Esquisitices gastronômicas do hexágono do tempo






A vida na casa da minha mãe passa lentamente. Dá tempo de brincar com as crianças, visitar a tia, ler um pouquinho, cochilar, papear, ler o blog e, principalmente, comer. Comer muito. Não sei se pelo fato de a cozinha estar estrategicamente localizada entre a sala e os quartos que ficam nos fundos da casa (onde eu e minha trupe nos instalamos), mas a verdade é que tenho passado boas horas dos últimos dias acampada na mesa hexagonal da cozinha da minha mãe. Sim, pessoas, a mesa da cozinha da minha mãe é hexagonal. Achei o fato digno de registro - ou alguém aí conhece alguma outra cozinha com mesa de seis lados?

Bom, mas o que importa não é o formato da mesa (a não ser que você tenha o azar de se sentar em frente a uma das pontas do hexágono), mas o que fica em cima dela. Desde que chegamos há alguns dias tenho revisitado meu passado gastronômico e me deliciado com pratos e guloseimas que só como quando estou aqui. E não adianta fazê-los em outro lugar, não combinaria. Tem de ser aqui.

No jantar de hoje, por exemplo, comemos arroz de leite com carne moída. Humm... Para os não nordestinos, explico que arroz de leite não é um prato doce, como o nome pode erroneamente sugerir, mas um prato salgado feito com arroz bem ligadinho (nada de grãos soltinhos aqui), cujo acompanhamento tradicional é a carne de sol. Mas eu prefiro a carne moída e devo dizer que Arthur adorou também: foi apresentado à iguaria e, de cara, bateu dois pratos, meu pedreiro. Amanda, mais enjoada, comeu quatro colheradas e correu para os sucrilhos. Mas a pequena não esnobou a boa e velha geleia de mocotó (aquela do copinho) que também ressuscitei por aqui. Ela é enjoada, mas não é boba.

O cardápio de minha viagem ao passado tem incluído galinha caipira com o sangue da infeliz penosa cozido todinho para mim - na infância os miúdos da galinha eram motivo de muitas discórdias e o sangue, em particular, gerava disputas acirradíssimas. Mas juro que fui generosa no almoço do domingo e dividi o sangue com meu filhote - que, é claro, adorou. Viram, dou sangue pelos meus filhos, hehe. Também não costumo ver os acompanhamentos da galinha caipira por aí: nosso arroz "de festa" (ou arroz "de graxa") e o feijão de corda (já falei dessa combinação aqui) também estiveram presentes no hexágono das lembranças no domingo passado e geraram muitas repetições.

Se eu dependesse apenas do olfato e do paladar para me situar no tempo e no espaço, todas as tardes juraria estar de volta aos anos 80/90, quando o aroma do café da Rosa enche a casa e, sem qualquer chance de resistência, seguimos flutuando, puxados pelo nariz, rumo ao templo hexagonal da comilança. O pão francês vem da mesma padaria onde fui tantas vezes por tantos anos e eu imediatamente me encarrego de lambuzá-lo generosamente com manteiga da terra, esse que é, de longe, o sabor que mais me remete ao passado. Algumas coisas não mudam nunca, e eu continuo completamente rendida à essa delícia que, para mim, supera de longe qualquer requeijão ou patê.

E como se eu já não estivesse completamente envolta nessa atmosfera um tanto saudosista, uma ida ao supermercado me rendeu mais um passeiozinho pela minha memória, digamos, gustativa. Ali, quase escondido na prateleira mais baixa da seção de biscoitos, encontrei um saco de uma bolachinha até bem sem graça, mas que era figurinha fácil em nossos lanches das férias de nossa adolescência. Não sei quem inventou a moda, mas adorávamos comer a tal bolachinha frita em generosas quantidades de margarina, o que a deixava mais salgada e crocante. Comíamos como quem come pipoca, assistindo a Curtindo a Vida Adoidado ou a qualquer outro sucesso da Sessão da Tarde. Hoje Rosa fritou as tais bolachinhas e mandamos ver. Arthur, claro, gostou bem.

O queijo de coalho deixo para o Ulisses (e o Arthur que, advinhem, também gostou), o cheiro forte já me basta.

Logo seguiremos viagem para a casa do meu sogro e as lembranças culinárias do Ulisses. E eu fico me perguntando se, no futuro, o Arthur e a Amanda vão comentar: ah, a minha mãe.. queimava todos os biscoitos... Fazer o quê, né? Pelo menos eles terão o peixinho do pai para lembrar com alegria.

 

5 comentários:

Angela disse...

HHHMMMM... Nao vejo a hora de comecar a comilanca em poucas semanas.
Feijao de todos os tipos e cores, requeijao, manteiga da terra, tapioca com manteiga da terra!, pao frances fresquinho, queijo de coalho e de manteiga, doces e compotas, tortas, mousse de maracuja, frutas tropicais, sucos fresquinhos e claro, muitos e muitos e muitos salgadinhos e docinhos! A barriguinha de 4 meses vai virar de 7 meses rapidinho.
Pete vai devor todos os coracoes de galinha que existem la (EEECAAAAA!!!!!)
Enquanto isso, Max vai estar comendo... almondegas, nuggets de frango, fritas, suco de maca e um paozinho. :( Todo dia... tadinho do meu branquelinho.
Julinha? vamos ter que esperar para ver.

Rita disse...

Oi, Anginha, hoje foi a vez dos cajus fresquinhos, da carne de côco verde e do abacaxi doce, apesar de branco. Vida difícil.

bjs
Rita

Paulo disse...

Ai, ai! Caju no pé? Tudo de bom! Manteiga da terra é o mesmo que manteiga de garrafa? Grossa e cremosa?? Queijo de coalho! Aff! Tô indo antes que comece a engordar só de ler esses relatos!

João disse...

Olá Minha Jovem (conhece alguém que fala assim né...?)

Fico feliz que suas férias estão sendo ótimas e relembrando memoráveis tempos e coisas de sua infância. É muito bom esse retorno ao mundo das boas lembranças da infância. Só pra constar. Também tive uma mesa hexagonal, mas minha alegria com ela durou muito pouco. Tive que optar em transitar normalmente da cozinha para o quarto, daquele meu primeiro e pequeno apartamento, ou ter que pular sobre ela ou rastejar por baixo pra chegar ao quarto. Passei pra frente, hoje ela ainda existe na casa de amigos e lá saboreamos muitas guloseimas. Até breve...

Rita disse...

Oi, Joãozinho!!

Que bom te ver por aqui. Pois é, lembro que quando minha mãe encomendou a tal mesa eu gostei bastante, mas hoje em dia sempre fico prestando atenção nas vítimas que sentam em frente às quinas... mas só enquanto o pão com manteiga não chega à minha boca; aí esqueço tudo.

Bjs.. até breve!

 
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