O clube secreto das mães





Houve uma época remota em que eu e algumas amigas queridíssimas morávamos na mesma cidade (antes de cada uma ter debandado para uma esquina diferente do planeta, ô coisa, viu), e lembro que foi em algum momento dessa época que chegamos à conclusão ululante de que todas as mães do mundo pertencem a um clube secreto, uma espécie de seita milenar que dita condutas e estabelece padrões de comportamento, forma opiniões.

Chegamos à essa brilhante conclusão comparando os discursos e atitudes de nossas genitoras. A semelhança era tamanha que não poderia ser casual. Os chiliques, as chantagens, os dramas... as economias absurdas (rasgar a embalagem de creme dental para aproveitar até o último micrograma, cortar guardanapos pela metade - "são muito grandes",  reutilizar o palito de fósforo quase queimando os dedos para reacendê-lo na chama do fogão e outras coisinhas igualmente embaraçosas), os conselhos ainda mais absurdos, as proibições esdrúxulas (não pode pulseirinha na perna, não pode bambolê (!), não pode bater papo na calçada, não pode, não pode), tudo, enfim, dava conta de que elas tinham estudado pela mesma cartilha, bebido na mesma fonte. Mãe é, mesmo, tudo igual.

Daí não sei se contei a vocês, mas o tempo passou. E me tornei mãe. Oh, well. Não corto o guardanapo, pulseira na perna pode, sim, e, acima de tudo, pretendo não chantagear meus flhos. Mas um chiliquinho aqui, um draminha ali.. que mal faz, não é mesmo? Ai, gente, que coisa difícil. Como não morrer de medo do mundo? O mundo, gente, essa coisa enorme que gira e surpreende e ... sei lá, quem pode saber?? Quem controla essa coisa? Como assim, brincar na calçada?! Tá maluco? E se os cachorros dos vizinhos fugirem? E se um carro desgovernado descer a rua? Como assim, mergulhar nessa água gelada? E se ficar doente? Vai comer peixe? Pode, mas deixa que eu mesma esmigalho a carne do bicho até não restar mais que um purê disforme onde nenhuma espinha espinhuda conseguiria se esconder.

Não, não, não construam uma imagem equivocada. Não sou neurótica (acho), mas confesso que tenho medos que antes nem supunha possíveis. Antes não fazia a menor diferença se uma gripe suína da vida se espalhava a galopes. A violência era chocante, sim, mas em outro nível, quase abstrato, movido pelo desejo de viver em um mundo harmônico e pela solidariedade com o sofrimento alheio. Mas não apertava o coração até quase pará-lo, sabe? Eu não tinha medo de ser assaltada no trânsito. Nem de morrer. Antes de ter filhos eu não sabia exatamente o que era me colocar no lugar do outro. Mas agora virei especialista e às vezes me acho capaz de carregar no peito um pouquinho dos medos de todas as mães.

Não chego a viver sufocada por esses medos, as coisas andam até bem sob controle, mas não nego que a frase "quando você for mãe, vai entender" ronda meus pensamentos de vez em quando.

Então o desafio é: fazer diferente. Não me transformar em uma mãe temerosa demais, que vive esperando o pior em qualquer situação. Não, não combina muito comigo nem com o que desejo para meus filhos (vejam bem, desejo, não faço disso o meu objetivo pessoal, tá?): porque eu quero muito que eles criem asas enormes e que alcem vôos magníficos. Pode ser ao meu lado, pode ser bem longe de mim, não importa, sempre tive muito clara em minha cabeça a noção de que nossa função de pais é oferecer ao mundo cidadãos capazes de amar, doar, construir e buscar a felicidade sem atropelar o vizinho.



Pois bem, cá estou eu trabalhando os medos e as neuras, e eis que meu filho de 4 anos me sai com essa:

- Mãe, a mãe da Fulana faz tal coisa também, não é?
- Não sei, filho. Pode ser que sim. A mamãe faz, mas nem toda mãe é igual.
- Nããão, mãe. Não é assim. Mãe é tudo igualzinho.

?? 
!!

Whaaat?? O que foi que eu perdi? Vejam vocês, entrei no clube e nem sabia.

3 comentários:

IsabelaRosa disse...

Concordo com o Arthur, mãe é tudo igual...mesmo aquelas minhas maiores críticas anteriores à maternidade, repito-as todinhas!

Angela disse...

Ahah lembro sim do clube das maes!! Mas olha, essa barriga lindissima eu reconheci. Cachinhos dourados estava dentro!

Grupo Cecir disse...

Mãe é mesmo tudo igual !

Talvez a mãe de hoje seja um pouco diferente, com um pouco de upgrade em relação a sua própria mãe...

A gente vai vivendo e tentando melhorar as coisas. Algumas vezes consegue, outras não...

No final dá tudo certo né.

Linda barriga viu !

 
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