Post gigante para crise idem

 
Quem convive comigo conhece um pouco das crises existenciais que me assolam volta e meia. Falo de trabalho. Não é fácil falar sobre isso, então nem garanto que este post será publicado. E, se o for, não é impossível que seja deletado depois, caso eu me arrependa de tratar do assunto aqui.



Ao longo de minha infância alimentei sonhos deliciosos quanto ao meu futuro profissional. Tirando a fase em que eu quis ser freira (resultado dos dias em que minha avó paterna se hospedou lá em casa, quando grudei nela como carrapato e passei a rezar três terços por dia, fazer novena e pedir perdão por meus pecados a cada 5 minutos) e uma outra em que quis ser enfermeira (por causa da boneca enfermeirinha que ganhei), sempre idealizei um futuro profissional cheio de energia e atividades instigantes.  Primeiro eu estudaria biologia marinha e ganharia a vida pesquisando sobre as baleias em algum mar gelado do hemisfério norte. Depois decidi que seria cientista, sim, mas em qualquer área do conhecimento científico, desde que minha rotina fosse vivida entre laboratórios cheios de tubos de ensaio fumacentos e descobertas que mudariam os rumos da humanidade. Talvez influenciada pelas heroínas de Sidney Sheldon (afe!), houve também o tempo em que eu tinha certeza que seria executiva ou jornalista bem sucedida, com uma vida superagitada e cabelos ao vento. Mas isso foi só até eu ter certeza absoluta que seria atriz de teatro e ganharia a vida viajando pelo mundo com minha trupe.





À época do vestibular – sabe, quando a gente já tem dezessete anos e precisa decidir o que vai fazer todos os dias pelas próximas décadas? – segui o caminho óbvio de quem estudava próxima a uma faculdade de agronomia e tinha dezenas de amigos agrônomos. Fiz a inscrição com a certeza de que aquilo era o mais próximo que eu chegaria da biologia marinha e dos tubos de ensaio. Só para garantir, inscrevi-me no vestibular de jornalismo também. É, eu sei, agronomia e jornalismo. Dezessete anos, paciência. Tranquei o curso de jornalismo antes de concluir o primeiro semestre porque me recusava a freqüentar uma faculdade tão medíocre (é óbvio ululante que há excelentes cursos de jornalismo, mas não era o caso da faculdade onde eu estudava) e dois anos depois perdi a euforia pela fisiologia e morfologia vegetais. Caí de amores pela língua inglesa, tranquei a faculdade de agronomia e prestei vestibular para letras. Ainda lembro da primeira vez em que vi a grade curricular do curso. Parecia o paraíso: basicamente, eu ia estudar língua inglesa e literatura. Estudar literatura, o que poderia ser mais gostoso para quem tinha fome de livros e, àquelas alturas, já tinha decidido que dedicaria a vida a trabalhar com idiomas? Literaturas inglesa, americana, brasileira, portuguesa, o céu. De fato, o curso de letras é uma delícia. Lamento muito as disciplinas subutilizadas por professores preguiçosos e mal preparados, mas o saldo final ainda foi positivo.  Tive alguns ótimos professores e dediquei os anos de faculdade ao estudo  e ensino da língua inglesa, algo que me dava imenso prazer e alimentava minha cabeça com planos mirabolantes para um futuro profissional na medida dos meus anseios de menina. Eu faria algo de que gostava verdadeiramente, viajaria pelo mundo, seria tradutora e intérprete, pronto, achei.

Mergulhei fundo. Fundei com amigos uma escola de inglês, ensinei a língua por quase dez anos, passei uns tempos na Inglaterra, fiz cursos, consegui certificados, mudei para Santa Catarina para fazer o melhor mestrado e doutorado em Estudos da Tradução do país. E fiz. Depois tudo mudou.
Na reta final do doutorado me vi diante do dilema de quem não tinha certeza de querer seguir uma carreira acadêmica - a opção mais óbvia para quem fazia pesquisa há quatro anos e estava envolvida até o pescoço com o tema. Mas nem precisei me inquietar muito, já que não havia no horizonte possibilidade de concursos públicos na minha área de interesse em Santa Catarina, não a curto prazo. Cogitei voltar a ensinar inglês em cursinhos ou faculdades particulares, obviamente, mas eu queria muito trabalhar com tradução. E aí o lado financeiro deu suas cartas. Depois de quatro anos vivendo com bolsa de estudos e nunca tendo um real sobrando no final do mês, eu andava louca por um bom salário. E investir em uma carreira de tradutora significaria continuar na pindaíba por mais sabe-se lá quanto tempo até que eu conquistasse meu lugar em um mercado árduo, difícil. Escrevendo isso agora, tenho a forte sensação de que faltou força de vontade, "amor à causa", sobrou imediatismo. Pode ser, mas não sei se consigo analisar bem aquele momento da minha vida com clareza, depois de tanta água rolada embaixo da ponte. Além de tudo, minha vida emocional estava em crise, eu não estava feliz ou, pelo menos, não estava em paz. Mas o fato é que tomei um caminho que julgava facilmente reversível, mas que hoje me causa as tais crises existenciais - e às vezes elas são diárias.
O caminho escolhido foi prestar um concurso público federal em uma área que não tinha nada a ver com a batatinha. O raciocínio até que não foi muito tosco: presto concurso agora, passo, saio do buraco financeiro, respiro um pouco do mundo real (porque a vida acadêmica, vamos combinar, muitas vezes nos isola do planeta) e fico de olho nos tais concursos para minha área. Assim que der, pimba, tudo se arruma. Paralelamente, vou tocando uma tradução aqui, outra ali, quem sabe aonde isso vai levar?
Ah, as voltas que o mundo dá! Fiz o tal concurso, mil fases, passei. Quando tomei posse em meu novo cargo, pensei: não fico mais que dois anos, tempo que julguei suficiente para "descansar" do ritmo do doutorado, juntar uma graninha e tchau. É preciso dizer que foi nessa fase que resolvi importantes crises emocionais e aprendi definitavmente que felicidade a dois só se sustenta com amor mútuo e que, se não for assim, a solidão é muito melhor. Então fiz as pazes com meu coração mais ou menos na mesma época em que virei funcionária pública e adiei só um pouquinho as realizações que só as baleias, os tubos de ensaio ou as traduções publicadas seriam capazes de gerar. O que eu nem desconfiava era que uma emoção muito maior cruzaria em breve meu caminho, revolucionando minha vida como nenhuma jubarte jamais faria: reencontrei Ulisses. A história completa do reecontro, e também dos primeiros encontros, virá um dia, em outro post.



O que quero registrar agora é que nos primeiros momentos já sabíamos que seríamos uma família, que viveríamos juntos, que já tínhamos vivido o que havia para se viver longe um do outro. Estávamos separados há quase sete anos e não perderíamos mais tempo com dúvidas. Não havia dúvidas. Então a primeira gravidez veio logo, conheci a maternidade e a avalanche de sentimentos que ela traz, percebi o mundo com outros olhos, entendi tanto, aprendi tanto, amo tanto, tanto, tanto. Todas as prioridades mudaram, todos os planos foram rearrumados, as ideias revistas, valores revisados, alegrias multiplicadas, mundos, dimensões outras, tudo novo, mais bonito, mais intenso. Virei mãe. 
A carga pelo rumo que dei à minha vida profissional é exclusivamente minha, não dos meus filhos. Eles não detêm nenhuma fração nessa equação. Eu gosto de ter um emprego de oito horas diárias fixas (poderia ser menos, claro, seis seria excelente) que me dá todas as noites e finais de semana livres para mim e minha família (com algumas exceções que mal chegam a alterar a rotina). Sou eu quem decidiu abrir mão da realização profissional - e ainda quero acreditar que essa é uma situação temporária - e aprendeu a gostar de não ter de trabalhar aos domingos, como fatalmente eu seria forçada a fazer se voltase ao mundo das pesquisas acadêmicas. Conheço de perto a rotina de um bom professor e pesquisador e por mais tentadora que ela me pareça não gosto da ideia de abrir mão de parte dos meus finais de semana em função do meu trio para me dedicar a leituras, pesquisas, correções, mais leituras.
Continuo apaixonada pelos estudos, algo que me acompanha desde que me conheço por gente. Adoro entender algo que antes me parecia hermético, impenetrável. Desvendar ideias, comparar, contrastar, buscar, aprender, enfim. Entendo que há tanto a ser feito em nosso mundo, tanto a se avançar e idolatro mesmo o conhecimento científico, tenho verdadeira veneração pelos grandes mestres, os grandes artistas, os cérebros brilhantes. Mas meu mundo profissional agora é outro, burocrático, seco, reto. 



Minha alma inquieta de aprendiz anda tímida, faz poucas perguntas, estuda pouco. A rotina me engole e depois da segunda-feira já é sexta novamente e não voltei às traduções. Já faz seis anos e meio. Até tenho enfrentado um ou outro desafio em meu trabalho, mas nada que se aproxime dos planos que construí ao longo de tantos anos de estudo. Sinto uma urgência enorme em escrever, como se a escrita me colocasse em contato com aquele mundo que deixei para trás. E até tenho escrito um pouco, ensaios de textos que o tempo me mostrará a que servem. E tenho este blog: às vezes exercício, às vezes divã, às vezes bobices, às vezes nada.
Não há que se falar em desperdício porque cada aula dada, cada dia em Londres, cada teste feito, cada linha lida na pós-graduação, tudo valeu muito a pena. Estudo para mim é prazer e não necessariamente um caminho que trilho para atingir uma determinada meta. Eu faria outra vez porque acredito nas minhas escolhas. Mas há dias em que me sinto pouco produtiva, emburrecida, desinformada. Por outro lado, não posso ser hipócrita e afirmar que meu emprego não me traz nenhum benefício, afinal tenho segurança, noites livres, bom salário. E mesmo que por vezes a sensação de acomodação seja assustadora, admito que outras realizações possíveis no cenário de nossa família são por demais excitantes.
E há também os momentos em que tudo é só alegria, como poder chegar em casa e fazer qualquer coisa com minha família, jantar sem pressa, assistir desenhos ou bater papo, curtir a primeira infância de nossas crianças que é tão curta e tão intensa. Então vou vivendo, às vezes em crise, às vezes tão feliz que nem percebo que há algo estranho. Porque é estranho não aplicar quase nada do que aprendi em tantos anos, fazer algo em minhas horas de trabalho que eu jamais incluiria em qualquer lista de possibilidades em minha infância e adolescência.  
Nesses últimos anos passei a pensar que´o trabalho não precisa ser o centro de nossas vidas, pode ser uma fonte de renda para que outros objetivos ocupem o centro. Tenho seguido por esse caminho, não sem crises, como vocês podem ver. Até quando, é impossível dizer. Seriam dois anos, já são seis. Sigo em frente, caminhar é preciso. Em um país com tantas desigualdades e desafios sociais, reclamar de meu emprego soa criminoso. Mas quero olhar de frente para meus questionamentos e dialogar com honestidade com minhas crises. Somente assim consigo lidar com elas e somente assim sou eu mesma, ainda que longe das baleias e dos tubos de ensaio.

15 comentários:

Bárbara Reis disse...

Eu me vi tendo essa mesma crise daqui a alguns anos. Tenho 20 anos, sou técnica em Design Gráfico e estou me formado na faculade, no curso de Publicidade. e estou na crise do 'é isso mesmo que eu quero?', e do 'será que eu vou conseguir?'. Eu acho que eu nunca sonhei assim como você, eu fui seguindo os cursos conforme a vida ia me levando, e me direcionando. Meu pai me ensinou, que aquele que não sabe o que fazer, é o que melhor se sobressai, porque faz um pouco de tudo. E eu fui seguindo isso... fazendo todos os cursos possiveis. Trabalhando com coisas diferentes. Trabalho numa locadora atualmente. Achei seu blog no blog da Lola, porque ela escreve sobre filmes. Talvez você esteja frustrada porque esperou alguma coisa... 'bem aventurados os que nada esperam, pois não serão decepcionados'.
Mas tbm acho que nos acomodamos a situações confortáveis, e deixamos algumas coisas pra lá.
Não sei mais o que te falar, afinal eu só tenho 20 anos... mas acho que o meu maior sonho é ser mãe. O trabalho, como você disse, é só um meio de me sustentar e conquistar as coisas que almejo.

Beijão! Adorei o texto!

Rita disse...

Oi, Bárbara!

Te conheço do blog da Lola, sempre leio seus comentários por lá. Na verdade, aqueles textos que a Lola escreveu recentemente sobre o papel do trabalho em nossas vidas foram a gota d'água que faltava para eu escrever sobre isso aqui. E agora estou pensando na dica do seu pai... E trabalhar em uma locadora me parece muito legal: eu e meu marido chegamos a pensar em montar uma tempos desses, mas desistimos, faltou grana, tempo, sei lá. :-)

Ah, quanto ao seu sonho de ser mãe, sou suspeitíssima para falar, mas já vou te dizendo que a vida ganha outra dimensão, maravilhosa. Mas acho que deve ser no tempo certo, sem dúvidas, porque a galerinha precisa de muuuuita atenção!

Muito obrigada pela visita, espero que volte sempre.

Bjos!!
Rita

lola aronovich disse...

Ah, as duas aí em cima, falando meu santo nome em vão!
Então, Rita, uma delícia ler o seu relato, muito bem escrito, por sinal. É bom ver as coisas de modo linear porque dá pra entender melhor. Blog é assim, né? A gente pinça um pouquinho da vida da autora num post, mais um tantinho num outro, e começa a formar um quebra-cabeça. Mas sempre tem alguma peça faltando. E agora, que sei mais sobre suas origens acadêmicas, seu emprego, sua família, parece que te conheço melhor. Claro que não nos conhecemos direito, mas acho que essa IMPRESSÃO é importante num blog que acompanhamos (quase) diariamente.
E a gente realmente tem bastante coisa em comum, fora ter feito mestrado e doutorado na mesma instituição, o amor pelo inglês, ter querido ser freira, a paixão por pitbulls... Ha ha, essa última não! E tenho que parar de chamar o Roque de pitbull, eu sei.
É muito interessante como a gente não quer as mesmas coisas pra todas as nossas fases da vida. Somos mutantes. Por isso, é besteira querer convencer um adolescente de 17 anos (ou mesmo uma jovem como a Barbara) que o que for escolhido agora deverá ser seguido até o fim. Não é, dá pra mudar. TEM que mudar, porque nós mudamos.
Vc está numa fase diferente hoje do que estava no doutorado. Ter filhos muda tudo, tenho certeza (apesar de não tê-los). Nada impede que, mais tarde, quando os filhos estiverem maiores, vc volte a trabalhar com pesquisa. Eu já falei em algum dos meus posts que, apesar do doutorado, não tenho certeza que quero mesmo a vida acadêmica. Mas estou disposta a tentar. Se eu gostar eu fico, senão... Mas o bom é poder ter escolhas, certo? Abração!

Rita disse...

Oi, Lola

aviso aos transeuntes: o sistema de comentários do blogspot anda maluco, então o comentário da Lola aí em cima, por exemplo, só aparece para mim se clico no título do post, mas não quando acesso a primeira página do blog, vai entender. Bom, então não me achem louca, tem um comment da Lola aí, tá? Bom, tem e não tem.

Mas, como eu ia dizendo, oi Lola. Obrigada pela visita, venha sempre. Pois é, aos poucos a gente vai se mostrando no blog e os leitores vão fazendo suas costuras... é bem assim mesmo. E concordo muito com você quando diz que o bom é ter escolhas. Sempre penso nisso, que se o bicho pegar pra valer, volto às aulas de inglês, meto a cara nas traduções novamente. O importante é me manter em contato com o idioma, não enferrujar a língua. E blogar, que esse negócio vicia, menina!
Bjs!!
Rita

Sinara disse...

Rita,

Vou comentar com a mesma sensação que você teve... Talvez apague, talvez fique... A escolha é sua.
Em primeiro lugar, tantos anos de amizade e não sabia da sua 'fase-freira'!!!!!! Que comédia...
Segundo, concordo em gênero, número e grau com seu comentário "felicidade a dois só se sustenta com amor mútuo e que, se não for assim, a solidão é muito melhor."
Outro, nem tanto: você precisaria de uns 05 posts pra contar sua história com o Ulysses... :-) Na verdade, vale um livro!
Quanto as escolhas, a academia, os estudos, pagamos um alto preço por cada escolha, e nenhuma é completa, perfeita, infalível... Sempre haverá momentos que vamos pensar naquela outra estrada que não trilhamos... Isso me lembra um dos meu poemas favoritos:

Robert Frost (1874–1963)

The Road Not Taken

TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I— I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Sim, minha amiga, diferente de você, minha cabeça sempre esteve concentrada em livros, aulas, alunos e finais de semana em cima de exercícios, provas para corrigir, aulas para preparar e outros tantos, tantos trabalhos que a academia exige... AMO!!! Mas, obviamente, há momentos que também adoraria ter todos os findes só pra mim, para cinemas, papos com amigos, dormir até mais tarde ou, simplesmente, fazer NADA... :-)
Pagamos o preço por nossas escolhas e temos todo o direito de lamentar às vezes; e sentir o prazer que nossas escolhas nos proporcioam outras vezes. Enfim... Somos humanos... :-)
Vou falar uma coisa que NUNCA disse antes, por medo de influenciar uma escolha que é só sua: Na minha opinião, você fez a escolha CERTA PRA VOCÊ, minha amiga... Estais com os amores da sua vida, tens o momento certo de trabalhar e o outro para se dedicar só a eles... Outras escolhas, com certeza, não proporcionariam esse benefício, esse luxo! Sim, luxo... Ter horas para passar com os filhos e o marido amado é um luxo... APROVEITE CADA SEGUNDO! Não se arrependa... Você sabe muito bem o que estaria fazendo nos findes e nas suas noites e muitas madrugadas se tivesse 'taken the other road'... :-)
beijos e saudades...

Rita disse...

Siiii!!!

Se o blogspot apagar esse comentário seu, mudo o blog de plataforma!! :-) Thank you sooo much. É engraçado como, às vezes, em meio aos meus pensamentos confusos, penso em sua carreira, a mesma que sonhei para mim por um tempo, e sinto uma coisa boa em saber que você está lá. Depois de tanto tempo trilhando juntas caminhos tão semelhantes, é como se um pedacinho de mim estivesse, sim, no mundo acadêmico. Se você me permite, that is. E você sabe que uma das melhores coisas dos tempos da pós-graduação foi ter você por perto para dividir cada conquista, cada texto da Christiane Nord.. hahahahaahahha!! kidding, (about Nord), but true about the rest.
;-)
Adorei o poema, achei a minha cara, né não?! Vai virar mantra... Obrigada pela força, pelo carinho, pela amizade. E se, qualquer madrugada dessas, você quiser trocar uma ideia sobre um Toury ou Venuti da vida, liga, tá? Vou adorar!
Bjs
Rita

Márcia disse...

Querida Rita,

Todo mundo tem dúvidas.
Mas acho que você tem o melhor dos mundos pois tem um trabalho que te garante a tão almejada estabilidade financeira, encontrou e partilha sua vida com o homem que ama e além disso tem dois filhos lindos e saudáveis.
Pedir mais?
Agora não.
Espere as crianças crescerem um pouco, ficarem mais independentes e seu espaço pessoal vai aparecer naturalmente.
Curta cada segundo com seus pequenos pois eles crescem rápido demais...
Beijos de quem te adora e te admira muito.

Márcia disse...

Ah, adorei o carimbo!
:-)

Angela disse...

OK, ja conversamos sobre isso pessoalmente e telefonicamente. Mas como ja fazem dois anos desde a ultima vez que papeamos sobre o assunto, podemos faze-lo agora blogmente. Nao sei quais partes dessa estoria ja dividi com voce…

Sou passionate alem de idealista. Que combinacao! Quando prestei vestibular, aos dezesseis anos, queria mesmo ser arqueologa. Meus pais estavam separando, ao inves de estudar eu dormi o terceiro ano cientifico inteiro, e apesar dos incentivos do meu pai, resolvi nao me mudar sozinha para o Rio, (aonde se encontrava uma das duas faculdades que ofereciam o curso no pais), no meio da minha (tambem) crise emocional, e para ser professora de historia como um amigo neto de arqueologa testemunhou, e nao era o que eu queria. Devido ao meu amor pela matematica e pelas artes (mais uma vez, que combinacao!) escolhi computacao e arquitetura (segunda opcao) e passei para a primeira. Adorei computar por ai, mantive uma bolsa do PET, o que obviamente significava que ia seguir como pesquisadora. Mudei para ca, e no dia em que ia me encontrar com o coordenardor do mestrado da universidade de minha escolha para acertar o meu ingresso, recebi a noticia sobre problemas com a papelada da imigracao (apesar de eu ter preenchido tudo com a ajuda deles proprios!). A vida ficou suspensa por um ano, durante o qual arranjei um emprego na area, esperando que eles decidissem o meu destino. Foi assim que me distanciei dos meus ideais. Mas com o tempo formei outros. E os alcancei.

Trabalhava doze horas por dia feliz da vida. Nao havia nada que eu preferiria estar fazendo mais do que construir technologia de ponta na GE. Mas chegou a hora de ter filhos.

Estava eu gravida do meu primeiro filho, ainda na GE mas ja aceita em um novo emprego em uma companhia de seguros aonde eu ia trabalhar a metade das horas, receber um quinto da satisfacao profissional, e ganhar cinquenta por cento mais. Era exatamente o que precisava na minha nova fase de mae. O telefonema "incomodo", a noite, no meio da minha arrumacao de malas para ir de ferias para o Brasil, foi do meu chefe. Me surpreendeu com a noticia de que eu tinha (ai meu coracao) sido escolhida para liderar o projeto que se encaixaria gracefully and perfectly nos meus sonhos. A GE tinha ganho o contrato para o projeto ferroviario gigantesco da China, dezenas de milhoes de dolares seriam usados para construir tudo, do zero, do RM&D no setor de engenharia. Agradeci, quando voltasse conversariamos. Voltei e dei meu aviso previo. Aquela hora era a de dedicar toda a minha energia e paixao a algo diferente.

Quatro anos depois, nem sinto a necessidade de voltar a GE, chefiar time estrela e ser parte de projetos de engenharias mirabolantes. Sinto uma necessidade, tao intensa que se torna fisica, de passar cada minuto possivel com meus filhos. Mostrar lhes o mundo, ensina-los sobre a vida, aprender com eles, zelar pela sua saude e sagrada integridade fisica, entrete-los, faze-los feliz. Nurture them.

As mega crises existenciais que acompanham a maioria dos imigrantes, continua firme no meu coracao, mas quando meu marido finalmente se encontrou pronto para voltar para o Brasil, tambem agradeci. Aqui esta melhor para criar meus filhos. O mar tropical, tambem, pode esperar. Quem sabe um dia. Ou quem sabe um dia, tambem, ingresso na pos graduacao de arqueologia, ja que o destinho me plantou a minutos de uma melhores universidades no ramo do pais. Quem sabe nao. Nao sei quais os twists do destino vao mudar meu caminho. Meu gol eh tentar seguir com serenidade para aonde a vida me levar.

Nao se esquece de uma das mais dificeis praticas da yoga: Surrender. Se rende seja la ao que voce precisa se render (so voce sabe o que eh). E fica em paz!

Um grande beijo e desculpa mais uma vez por outro comentario tao longo! Your fault for stirring up my emotions. :)

Rita disse...

Marcinha, querida

você sabe que não "peço" mais. Mas é inevitável não nos questionarmos sobre o rumo de nossas vidas profissionais quando fazemos determinadas escolhas que no passado nos pareceriam absurdas, concorda? Acho que tenho consciência das maravilhas que compõem minha vida atualmente e não mudaria uma vírgula - e até o emprego que me causa tantos questionamentos me reaproximou de Ulisses e me trouxe novos amigos valiosos - you included, dear. Pedir mais? Eu pediria saúde para a minha mãe, não mais.

Anginha, este blog é nosso, saiba que além de comentários você pode escrever guest posts, é só me dizer que quer, tá bom? A Sinara disse aí em cima que minha história com Ulisses daria um livro, já falamos sobre isso, ne? E o que dizer da sua saga com Pete, então? Esses nossos universos paralelos com suas voltas imensas, encontros improváveis e tough decisions fazem de nós o que somos. E eu adoro. E acho que você sabe disso, mas talvez eu nunca tenho dito diretamente: volta e meia, quando as dúvidas martelam minha cabeça, lembro de sua difícil decisão em relação à GE e penso que não estou sozinha no barco, e que priorizar os filhos é o caminho mais fácil para a construção de um mundo melhor. E que deve ser mesmo o mais sensato, afinal foi o seguido por você. E aí sei que está tudo certo. Você é uma importante referência para mim - sem pressões, sinta-se à vontade para mudar para a China, não vou junto. Mas sempre tenho a sensação de que caminhamos juntas, a milhas e milhas de distância. Coisa doisa, né?

Bjs e obrigada por nos brindar com suas visitas.
Rita

Anônimo disse...

Ritinha... temos um colega que tem uma excelente frase para aplacar essas crises: "eu trabalho para viver, não vivo para trabalhar". Penso com força nela quando bate aquela angustia por resultados práticos no nosso trabalho. Minhas crises vem de "lutar contra os moinhos de vento"...
Tem uma outra, clássica: "o departamento é meio de vida, não de morte, tchê!" hehehe, ganha um prêmio se advinhar de quem é essa?
Amiga, curta a vida, amor, filhos, amigos, pois existe muita vida além do edificio da Beira-mar.
Bjk, Sara

Vivien Morgato : disse...

Rita, eu tenho tanto, tanto que falar sobre esse post, que acho que vou te mandar um email.
Já estou imediatamente de linkando: junto com a Lola, vc foi a melhor descoberta dos últimos tempos.
Beijos.

Rita disse...

Sariiiinha!! Não suma assim!! Adoro seus comentários, seus insights. Putz, não consegui fisgar de quem é a frase... :-( Mas acho que é deu um gaúcho!! hehehe ou gaúcha.. é sua??

Estou te esperando em Floripa... definitivamente, espero!
Bjokas!

Vivien, vou aguardar seu e-mail. E considerando que tenho o blog da Lola em altíssima conta, você me fez um elogio e tanto. ;-)

Seja muito bem vinda! A estrada é sua. E boa caminhada!
Abração,
Rita

larissa disse...

Definitivamente esse foi o post mais comentado e mais emocionante. Sempre achei estranho esse abandono da vida acadêmica, agora entendo porque. E me vejo nas minhas próprias crises, dos 20 anos, ainda fazendo minhas escolhas e pensando como elas refletirão no futuro. Coincidentemente estou entrando nesse universo agora, to começando minha primeira pesquisa na iniciação científica, olha mais uma vivendo de uma modesta bolsa do CNPQ. Será que vou seguir esse rumo ou vou me deparar com outras oportunidades.

Rita disse...

Oi, Larissa. Dizem que conselho bom não se dá, né? Mas vamos lá: entregue-se ao que você ama. Estude muito, invista em você mesma plantando algo que ninguém pode tirar de você. E vá vivendo uma fase de cada vez. Não tente saber agora como será sua vida daqui a 10, 15 anos. Planeje, faça e vá vivendo. Oportunidades para uma pessoa como você? Virão aos montes! É só estudar e seguir espalhando esse sorrisão por aí! Porque conhecimento é bom, mas o mundo precisa de astral bom também.

Beijos!
Rita
p.s. Daqui a pouco a gente se encontra!

 
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