo ao Tio João, respondo sem titubear "queridíssimo".

D. Tereza, sogra querida, eu entendo suas lágrimas de saudade e sua dor de boa irmã. Mas tente pensar que passarinho adora voar e que talvez o corpo cansado de Tio João o tivesse impedindo de bater as asas como gostaria. Agarre-se às boas lembranças, aquiete seu coração e saiba que hoje estamos juntos em pensamento e coração. Receba nosso abraço cheio de carinho e não se esqueça que estamos esperando sua chegada, que sempre alegra tanto nosso lar.

Beijo grande,
Ulisses, Rita, Arthur e Amanda.

Blog Action Day




Eu vivo chegando atrasada. Não é falta de respeito por quem me espera ou descaso com meu trabalho. Mas tem sido um fato mais corriqueiro do que eu gostaria. I am truly sorry.

E agora cheguei atrasada de novo. Dia 15 de outubro foi Blog Action Day. Mas eu só fiquei sabendo hoje. De qualquer maneira, a causa que motivou a mobilização é uma causa diária e que já foi assunto aqui no Estrada em pegadas mais antigas - nesse post sobre fraldas descartáveis, e também nesse sobre sacolas biodegradáveis, ou ainda nesse outro sobre o trabalho da Annie Leonard. E como antes tarde do que nunca é um bom lema, aqui estou.

Segundo li no blog Faça sua parte, o Blog Action Day foi uma espécie de chamada mundial para tomarmos parte em um abaixo-assinado endereçado ao governo estadunidense. O manifesto cobra medidas efetivas que levem à diminuição da emissão de gases causadores do efeito estufa, entre outas ações voltadas à recuperação da saúde do nosso planeta. Ou seja, é uma pressionada básica no Obama.

E como nunca é demais repetir, é claro que também podemos contribuir para melhorar o clima da Terra com ações diárias que economizem energia, reduzam a emissão de poluentes e diminuam o consumo de água, por exemplo. Independente do país onde moremos.

Eu sei que às vezes é difícil manter o otimismo, mas eu continuo na torcida para que, lá por 2030, eu não precise mudar o nome do blog para A Estrada Cinza, ou coisa que o valha.

Para assinar a carta-manifesto aos Estados Unidos, clique aqui. E vamos torcer por um outro Blog Action Day com cartinha para o governo chinês também...

No carro - Episódio II

(Alerta: momento coruja!  Melhor visualizado por quem tem filhos.)





Eu: Nossa, tá tudo parado!

Odisseus: É. Tá bem engarrafado mesmo.

Pequeno (4 anos): Papai e mamãe?

Nós: Oi, filho.

P: Eu sei o que é engarrafamento.

Eu: É? E o que é?

P: Trânsito!

Nós: Isso mesmo! É quando o trânsito tá bem pesado.

P: É. Igual a uma fila de garrafas.

(...)

P: Olha, nessa pista os carros vão pra lá. E naquela eles vêm pro outro lado.

Eu: É, assim mesmo.

P: Eu sei por que tem essa coisa no meio das pistas.

Eu: É? Para separar as pistas, não é?

P: Não, mãe! É para os carros não se misturarem, senão ninguém ia saber que carro tava indo e que carro tava vindo!

(Eu avisei)

Herbert longe




Assim que li o post do Bruno Medina sobre Herbert de Perto, fiquei toda ouriçada. Fui logo tratando de escalar o marido para uma ida ao cinema assim que o filme entrasse em cartaz em nossa cidade. Três ou quatro dias depois, voilá, vi o anúncio na TV - "nos cinemas, em 09 de outubro". O próximo e indipensável passo também foi dado, escalei a babá.

Chegado o dia esperado, consultei o guia da cidade para conferir o horário da sessão. E aí vi que não havia sessão: o anúncio da TV veiculado na minha cidade não se referia à programação dos cinemas da minha cidade, entenderam?

Oh, well, a babá já estava escalada, eu já estava mental e espiritualmente programada para ir ao cinema... paciência. Fomos, então.

Sem poder ver o que eu queria, qualquer filme serviria. Então usamos o critério do melhor horário e optamos por uma comédia sem causa qualquer, algo para preencher o espaço entre as compras e um jantarzinho para namorar. Assistimos A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth), uma combinação de clichês machistas com romances inviáveis, mas temperada com alguns momentos hilários que nos renderam boas risadas. Não recomendo nem abomino, mas quem assistir certamente vai relembrar a clássica cena de Meg Ryan no restaurante, em Harry e Sally - Feitos Um para o Outro (When Harry Met Sally...).

A próxima cena de restaurante, bem mais discreta, ficou por nossa conta. Devoramos nosso jantarzinho protegidos pelo teto do lugar que nos abrigou de mais uma tempestade com trovoadas de fazer tremer o chão.

Agora estou aqui, sem saber se o filme do Herbert sequer vai passar em algum cinema local. Ó, céus, drama. Pre-ci-so ver esse filme. Eu até quero falar aqui da "minha relação com o Herbert Viana" - hehe - mas vou esperar até ter visto o filme, porque tenho certeza de que a inspiração virá em forma de lembranças e melodias de aquecer o coração.

Caso o filme nem entre em cartaz por essas bandas, resta o consolo de que, por ser produção nacional, certamente não tardará a chegar às locadoras. Tomara.


"Eu estou te esperando
Vê se não vai demoraaaaar"

Do cabelo do milho ao biscoito queimado


Todos esses papos em torno das panelas me levaram a pensar sobre minha relação com a cozinha. Nesses últimos dois dias, algumas lembranças da minha infância têm me visitado com acentuada nitidez e todas têm a ver com o preparo de comidas.




Eu nunca aprendi a cozinhar (tudo bem, sem rancores). Aprendi a ler e a dirigir, já tá bom. Não havia em minha casa uma cultura culinária muito forte, todos tinham outras prioridades e hobbies e sempre tivemos uma cozinheira que nos servia o bom feijão de cada dia. Minhas incursões ao fogão eram limitadas aos finais de semana, quando, aí sim, minha mãe coordenava os trabalhos da cozinheira e, munida das boas intenções de uma educadora que se preza, "convidava-me" a colaborar. Eu sempre ia de mal grado porque daria qualquer coisa para permanecer no refúgio do meu quarto, mas escolher não era algo que me era facultado. Então rumava para a cozinha como quem ruma para o castigo e seguia as instruções. Normalmente, seguir as instruções significava debulhar feijão, cortar bifes e preparar sucos. Nenhuma antipatia para com os bifes e sucos, mas debulhar feijão era o diabo.

Todos os sábados, meu pai trazia da feira livre generosos molhos de feijão de corda (o bom e velho feijão verde), comum em algumas regiões do interior do Nordeste brasileiro. O prato era parceiro certo da deliciosa galinha caipira dos domingos, sempre acompanhado pelo irresistível arroz de festa ("arroz de graxa", como chamávamos - desfaçam as caretas, é uma delícia!) e tudo era preparado na véspera para que ninguém precisasse olhar para a cozinha aos domingos. E era o primeiro passo do preparo do feijão que acabava com minhas manhãs de sábado: debulhar, ou seja, retirar os grãos, um a um, das vagens esguias e verdinhas. Ó deus... em primeiro lugar, eu morria de medo e nojo das eventuais lagartinhas verdes que se espichavam e se torciam cada vez que eu cravava a unha na extremidade da vagem... em segundo lugar, depois do primeiro molho, minhas unhas doíam e eu iniciava uma interminável contagem regressiva que tornava a tarefa ainda mais penosa. E, finalmente, eu tinha de fazer aquilo todos os sábados. A morte, propriamente.

Eu não sei o que levava minha mãe a reservar as tarefas mais enfadonhas para mim. Suspeito que ela estava apenas sendo prática, delegando-me funções que sabia que eu poderia desempenhar sem grande dificuldade. Do ponto de vista dela, claro. Porque, do meu ponto de vista, eu ficava encarregada do que havia de pior dentre todas as tarefas domésticas. O mesmo se dava nos meses de junho e julho, quando quase todos os sábados giravam em torno do preparo das delícias de milho típicas das festas de São João. Eu adorava o rebuliço todo. Fazer comida de milho já era uma festa em si e no fim do dia ainda nos esbaldávamos na deliciosa canjica amarelinha, temperada com canela em pó... O paraíso. Mas o paraíso depois de pronta a canjica, na hora do jantar. Porque as minhas manhãs desses sábados inesquecíveis eram dedicadas a retirar o cabelo das espigas de milho. A morte, propriamente.


A foto não é minha (está aqui), mas poderia ser, não fosse o detalhe da fitinha que amarra a pamonha: minha mãe sempre amarrava as dela com fitilhos feitos da própria palha do milho.

Vocês já retiraram cabelo de uma espiga de milho? Sabem que a base dos longos fios do cabelo do milho ficam encravadas entre os grãos hermeticamente unidos e que é im-pos-sí-vel retirá-los de uma só vez porque eles sem-pre se quebram? Sabiam vocês, queridos leitores, que eu ficava horas sentada em um banquinho, cabisbaixa, com uma faquinha cega (para minha segurança) na mão, abrindo caminho entre os grãos miúdos em busca do cabelo perdido, tentando entender porque tinha que viver aquela sina tão ingrata? Não, não denunciem minha família ao conselho tutelar; era, sim, um trabalhao tecnicamente leve, equiparado a secar a louça ou arrumar a cama. Mas eu detestava com todas as forças de cada célula do meu ser emburrado.

O ritual de preparo da canjica e das pamonhas tomava o dia inteiro e, geralmente, quando a noite anunciava a proximidade da comilança, vocês poderiam me encontrar sentada em um outro banquinho, bem alto, próxima ao fogão, fazendo a segunda pior tarefa do preparo da canjica: mexendo o tacho. Volto a perguntar a vocês, queridos leitores: vocês sabem quanto tempo é necessário para cozinhar um enorme tacho com canjica preparada a partir de cerca de 100 (cem!) espigas de milho cabeludas? Duas horas. Eu mexia o tacho de canjica por duas horas. Tá bom, existia um revezamento, mas eu nunca escapava dele. E eu não queria mexer a canjica. Eu de-tes-ta-va mexer a canjica. Era chato, enfadonho, cansativo, calorento e meu braço pesava uma tonelada. E uma canjica, queridos leitores, nunca fica pronta. Duas horas é um tempo longo demais, não passa nunca. Experimentem. Coloquem qualquer coisa no fogo que precise de duas horas de mexidas ininterrruptas (piscou, grudou!)  e vocês vão ver que não minto. O tempo não passa. A morte, propriamente.

Então eu cresci detestando cozinhar.

Mas, felizmente, nessa vida tudo se supera e vim a me casar com um amante do bom fogão, alguém que me mostrou como pode ser prazeroso passar horas na cozinha. Hoje em dia me aventuro no mundo das receitas, vocês bem sabem. O preço de ter me mantido afastada tanto tempo do fogão é que careço de intuições culinárias e sou totalmente dependente das boas receitas. Mas já perdi a aversão ao forno, o que é algo gigantesco e praticamente inimaginável no tempo das vagens de feijão verde. Acho natural que eu mais erre do que acerte e que para cada bolo fofo eu colecione várias fornadas de biscoitos queimados. Ah, mas tomei gosto, não pretendo desistir.

Meu filho adora ajudar na cozinha. Por via das dúvidas, reservo para ele as tarefas mais gostosas, como despejar os ingredientes na tigela ou pincelar as forminhas de muffins. Ele adora e faz com o maior sorrisão.
__________________________

Mãe, não se preocupe. O papo aqui é o cabelo do milho, mas eu lembro sim que você me deixava desenhar carinhas de canela nos pratos de canjica. Eu adorava aquilo e imediatamente esquecia as espigas cabeludas. Obrigada. E não se culpe pelo debulhar do feijão; tê-la em casa aos sábados era o que mais importava. Te amo muito e estou morta de saudades.

Déjà vu



Uma das primeiras resoluções internas que fiz quando me descobri grávida de uma menina foi: aconteça o que acontecer, jamais darei panelas para ela. Falo das panelas de brinquedo, obviamente, e de seus inevitáveis anexos: o fogãozinho, a geladeirazinha, a batedeirazinha, a minicozinha completa, nada, enfim, que remetesse ao "brincar de casinha".

Durante minha infância, vigorou na minha casa uma espécie de regra silenciosa em relação ao que era brincadeira de menino e o que convinha às meninas, e essa regra me incomodava imensamente. Os Natais e aniversários passavam e a coleção de jogos interessantíssimos de meu irmão só aumentava, enquanto que em igual proporção crescia minha coleção de bonecas. Minhas bonecas também se davam muito bem, já que, além das próprias, eu ganhava com frequência joguinhos de panelas e afins para bonecas. O fato de ganhar bonecas e seus acessórios em si, obviamente, não me incomodava. Incomodava o não ganhar os tais jogos interessantes.

Eu brinquei com todos eles, é verdade: banco imobiliário, caça à moeda, damas, ludo e outras febres dos deliciosos anos 80. Mas durante algum tempo cheguei a me sentir muito sortuda por ter um irmão em casa, já que parecia que só assim teria acesso às tais maravilhas. E, claro, tudo tinha um preço. Então brinquei, sim, mas sempre às custas de muitos "empresta, por favor", "deixa, vai" e "tá, eu não conto". Porque os jogos simplesmente não eram meus. Então não adiantava muito o tal "é para os dois brincarem juntos" que minha mãe recitava porque, na real, o poder de decisão parecia sempre caber ao todo-poderoso dono do jogo. Logo, uma vez grávida de menina, fui tratando de estabelecer que não seria assim com minha filha.

É claro que não chegou a passar pela minha cabeça proibi-la de brincar de casinha. Sempre soube que ela ganharia os inevitáveis kits de cozinha hora ou outra, já que nem toda tia ou amiga pensa como eu. Mas eu não, eu seria a fornecedora do War e do Imagem & Ação.

Pois bem. Minha filhota está com dois anos e nenhuma panela. Nenhuma. Ela adora brincar de cozinhar para o urso de pelúcia dela, o Urso Filhinho. Gosta muito, mas ela não tem panela. Então improvisa e anda pela sala com um espécie de prato verde que eu não sei onde arrumou, usando como colher uma pá amarela daquelas de cavar na areia da praia. Não dá muito certo, porque a pá é imensamente maior que a boca do urso, mas ela se vira. Eu? Finjo que é assim mesmo, tá bom, tá bom.

Então ontem fui à loja comprar os presentes do Dia da Criança. E eu juro que tentei. Procurei muito, em todas as seções, mas não vi na loja inteira nada que me deixasse tão certa de que seu rostinho se abriria em um imenso sorriso nervosinho de alegria ao abrir o presente; eu até tentei negar, mas soube assim que vi que nenhum outro brinquedo seria tão bem recebido por ela na fase em que está agora. Então guardei no bolso meus traumas de menina-sem-jogos e comprei. Comprei um lindo kit de panelinha e fogão que vai combinar muitíssimo com o faqueiro prateado que tem até escumadeira! E tenho certeza de que Urso Filhinho também vai curtir muito o joguinho de chá que vem com chaleirinha e lindas minixícaras fofas...





Meu marido está a dar risadas - ele que acha que o não dar panelas tem mais a ver com uma suposta veia feminista e que esse papo de trauma da infância é para inglês ver. Ah, mas hoje não vamos falar sobre isso porque hoje é dia de brincar. Nem que seja de casinha. Podem sentar que o chá vai ser servido.

_____________




Para o nosso paleontólogo favorito foi mais fácil, nada mais natural do que um super tricerátops que, se quiser, pode tomar chá com Urso Filhinho. Ah, é verdade, ele também ganhou um joguinho bem legal. É dele, mas é para os dois brincarem juntos. ;-)

Sunny, bright and blue

Uma única manhã de sol em Floripa pode fazer uma longa sequência de dias escondidos por nuvens e neblinas parecer algo distante, quase um mito. Nós curtimos a nossa manhã premiada com dedicação exemplar e, desta vez, mostro aqui o real cenário de nossas pedaladas.

É bem verdade que nem todos passaram a manhã passeando por aí; alguns trabalharam arduamente para manter essa beleza toda, como vocês podem ver aí na flor.
Obrigada, D. Abelhuda.

Continue vivo




Se para nascermos faz-se necessária combinação precisa de fatores tão aparentemente aleatórios, como descreve Bill Bryson em Uma Breve História de Quase Tudo (já falei desse livro aqui), então somos todos preciosidades insubstituíveis, ao mesmo tempo em que resultamos de golpes de sorte impressionantes. Bryson diz:

"Além da sorte de ater-se, desde tempos imemoriais, a uma linha evolucionária privilegiada, você foi extremamente - ou melhor, milagrosamente - afortunado em sua ancestralidade pessoal. Considere o fato de que (...) cada um dos seus ancestrais por parte de pai e mãe foi suficientemente atraente para encontrar um parceiro, suficientemente saudável para se reproduzir e suficientemente abençoado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para isso. Nenhum de seus ancestrais foi esmagado, devorado, morto de fome, encalhado, aprisionado, ferido ou desviado de qualquer outra maneira da missão de fornecer uma carga minúscula de material genético ao parceiro certo, no momento certo, a fim de perpetuar a única sequência possível de combinações hereditárias capaz de resultar - enfim, espantosamente e por um breve tempo - em você".

Lendo o texto de Bryson é inevitável me sentir o último biscoito do pacotinho. Eu nasci, caramba, olha só.

Mas as coisas, claro, não são simples e nascer pode ser um façanha, mas não é o bastante. Podem haver tantos sentidos para a vida quanto há pessoas; podemos mesmo multiplicar isso ad infinitum, já que não raro alteramos e alteramos o entendimento que temos acerca de nossa passagem ao longo da vida. E, claro, como em qualquer outro assunto, unanimidade aqui é um conceito quase absurdo, mas vou abstrair um pouco e brincar de "é preciso".

Não importa que sentido você veja em sua vida, é preciso ser generoso, por exemplo. Os meios podem ser os mais diversos, podemos ensinar, orientar, repassar, doar, convidar, amar. Mas é preciso dividir.

É preciso receber também. Podemos ler, ouvir, aceitar, prestar atenção, tentar entender. O contrário seria estagnação, uma espécie de não-vida. É preciso abrir as portas.

Aí um dia todos morremos e o preciosismo descrito por Bryson aparentemente se esvai em vazios e ausências. E se pudéssemos mais? Se pudéssemos prolongar a magia que resultou em mim e em você, em cada um de nós? Se pudéssemos perpetuar nossa generosidade para além de nossa caminhada por aqui e estender ao outro um pouco de todo o poder que nos constitui? Muitos o fazem, é claro, deixando legados que justificam cada batida do coração que se calou. Muito outros simplesmente permanecem porque foram amados.

Mas falo de mais, falo de continuar vivo, ainda que nada tenhamos criado que seja evidentemente grandioso; falo da doação de órgãos. Doar órgãos pode fazer valer de forma incontestável a grande sorte de sermos os premiados com o nascimento, não importa que passos tenhamos dado por aí. Nós podemos prolongar o milagre. 

_____________

Informe-se sobre transplante de órgãos aqui ou aqui. O dia nacional da campanha pela doação de órgãos e tecidos já passou. Mas não importa. Pensemos nisso e sigamos em frente.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }