Cesta de letrinhas


Escrevo este post em obediência e reverência ao pai do Menino Maluquinho, ao autor de Flicts. O Ziraldo, que até hoje escreve seus textos numa máquina de datilografia, também é blogueiro (http://ziraldo.blogtv.uol.com.br/) e divulgou em seu blog uma idéia maluquinha surgida durante entrevista em uma feira de livros: a inclusão de mais um item na cesta básica do brasileiro – um livrinho.

O gesto retrata a consciência de que um país bem nutrido é bom, mas não basta. Nutridos pensantes, sim (como era mesmo que diziam aqueles meninos maluquinhos dos anos 80: a gente não quer só comida?).

De fato, um livro que habite uma cesta básica, quero crer, teria suas boas chances de fisgar crianças-leitoras. E para espalhar a idéia, Ziraldo pede que se divulgue a frase que equipara a necessidade de feijão à necessidade de leitura:

“Livro, gênero de primeira necessidade”.

Então, tá, tio. Aqui está.

Depois do jantar

Marido: - Posso fazer uma coisa?

Eu: - Pode... quer dizer, acho que pode. O que é?

Marido: - É feio...

Eu, temerosa: - O que é?...

Marido: silêncio, cara de desconfiado. Pega uma tacinha de sobremesa. Abre a porta da geladeira. Saca de lá um pote de leite condensado.

Eu, boca salivando, olhos arregalados, falando rapidamente: - O que você vai fazer? Vai comer isso com o quê? Hein?

Marido: sorriso. - Com... nada!

Eu: levanto da mesa incontinenti e pego uma tacinha para mim também. Inveja, lembranças da infância - não podia, que já viu. - Também vou!

Seguem colheradas de leite condensado com leite condensado. Colheres lambidas, tacinhas raspadas.


Leite condensado puro, puro, puro.



Doce, doce, doce.



Tudo bem, podem vir, bananas.

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P.S. 1 É o inverno, o que se há de fazer?

P.S. 2 Nosso filho, de 4 anos, não gosta. Faz cara de pouco caso e adora brócolis. Fim dos tempos, minha gente, fim dos tempos.

Neurônios do bem

Você sabe quem é Miguel Nicolelis? Se sabe, certamente o admira. Se não, faz parte do grupo ao qual eu pertencia até cerca de dois meses atrás, quando assisti uma entrevista veiculada pela TV Bandeirantes, no finalzinho de uma noite de domingo. Era um programa em estilo mesa-redonda e, como o papo estava bem animado, fui ficando por ali e logo larguei o controle e sentei direito.

Fui assistindo a excelente entrevista sem ter muita idéia de quem era o entrevistado, mas logo me encantei. À medida que a conversa avançava, fui virando fã daquele senhor de voz mansa, fala segura e olhar inteligente.

A conversa girava basicamente em torno de pesquisas relacionadas ao funcionamento do cérebro humano e dos avanços recentes nas pesquisas sobre o Mal de Parkinson. Aprendi que o Sr. Nicolelis é um neurocientista renomado (sabe aquele que fez um macaco acionar um robô a partir de sensores conectados ao cérebro do bichinho? Pois então, o próprio), cujas pesquisas, incluindo a tal sobre o Mal de Parkinson, caminham a passos largos rumo a uma revolução na Neurociência. Miguel Nicolelis é apontado por revistas especializadas como um dos 20 cientistas mais importantes da atualidade e já foi cotado para ser agraciado com um Nobel. Seu trabalho envolvendo as neuropróteses (o do experimento com o macaco) é apontado pelo MIT como uma das tecnologias que “vão mudar o mundo”. Muito, né? Mas não é só isso.


Talvez achando que sua contribuição para o avanço da ciência ainda estava meio chinfrim, o Seu Miguel resolveu pegar pesado e escrever seu nome na História com letras maiúsculas. Entre uma pesquisa com ratos e outra com macacos (mesmo!), idealizou o Instituto Internacional de Neurociência de Natal (http://natalneuroscience.com/), projetado para ser um centro de referência em pesquisas, mas com o olhar voltado para o futuro da única forma que realmente faz diferença: investindo nas crianças. O maior objetivo do Centro é promover o desenvolvimento educacional e social do Rio Grande do Norte a partir de pesquisas científicas de ponta realizadas na região. Os projetos do Instituto incluem, entre outros, um centro educacional que oferece educação científica a crianças da rede pública de ensino (com oficinas de Física, Biologia e Robótica, por exemplo), laboratórios de neurociência e um Centro de Saúde, o Anita Garibaldi, voltado a programas como o acompanhamento de problemas na gravidez que possam comprometer o desenvolvimento neurológico dos futuros bebês. Lembro do Sr. Nicolelis falando na entrevista da Band que a visão do Instituto abrange o desenvolvimento do potencial das crianças a partir já da vida intra-uterina.

Para conhecer mais sobre os trabalhos de Miguel Nicolelis e se orgulhar desse bom brasileiro, vale dar uma olhada na sabatina realizada pela Folha no último dia 10/06. E, se quiser ir mais fundo, passe aqui: http://www.nicolelislab.net/. Ouvi-lo é uma delícia. Pode conferir. E aplaudir. Clap clap clap.

Amizade em domicílio

Ontem bateu aquela vontade de reunir os amigos, os nossos e os das crianças, para uma barulheira básica e, naturalmente, uma boa comilança. Mas, ah, a preguiça... oh, céus, o que fazer com a preguiça? Como cometer ao mesmo tempo dois pecados capitais, a gula e a preguiça, sendo que o primeiro implicaria em espantar o segundo? Bem, “implicaria”, eu disse, não implica mais. Porque vivemos na época do delivery! Êêêêê!! Clap, clap, clap, viva a pizza entregue em casa!!

Pois bem, reunimos as seis famílias – as três super pizzas e as outra três famílias compostas por pessoas – e pecamos sem culpa. O frio prometido até que nem foi isso tudo, ainda mais na nossa sala inundada por gargalhadas calorosas, decorada com pilhas de lego e bonecos transformers, além de uns golinhos de vinho que, dizem, faz bem ao coração. Olha, pode até fazer, viu, mas o bem feito aos nossos corações ontem veio mesmo da presença dos amigos, esse sim, antídoto para qualquer mal.

E já que estávamos munidos do mais eficiente dos remédios, por que não saborear um cheesecake de morango, com seus 600 gramas de cream cheese e tudo? Ah, é só de vez em quando, vai... e morangos são ricos em vitaminas C, A, K e os tais flavonóides com ação anti-alérgica, anti-câncer, anti-inflamatória, anti-cara-feia, anti-mau-humor e até, dizem, anti-rugas.

Quanto às pizzas, não sou a pessoa mais indicada para emitir uma opinião, porque confesso que elas estão bem longe da minha lista de pratos favoritos. E antes que vocês abram a boca de espanto e pensem “como pode?!”, vou logo confessando que também não gosto de pipoca. Nem de azeitona. Então não sei se estavam maravilhosas ou normais, mas, a julgar pelo estado das caixas 10 minutos depois que o motoboy foi embora, deviam estar bem boas.


Para mim, no entanto, elas não eram mais do que um pretexto para encher a casa numa noite de inverno e para me acabar no cheesecake que eu tinha visto no blog da Marcinha (a receita está aqui: http://www.marcinha.co.uk/archives/2008/01/a-cake-of-chees.html). Foi a segunda vez que fiz esse cheesecake e nas duas pude constatar com alegria que a receita é perfeita. Recomendo com fervor.


Também recomendo reunir os amigos para espantar o frio, mesmo que seja para comer algo que nem entraria na sua lista de favoritos. O que importa? Eu não quero comer salmão sozinha, por exemplo. Quero amigos com pizza, sempre.

Para te ver melhor

Crédito da foto, conforme publicado no site da Folha Online, hoje:
Travis A. Rector/ Universidade do Alaska
Há muito penso em comprar um telescópio. Tudo bem, pode ser uma luneta. Não entendo nada de um ou de outro, então ainda não sei ao certo qual servirá ao meu propósito, precisarei me informar bem antes da compra.

O telescópio/luneta está na fila de coisas bacanas que quero comprar quando sobrar uma graninha (juntamente com uma panela elétrica, quatro passagens para a Itália, um par de tênis pretos, entre outros), mas também há outro motivo para não comprá-lo(a) agora: quero que seja um presente para os meus filhos e acho que eles ainda são muito pequenos para manusear a geringonça, que, convenhamos, é meio trambolhenta. Vai que eles decidem usá-lo(la) como espada ou mastro de bandeira de pirata. Suspeito que não seria bom.
O propósito em questão é o deslumbramento. Quero vasculhar o céu com meus amores. Quero que meus pequenos (e meu grandão) se emocionem ao olhar nos olhos de Netuno, ainda que seja bem de longe, daqui de baixo. Quero que se divirtam contando e descobrindo estrelas, como hoje se divertem contando sementes. E que, juntos, a gente se encante com os brilhos que atravessam muitos milênios e nos alcançam aó para nos lembrar que somos, a um só tempo, enormes e minúsculos.
Quando vejo fotos como essa que hoje vi na Folha Online (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u599900.shtml), a vontade de comprar o tal telescópio/luneta aumenta. Essa linda "bolha" responde pelo singelo nome de PN G75.5+1.7. Pelo menos a coitada tem um apelido, Bolha Cygnus. Segundo a matéria da Folha, ela é especial por ser uma nebulosa esférica, coisa rara, parece. Para mim ela é especial porque me remete à grandiosidade do universo, à infinita beleza que às vezes nem suspeitamos que existe.

Não acho que a nebulosa redondinha esteja visível a simples lunetas, já que somente agora foi descoberta por astrônomos que dispõem de aparatos gigantescos e mega-potentes. Mas e daí? O céu é vasto e muitas lindezas assim pairam sobre nossas cabeças todo o tempo. Vale ou não a pena dar uma espiadinha de vez em quando?

Quanto será que custa uma luneta, hein?

Ufa!


A primeira impressão é a de se estar diante de um mero sabiá. Mas não, senhoras e senhores, não é um sabiá qualquer – se é que se trata mesmo de um sabiá, porque eu não sou muito boa em aritmética. Bem, mas supondo que seja mesmo um sabiá, não é um qualquer. Vocês estão diante do passarinho mais sortudo do meu bairro, o desorientado alado que sobreviveu à boca do Roque! Vocês já conhecem o Roque, certo (v. Cachorros e conflitos)? Então conseguem entender a façanha que é, para um serzinho de cerca de 20 centímetros, sobreviver a um ataque daquela boca de jacaré.
Pois este senhor voava distraidamente pelo nosso quintal quando, detalhe, mero detalhe, esqueceu de desviar da janela da cozinha e foi zuupt rumo ao chão. O Roque, excelente cão de guarda que é, avançou em direção ao aparente intruso para lhe mostrar que não é assim que a banda toca e que, se quiser entrar na nossa casa, tem de ser pela porta e após permissão expressa. Mas, thank goodness, Ulisses, sempre alerta, sentido!, correu em socorro da pobre ave e pudemos ver que o Roque é um cão muito obediente, pois de pronto atendeu os berros de larga!, larga!, e abriu mão do apavorado brinquedo.



O suposto sabiá, em choque, como vocês podem perceber, ficou impossibilitado de voar por alguns instantes. Seu salvador o colocou em segurança em um cantinho da floreira, protegido a dois portões de distância do canil, para que ele pudesse voltar a si e entender que tem de prestar atenção, ora. Bom, deve ter se recuperado sem maiores prejuízos, porque cerca de uma hora depois voltou a voar, escondeu-se nas folhagens de nosso quintal e não mais foi visto. Não escreveu nem telefonou, mas acredito que passa bem. Se depender de sorte...

O manto dourado do rei

Ai, deus, tomara que dê tempo e que Ângela encontre os maracujás na promoção, a dois dólares cada um!
O preparo do rei, lembrando que a peça de salmão que costumamos comprar tem, em média, 1,2kg: esqueça a saga que é a vida do salmão e tempere sua majestade com alho e sal de modo a envolver toda a peça (lambrecar bem, sabe?). Aqui em casa usamos um bom tempero alho-e-sal pronto, mas nada impede que vocês usufruam do prazer que é descascar e amassar os dentinhos de alho, fiquem à vontade. :-)
Se possível, deixe-o repousar assim lambusado por uns, vá lá, trinta minutos. Acrescente cebolinha picadinha, alecrim, salsinha e estragão – se não tiver estragão em casa, vale a pena ir ao mercado comprar, porque seu sabor levemente adocicado realça o prato. Como vocês podem perceber pelas fotos, em nosso mercado está faltando estragão.

Envolva carinhosamente (carinho é tudo, gente) o salmão em uma folha de papel alumínio e: 1) leve à grelha por 15 minutos, sempre com a parte da pele voltada para baixo; ou 2) em uma travessa, leve-o ao forno, 200 oC, por 20 minutos. Dica: se optar pelo forno, coloque um pequeno recipiente com água em um cantinho do forno para evitar que o peixe resseque (funciona).

O manto do rei: em uma pequena panela, refogue bem dois dentes de alho em azeite de oliva bem quente. Em seguida, acrescente uma cebola ralada e refogue também. Acrescente o suco concentradíssimo de maracujá (dois maracujás bem grandes – Ângela, você tem seis dólares aí? - com dois dedinhos d’água) e siga mexendo. É chegado o momento caldeirão do bruxo: sal, cebolinha cortadinha, duas folhas de louro, estragão, salsinha, duas ou três colheres de chá de açúcar (dependendo da acidez da fruta; dê uma experimentada, se estiver muito ácido, acrescente a terceira colher de açúcar).

Cebola, cebola, cebola, huummm.


O manto quase pronto.
Deixe ferver por alguns minutos até que o molho dê uma leve encorpada. Desligue o fogo e acrescente uma caixinha de creme de leite. Mexa, sorria, e prepare a salada.

O acompanhamento perfeito é cenoura ralada. No último domingo, acrescentei morangos à cenoura e repetirei sempre que puder. O morango combinou perfeitamente com o peixe regado com o molho de maracujá. On your knees, please.
Aqui em casa, a visita também rala.

Sirva com o velho e bom arroz, preparado do seu jeitinho. O meu jeitinho é o Tio João semi-pronto ervas finas. É, eu sou bem acomodada mesmo. E, se quiser, abra aquele vinho reservado para uma ocasião especial, porque a realeza merece. Ao brindar, reverencie a odisséia desse peixe de carne nobre e vida de romance. E bom apetite.

Viva o Rei!

Já repararam como tudo no salmão é majestoso? É grandiosa sua odisséia para reproduzir, nadando semanas contra a correnteza rio acima; é misterioso o gesto de ceder seu lugar às novas gerações, morrendo logo após a reprodução; é nobre a cor rosada de sua carne, que anuncia a maciez que o paladar está por experimentar; ah, tudo é rico, nobre, bonito. Mas como resistir? Nada nos segura. E, indiferentes, devoramos o rei.

No trono, diante dos súditos famintos.
E hoje reverenciamos sua majestade e nos rendemos à “Sua Delicesa”. Já tínhamos planos de saborear aquele que considero meu prato favorito, salmão grelhado ao molho de maracujá (leia-se O Molho de maracujá, by Ulisses), entre nós, no aconchego da nossa cozinha, envoltos em gargalhadas e vozinhas em tom maior. Já nos sentaríamos em torno de nossa mesinha semi-arrumada para homenagear nossos paladares, para meu supremo deleite. Mas eis que hoje o ritual ficou ainda mais suntuoso. Porque vieram os amigos que engrossaram o coro de “salmão é o maior, é o maior” e a rica caravana do prato que Ulisses prepara com tanta maestria recebeu uma merecida ovação ainda mais enriquecida. E nós ganhamos horas de bate-papo igualmente deliciosas.
Costumo dizer que nenhum outro prato é tão precioso ao meu paladar, e não exagero. Obviamente, para minha sorte, já experimentei muita coisa saborosa por aí (e por aqui), mas o salmão grelhado regado com o riquíssimo molho agridoce do maracujá, acrescentado de cenoura ralada, que dá o contrapeso exato no sabor, é para mim mais do que uma refeição. É um momento de alegria. Sempre me esbaldo.
Em respeito ao cansaço de final de domingo (manhã com crianças + almoço com amigos + arrumação de casa + festa de aniversário de criança + almoço de segunda-feira preparado para congelar + ufa!), deixo vocês com um souvenir da maravilha, prometendo que publicarei a receita detalhada do peixinho de sangue azul amanhã, ou assim que der.

Au revoir, mes amis.

A estante



Hoje, finalmente, arrumei o escritório.

Ficou bom, gostei. Gostei da parede colorida, dos poucos acessórios que já providenciamos, da velha cortina, acho que caiu bem, e também dos novos móveis. Gostei ainda da iluminação que, mesmo não estando totalmente pronta, já transformou o ambiente em um cantinho bem aconchegante. Mas, principalmente, gostei das prateleiras destinadas aos livros.

É impossível olhar os volumes enfileirados, cada um acenando com seus apelos, e não lembrar do antigo escritório da casa da minha mãe, aquele que acolheu muitas e muitas horas, manhãs e tardes inteiras, da minha infância. Sempre vou lembrar da grande estante horrorosa de madeira escura, onde, além dos seus muitos livros de Direito, ela tentava em vão organizar seus pesados volumes de enciclopédias – compostas por volumes colecionados um a um, e depois encadernados com vaidosas capas duras. Era o mesmo móvel horrendo que também abrigava delícias como a obra de Monteiro Lobato, divisor de águas dos meus gostos de infância.

O escritório da minha mãe não era um lugarzinho reservado ou silencioso. Ficava bem no centro da casa, entre salas movimentadas e uma cozinha barulhenta, mas nem por isso deixava de ter seu status de refúgio. Porque eu o fazia ser assim: lá eu fechava os ouvidos ao resto do mundo e me aventurava naqueles labirintos irresistíveis, descobrindo aos poucos a alegria de virar páginas e soltar de vez as rédeas da imaginação.

Sempre serei grata a minha mãe por aquele canto da casa, quase sempre fora de ordem, porque acredito que o contato visual diário com seus imensos livros teve papel definitivo no gosto pela leitura, um prazer que carregarei comigo para o resto da vida. Era impossível resistir às muitas chamadas e, cedo ou tarde, eu acabava abrindo cada uma daquelas capas.

Então nossos livros assim estão. Expostos, mostrando-se despudoradamente, e eu não vejo a hora de espiar por trás da porta e ver alguns dos momentos em que eles seduzirão para sempre meus dois filhos. Que venha a poeira.

Operação tapa-buracos

Para quem ainda não viu os comentários histéricos que publiquei com o post anterior, segue essa placa de estrada reparada, com buracos devidamente tapados. O formulário de comentários está funcionando com as barrinhas scroller totalmente do bem. E agora já conseguimos ler as linhas inteiras dos comentários dos meus queridos leitores porque eu aprendi o que quer dizer overflow em html.

É isso. Obrigada pela paciência, até depois.

Mais do mesmo

Pois bem, seguem as reclamações quanto ao formulário de comentários e segue a minha incapacidade de resolver o problema. Vou tentar umas medidas radicais nas próximas horas e vou cruzar os dedos para o blog simplesmente não desaparecer no meio da web de modo a nunca mais ser resgatado. Se você está lendo esse post, é bom sinal. A estrada ainda pode nos levar a algum lugar.

Enquanto isso, as sacolas.

Uma rede de supermercados aqui de Floripa adotou sacolas oxi-biodegradáveis. Aí eu achei bem legal e coisa e tal, e fui tentar saber o que diferencia biodegradável de oxi-biodegradável, valha-me deus minha santa ignorância. E continuo nela, porque não achei a resposta, mas achei esse post no Blog do Planeta (http://colunas.epoca.globo.com/planeta/2009/01/12/contra-o-plastico-oxi-biodegradavel/), que já tem aí alguns meses, mas serve bem para ilustrar que não é assim tão fácil acabar com a culpa na hora de voltar para casa carregada com as benditas. Aparentemente, a coisa não fuciona exatamente como alardeia a tal sacolinha supostamente amiga e poderemos acabar, ainda por cima, bebendo plástico. Vale a pena dar uma conferida no post - não explica, só complica, mas quem disse que a vida é fácil?

Propaganda enganosa?
E aqui em casa segue o velho dilema: eu gosto das retornáveis, acostumei fácil, apesar de ter de admitir que ainda as esqueço com frequência no porta-malas do carro e muitas vezes só me lembro quando já estou na boca do caixa. Ai, ai, que saco, quer dizer, que sacola. Mas aí surgem as questões sobre nossa coleta nos cestos dos banheiros, destino da maioria esmagadora das tais de plástico: como substituí-las? E eu penso, penso, penso. Simplesmente eliminá-las, substituindo-as por nada? E vou empurrando com a barriga, sem achar uma solução que me leve a utilizar as retornáveis com exclusividade.

Aqui não consta nada sobre virar pó e se misturar com a água...

Ai, se aparecesse uma alma boa aqui para me dar uma sugestão. E pode também ficar à vontade para me sugerir como resolver o problema do formulário de comentários, até porque, caso contrário, esse alguém pode nem conseguir comentar sobre as sacolas... ih, isso está ficando complicando.

Preciso voltar aos estudos de HTML. Até depois, se a estrada não sumir.

A little bit of poetry



Lebram dela? Ainda ilumina nossa sala, sem cobrar nada, linda. Eu acho que ela gosta de nossas crianças e se alimenta das gargalhadas e gritarias. Passa o dia olhando o vai-e-vem de carrinhos e as pilhas de lego. E apesar de algumas flores já terem cumprido toda a jornada, o conjunto ainda é majestoso.

Por ela, em gratidão pela companhia, um poeminha cheio de ácaro, mas bem lindinho.
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Sugestão (Cecilia Meireles)

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

A arte de falar sobre nada

As guloseimas do dia

Isso vai soar meio irônico, porque vou fazer aquilo que pretendo criticar, mas, ah, as fraquezas humanas, não resisto.

Hoje precisei pedir ajuda a um otorrinolaringologista, coisa que deveria ter feito na semana passada, ao invés de tentar tapear minha faringite com remedinhos meia-boca e pastilhas gostosinhas. Se o tivesse feito, talvez não tivesse tido o dia de molho que tive hoje, movido a atestado e uma dor de cabeça que me nocauteou. Como conseguir uma consulta de última hora é o mesmo que ligar a TV e não ouvir nada sobre o Michael Jackson, ou seja, quase impossível, tive de apelar para uma consulta emergencial com um médico plantonista. Isso significou mais de uma hora e quarenta minutos de espera que o latejar das minhas têmporas fez parecer uma semana e quatro dias.

Não bastasse o desconforto de esperar longamente para ser atendida, tentando não tossir para não sentir as marteladas no centro do cérebro, não havia na sala de espera do consultório uma única revista, de modo que olhar o que se passava na TV era inevitável. Pois bem, durante todo o tempo que esperei, quase duas horas, incrivelmente, vejam só, nenhuma palavra foi dita sobre o astro pop recém-falecido. O papo era outro. No canal especializado em coberturas esportivas, dois comentaristas e uma apresentadora travavam uma longa e minuciosa discussão sobre um único lance confuso que teria acontecido em uma das partidas do Campeonato Brasileiro de Futebol, no último domingo.

Como eu estava mergulhada numa espécie de torpor causado pelas badaladas da minha cabeça, cheguei a cogitar que o problema era comigo e que eu não estava entendendo muito bem a conversa. Mas a imagem infinitamente repetida do jogador despencando dentro da área não deixava dúvida. O assunto era aquele mesmo, e era único. Durante sei lá quanto tempo (fui finalmente atendida, e o papo continuou), aquelas três criaturas conseguiram prender (será?) a atenção da audiência país afora falando de um único pênalti duvidoso, com avaliações mega-detalhadas sobre o ângulo de visão do árbitro, a suposta malandragem do jogador despencado, a inexperiência do zagueiro, o oportunismo desse, a indignação daquele, as razões dos xingamentos da torcida, a camiseta puxada, a chuteira levantada, o árbitro confuso... O que mais me chamava a atenção era a empolgação da apresentadora (muito eficiente em sua função, diga-se de passagem) que parecia intermediar a mais eletrizante e relevante discussão do século.

Essa é uma questão que sempre chama minha atenção em algumas coberturas da imprensa, pelo menos aqui no Brasil, mas certamente não só por aqui: já repararam (aposto que sim) como o mesmo assuntinho às vezes ganha status de coisa importantíssima na imprensa, como se daquela discussão exaustiva dependesse o andamento da nossa rotina¿? E quem é você se não tiver uma opinião sobre aquele pênalti, ou, pecado!, se não souber que o chuveiro de Neverland ainda funciona?!! Hein, hein,criaturas desinformadas! Tsc, tsc.

Eu certamente teria pedido à moça da recepção para trocar o canal, se, naqueles momentos, cada passo não representasse um pouquinho de tortura para mim, mas foi bom não tê-lo feito. Olha eu aqui, fazendo experimentos na mesma arte daquela apresentadora. O tal pênalti rendeu até um post neste blog. Eheheh.

Ah, e importantíssimo: eu também achei que não foi pênalti coisa nenhuma! Pura malandragem, certamente.
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Em tempo: valeu a espera; após toneladas de azitromicina e paracetamol, ainda não estou nova, mas já não ouço mais os sinos na cabeça.

Mudando de ares


Ontem à noite, folheando meu metidérrimo Cordon Bleu – Todas as Técnicas Culinárias, passei pelo capítulo dos biscoitos e pensei: e por que não? Escolhi uma receita bem simples, para não ter erro e não melar minha noite de sexta (já sei o que vocês estão pensando: “pô, altas noites de sexta, hein?” - alguém aí tem dois filhos pequenos? Sem babá? :-)).

Bem, como eu ia dizendo, fiquei animadíssima com a idéia de oferecer biscoitinhos amanteigados made by myself no café da manhã do sábado para os meus picurruchos e meti a mão na massa. Um pouquito de açúcar aqui, um tantinho de farinha e, naturalmente, um bom tanto de manteiga, mexe, mexe, simples demais. Até me empolguei e adicionei um ingrediente por minha conta, um tiquinho de aveia, que mal faria, hein? Tratei de usar uma forma no tamanho exato do sugerido pela receita, aqueci o forno na temperatura certa, programei o timer conforme indicado. Mal podia conter a empolgação. Seriam meus primeiros biscoitos, e eu estava certa em achar que nunca os esqueceria.

Nada a fazer além de esperar, agarrei-me a um bom pote de iogurte com granola e me juntei ao maridão no sofá para acompanhá-lo na árdua tarefa (mesmo) de assistir um filme pÉssimo que a TV a cabo exibia. Ainda bem que nem lembro o nome do filme para não correr o risco de mencioná-lo aqui.

Trinta e cinco minutos depois, o timer anunciou que era chegada a hora de apreciar minha mais nova aventura culinária. Bem aliviada com o pretexto perfeito para livrar-me daquela agonia cinematográfica, fui à cozinha, abri o forno e não vi mais nada. A fumaça preta que invadiu a cozinha me tirou momentaneamente o fôlego e a visão. Passado o susto, anunciei “queimou completamente” e franzi o cenho enquanto olhava intrigada para dentro do forno tentando entender o que se passava. Era impossível distinguir onde acabava a massa do “biscoito” e começava a parede de teflon da assadeira. Abanei as mãos para afastar a fumaça que ainda rondava meu nariz por ali e retirei do forno, cuidadosamente, aquele tição incompreensível. (Fotos? Sem chance: não tinha flash que desse conta de iluminar aquilo, eheh.)

Não sei ao certo o que aconteceu. Segui a receita, facílima e muito simples, quase à risca – e que ninguém venha culpar a coitada da aveia. Obviamente, pensei, o tempo de forno deve ser muito inferior aos tais trinta e cinco minutos. Seja como for, não havia muito a se fazer, então joguei o que restou da cremação na lata do lixo. O fato é que o Cordon Bleu tem créditos comigo, já que tenho aprendido bastante com ele, razão pela qual vou tentar fingir que nunca vi essa receita. Porque hoje à tarde, não me dando por vencida, decidi tentar outra vez, diminuindo o tempo e a temperatura e montando guarda na cozinha. Mas a cena de ontem à noite só não se repetiu porque resolvi retirar a gororoba do forno antes que ela virasse carvão outra vez. As bordas assam, tostam, enquanto o centro segue mole, mole. Ah, não, chega de jogar manteiga no lixo, vou comprar biscoitos amanteigados no supermercado, como todo mundo.

Meu marido, especialista em ver o lado bom das coisas, disse-me que ninguém é um cozinheiro de verdade até destruir uma receita. Bom, sendo assim, sou cozinheira há muito tempo, já destruí muitas. Mas eu acho que o verdadeiro lado bom foi substituir o forte cheiro de tinta – nosso escritório tinha sido pintado na sexta à tarde – pelo cheiro de queimado que invadiu a casa inteira. Pelo menos deu uma movimentada na atmosfera.

Friends - risadas e tosses


Em algum momento entre os anos 2002 e 2003, eu me viciei na série norte-americana Friends. Mal chegava do trabalho, ligava a TV na Warner e ria com as piadas novas e também com as velhas. Àquela época, o seriado já tinha oito ou nove anos e caminhava rumo à temporada final, levada ao ar em 2004. Eu conhecia Friends desde 1998, mas somente anos depois a série entrou na minha rotina, virou assunto para mim.

Assim que o vício se instalou, tratei de compensar os anos de defasagem com locações das temporadas completas e passava horas assistindo-as de um só fôlego. Depois da despedida em 2004, segui assistindo as infinitas reprises da Warner. Tinha as minhas favoritas, mas me divertia até com as mais antigonas, que me pareciam cada vez mais distantes e, de alguma maneira, tipicamente anos 90 – o que quer que isso signifique. Assistia as sequências malucas da Warner, que costuma exibir um episódio da oitava temporada, seguido de dois da quinta e mais dois da décima. Talvez seja uma lógica estranha seguida pelos organizadores da grade do canal, mas desconfio que eles sabem que podem se dar ao luxo de exibir qualquer episódio em qualquer dia porque sempre haverá um saudosista de plantão, pronto para dar a mesma risada novamente.

Hoje em dia, quando consigo dar uma espiada em um pedacinho que seja de um ou outro episódio, nem dou mais tanta risada assim, para falar a verdade. O fato de saber o que vai acontecer em seguida, em se tratando de comédia, muitas vezes trava o gatilho da graça. E o fato de saber os diálogos decorados, mais ainda. Mas isso nem de longe tira meu prazer em assistir Friends. Gosto de ver o porquê das minhas risadas de alguns anos atrás e sempre me divirto com aqueles seis seres completamente sem noção.

Hoje, particularmente, passei o dia lembrando da Phoebe, no episódio em que ela fica rouca por causa de um forte resfriado e teme pelas suas (péssimas) apresentações musicais na lanchonete Central Perk (que, olha só, é uma franquia de verdade: http://www.centralperk.com/). Até que ela percebe que sua voz rouquíssima soa super sensual e decide apostar em caras e bocas para explorar seu novo “recurso” vocal. Mas eis que o resfriado vai embora e Phoebe se desespera por não soar mais tão sexy – como, afinal, entoar um bom blues sem sua fantástica rouquidão? O episódio segue com Phoebe apelando para todo tipo de absurdo para se manter resfriada e garantir o que ela acredita ser sua melhor "performance".

Já eu ando louca para recuperar minha voz que a faringite resolveu levar embora, para que eu possa voltar a cantar para minha pequena dormir (ela não pede um blues, pede a música do miau, do timbu, do papel, do au-au). E além disso, não estou nem um pouco mais atraente com essa voz de Batman e essa tosse de cachorro. Humpf. Só a Phoebe mesmo.

Amamentar, se der (Parte 2)


A criança na foto que abre o último post é a minha filha mais nova. O leite em sua mamadeira é meu, o precioso leite materno. A foto registra um momento que, tão logo me descobri grávida pela segunda vez, tive certeza de que não viveria. A situação agora era bem diferente, pois eu já tinha a experiência adquirida com meu primeiro filho em nosso início tão difícil e, portanto, minha filha não precisaria de mamadeiras.

Durante certo tempo acreditei que o descompasso no início da amamentação de meu primogênito tinha alguma relação com o fato de eu somente ter oferecido o peito pela primeira vez horas depois do parto. Devo ter lido alguma coisa sobre a importância da amamentação imediata, logo na primeira hora de vida. Combinado, então: minha menina mal nasceria e já seria apresentada à sua primeira refeição. Além disso, adotei todos os truques de dieta para aumentar a produção de leite já na gravidez. Não faltaria leite dessa vez.

Bom, minha filha nasceu e mamou. Pegou o peito com relativa facilidade e se entregou à sua tarefinha com abnegação exemplar. À primeira ameaça do empedramento, lancei mão da massagem salvadora e fiquei bem – às vezes experiência é tudo nessa vida, viu? Tudo estava bem, ou assim eu achava, até que no sétimo dia de vida, ela desistiu de sugar o vento. Porque ela sugava, sugava, sugava e não comia praticamente nada. Eu quase não tinha leite. Toda a abundância do terceiro dia estranhamente se converteu em uma fonte limitadíssima e meus seios não produziam mais do que parcos mililitros que nem chegavam a arranhar a fome da minha pequena.

Eu já disse em algum lugar deste blog que nada falta a quem tem amigos. Sendo assim, minha irmã de coração, Anginha, catedrática em amamentações difíceis, socorreu-me com a dica que garantiu à minha filhota sete meses de amamentação exclusiva. Em meio ao desespero que foi a segunda semana de vida de Cachinhos Dourados, Ângela me sugeriu que eu lançasse mão de uma boa bombinha de extração de leite para estimular minha produção – a essas alturas, Cachinhos já saciava sua fome com Nan, sem muita hesitação dessa vez. Mas a presença do Nan durou apenas o tempo necessário para a maravilha da Medela chegar pelo correio (vale a pena conhecer: http://www.medela.us/) e a minha produção deslanchar ao ponto de eu estocar leite materno na geladeira suficiente para outra boquinha. A bombinha da Medela também me salvou de uma tendinite, já que depois que Cachinhos desistiu de mamar no seio, eu passei a extrair o leite manualmente a cada três horas, a despeito da dor no cotovelo causada pela repetição do movimento, numa tentativa desesperada de não deixar meu leite secar, não ainda.

Amigas

Cachinhos não voltou a mamar diretamente no peito – como culpá-la, depois de tanto esforço em vão na primeira semana? Mas eu não me preocupei com isso, ser a mãe perfeita não está em meus planos. Eu sei que fiz o melhor que pude por ela, e isso, sim, está nos meus planos. Durante sete meses, eu usei a bombinha para extrair meu leite com religiosa regularidade, a cada três horas, e a alimentei com mamadeiras cheias de anticorpos. A ironia é que só então entendi que, por razões que vão além de minha compreensão, eu era uma boa vaquinha pela manhã, mas produzia muito pouco leite à noite. Ring a bell? Isso mesmo, o mesmíssimo padrão que meu corpo seguiu quando amamentei meu filho. Só que agora isso não era um problema, porque eu sempre tinha leite estocado na geladeira (ela não conseguia, em uma só mamada, dar cabo dos 300ml que eu extraía todas as manhãs). Ou seja, se eu tivesse usado a bombinha da Medela (ou outra similar) na primeira amamentação, meu filho não teria precisado do Nan. Vivendo e aprendendo. No 15º filho, amamentarei por dois anos! Brincadeirinha, fechei a fábrica.

Guardo minha bombinha com carinho. Ela está à disposição das minhas amigas leiteiras que venham a precisar de uma mãozinha para acertar o passo. Sem culpas. Mamadeiras não são monstros e nem toda bombinha seca o leite. Palavra.

Amamentar, se der (Parte 1)



Ontem, enquanto cantava para minha nenê dormir, fiquei observando como ela está enorme. Como hoje, com um ano e nove meses, é tão diferente daquela coisinha que nasceu com 3,200kg e que chegou a pesar 2,700kg após os primeiros dias de jejum, enquanto eu lutava para acertar o passo na amamentação, mais uma vez.

Durante minha primeira gravidez, cumpri todo o ritual das mães de primeira viagem: comprei e li – de capa a capa – a bíblia das grávidas (O que esperar quando você está esperando, de Arlene Eisenberg), matriculei-me em um curso de grávidas e, durante nove meses, castiguei meus mamilos com massagens diárias feitas com bucha vegetal e nenhum dó, tudo para prepará-los para as muitas sugadas que eu assistiria com um sorriso no rosto e aquela cara de céu que têm as mães que ilustram os cartazes das campanhas de amamentação. As mamadas seriam embaladas em uma cadeira de balanço suspensa nas nuvens, imersa em ambiente diáfano, enquanto os olhinhos de meu bebê saciado me olhariam com ternura e agradecimento, selando para sempre um vínculo indestrutível, desde seu primeiro dia de vida. Ah, a amamentação! A glória da condição materna.

Aí meu filho nasceu e não quis sugar. Nasceu forte, com quase 4 quilos, perfeito e com fome, mas não sabia sugar. Lembro que, nas primeiras 48 horas, meu marido e eu nos agarramos ansiosamente à idéia da tal reserva com que nascem os bebês e tentamos manter a calma, acreditando que nas horas seguintes algum milagre aconteceria e ele mamaria como todos os bebês (eu achava que todos os bebês nasciam mamando, menos o meu). E até que era fácil manter a calma naqueles primeiros dias, porque o colostro não deixava meus seios doloridos e eu não tinha noção do que me esperava no terceiro dia. E nem podia ter, já que tinha zero experiência e não tinha lido ou ouvido nada a respeito. Só tinha lido e ouvido que o leite viria, o bebê mamaria e eu sorriria feliz envolta na atmosfera translúcida.

Quando o leite chegou e eu me transformei em uma espécie de Cicciolina, com meu filho firme em sua decisão de não sugar, vieram junto a dor e o desespero. Não recebi alta da maternidade, já que não podia ir para casa sem conseguir alimentar meu bebê, e os dias que se seguiram foram de terror, com as enfermeiras se revezando em massagens torturantes que me causavam muito sofrimento e nenhum alívio. O empedramento tornava a já difícil sucção do meu bebê uma tarefa impossível. O alívio veio das pontas dos dedos de uma enfermeira experiente e tranquila, que substituiu as nazistas e me apresentou a uma massagem eficaz e indolor, fazendo o leite finalmente fluir livremente e dando início ao tão esperado ciclo que alimentaria minha criança. Emocionada e profundamente aliviada, consegui me entender com a boquinha do meu pequeno e, no final do quarto dia de vida, ele mamou pela primeira vez. Era meu primeiro Dia das Mães e eu não poderia ter recebido presente melhor.

Mas a verdade é que eu ainda passaria um bom aperto diante da culpa absurda por não ter leite suficiente para alimentar meu bezerro faminto, e hoje, quatro anos depois, pergunto-me porque hesitei tanto em oferecer-lhe outro leite. Lembro-me com incômoda nitidez da sensação de derrota que aquela lata de Nan me causava. Mas foi o Nan, e não meu leite, que me tirou do pânico de não vê-lo ganhar o peso devido e me fez finalmente relaxar. Nunca tive leite suficiente para meu primeiro filho. Durante todo o período que o amamentei, por cinco meses, ele precisou de fórmula como complemento. E não havia nada de errado, nem comigo, nem com ele.

A cegonha anda a mil por aqui e tenho várias amigas que acabaram de se tornar mães ou que o farão em breve. Eu espero que tenham acrescentado essa lição em seus livros e cursos de grávidas: talvez você precise de outro leite para alimentar seu filho. Se isso acontecer, não se culpe, você não é menos mãe por isso. E talvez o início seja muito difícil e você precise aprender a preciosa arte de massagear sem causar dor. Informe-se a respeito antes de precisar.

E, se for o caso, nada impede que você providencie uma iluminação de sonho, se quiser, para aqueles momentos deliciosos em que oferecer a mamadeira a seu filho. Garanto que ele vai te olhar agradecido e saciado.

Cachorros e conflitos


Eu acredito no poder da terapia. Acredito que falar nos ajuda a rearranjar nossos pensamentos e sentimentos e reavaliar nossas condutas, trabalhar nossas culpas. Então hoje vou fazer de conta que este blog é um divã e vou enfrentar um conflito que tem me acompanhado nos últimos meses.

Fato: eu gosto de cachorro. Sempre quis ter um na minha infância, mas como quem dava as cartas lá em casa era a minha mãe, nunca tive a chance. Depois seguiram-se anos vivendo em apartamentos que não comportariam o grande cachorro que eu queria ter. Sim, porque ele seria grande.

Aí o Piteco entrou na minha vida. Era o cachorro do meu marido quando nos casamos e eu passei a conviver, em um apartamento, com o Basset Hound mais encantador e fedorento de todos os tempos. A convivência com o Piteco foi curta, mas suficiente para me introduzir às ambivalências de quem divide a casa e a vida com os caninos. Digo “de quem divide”, mas sei que não me refiro a todos os humanos que têm cachorros como animais de estimação, porque sei que há – e eu mesma conheço várias pessoas assim – aqueles que não enfrentam ambivalência alguma, convivendo com seus cães como se eles fossem humanos em forma canina. Mas eu não sou assim, não sou, não sou. Eu adoro cachorros, mas, para mim, eles são o que são, cachorros. Não dormem na minha cama, não comem na mesa comigo. Nunca é demais enfatizar: respeito até a morte meus amigos que dividem o travesseiro com seus amiguinhos.

Tapem o nariz: Piteco.

Bem, o fato é que bastava um olhar do Piteco, em meio a suas enooormes orelhas esparramadas pelo chão, para eu me sentir completamente feliz por tê-lo em nossas vidas. Mas também bastava um roçar do Piteco em minhas pernas três dias depois do seu banho para eu me perguntar como cargas d’água eu conseguia dividir o mesmo teto com aquele fedor ambulante. Conflito, conflito. A leishmaniose cortou nossos corações e levou o Piteco embora, deixando-me como uma boa carga de culpa por ser tão desalmada, mas logo nasceu meu primeiro filho (vejam só, no mesmo dia) e a avalanche de leite empedrado, noites insones e o maior amor do mundo não me deixaram muito espaço para o luto que o Piteco certamente merecia. Às vezes penso sobre isso e acho curioso como ele foi embora tão resignado como se agora fosse a vez do meu filho e ele, bem, não queria incomodar. Sei que sua ausência foi inevitavelmente mais marcante para o meu marido, que o viu nascer e cuidava do Piteco como fazem os verdadeiros donos, com amor incondicional em meio aos odores e muita teimosia.

Dois anos depois mudamos para uma casa. Chegara a vez do tão sonhado cachorro grande. No quintal, sim. Eu não me incomodaria com os cheiros. Ele seria inteligente, aprenderia rápido. Eu o levaria para passear e daria vazão a todas as fantasias da infância. Eu seria como o Cebolinha, o Franjinha, o Salsicha: todo mundo tem cachorro. Meus filhos cresceriam com um cachorro. Perfeito. Aí ganhamos – veja bem, gente, ganhamos – o Roque. Um presentão em forma de American Staffordshire, com boca de jacaré e olhar de Piteco. Lindo, lindo e, com um pouco de boa vontade, até bem cheiroso. Nem latia. Um amor.

Nos finais de tarde, tapem os ouvidos: Roque.

Mas as coisas não têm saído exatamente como eu sonhei, não, não, não. Roque agora é um garoto crescido que late bem e tem cheiro, sim. Claro, é um cachorro, certo? Então, até aqui, tudo bem. Reclamo, mas suporto os latidos, fecho a janela e o cheiro se foi. Mas os abraços rolando no chão, que nunca dou? E os passeios pelo bairro, que nunca faço (até porque eu fatalmente seria arrastada rua abaixo ao seu bel prazer)? E os muitos carinhos que ele precisa, mas, mergulhada em minha rotina, deixo sempre para amanhã? Ah, não, não tá certo. Eu sei que preciso ser menos egoísta e dedicar mais algum tempo dos meus dias ao Roque, afinal o acolhi em nossa casa e me afeiçoei a ele como nosso cão, o cachorro das crianças, a cereja do bolo. Então estou aqui me cobrando, publicamente, um pouco mais de atenção ao meu cachorro, porque ele precisa e porque vê-lo tão solitário está me deixando muito incomodada. E porque eu gosto do nosso jacaré. Já perdoei as almofadas, sandálias, os tapetes, a quina do móvel da churrasqueira, a grama que nunca consegue crescer.


Então, finda esta sessão, prometo solenemente tentar ser mais companheira do meu cachorro. Pronto.
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Conforme observou a Claudinha no post anterior, estamos com problemas na visualização dos comentários. Estou vasculhando a rede e estudando HTML para tentar tapar mais esse buraco nesta estrada e espero solucionar o perrengue em breve. Enquanto isso, vocês comentam e eu brinco de adivinhar o final de cada linha. :-) Vamos em frente, mesmo que aos trancos e barrancos.

Tráfego liberado

Sigamos em frente.
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Hoje levei meu filho ao teatro para assistir O Gato de Botas. É uma programa que meu menino gosta bem e sempre sai de casa todo entusiasmado. Não que isso tenha alguma relação com o teatro em si, porque a criançada aqui em casa se entusiasma com qualquer saída, da ida à padaria às viagens de férias. A de hoje foi apenas mais uma dessas.

Fizemos um programa a dois e deixei minha caçula em casa com sua companhia favorita, o adorado papai. O destaque ficou por conta de algo que acho muito engraçado: a falação. Meu filho fala, muito. Sem parar. Toda hora. No momento em que anunciei que sairíamos para ver a peça, deu-se início um falatório infinito sobre “como vai ser a peça, onde fica o teatro, a mana não vai junto, o papai vai ficar em casa, vou usar tal roupa, o casaco tal é mais bonito, não vou com a fantasia do Ben 10, não conheço o tal gato de botas, o teatro já vai começar, queria que o pai fosse, vou calçar a meia sozinho, não podemos nos atrasar”, e muitos, muitos, muitos eteceteras.

Então não é à toa que fico impressionada com o fato de que, uma vez lá, ele gruda os olhinhos no palco, fecha a matraquinha e acompanha o desenrolar da história com uma concentraçãozinha que acho muito bonitinha. E a julgar pelo relativo silêncio da platéia (com exceção de um ou outro chorinho), o palco exerce um efeito impressionante sobre essas figurinhas. Uma hora de silêncio (desconsiderando as eventuais interações com os atores) é algo que eu jamais (ja-mais) consigo ver aqui em casa se meu filhote estiver acordado. Claro, existem os desenhos animados, mas até esses, muitas vezes, são assistidos entre pulos no sofá, roladas no tapete, brigas com a irmã, falação, falação, falação.

Encerrada a peça, luzes acesas e cortinas fechadas, o falatório é retomado imediatamente. Na volta para casa “rediscutimos” o enredo mil vezes, falamos mal daquele Ogro sem noção, elogiamos a esperteza do Gato. E claro, miamos a mais nova integrante do nosso repertório, a música do Gato de Botas.

Eu adorei. Agora estou aqui tentando me concentrar para atualizar este blog, mas vocês não imaginam em meio a quanto barulho – porque aqui na sala tá a maior falação. Vou lá.

Em obras

Senhores transeuntes,

Estou tentando encontrar um template que me agrade para dar um formato definitivo à nossa estrada. Peço desculpas por eventuais desvios e buracos, mas sabe como é que é estrada em obras. Como o tempo de que disponho para essa tarefa é bastante exíguo, as mudanças seguem a passos de tartaruga. Vou ver se não faço tantas mudanças assim para não correr o risco de vocês nem mais reconhecerem este singelo blog... O problema é que preciso me acostumar com os novos formatos que experimento, aí fico nessa de mudar hoje e olhar para ele por alguns dias até descobrir se é assim mesmo que quero.

Pelo menos o endereço é sempre o mesmo, tá? O risco é alguém abrir a página e pensar “oops, estrada errada”. Não! É por aqui mesmo!

Sugestões são sempre bem-vindas. Por exemplo: vocês podem sugerir: “anda, Rita, decide logo. Ninguém aguenta ver um template diferente cada vez que acessa o Estrada...”

Juro que estou tentando, gente.
Muito obrigada pela paciência.

Dia azul

Quando eu era bem pequena, naquela fase em que as meninas são bem apaixonadas pela mãe, às vezes me perguntava como seria quando minha mãe já fosse mais velha, e eu uma adulta cheia de afazeres. Eram divagações passageiras, mas cheias de imaginação. Às vezes eu me perguntava se meu cabelo também seria branco (minha mãe é grisalha desde que eu me conheço por gente), se eu ainda teria de pedir permissão para ir à casa da minha melhor amiga ou para assistir a novela das oito.

Meu cabelo ainda não ficou (todo) grisalho, eu não gosto da novela das oito e quando quero ir à casa das amigas, normalmente, peço permissão a elas mesmas. Mas uma coisa não mudou. Eu continuo apaixonada pela minha mãe. E acho uma pena não poder abraçá-la no dia de seu aniversário. Mas isso não chega a ser exatamente uma lamentação, porque nos abraçamos constantemente em pensamento, cada vez que nos preocupamos uma com a outra, cada vez que telefonamos mesmo que seja para perguntar se está chovendo, cada vez que falamos uma da outra com alguém.

E o bom é que ainda podemos continuar inventando novas formas de abraçar. Como agora, mãe, que te dou este abraço internauta, cheio de alegria pela idade linda que completas hoje. Que seu dia seja azul, como esta estrada, como seus olhos lindos. Receba todos nossos pensamentos de amor no seu dia e saiba que hoje, para nós, é dia de festa.

Feliz aniversário,
Rita, Ulisses, Arthur e Amanda

"Pretend like it's the weekend now"


Foi meu filho de 4 anos quem me apresentou à apaixonante música de Jack Johnson. Jack é responsável pela trilha sonora do desenho animado Curious George e alguns dias depois de o filme aparecer aqui em casa estávamos às voltas com as canções docinhas que me faziam gostar cada vez mais do tal desenho. Depois de assistir 57 vezes, não gosto mais tanto assim, mas Jack não sai mais daqui de casa.

Agora estava eu aqui tentando medir qual a maior preguiça, se a de abrir o livro, pegar o controle remoto ou arrumar a gaveta, quando pensei: “humm, que tal uma musiquinha?” Bom, no estado em que me encontro, a única chance seria achar alguma coisa aqui mesmo no micro, porque, como já falei, o controle está muito longe, lá do outro lado da cama. O pensamento mais óbvio foi ouvir pela bilionésima vez um sonzinho do Jack Johnson, a trilha sonora quase exclusiva em nosso carro nos últimos meses. O Ulisses bem que tenta, mas é só ele se distrair um pouco e, tchufs, eu seleciono mais uma vez as musiquinhas desse americano dono de uma voz impossivelmente doce, feita sob medida para suas baladas viciantes. Não que o Ulisses não goste do Jack Johnson – é fã também – mas reconheço que ando meio bitolada. Tudo bem, pelo menos estou assumindo, certo?

Bom, então dei uma passada no site do moço (http://www.jackjohnsonmusic.com/) e, olha que gracinha, as músicas estão lá, à nossa disposição: clicou, ouviu. Agora estou aqui, “just sitting, waiting”, com o Jack cantando pra mim, e a culpa pela preguiça há muito foi embora.

“And it was just another night
With a sunset and a moonrise
Not too far behind to give us just enough light
To lay down underneath the stars” 


Ode à preguiça ou o quê?

Passem lá também. Além de boa música, há dicas para diminuir o impacto causado pelo homem no meio ambiente, relatórios do programa carbono neutro das turnês da banda (tipo vá ao show, mas vá a pé e leve a sua garrafinha de água - eheheh) e vários outros links verdes. A idéia difundida no site é a de que uma ação localizada, individual, pode mudar o mundo se for multiplicada por milhões. Ah, e vocês vão ver que lá também tem muita campanha pró-Obama. Todo engajado esse moço. Nas horas vagas ele canta. Nas minhas horas vagas eu ouço, com prazer.
 
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