Exercitando a empatia



A primeira coisa que me passou pela cabeça ao ler a proposta do Alex Castro em seu blog foi "mas já faço isso, sempre". A segunda foi "será?".

A proposta é fazermos um "exercício de empatia" no qual o primeiro passo consiste em nos darmos conta de todas as pessoas à nossa volta. Bom, realmente não posso afirmar que sempre me dou conta de todos que cruzam meu caminho todos os dias - isso me parece praticamente impossível - mas certamente não estou no rol dos que não enxergam além de seu próprio umbigo, pelo menos não mais, desde que me tornei uma pessoa adulta (infância e adolescência não contam, certo?). Mas, de novo, será?



Relutei um pouco antes de entrar na brincadeira porque a proposta em si me pareceu um pouco absurda. Por mais que eu me esforce, não conseguiria "me dar conta" de todo mundo que venha a passar pelo meu campo de visão, não da forma que o Alex propõe (reconhecendo, conscientemente, que cada uma das pessoas é um ser tão complexo quanto eu), ao mesmo tempo em que, embora não pare para observar cada um deles, sempre considero (caso eu venha a pensar nisso) que as vidas de todos aqueles desconhecidos valem tanto quanto a minha. Então, inicialmente, a coisa toda me pareceu meio sem propósito. Mas enxugando um pouco e substituindo "todo mundo" por "todo mundo com quem me relaciono, ainda que superficialmente", vá lá.

É que alguma coisa no texto do Alex, ou talvez na gravura que ele escolheu para ilustrá-lo, fez-me levar em conta a possibilidade de aprimorar um pouco aquilo que eu acho que já faço e me deixou com vontade de participar da brincadeira. Se vai contar para o exercício proposto, ele vai decidir, mas ainda que não sirva a esse fim, acredito que terá um certo valor para mim. 

A tal gravura mostra algumas pessoas em um vagão de metrô, todas com o mesmo pensamento, cada uma julgando-se o único ser com consciência do pedaço e enxergando todos os outros como autômatos desalmados. É, acho que foi isso que me pegou. Porque não é raro eu ter essa mesmíssima sensação de que as pessoas ao meu lado não estão nem aí para os que cruzam seus caminhos, enquanto, como vocês já viram, sigo julgando-me uma pessoa consciente do valor daqueles que me cercam. E a figurinha do post do Alex me fez pensar na impressão que cada uma dessas pessoas teria de mim, a esse respeito. Porque o fato é: eu até penso nelas, mas será que elas sabem disso? Será que alguém que passa por mim consegue se dar conta de que eu o/a percebo como alguém de igual valor? E que diferença isso faz? E aí é que está: pode fazer toda a diferença.

Daí que agora estou me questionando sobre quão consciente realmente sou em relação às pessoas que me cercam. Não vou tão longe como propõe o Alex - bastou uma ida ao shopping center pela manhã para perceber que é mesmo uma tarefa, para mim, inviável e, honestamente, meio descabida. Mas refletir sobre meu relacionamento diário com as pessoas em meu trabalho ou na escola do meu filho, por exemplo, parece ser algo bem válido. Porque por mais que eu tente não coisificar os que me cercam, não é raro passar dias com a atenção totalmente voltada para mim mesma. Talvez com a intenção de manter-me reservada - odeio buchichos e fofocas - acabe caindo na cilada do egocentrismo e deixando de lançar aquele segundo olhar ao colega da mesa ao lado. O fato é que acho que, a partir da próxima segunda-feira, vou ter a forte impressão de que aquele colega certamente me acha uma pessoa indiferente e não a consciente que julgo ser.

Então a parte que me cabe da primeira fase do exercício proposto pelo Alex é refletir sobre essa tal consciência que acredito ter e sobre como posso torná-la evidente. E não acho que isso invalide o jogo (viu, Alex?) já que nosso mundo é mesmo construído a partir das microrrelações. Não é o olhar que lanço à multidão que me define, mas sim a forma como modulo minhas relações com aqueles com quem de fato interajo. E para os políticos o exercício também seria válido, já que acredito que aquele que não é arrogante em um nível pessoal dificilmente o será no nível social.

E é justamente essa outra camada da proposta do Alex que pode otimizar os efeitos da brincadeira: aquela que extrapola o lado pessoal e alcança o social. Talvez seja uma boa parar para pensar que a falta de empatia está na base de muitas atitudes antissociais com as quais nos tornamos estranhamente acostumados. A falta de identificação com o outro, o não enxergar cada um como um ser que detém o mesmo valor pessoal que a gente, pode ser o que nos transforma em pessoas individualistas, egocêntricas, automáticas, arrogantes. Em um nível mais patológico, estaria na raiz de atitudes antissociais, como desviar dinheiro público (um excelente exemplo de falta de empatia com o outro que está lá na ponta da corrente e que não vai receber atendimento médico no hospital que não vai ser construído) ou sonegar contribuições previdenciárias de empregados (falta de empatia levada às raias da arrogância - sou melhor - e do egoísmo - é tudo meu).



Então estou na brincadeira, se o dono dela aceitar minhas ponderações, e convido os transeuntes desta estrada a um diálogo sobre nossos exercícios diários de empatia. Com que frequência largamos nossos próprios problemas e dedicamos tempo ao outro? Não falo dos amigos próximos, porque isso é mais fácil. Mas será que andamos exercitando a empatia social, aquela que nos leva a ver todos como iguais e impede a arrogância? Ou nos julgamos tão especiais e distintos que nem sequer percebemos as sombras que cruzam nosso caminho todos os dias?

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Mais sobre isso aqui.


2 comentários:

Nakereba disse...

Continuo com o pé nesta estrada, mas sem tempo de parar no acostamento pra comentar...:)

Rita disse...

Pois é, ando sentindo falta de seus comentários. Mas tudo bem, uma hora você sossega e aí a gente papeia.
Bjs.

 
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