Amanhã eu faço





Formiga...


Há dias um assunto martela minha cabeça, um post rascunhado em pensamentos, vamos ver se consigo fazer o download agora. Na verdade, o simples fato de o post estar de molho já é o assunto: falta de tempo. 

Lembro de um certo dia, durante os estudos do Mestrado, em que Monsieur Foucault apareceu na minha frente e disse “preste atenção ao óbvio, querida”. É claro que ele falou em francês. Quer dizer, teria falado se ele de fato tivesse conversado comigo. Vocês entenderam, né? Eu li o Foucault falando qualquer coisa sobre o óbvio. Pois bem. Feliz da vida por ver que Foucault concordava comigo (eheheh, adorei essa frase), passei a dar beeeem mais atenção ao óbvio, ou melhor, à construção do óbvio. Esse papo serviu muitíssimo bem aos meus interesses acadêmicos da época, mas tanto melhor, continua servindo muitíssimo bem à forma como vejo o mundo. E perceber que quase tudo em nossa volta é construído socialmente de acordo com interesses vários pode fazer uma enorme diferença na vida de muita gente.

Nossa, quanta divagação para dizer que estou de saco cheio por não ter tempo para fazer um monte de coisa. Explico: eu queria ter mais tempo para coisas prazerosas sem as quais a rotina fica um tanto esquisita. Ler, por exemplo. Ando morta de saudades da época em que eu podia me esparramar no sofá e me entregar a mundos distantes e tudo mais que a literatura nos traz. Eu queria ir ao cinema toda semana. Duas vezes. Viajar, dormir mais. Cuidar desse blog com o carinho que ele merece, responder cada comentário (precioso, thanks!) com calma, ler as dezenas de blogs bons que tenho descoberto com a atenção devida. Eu tenho dado um jeito, mas faço tudo com pressa e estou com saudade de fazer as coisas leeen-ta-meeen-te.

Ultimamente tenho tido a sensação de que ao fazer uma coisa estou deixando de fazer outra. Parece óbvio (atenção!), mas o que quero dizer é que isso pode ser um indício de que talvez eu não esteja me dedicando direito a nada. Se fico aqui escrevendo esse texto, por exemplo, saibam que o faço com uma certa culpa por não estar ali sentada ao lado do meu marido curtindo sua deliciosa presença. Se opto por tirar um tempinho no final de semana para arrumar pendências no blog, vem a culpa por aquela hora que não passei ao lado dos meus filhos. Se leio, não vejo o filme, se vejo o filme, não leio. Não posso fazer tudo. Claro, ululante, que é assim para muuuita gente, um pouco mais, um pouco menos. Mas ando me perguntando se realmente precisa ser assim. Ver meus filhos crescendo tão rápido tem me alertado para o fato de que a vida é muito curta, tudo passa em um piscar de olhos, o que estamos perseguindo? Por que preciso ficar 8 horas do meu dia trabalhando? Sei a resposta: porque precisamos pagar por todas as necessidades que acreditamos ter. Não é simplesmente porque "a vida é assim, óbvio".

Calma mãe, não se preocupe, não vou largar o emprego. Mas vou repensar muita coisa. Porque eu adoro minha vidinha do jeitinho que ela está. Mas adoro apesar do tempo gasto fazendo coisas outras que não as que eu adoraria fazer. É óbvio que trabalho é prioritário (?dúvidas?) e é a fonte de onde vêm os recursos que me permitem tocar o barco. Além disso gosto de me sentir útil, saber que dou minha contribuição para a sociedade (frase clichezão, mas muito verdadeira) e não consigo me imaginar fora do mercado de trabalho. Se meu trabalho poderia ser mais eficaz, é outra longa história. Mas, honestamente, eu gostaria de trabalhar menos horas por dia, é pedir muito? Não me encarem como preguiçosa, passo longe disso. Pelo contrário, tenho energia de sobra para fazer mil coisas para as quais não tenho tempo. Para me servir de consolo, pelo menos aqui em casa mudamos a resposta para a pergunta do parágrafo anterior: precisamos trabalhar porque queremos nos divertir muito; menos necessidades inventadas, mais regalias ao lazer. Melhora um pouco. Tipo viajar mais e comprar menos, entendem? Mas... viajar quando mesmo?



 ...ou cigarra?

E talvez não tenha jeito, sabe? Porque se eu decidisse balançar as estruturas mesmo, enfrentaria crise bem maior...

***

Paro por aqui, por enquanto. Talvez este post gere post filhinhos, veremos. Quero fazer uma listinha das coisas que eu faria se tivesse mais tempo. É, vou fazer uma lista. Assim que tiver tempo, é óbvio.

3 comentários:

Nakereba disse...

Amanhã eu comento:). Estou atualizando a leitura dos outros posts:)

Anônimo disse...

Você já leu "O ócio criativo" do italiano Domenico De Masi!? Recomendo!
Queria também trabalhar menos horas.
beijos,
Ju

Rita disse...

OK, Nakereba, tô esperando.

Não, Ju, ainda não. Vou ler. Quando tiver tempo. ;-)

bjs
R.

 
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