Gasparzinho




Uma rebimboca? Uma parafuseta? Um anel?

Lendo o cômico post do Bruno Medina sobre as desventuras de quem precisa dos serviços de uma oficina, viajei no tempo e voltei aos dias em que eu circulava a bordo de Gasparzinho, meu chevette branco, ano 1986, movido a álcool. Humm... que saud... não, nem brincar eu consigo. Não tenho saudade nenhuma. 

Como sou praticamente uma desmemoriada, não consigo lembrar durante quanto tempo conduzi aquele carro, digo, aquele meio de locomoção, mas certamente foi tempo demais. O chevette era o que cabia no bolso de então, não devo reclamar tanto, mas hoje imagino que se eu tivesse esperado mais alguns meses e guardado o dinheiro que doei às (várias) oficinas naquela época, poderia ter comprado coisa melhor, quem sabe um carro, em pouco tempo. Mas os dois ônibus para a faculdade, as demoras nos pontos de ônibus, os intermunicipais para visitar minha mãe nos finais de semana, tudo me levava a acreditar que Gasparzinho era um bom companheiro.

E é claro que, como primeiro carro, digo, como primeiro meio de locomoção próprio, Gasparzinho me proporcionou aquela sensação insubstituível de independência, de ser dona do próprio nariz, poder acordar um pouco mais tarde, não depender de caronas para ir à balada, essas coisas boas. E ele era mesmo bonzinho em dias de sol, quase não quebrava. Já nos dias chuvosos o bom e velho busão certamente seria melhor negócio. Não fosse minha teimosia (não tem sentido ir de ônibus se eu tenho um "carro"), não teria passado tanto sufoco por causa do pavor que Gasparzinho sentia quando a chuva molhava sua enferrujada lataria. A palavra engasgar ganhou um novo significado para mim naqueles tempos em que ligar o carro implicava em ter de se lidar com uma coisa chamada afogador (olha o nome!) e quase sempre resultava em frustrações, telefonemas para justificar atrasos e mau humor. E ônibus.

Se naquela época eu tivesse anotado os nomes de todas as peças que precisei substituir para prolongar a sobrevida de Gasparzinho, este post seria bem maior, mas vocês são sortudos e não lembro mesmo. Mas asseguro que foram muitas e as idas quase semanais às oficinas me revelavam um mundo obscuro onde as pessoas falavam um idioma exótico e todo mundo parecia conhecer meu meio de locomoção melhor do que eu (e conheciam mesmo). A julgar pelas parcelas do meu salário que eu depositava regularmente naqueles muquifos com cheiro de óleo, bem que eu deveria ser muito bem tratada e recebida com cafezinho e biscoitos. Mas é claro que isso não acontecia e eu invariavelmente tinha a impressão de que os mecânicos me recebiam com o pensamento "afe, de novo!".




Mas Gasparzinho seguiu seu rumo e foi substituído pelo meu possante Gol 1990 - movido a gasolina, ai que bom. As visitas às oficinas passaram a ser mensais (olha, como melhorou!) e além da barra de direção que simplesmente se soltou certa vez, não consigo lembrar de grandes transtornos mecânicos (certamente houve, mas não lembro quais). O grande atrativo do Gol ficava mesmo por conta do toca-fitas (depois eu explico aos mais novos o que é isso). Um amigo de carona certa vez comentou que gostaria muito de ouvir Renato Russo no som do meu carro. Perguntei o porquê daquilo e ele me respondeu que tinha curiosidade em saber como soaria a voz do Renato, já que qualquer cantor ou cantora já soava ali como se fosse o Renato cantando em seus tons mais graves... que beleza, né?

Hoje em dia deixo descaradamente os cuidados com nosso carro a cargo de Odisseus. O preço pode ser alto caso eu venha a precisar tomar alguma decisão sozinha em uma determinada situação que envolva oficinas ou trocas de óleo. Mas tenho apelado para a sorte e torço muito para nunca mais ter de travar um diálogo com um mecânico que fala o que ele sabe que não vou entender, enquanto eu olho para ele com cara de burra e finjo que a conversa faz sentido e, finalmente, saio da oficina mais pobre e igualmente desinformada sobre o universo da mecânica dos motores. Não, não, obrigada, pode ir você meu amor. Eu fico com as crianças. E também já aprendi que a necessidade faz a gente se mexer e que, se preciso for, lá estarei firme e forte encarando os mecânicos novamente, como já fiz tantas vezes. Mas se puder, passo a vez.

Às colegas feministas de plantão: não me importo com a supremacia masculina nas oficinas. O troço é muito chato e carro é apenas um meio para me levar de um lugar para outro; para mim, nem assunto é (salvo neste post, obviamente). Deixemos que eles consertem e discutam sobre as rebimbocas. A gente dirige.

;-)

1 comentários:

Anônimo disse...

Casamento é maravilhoso, nos trás muitas coisas boas, e uma delas é deixar os cuidados do carro a cargo do marido. Não é meu amor!?
beijos,
Ju

 
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