A boneca e o tênis




Quando o Ulisses leu o post de ontem disse que eu estava com muito preconceito em relação às "Barbies, coitadas". E me perguntou se eu andava prestando atenção nos últimos filmes que têm a boneca como personagem. Ele se referia a "Barbie e as Três Mosqueteiras" e outros afins, onde as bonecas não são apenas dondocas, mas também lutam e coisa e tal. Confesso que não posso falar muito desses desenhos porque, sim, admito meu preconceito e quando as crianças escolhem na locadora um DVD da Barbie para levar para casa, geralmente fico circulando pela sala fazendo qualquer coisa e não assisto ao filme com eles. Minha atitude não deve ser a melhor do mundo, mas é que, para mim, a Barbie é mesmo difícil de engolir. E aí vai precisar mais do que uma espada na mão para eu gostar dela.

É que a Barbie representa muito mais do que dondoquice. O próprio Ulisses já comentou comigo em outra ocasião que há muito tempo a Barbie deixou de ser só um brinquedo e se transformou em um poderoso produto. Acho que conversávamos sobre a Susie, a boneca-desejo da minha infância (não minha boneca-desejo, propriamente dita, mas ela era a grande onda antes da hegemonia da Barbie). Acho que eu disse que um dia a Barbie também seria substituída e ele disse que não, não a Barbie. E talvez ele esteja certo, eu já nem saberia dizer há quanto tempo a danada é objeto de desejo de milhões de meninas pelo mundo. Pois bem, a Barbie, mesmo mosqueteira e boa de luta, remete a um estereótipo de beleza que pode ser uma das coisas mais cruéis na vida de uma menina. Talvez o Ulisses vá de novo dizer que exagero, mas eu peço licença a ele e aos demais leitores homens deste blog para dizer que sei do que estou falando - de um modo que eles nunca saberão. Não quero com isso excluí-los da discussão, obviamente, mas é que pode ser fácil para eles ver exagero em um cenário que não interfere tanto na formação da personalidade masculina.



Digamos que eu admita que a Barbie mudou e que agora ela tem personagens mais valentes e menos frescas (adoraria ter visto os DVDs - poderia falar melhor sobre isso agora, vejam vocês). Ainda assim ela continua linda, esbelta, loira e chique. Ela continua aparecendo nos comerciais de TV com produtos de beleza para meninas e sempre cercada de muito luxo, sim, porque a Barbie é rica. Mora em castelos, toma banho de banheira e anda de carrão. Tem mihares de roupas e acessórios e um cabelão. A Barbie é uma ode à vaidade feminina e ao consumismo.

Já falei aqui que sou vaidosa, e honestamente não concordo com leituras lineares que veem todo vaidoso como pessoa burra. Mas o que a Barbie faz vai além de dizer "ei, é legal se achar bonita". A Barbie impõe um modelo de beleza inatingível para 90% (no mínimo) das meninas e ainda o faz ensinando-as a consumir muito. Ulisses me disse que se a boneca fosse feia, ninguém compraria. Bom, eu acho a Barbie feia na verdade, mas esse não é o ponto. O fato é que há inúmeros modelos de bonecas que não impõem padrão de beleza nenhum e que permitem às meninas exercitarem sua imaginação e desenvolverem seus relacionamentos sociais. A Barbie não tem isso como fim: a finalidade da Barbie é transformar meninas em consumidoras e eternas caçadoras da beleza dita padrão. E eu me preocupo com isso em um país onde boa parte das meninas é negra ou mulata, por exemplo. E não sei quanto por cento são gordas, não sei quanto por cento têm cabelo crespo e não sei quanto por cento serão baixinhas quando adultas. E eu não queria que meus filhos crescessem achando que o branco alto bonito é o padrão, porque não é. É o padrão imposto pelo consumo, é um padrão inventado que faz com que a maioria gaste boa parte de seu tempo vida afora perseguindo a custa de muito tempo, dinheiro e frustração. E é um padrão que alimenta preconceitos.



E não é exagero: é muito difícil para uma menina que tem cabelo crespo se aceitar e se achar bonita em uma sociedade que diz desde que ela se entende por gente que bonito mesmo é liso e comprido. Eu queria que meus filhos crescessem vendo beleza na diversidade, no barato que é ter um amigo magro, um alto, um baixo, um negro, um nissei, enfim, uma salada de amigos como a diversidade racial que o Brasil permite. Esse pode ser um passo importantíssimo rumo à formação de cidadãos do bem.

Quando penso nas barbie-girls, penso como os papéis se inverteram e as meninas passaram a imitar a boneca, um brinquedo inspirado na forma humana. Pode ser um fenômeno natural, pode ser inevitável, não sei. Mas o fato é que dá para brincar de boneca sem ser bombardeada diariamente por um modelo de beleza que é símbolo de consumo e status. Porque consumismo e status não deveriam fazer parte da infância.



O Ulisses (atendendo a pedidos) leu o post da Lola que linkei na frase acima. Ele acha que cabe aos pais controlar a relação dos filhos com o consumo. E aí fico pensando que ando falhando bem. Não sei exatamente como, mas o fato é que meu filho de quatro anos mostrou o par de tênis ao amigo no sábado passado (enquanto aguardavam em um fila o momento de usar um brinquedo) e perguntou ao amigo: "viu meu tênis? Né chique?" Quase caí pra trás. Whaaat? Meu filho de quatro anos anda exibindo o par de tênis e perguntando se é chique!!! Se isso não for consumismo, não sei o nome. Sei de quem é a culpa - parcialmente, pelo menos. E por isso estou dedicando tantas horas a pensar no assunto nos últimos dias. Porque o plano era criar filhos não-consumistas. Então preciso rever minhas estratégias, urgentemente.

Após ler o post da Lola, Ulisses comentou que é legal ter mais interação com os personagens que povoam nossa imaginação na infância. O Arthur gosta do Ben 10, que mal há em usar a toalha do Ben 10 e dormir com o pijama do Ben 10? E aí ele falou do tempo em que a escrita passou a possibilitar o registro das historias contadas apenas oralmente - uma nova camada na interação com os personagens da nossa imaginação. E que um boneco, um quebra-cabeças e um carrinho com a estampa do Ben 10 viabilizam outras camadas de interação com o personagem que habita a imaginação do Arthur. Pode ser. Seja como for, eu ainda me incomodo um pouco em saber que alguns empresários estão a dar risadas em cima de uma montanha de dinheiro às custas da imaginação do meu filho. Mas acho que aqui também entra em jogo o bom-senso e sei que se o Ben 10 empunhasse uma arma de fogo ele não estaria estampado no pijama do Arthur.

Essa conversa vai longe aqui em casa. Mas eu não vou dar uma Barbie para a Amanda e vou bater um papo com o Arthur sobre o não-valor do tênis dele. Ah, vou.

8 comentários:

Lud disse...

Oi, Rita!

Seu post me provocou um monte de idéias desordenadas. Deixa eu ver se consigo fazer sentido aqui.

Acho importante os pais tentarem controlar a relação dos filhos com o consumo. Mas será que é suficiente? Eu sou adulta, não tenho a bolsa da moda e não ligo,nem deixo de fazer amizade com quem tem. Mas talvez seja um pouco mais complicado explicar para uma criança que o brinquedo que todos os amiguinhos carregam debaixo do braço é uma armadilha do consumo ocidental. Ou, para a sua filha adolescente cacheada, que o coleguinha que só gosta de menina de cabelo liso é um subproduto das convenções patriarcais.

O ideal era educar o mundo, e não só os nossos filhos. Só que ainda não descobri o jeito. Mas estou trabalhando nisso! =D

Beijos,
Lud

Rita disse...

Oi, Lud!

Concordo com você, plenamente: ah se o mundo fosse diferente e pudéssemos usufruir apenas das coisas boas que o capitalismo traz. Mas... o que realmente eu queria evitar era que meus filhos se transformassem em consumistas desenfreados, sabe? E a batalha está me parecendo um pouco mais dura do que eu pensava. Não que eles sejam crianças birrentas que não aceitam "não" como resposta - looonge disso. Mas já dão sinais de prestarem atenção em coisas que eu não esperava que chamassem a atenção deles tão cedo, sabe? Bom, é verdade que também os acho precoces em outros aspectos que considero bons ou, digamos, neutros. Mas o episódio do tênis realmente me incomodou. Sigamos em frente...

Obrigada pela visita, venha sempre!!

Beijos
Rita

dannah5 disse...

OMG, será que meu post enorme nao foi? T_T

dannah5 disse...

Carvalho, acho q nao!-_- fique triste agora, escrevi um texto gigante!

deixa pra la, agora ja era!

odeio essa verificaçao de palavras! :(

Rita disse...

Dannaaaaaaaaaaaaaahhhh!! Que raiva que dá, né?? Putz! Eu sempre passo um control-C antes de clicar em PUBLICAR COMENTÁRIO, só para garantir...

E foi engraçado que fui lá no seu blog comentar e não vi o comentário. Aí falei, putz! Aqui também! Ainda bem que fiz contro-C e... aí vi que você modera os comentários... ainda bem. :-)

Beijos!
Rita

Nakereba disse...

Rita,

Também acho que cabe aos pais, e talvez às escolas, educarem as crianças neste sentido. Mas um pouco de controle (regulamentação) sobre os comerciais contribuiria para esta árdua tarefa. É preciso ensinar o pensamento crítico desde cedo. Não adianta falar só da boca pra fora. Tem que dar o exemplo. Criança copia muito o comportamento dos pais. Só depois de uma certa idade é que eles se dão conta que são seres independentes e não apenas "apêndices daqueles outros seres mais altos". Será que o Arthur quis dizer realmente "chique"? Nesta idade, as palavras não têm um sentido tão claro assim. As vezes, para uma criança "chique" é sinônimo de "bonito". Nós sabemos que nem tudo que é considerado "chique" é bonito, sem falar que nem sempre o que é considerado chique é realmente tão chique assim, né? Você diz "Seja como for, eu ainda me incomodo um pouco em saber que alguns empresários estão a dar risadas em cima de uma montanha de dinheiro às custas da imaginação do meu filho."
Não vejo nada de errado nisso. Vivemos num sistema capitalista. As pessoas têm o direito de ganhar muito dinheiro com os produtos que fabricam. Vários autores "estão dando risadas em cima de montanha de dinheiro de seus leitores mirins". Muitos produtos comerciais são criados (com a autorização dos autores) baseados nesses livros, que muitas vezes consolidam papeis tradicionais e não vejo muita gente reclamando disso. Daqui a pouco os livros serão escritos apenas para vender mais brinquedos. É a impressão que tenho do Ben 10. O desenho, como tantos outros, foi criado para vender produtos. Repito: apenas regulamentar os comerciais para crianças não vai resolver nada. Os publicitários vão encontrar um jeito de fazer "merchandising" nos desenhos, filmes, novelas, etc. Mostrar o filhinho da fulana "chique" brincando com tal brinquedo, etc.
"Após ler o post da Lola, Ulisses comentou que é legal ter mais interação com os personagens que povoam nossa imaginação na infância." Concordo em parte com o U., mas quais personagens queremos povoando a imaginação das nossas crianças? Ao mesmo tempo me pergunto, será que seria bom ter ap enas modelos positivos? Não seria a bom a criança ser exposta a modelos negativos de forma controlada (vacina) para, em seguida, discutir com os pais/professores a respeito? Ou será que queremos viver numa sociedade orélio-poliana? Desculpe-me pelo comentário enorme e cheio de ideias desconexas (no time for editing).

Drixz disse...

Oi, Rita. Eu tenho três sobrinhos muito lindos (um deles é filho do meu primo), mas eles me deixam de cabelo em pé as vezes. Quando eu fui embora do Brasil eles ficaram bem tristes, mas um deles me disse "Vc vai trazer alguma coisa pra mim?" e eu disse, "claro". E a mãe dele nas costas dele disse "Dá um abraço e um beijo nela para ela te trazer um presente bem caro". A minha sobrinha tbm já me pediu isso e eu tenho certeza que isso não vem deles. No caso dos meus sobrinhos, sei que os pais dão um valor enorme para dinheiro e bens materiais e não tem muito o que eu possa fazer para mudar isso, além disso, não são meus filhos. Mas se tem uma coisa que eu eu vou tentar com afinco é que meus filhos não julguem as pessoas pelo que elas tem.

E se tem uma prova que as crianças sozinhas não ligam para dinheiro é que eu nunca dei um presente que custasse mais de 40 reais para eles e todos gostam de mim. Os pais ficam putos pq acham que eu tenho dinheiro e deveria comprar presentes caros, mas o que eles esquecem é que eu realmente compro as coisas pensando nas brincadeiras que meus sobrinhos podem ter com eles e muitas vezes eu brinco junto, coisa que os pais sedentos para ficarem ricos, ou dar uma vida "melhor" para os filhos, não tem tempo de fazer.

Vc não pode impedir seu filho de viver em sociedade e o que ela ensina na maior parte das vezes é isso, consumismo, mas tenho certeza que se esses não são so valores que sua família passa para eles em casa, eles vão dar menos importância para isso do que crianças "normais".

Clara Gurgel disse...

Rita, seu post vem ao encontro de tudo que vivi na minha infância. Inclusive, fiz um post ontem que o título é "Nunca tive uma Barbie"... e nunca fui infeliz por isso. Como eu disse no texto, tive uma infância feliz e muito criativa. Minha mãe pensava exatamente como você. Não admitia que tivéssemos brinquedos que não nos ofereciam a menor possibilidade. Enfim, hoje com meus filhos, o apelo triplicou, o bombardeio é diário e intenso mas, aos poucos vamos tentando dosar, frear esse consumismo todo. Pelo que vejo, o mais velho, de oito anos, já está entendendo bem que, "não é só porque os amiguinhos da escola têm aquele determinado brinquedo, daquela determinada marca", que ele precisa ter. Ele já sabe que existem opções e que, na maioria das vezes vou optar por elas.Beijo! Adorei!

 
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