Diário de Férias - Dos Patos

 


Sempre que volto a Esperança, lugar onde passei toda minha infância e quase toda a adolescência, viajo no tempo. Na maioria das vezes, limito-me aos cheiros e cômodos de minha antiga casa, o lar de minha mãe até os dias de hoje. Quase sempre chego, percorro as duas ou três ruas que separam a entrada da cidade do meu destino, entro em meu antigo endereço e de lá não saio até o dia do retorno. Há muito perdi os laços com o restante da cidade e, além de minha mãe, sinto-me conectada aos familiares queridos que ainda moram aqui e uns poucos e valiosos amigos. Não há más lembranças ou rancores, apenas o afastamento natural experimentado por quem já se mudou daqui há tantos anos. A viagem no tempo normalmente ocorre em meio aos quartos da casa, os móveis antigos, as fotos espalhadas por cada canto, antigos hábitos culinários.

Mas hoje fui um pouquinho mais longe. Arthur e Amanda, felizes da vida com a companhia do priminho queridíssimo, coroaram um longo dia de bagunças descalças e descabeladas com um passeio ao parquinho que sempre compõe o cenário das comemorações em homenagem à padroeira da cidade. Comecemos por definir "parquinho": um conjunto de brinquedos, digamos, beeem usados, com instalações elétricas aparentes e temerárias e grau de segurança melhor-nem-pensar. Isso aos meus olhos de adulta, claro. Aos olhos das crianças que conduzíamos pela mão, o lugar era um parque de diversões, ponto. Respiramos fundo, selecionamos os brinquedos que julgamos capazes de não explodir, cair ou desmontar na próxima hora e compramos meia dúzia de ingressos.

Começamos pelo pula-pula e ficamos ali torcendo para que eles pulassem bem no centro da cama elástica de modo a não quebrar o nariz nas barras de sustentação, de ferro, desprovidas de qualquer revestimento. Minha resistência durou 20 segundos até que transferimos as crianças ao brinquedo vizinho que dispunha da luxuosa proteção. De lá seguimos para os patinhos, ah, os patinhos... sentei com minha pequena no enferrujado e descascado penoso e, aí sim, visitei minha infância novamente. Lembrei como eu adorava dar voltas sentada naquele pato (na verdade, são cisnes, mas sempre chamei de patinhos, deixemos assim), subindo a pequena elevação do trilho e me sentindo tão sortuda por ter enfim chegado minha vez - as filas eram sempre longas. Vi a alegria no rosto do Arthur, que seguiu ao lado do primo no primeiro pato da fila, aos gritos, feliz da vida. É,
infância é mesmo coisa simples. Aposto que meus olhos também brilharam anos atrás; hoje, foi só mico, mas por uma boa causa.

Depois de rodar nos patos, rodamos nos cavalos. Rodamos, rodamos, rodamos, e os coitados dos cavalinhos, que nem fazem mais o emocionante sobe-e-desce, entraram para a história como o brinquedo mais sonolento do pedaço. Encerramos nossa aventura a bordo dos carrinhos bate-bate, cuja corrida foi interrompida por umas faíscas malucas que surgiram bem no cabo guia do carrinho pilotado por Ulisses e Amanda. Deu. Fomos para casa. E foi só anunciar que o passeio pelo parque da ferrugem tinha acabado para Arthur, fã do Beto Carrero, abrir um berreiro daqueles e chorá-lo todinho até o fim. Tô falando. Crianças.

Eu continuo me empaturrando de manteiga da terra. Ulisses pretende comer todo o estoque de queijo de coalho do Nordeste em uma semana. Mas está tudo absolutamente liberado. Para acompanhar o pique da tropinha, toda fonte de energia tá valendo.


7 comentários:

Ana disse...

Rita, voltar ao lugar da infancia da gente nao tem preco ne? Eh ate dificil as vezes descrever o quanto o lugar traz lembrancas da nossa vida.
Eu sinto assim quando volto ao Brasil, em particular a pequena cidade de Tiete (interior de SP). Meus pais sao de la mas moraram a vida toda em SP, aonde eu tbem morei. Mas desde q eu nasci q todo santo final de semana nos iamos p/ Tiete, passar o final de semana com as avos. A casa da minha avo era p/ mim "o lugar" preferido quando pequena. Ela me ensinava fazer bolo e eu brincava com os primos e primas no quintal (q era pequeno), subiamos nos pes de manga e de nesperas e aquilo so ja era pura diversao p/ uma menina q morava em SP e vivia presa no apartamento (eh, pq meus pais nao me deixavam sair, nem ir brincar la embaixo, o povo medroso, pelamor... mas isso eh outro assunto ne).
Enfim, ja nao tenho mais a minha avo, nem a casa dela existe (foi vendida, derrubada e virou comercio). Mas cada vez q eu vou p/ Tiete com meus pais visitar os familiares q ainda moram la as lembrancas sao evocadas e eu fico com aquela sensacao de infancia, dos tempos q "nos eramos felizes e nao sabiamos"!
Beijos e aproveite bastante ai no seu paraiso!
Um feliz ano novo e q nossa amizade continue (mesmo q virtual por enquanto!) ainda mais alegre e firme em 2010!
Ana

dannah5 disse...

depois leio com calma, marido ta surtando com as crias! =/

beijocas

lola aronovich disse...

Ritinha, que legal que vc taí no nordeste, pertinho de João Pessoa (que pretendo conhecer no ano que vem). E que é isso de manteiga da terra e queijo de coalho? Pelo nome, tem cara de ricota, queijo sem graça. Minha perdição no nordeste é mesmo carne de sol. Mais especificamente, escondidinho. Aproveitem bem as férias!

Rita disse...

Oi, pessoas!

Aninha, querida, imagino que sua relação com sua pequena cidade da infância seja bem parecida com a que tenho por aqui. Talvez sua sensação de distancimento seja um pouco maior por causa das culturas diferentes; por mais que eu só veja minha mãe apenas uma ou duas vezes por ano, o fato de estarmos no mesmo país ainda dá uma impressão de proximidade. Engraçado isso, né? Adorei seu relato sobre as idas à casa da sua avó.
Tomara que 2010 traga muita coisa boa para você e sua família. Uma das coisas boas de 2009 para mim foi entrar na blogosfera e encontrar gente legal como você. Com certeza, 2010 nos aproximará ainda mais! Fiquei feliz por você ter voltado a postar com mais regularidade ultimamente. Beijão!

Dannah, fique à vontade, estamos aqui.

Lola, querida, tudo bem? Morro de rir com suas choradeiras pelo vazio da internet no final de ano.
Pois então, estou aqui na casa da minha màezinha. Queijo de coalho é um queijo com sabor bem mais forte que o de Minas, é um queijo branco, mas bem marcante. Eu não sou muito do queijo, mas o Ulisses adooora (como bom mineiro, né?) e come assado aos montes. O Arthur vai no mesmo caminho. A manteiga da terra é a famosa manteiga de garrafa, feita em casa com a nata grossa que se forma no leite que chega direto dos produtores locais... ou seja, um mar de gordura. É de-li-ci-o-sa e eu não consigo comer menos de dois pães franceses completamente lambrecados da dita cuja cada vez que passo pela cozinha. Já viu, né?

Devo ir para João Pessoa no dia 31 ver 2010 chegar.

Beijocas!

dannah5 disse...

Ah Rita, agora consegui ler! hehehe
Adorei, eh totalmente verdade, o que parece lixo pra gente eh tesouro pra eles. Mas eu ja tinha notado isso quando lembrei de mim criança na casa da minha vó com minhas irmas, nós somos futuqueiras ( inventei essa palavra!hehe) de gaveta de primeira linha, peritas em objetos brilhantes e hj em dia quando lembro do nosso "tesouro" era basicamente um monte de lixo, botoes em formato de diamantes, fivelas douradas, cacos de bijuterias, mas nós ficavamos tao felizes de achar aquelas coisinhas. A Amanda desde cedo mostra a mesma tendencia futuqueira da mae, especialista em gavetas e bolsas, ela acha qualquer doce existente num raio de 10 metros!hehe

Acho que o que deixa a gente mais saudosista da infancia eh a simplicidade com a qual viamos o mundo, nem tudo sao flores pq eh facil terminar com a infancia de uma criança cedo, hj em dia entendo isso por experiencia propria, mas a gente fica tao doido pra crescer e ser "adultos" e ser criança eh tao bom... mas nada eh simples!

Eu nao tenho mais esse local com cheiros de infancia tipo a casa da sua mae, sinto falta disso, infelizmente a casa que era assim pra mim era da minha vó e já não existe mais. Aproveita bem pq essa nostalgia com cheiros e gostos eh tao deliciosa!!! As crianças vao ficar com saudades depois!

Eu jamais comeria muito queijo coalho ou manteiga da terra, eu ganharia um trono de presente, sou bem azarada no quesito enfiar o pé na jaca!hehe

Beijocas e aproveitem bastante!

IsabelaRosa disse...

Oi Rita, q saudades.
Aproveitem aí e depois quero curtir as fotos.
Se não pudermos mais nos falar, desejo a vc um excelente 2010, ao Ulisses e aos pequenos, e que nossa amizade se fortaleça ainda mais, e que os happy hours sejam sempre cumpridos! hehe
Grande bj,
Isabela e cia.

Rita disse...

Oi, Dannah!! Pois é, guria, tenho bem consciência do valor desses contatos com ambientes de nossa infância e já fico imaginando que lembranças terão nossos pequenos, nossas Amandas. Amanhã temos um passei ao sítio de meu tio... depois passo aqui para contar...

Isabela, querida, morri de rir com seu desejo para 2010: nada muito grande, apenas happy hours cumpridos... ahahahahah!! Conte comigo, assim que nossa amiga voltar da tribo dos Oiucubacas Vermelhos, marcaremos o primeiro de muitos! Beijos e feliz 2010!!

Rita

 
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