A dois


Em uma madrugada insone, você pode: ler um livro, ver um filme, discutir a relação, assaltar a geladeira ou, deus nos livre, curtir uma dor de cabeça. E pode também fazer um empadão de frango, olha que idéia boa.

É quase imperdoável que eu nunca tenha tentado fazer um dos pratos favoritos do meu digníssimo marido, que pessoa cruel eu sou. Mas os boatos em torno do tal ponto da massa podre bastavam para me desanimar. E, além disso, temperar carnes ainda tem para mim aura de mistério sobrenatural, algo para iniciados - não é pro meu bico. Maaas eis que Odisseus cansou de esperar e resolveu ele mesmo enfrentar o fogão. O mínimo que eu podia fazer era ficar acordada também, arregaçar as mangas e pegar junto.

O plano era começar a muvuca tão logo as pálpebras dos pequenos permitissem. Mas aí ainda tinha lixo para jogar fora, cachorro para alimentar, blog para atualizar, essas coisas. Assim, as dez badaladas já tinham soado quando, finalmente, rumamos para a cozinha. Selecionamos algumas das muitas receitas disponíveis na rede, acrescentamos algumas dicas sugeridas por amigos e jogamos os dados.

O que mais gostei foi de ver meu respectivo pôr em prática seus dotes de bruxo, mandando para o caldeirão suas ervas e temperos que renderam um recheio delicioso - ele, modesto, nega: ficou bom, mas normal. Mas quem manda aqui sou eu: ficou óóóótimo. Gostei também da hora do abraço: a massa podre (que bem poderira ter outro nome, vamos combinar) se abre para receber o recheio e então o cobre, como se quisesse protegê-lo do frio da geladeira, do calor do forno, de nossos olhos gulosos e pidões, de garfos ladrões. E como não pretendíamos dormir estufados de carne de frango ou tampouco experimentar nosso primeiro empadão sem a companhia de nossos pequenos, guardamos resignados a iguaria na geladeira, saciamos a fome com fatias de bolo de leite condensado quentinho (esse aqui)  e fomos dormir, à uma da manhã.

No dia seguinte, trabalhei impaciente, sonhando com o jantar em família, bem barulhento, com a pequena escalando a mesa, o pequeno clamando por atenção, todos falando ao mesmo tempo, o Roque latindo lá fora e, claro, a chuva caindo no telhado (já falei quem em Floripa chove para sempre?). 

Errei quase todas as previsões porque o pequeno já tinha jantado na escola ("comi tudinho, sem nenhuma baguncinha" - muito bem), a pequena não quis nada com a cozinha, o Roque ficou quieto e a chuva deu uma trégua (impressionante!). Mas acertei no resto:  Nham! Chomp, chomp, chomp! Huuuummmmm.... Quero mais!

Recomendo, obviamente. Não só o empadão, mas o ritual inteiro. Cozinhar a dois é tudo de bom e, enquanto a massa descansa, vocês sempre podem fazer um bolo, um pudim ou discutir a relação (bolo, bolo! façam bolo!).


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Acredito haver tantas receitas de empadão de frango quantos empadões já tiverem sido feitos mundo afora. Segue a nossa. Vamos chamá-la de Empadão Corujão. Divirtam-se.

Ingredientes

Para a massa podre

400 gramas de farinha de trigo
1 ovo inteiro + 1 gema
200 gramas de manteiga gelada

1 colher (sopa) de creme de leite
2 colheres (sopa) de leite
1/2 colher (chá) de sal

Para o recheio

1 kg de filé de peito de frango (usamos um pouco menos)
alho e sal para temperar o frango
1/2 cebola picada (ou ralada)

1 1/2 tablete de caldo de galinha
1 tomate, sem pele e sem sementes, picado
2 dentes de alho picados
2 colheres de extrato de tomate
1 pitada de páprica

1 pitada de sálvia
tempero verde a gosto
2 colheres de requeijão
2 colheres de sopa de maizena (dissolvida em um dedinho de leite)


 



Quatro mãos à obra

Primeiro cônjuge:

Coloque a farinha de trigo em um recipiente grande e raso de plástico e acrescente o sal e a manteiga cortada em pequenos cubos. Misture bem com as mãos até que toda a manteiga esteja completamente incorporada à farinha, formando uma massa uniforme. Não sove, dizem os entendidos. À parte, misture levemente o ovo inteiro, a gema, o leite e o creme de leite e despeje a mistura sobre a massa. Misture tudo, ainda com as mãos. Trabalhe a massa até que ela solte de suas mãos sem dificuldade. Eu acrescentei um pouco mais de farinha nessa hora porque a minha ainda estava bem grudenta. Cubra com um pano de prato e deixe descansar na geladeira por cerca de 30 minutos. (Faça um bolo agora, se quiser. Não se esqueça de elogiar o recheio que seu parceiro ou parceira está preparando.)

Enquanto isso, segundo cônjuge:

Tempere o frango com alho, sal, páprica e sálvia. Coloque-o em uma panela com água suficiente para cobri-lo, acrescente um tablete de caldo de galinha e cozinhe em fogo baixo por cerca de 15 minutos (contados a partir da fervura). Após cozido, retire uma xícara da água do cozimento e reserve.


Desfie o frango (peça ajuda ao outro cônjuge).

Prepare o molho para o recheio: doure o alho no azeite; acrescente a cebola e refogue; acrescente o tomate, o peito de frango desfiado, o extrato de tomate, a água do cozimento do frango, o requeijão, 1/2 tablete de caldo de galinha, sal a gosto e, finalmente, tempero verde. No final do cozimento (após cerca de dez minutos), acrescente a maizena para conferir uma textura mais cremosa ao molho. Deixe esfriar antes de rechear. Eu sei, eu sei, onde estão as azeitonas? Não gosto delas, sorry... E meu amor esqueceu de comprá-las (ufa!).



Primeiro cônjuge, você novamente:

Abra dois terços da massa sobre uma superfície enfarinhada até que ela atinja tamanho suficiente para forrar o fundo e a lateral da forma (eu usei um rolo de massas, obviamente, jamais abriria a massa com uma garrafa de vinho... a-han...). Forre a forma e distribua o recheio sobre a massa.  





Abra o restante da massa e cubra o empadão, unindo as bordas. Pincele com um gema de ovo e leve ao forno (180C) por cerca de 35 minutos ou até que o empadão esteja dourado. Chamem o restante da família e bom apetite.




Ressalva: optamos por uma forma de aro removível, mas considerem a possibilidade de vazamentos. Em nosso caso, um pinga-pinga dentro do forno (não sabemos se algo da massa ou do recheio) gerou uma indesejável fumaça. Usaremos forma refratária na próxima vez. E, além do mais, a de aro não fica muito bem na foto.

No carro




Ulisses: Bla bla bla bla

Eu: Ble ble ble

Filhote (4 anos): Mãe!

E: Pera, filho. Ble ble ble ble

U: Bla?

E: Ble! Ble ble ble ble, ble?

F: Mãee!

E: Só um pouquinho, filho. Bli bli bli. Patati patata.

U: Hum... Bla.

F: Mãããe!

E: Oooi, filho, fala, o que é?

F: Olha, eu li sozinho: escrito "pula" aqui na tampa da caixinha do pula-pula. P-U PU, L-A LA! PULA, mãe!! Eu li sozinho!!

U & E: ... !!! ... Filho!!! Você leu mesmo!!! Sozinho... óóóóó... parabéns, meu amor!!!

E no banco de trás um par de olhinhos radiantes iluminava o sorriso mais aberto da semana. Puro encantamento. É muito bom quando o melhor momento do dia chega já cedinho, no início da manhã.
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(E aquele bla bla bla todo ficou por ali mesmo. A conversa não tinha a menor importância.)

Tá na mesa


Quando meu filho mais velho largou as mamadeiras e iniciou suas aventuras gastronômicas mais elaboradas foi uma festa. Delícia ver feijões e carninhas, legumes e massinhas devorados com igual prazer. Não nego que algumas manobras eram necessárias: a salada com tomates permanecia estrategicamente escondida na geladeira até que metade do prato principal tivesse seguido seu destino, sob pena de todos os tomates serem devorados no primeiro minuto da refeição. Ele não tinha dois anos ainda, mas eu não precisava esconder os biscoitos. Escondia os tomates. Os elogios na agenda da escola abundam desde essa época e seguem ainda hoje: "adorou agrião!", "comeu todas as folhas da sopa", "pediu mais brócolis!". E a gente sempre comenta: a gente sabe, em casa é assim também.

Inflada de orgulho com meu pequeno comilão adepto do melhor estilo dieta-saúde, dividia satisfeita seus feitos com outras mamães. A resposta quase unânime vinha instantânea: "espera só até ele completar dois anos! Tudo muda aos dois anos!" Mas não mudou, não com ele. Sim, de tempos em tempos enfrentamos alguns percalços à mesa, mas geralmente motivados por comportamento rebelde típico dos adolescentes (sabe como são esses adolescentes de três/quatro anos), ou por períodos em que a rotina é radicalmente quebrada, como quando viajamos de férias, do que propriamente por preferências birrentas. Felizmente, o humor sempre volta e é uma questão de (pouco) tempo para que nosso Peter Pan volte a devorar suas refeições com apetite renovado. Guardo para futuras comprovações uma foto que registra o momento em que um talinho de rúcula foi saboreado como se fosse um sorvete de creme. E eu sempre penso "que dois anos, o quê. Esse é bom de garfo!".
 



Aí veio Cachinhos Dourados. Oh, well. Como definir Cachinhos à época do leite materno: glutona? gulosa? exagerada? As mamadas de 300 ml me enchiam de espanto e as dobrinhas irresistíveis foram devidamente apertadas, beliscadas, admiradas e até exaltadas. Findas as mamadas, vieram os pratos ainda maiores que os do irmão. E repetidos. Pronto, um problema a menos, meus filhos comem bem. Aí Cachinhos Dourados se aproximou dos dois anos. E agora entendo do que falavam aquelas mães. Tudo mudou.

Cata a cenoura, não gosta de peixe, manga não pode, leite nem pensar, não quero comer, quero suco, quero gute (iogurte), sai pra lá carninha, mastiga-mastiga-cospe... suspiros...

A guerra está declarada e suponho que ela não faz idéia do que a espera. Porque estamos dispostos a enfrentar a batalha com mãos de ferro e uns pares de tampões de ouvido porque a choradeira não é pouca. Mas a regra é: come o que tem. Na hora certa. Não quer? Come na hora da próxima refeição, o mesmo prato.
 

Quero isso de volta.

Não pretendo me entregar à culpa que ronda cada fracasso, porque não é fácil. Existe algum mecanismo esquisito nos corações dos pais que só funciona bem quando o filho come e às vezes não é assim tão simples dar de ombros diante de um prato de boa comida rejeitado. Mas estamos acumulando algumas vitórias. Nos momentos mais difíceis, resgatamos as lembranças da primeira amigdalite do irmão que o castigou por 6 dias com um forçado jejum quase absoluto. Não houve anemia ou qualquer sequela. Ela, logo, ficará bem se perder três ou quatro refeições seguidas. Mas não amenizaremos sua fome com iogurtes ou biscoitos.

Eu, mamãe de sorte, conto com o apoio e o comando do papai que tem sido mais firme que eu. Porque eu até já admiti a possibilidade de ela simplesmente não gostar de peixe, por que não? Mas para o papai não existe isso de criança de dois anos não gostar de peixe. Então, tá. Aprovado.

Desejem-nos sorte, a batalha parece longa. Escondam os biscoitos.

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Atualização1:  
Quem disse certa vez que os filhos vêm ao mundo para contrariar e contradizer os pais deve ter lá suas razões. Este post foi escrito no último domingo e dormiu o sono dos "amanhã eu publico" até hoje, segunda-feira. Pois bem, o almoço desta segunda-feira foi marcado pela comilança desenfreada da minha menina que, não contente em devorar seu prato, comeu metade do meu, sentada em meu colo e catando todo o feijão que eu tentava, mas não conseguia, levar à minha boca. Eu não poderia deixar de fazer este registro, fazendo justiça à minha pequenina-hoje-come-amanhã-não-come.
 
Aguardemos os próximos capítulos.
 
Atualização2:
Aos amigos queridos que nos contactaram para saber se estávamos bem (em função dos temporais que insistem em lavar e enxaguar Santa Catarina), muito obrigada pelo carinho. Estamos bem, seguros e enxutos.
 

Bla bla bla bla bla!

 

 
Sabe o speaker's corner, em Londres?  Aquele cantinho, numa esquina do Hyde Park, um dos maiores parques da cidade, onde qualquer um pode ser o orador da vez? Você sabe, é só chegar, subir em um banquinho, soltar o verbo e logo se forma um grupinho para ouvir o falante porque sempre há ouvidos para tudo. Pode-se falar sobre qualquer coisa, protestar, elogiar, solicitar, implorar, narrar, declamar, mentir, confessar.
 
Pois bem, este post é o seu speaker's corner. A idéia é a seguinte: eu preciso testar um outro formato de formulário de comentários deste blog, porque o que tenho usado até agora não tem funcionado a contento. Então convido você que passou por aqui agora a abrir o formulário aí embaixo e usá-lo como seu speaker's corner: vai que não dá tempo de ir a Londres neste fim de semana, vai de Estrada Anil mesmo (mas até você, Mila, que tem o speaker's corner praticamente na esquina de casa, pode, viu?). Use a imaginação e faça de conta que você está diante do Hyde Park (a florzinha é para inspiração).
 
Conte-nos: o que gostaria de falar? Você pode declamar um poema, dizer que o que tem feito de bom esses dias, contar o que anda lendo, falar de seus sonhos, contar o capítulo da novela, defender uma causa, divulgar sua arte, divulgar um outro blog, declarar seu amor pela sogra, dividir conosco suas idéias para mudar o mundo, mandar recados, passar à frente aquela receitinha maravilhosa, colocar seu carro à venda, qualquer coisa. Só não pode xingar, falar mal, difundir preconceitos ou ódios, essas coisas de mau gosto. O resto pode. (Ah, pode aproveitar para dizer se prefere o novo ou o antigo formulário de comentários. Thanks.)
 
Com a palavra, os traseuntes: 
 


(Tá ligado, pó falar)

Blogs, bolos e biscoitos




Antes que a melancolia se instale de forma irreversível neste blog, vamos falar de comida.

Ontem foi noite de experimentos na minha cozinha. Além de uma receita inédita aqui em casa, tentei pela trilionésima vez acertar os biscoitos da Ana. (Veja o relato da minha primeira e desastrosa tentativa aqui). Antes, porém, tratei de experimentar uma receita de um outro blog que descobri via blog da Ana e do qual virei fã à primeira visita, o technicolor kitchen. O blog tem fotos maravilhosas que enchem os olhos e deixam a gente com vontade de encher a barriga também. Escolhi o bolo de leite condensado, porque vocês sabem  como me sinto em relação ao leite condensado.

As receitas estão lá nos blogs respectivos, então não preciso reproduzi-las aqui.

O bolo de leite condensado tem preparo rápido e fácil, assa em torno de 35 minutos e fica bem gostoso. 99% dos bolos que faço aqui em casa são de chocolate, com cobertura de chocolate, raspas de chocolate para decorar e, se bobear, um capuccino para acompanhar (ui!). É, eu sou assim mesmo, essa pessoa sem muita imaginação, fazer o quê. Então o recém-chegado bolo de leite condensado veio como uma boa alternativa, menos calórica e de sabor mais leve. Recomendo.






Os biscoitos de castanha (usei castanha dessa vez, no lugar das nozes) ficaram saborosos, mas um pouco mais duros do que eu esperava. Nada que vá quebrar o dente ou engasgar o gato, mas, levando-se em conta o relato da Ana em seu blog, ainda devo estar fazendo algo errado. Ah, mas dessa vez eles ficaram lindos, vai. E bem gostosos também.



Vamos em frente, um dia eu acerto, sou jovem ainda.

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p.s. O post da Ana é bilíngue. Se você quiser a receita em português, siga lendo até a segunda metade do post.

Boneca de pano é gente


A Emília de Dirce (Foto aqui)

Durante alguns anos de minha infância, voltei correndo da escola para casa todas as tardes. Descia apressada as escadarias da velha Escola Paroquial, cruzava a pracinha indiferente ao tentador pega-pega, e corria em disparada pela comprida Rua Manoel Rodrigues. Com o cabelo cada vez mais arrepiado e a mochila surrando impiedosamente minhas costas magricelas, passava pela barraquinha que vendia doces e maçãs pensando “depois”, atravessava em segundos o largo da igreja – ainda bem que era o da igreja, certamente havia anjos por ali para me proteger dos carros que eu nem via – e finalmente chegava em casa, esbaforida e feliz. Era hora de assistir ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. 
Pronto, o ciclo do meu dia se fechava ali. Diante da ainda gorda televisão, eu me transportava para aquele universo maravilhoso e me envolvia nas aventuras que moldavam os rumos da minha imaginação de menina. Sim, porque eu não sei se vocês sabem, mas a Emília era eu. Não se tratava de simplesmente gostar dela, de ser fã da boneca mais convencida do planeta. Isso era muito pouco. Quando eu assistia aos episódios da primeira versão do Sítio, eu era ela. Assim, toda vez que o tchu-ru-tchu-tchu de Gilberto Gil anunciava o fim do episódio, eu continuava a aventura da vez, andando empinada pela casa, chamando com voz esganiçada minha mãe de Dona Benta, meu irmão de Pedrinho, minha boneca de Narizinho, e de Viscooooooooooonde cada um dos meus amigos imaginários. O “espetáculo” teatral caseiro não raro se estendia até a hora de dormir, mas eu ainda levava para a cama as “lembranças” do dia e, às vezes, adormecia planejando a grande aventura do dia seguinte.
E aí quando minha mãe nos presenteou com a Obra Completa Infantil de Monteiro Lobato, fiquei um pouco decepcionada com as gravuras que exibiam uma Emília pequena, do tamanho de uma... boneca, com uma boca que parecia humana, normal. Porque a Emília que eu era tinha tamanho de gente e a boca sempre em bico, como a Emília da televisão. E eu lembro que quando o elenco do Sítio sofreu algumas mudanças e a Emília passou a ser representada por uma outra atriz, precisei de um tempinho para me acostumar com a novidade. Mas continuei, em minhas brincadeiras pela casa, imitando aquela primeira que, para mim, era a “original”.

Eu, imitando a Dirce.


Aquela primeira Emília que, de fato, eu nunca esqueci, era representada pela atriz Dirce Migliaccio. Dirce morreu ontem, aos 76 anos de idade, no Rio de Janeiro. Estava doente há algum tempo e seu irmão disse à imprensa que “ela descansou”. Ah, Dirce, mas a gente bem sabe que a boneca que você foi não descansa nunca – já dizia minha mãe lá na minha infância, quando eu era você naquela simbiose maluca que eu criei na minha cabeça. Seu lado boneca ainda vai saltitar por muito tempo na lembrança de quem teve a sorte de ter você esperando na sala todos os dias depois da escola. Muito obrigada, colega. Minha infância foi muito mais feliz por causa de você.

"Ouve, Paula"




Desde o dia em que iniciei este blog sabia que dedicaria um post ao livro Paula, da escritora chilena Isabel Allende. Não o fiz até agora por não saber como. Mas hoje desisti de procurar a forma ideal de compartilhar com vocês experiência tão valiosa e resolvi escrever somente com o coração porque acho que vem bem a calhar.
Ler Paula foi uma viagem marcante por vários motivos. Foi profundamente emocionante e arrebatadora pela força da história propriamente dita; gratificante e inspiradora pela escrita precisa de Allende; e absolutamente perturbadora por ser impossível não imaginar como enfrentaríamos algo com a dimensão do que nos é narrado no livro.
Paula é uma daquelas leituras que nos conquistam sem muito esforço já nas primeiras palavras.  Não é preciso virar a primeira página para saber que estamos diante de algo no mínimo muito interessante. Depois de duas ou três linhas, eu simplesmente estendi minha mão, segurei a de Allende e me deixei conduzir por sua narrativa apaixonante que me rendeu momentos de profunda emoção e reflexão sobre nossa presença no mundo.
Paula foi escrito em forma de carta de Allende para sua filha em coma. Isabel nos diz, no início do livro, que escrevia para que sua Paula, ao acordar, não se sentisse perdida. O que se vê é um relato feito por uma mãe angustiada, mas lúcida, que faz da escrita a única saída possível para manter-se em contato com sua menina, uma espécie de monólogo da esperança.  
A biografia contida em Paula percorre da infância ao presente de Allende (o livro foi lançado em 1994), com a narrativa oscilando entre o desenvolvimento da doença de Paula e a releitura que Isabel faz de seu próprio passado, de sua carreira como escritora (incluindo a concepção de seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos) e da história de sua família. Allende também nos conduz por um trecho da história do Chile pré e pós-golpe militar e pode-se até dizer que seu ponto de vista é suspeito por causa de suas ligações familiares (Isabel é sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, assassinado durante o golpe militar de Pinochet), mas isso nem de longe compromete o valor de sua narrativa. Paula, afinal, não é um livro de história, mas um registro feito com palavras de amor (e, além do mais, todo livro "de história" também tem lá o seu ponto de vista, mas isso é outro papo).
Paula não é sobre dor, perda e sofrimento. Embora essas sensações permeiem a história em vários momentos, o livro é na verdade uma linda homenagem ao poder da linguagem, à escrita como forma de vida.




A edição que tenho foi presente de uma amiga muito querida (oi, Lúcia) e eu queria que este post fosse um presentinho para quem passar por aqui, um presente em forma de sugestão de leitura. Durante os dias em que li Paula, permaneci com o coração apertado e é verdade que foram muitos os lenços de papel. Mas também senti uma alegria calma, aquela serenidade que experimentamos quando descobrimos algo precioso. Paula é um livro vitorioso, um feito admirável de alguém que transformou a pior de suas experiências em uma linda homenagem à vida.
Espero que vocês também se deixem levar nessa viagem. É inesquecível.

Nunca é tarde: como eu sucumbi ao poder de O Senhor dos Anéis



Precious...
Demorou um pouco. Oito anos, se considerarmos o lançamento de A Sociedade do Anel. Um pouco menos, seis anos, se considerarmos o lançamento de O Retorno do Rei. Mas eu finalmente sucumbi e assisti à trilogia mais premiada da história do cinema e me rendi aos encantos da leitura que o diretor Peter Jackson fez da obra-prima de Tolkien. Vejam bem: estou chamando a obra de Tolkien, que ainda nem li, de “obra-prima”. Preciso dizer se gostei dos filmes?
Não foi por falta de convites: meu marido é fã incondicional de O Senhor dos Anéis e sempre me convida para acompanhá-lo nas sessões com que ele se presenteia de tempos em tempos, naquelas noites em que não há nada na TV a cabo que valha a energia que mantém a TV ligada. Eu sempre agradeço e rapidamente desconverso, agarro um livro, corto as unhas, ligo o micro ou simplesmente viro e durmo. Mas não, obrigada, O Senhor dos Anéis não. Desenvolvi uma espécie de aversão à história na época em que o livro virou febre e 10 entre 10 amigos passavam dias agarrados a ele. A aversão virou quase repulsa quando uma amiga tentou me convencer de que eu tinha de passar “para o lado dos que tinham lido” O Senhor dos Anéis... como é que é? Aí virou birra. Não leio, não leio, não leio. É bem possível que eu tenha até batido o pé.
Mas sabe como são as birras. Se ninguém der atenção, elas passam. O mundo seguiu, eu permaneci do lado dos que não tinham lido. Certo dia, quando juntei os trapinhos com o meu digníssimo, chegou aquela boa hora de juntar também os livros e conferir deliciados o que estávamos herdando, bem no estilo “olha, sempre quis ter esse livro!”.  Escolhemos para onde iam as figurinhas repetidas (Cem Anos de Solidão, As Brumas de Avalon...) e, pouco a pouco, fomos escolhendo o que ler naquela biblioteca recém-casada. E lá estava uma edição de O Senhor dos Anéis. E lá está ela até hoje. Lida e guardada com carinho por ele, ignorada com um certo desdém por mim. Nunca cogitei folheá-la, nem quando tiro o pó.
Até que na semana passada, uma pequena aposta caseira absolutamente insignificante (tanto que nem consigo mais lembrar o que apostei) resultou em uma promessa de acompanhá-lo na sessão do mês. Tá bom, tá bom, mas não reclame se eu dormir no meio do primeiro filme. Humpf. Pronto. Aí aconteceu.





Seguiram-se uma tarde e duas noites em que fomos dormir entre duas e três da manhã, ele revendo as falas que sabe de cor, eu me iniciando no fantástico mundo dos hobbits e elfos. E fui assistindo e me deixando seduzir – igualzinho a cada um dos personagens que punha os olhos no precious. E fui gostando da fotografia, do olhar de Gandalf, da alegria ingênua do condado dos hobbits, disso, daquilo... gostei de tudo. Do texto lindo – como não ler o livro agora? – das atuações, dos efeitos, dos cenários, dos figurinos, da história – que linda alegoria da pobre condição humana diante das tentações e seduções do poder! – e até das batalhas que me levaram a morder almofadas e vibrar aliviada com as flechadas certeiras de Légolas. E o que dizer da investida fatal das árvores da Floresta de Fangorn contra a torre de Saruman? Yesss!! E Ulisses ria, o riso do "eu não disse"... E claro que me emocionei quando o rei coroado se ajoelha diante de toda a grandeza dos pequenos hobbits: My friends, you bow to no one. Chuif! Lindo...
Agora nada mais me resta a não ser ler o livro. Entrou na fila, vamos ver quando a rotina permite. Já estou ansiosa, pronto, confessei. Quero ler, quero muito ler.



 Daqui a pouco, daqui a pouco...
O juízo não me permite indicar a leitura de um livro que ainda não li, mas indico a trilogia do cinema, caso você ainda tenha resistido por qualquer que seja a razão. Assista. Não porque seja necessário, não. Simplesmente porque é uma obra de arte.
Obrigada, meu amor. Pode chamar de novo, sou parceira. 

De anjos e cachos

É comum voltar ao quarto de Amanda horas depois de ela ter adormecido para pôr as meias ou fazer a patrulha em busca de algum mosquito intrometido, mas não sei se alguém suspeita que há algo quase mágico nesses momentos. É que, às vezes, em meio ao silêncio que envolve seu quarto, além de perceber sua respiração tranquila e imaginar seus sonhos de bebê, consigo visualizar a sombra dos anjinhos ao lado da cama, guardando seu soninho.
Uma noite, de fato, vi um deles nitidamente. Não houve sustos ou surpresas, apenas uma troca de olhares entre cúmplices que querem proteger a mesma pessoa. E ele me fez ver algo que antes eu percebia de forma equivocada: não é Amanda que se parece com um anjo, como se os traços de seu rostinho tivessem sido copiados de um deles. Não. Foram eles, os anjos, que, há muito tempo, decidiram copiar as feições das crianças para melhor traduzir seus ideais de proteção. Porque nós, adultos, até tentamos protegê-las dos perigos do mundo, mas são elas, as crianças, que nos salvam com suas almas brancas e com aquela coisa enorme e poderosa que fazem brotar dentro da gente cada vez que uma delas nasce. E assim é.

Vê-la dormir é muito bom, mas há outras coisinhas adoráveis em nosso mundo com Amanda:
Aquela risada que vai lá na gargantinha buscar uns sonzinhos de infância boa e deixa nossos corações às gargalhadas;
Uma corridinha toda quebradinha, mirando o chão para não cair, enquanto dispara para se esconder atrás da cortina;
A boca suja de feijão, o bico de dar beijinho, a voz de menininha;
Vê-la desenhar toda concentrada, com rostinho sério e compenetrado, porque riscar de azul pra lá e pra cá exige muita atenção, sim;
Falando em azul, seus olhinhos acesos, vasculhando tudo, pintam o mundo;
É também muito bom que a infância seja tempo de cachinhos porque assim a gente pode se esbaldar em suas molinhas de seda;
Gostamos também toda vez quem ela vem “tontar um segedo” e susurra nada com coisa nenhuma nos nossos ouvidos. Nessa hora, além de ficar bem pertinho da gente, ela segura nossas cabeças com suas mãozinhas e não pode existir carinho melhor;
Vê-la brincar com o irmão – felicidade é isso;
Fazê-la dormir ao som de “se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papeeeel” (“tanta papel, mamãe, tanta”).





Amandinha linda, meu amor, parabéns pelos seus dois primeiros anos de vida. Eu já disse isso antes, mas posso repetir porque continua muito verdadeiro: você é nossa florzinha e regá-la é nossa maior alegria. Te amamos mais do que conseguimos dizer,

Papai, mamãe e mano.
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E hoje também é o aniversário da Dindinha Lilian!!! Titia, querida: eu não queria chegar de qualquer jeito, tinha de ser com estilo. Então nasci no seu dia, que agora é nosso, porque já era um dia animado e nossa família estava acostumada a celebrá-lo com o coração em festa. Peguei carona e adorei! Feliz aniversário!!! Te amo, te amo, te amo!!



Amandinha
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Happy, happy birthday, Lilian. Te amamos muito! Que seu dia traga ainda mais luz para sua vida e que você possa comemorar hoje todas as conquistas recentes, antigas e também, por que não, as vindouras!!
Beijos,
Rita, Ulisses, Arthur e Amanda.

Laboro, laboravi, laboratus, laborare


De volta à labuta, fim de nosso curto período de férias. Não fiz tudo que tinha em mente (so predictable), mas valeu pelas horas a mais de sono, páginas lidas, séries devoradas, bicicletas compradas. Amanhã voltaremos ao batente, sem grandes lamentos. 18 de setembro, afinal, é dia de festa. E assim será.

E quando a primavera finalmente chegar, algumas cabecinhas protegidas desfilarão por esta ilha, sobre duas rodas. Xô, frio, pedalar é preciso.

Meninas

1. No mundo de Amanda tem:

I love it.

2. Hoje vimos meu marido viu na TV um comercial de um novo brinquedo para meninas. São mini-carrinhos “inspirados” (cópia pura e simples) em um modelo de carrinhos para meninos que virou febre por aqui, por ali, por todo lugar. Bom, na “versão feminina” as pistas por onde os carrinhos deslizam a toda velocidade também estão presentes. Mas elas não levam a uma caverna radical ou a um túnel super maneiro. Não. Elas levam... ao shopping! Ai, gente, morri de rir. Estereótipo pouco é bobagem, right?

Brincando de fazer festa


Na próxima sexta-feira minha filhota completa dois anos de peraltices. E eu estou com dor de cotovelo.

Com exceção do 1º aniversário do meu filho mais velho, hoje com quatro anos, tenho me encarregado da decoração das inevitáveis festinhas. Gosto de fazer as recepções em nossa casa e me divirto muito com os preparativos que, por causa da correria nossa de cada dia, chegam a tomar meses. Geralmente trabalho até a madrugada cortando papel, pintando madeira, desenhando no isopor, cortando moldes em E.V.A., mexendo com crepom, fazendo florzinhas de quilling. No início, contentava-me em comprar a decoração e somente montar do meu jeito. Depois passei a confeccionar tudo que compõe o cenário, além das lembrancinhas e outros badulaques, sem esquecer de encher milhares centenas (menos, menos) de balões na véspera da bagunça-mor. Passo horas imaginando como ficará o cenário depois de montado, e às vezes desconfio seriamente que me divirto mais que eles (não, pensando bem, certamente não chega a tanto, eles são bons de diversão).


A última empreitada se deu em torno da festa do Peter Pan, em maio passado. Trabalhei no tema durante dois meses. O resultado foi uma espécie de Terra do Nunca de papel que serviu de cenário para nossa trupe fantasiada de Capitão Gancho, Peter Pan, Sininho e Wendy. Foi tudo muito bom, mas confesso que fiquei exausta. Para inserir a montagem de uma festa em meio à nossa já entupida rotina é preciso disciplina e pouco sono. Então depois que a Terra do Nunca estava devidamente destruída em meio a milhões de papéis de bala e balões estourados, prometi a mim mesma que daria um tempo no que minhas amigas chamam de “Rita Festas” e decidi que o segundo aniversário de Cachinhos Dourados seria comemorado com uma festa pronta, encomendada com tranquilidade, dormindo bem.


Daí que no mês passado, em meio ao inverno, à otite-laringite-bronquite-ite-ite-ite que pegou de jeito a minha pequena e às recomendações da escola para que boicotássemos festinhas (por causa da famigerada gripe), resolvi não fazer festa nenhuma. Mas julho se foi, agosto passou e agora quero festa sim, tadinha! E aí veio a dor de cotovelo. Não preparei nada. Devo confessar, porém, que, apesar do vazio pela ausência da oficina de papel no meio da sala, sei que fiz a escolha certa. Ando envolvida com outros projetos e não dá pra abraçar o mundo com as pernas, right?


Então fica combinado assim: a festa acontecerá atrasada, em outubro, encomendada da silva. Na próxima sexta-feira a gente improvisa um parabéns para celebrar a presença da pequenina em nossas vidas. E eu mato a saudade da bagunça olhando as fotos “antigas”.


p.s. Todas as fotos da festinha do jardim são do 1º aniversário da minha filha. Peter Pan foi o tema dos 4 anos do meu herói (mas não se enganem, ele quer crescer, sim). Estou vasculhando meus baús em busca da revista de onde tirei o modelo para o barco-convite e, assim que achar, ponho os créditos aqui. As florzinhas de E.V.A. coladas na parede foram compradas prontas - eu as incrementei com carinha e cabelos; os porta-retratos foram comprados prontos, apenas pintei e decorei com papel e adesivos de scrap. O restante da decoração, fiz tudinho. Os docinhos não fiz, mas comi tudinho.
 
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