Natal I - dos presentes


 


Estive pensando no final do ano que está logo aí. Ainda temos meio novembro pela frente, mas o que são quinze dias na avalanche que o consumismo transformou nossos finais de ano, não é mesmo? Já foi dada a grande largada para a tradicional corrida de final de ano, e não estou falando da São Silvestre. E não pensem que estou já querendo dar um tom natalino ao blog, antecipando as coisas também por aqui. O que me leva a falar disso agora é justamente o fato de que não consigo me acostumar com guirlandas e pinheiros enfeitando lojas em outubro.Todo ano é a mesma coisa: mal os lojistas comemoram as vendas de brinquedos do Dia da Criança, lá vêm eles com seus badulaques natalinos. E todo ano tomo susto: já?!
Nós sabemos que, nos países cristãos, o Natal há muito virou a mina de ouro dos comerciantes. É inegável o caráter consumista da festa e acho difícil alguém discordar disso. Sabemos também que não é preciso comprar presente para confraternizar com os amigos, familiares e colegas de trabalho, e que nenhuma criança do mundo precisa de tanto presente, mas não adianta: a ladainha “compre compre compre” gritada aos quatro ventos por onde quer que a gente circule nos dois meses que antecedem a noite de Natal não nos dá muita chance. E ainda que ninguém nos obrigue a comprar nada, nós mesmos damos nosso jeitinho e, via de regra, seguimos pela via do “mas como vou deixar passar em branco?”... Quem foi que disse que lavagem cerebral não funciona, certo?
Então vamos pensar sobre o “passar em branco”: não é lamentável que nosso consumismo consiga dominar até a época do ano em que todo mundo resolve brincar de confraternizar? Porque, pensando direitinho, se eu sou cristã e o Natal para mim é uma festa religiosa, não há muito sentido em transformá-la em um momento de presentear as pessoas; seria mais um momento de reflexão, meditação, oração, de não esperar receber nada em troca. Se, por outro lado, não sou cristã, a festa simplesmente nem tem muita razão de existir, já que ainda que o Natal tenha sido um dia inventado, inaugurado e depois perpetuado, sua motivação está inegavelmente ligada à religião. O Natal é uma comemoração cristã.
O contra-argumento mais óbvio salta aos nossos ouvidos: mas, Rita, presentear é uma forma de confraternizar! É, eu sei. É uma forma, não necessariamente a única. Mas é claro que a coisa é toda muito bem feita, então ninguém nem pensa em não comemorar o Natal com presentes nos países onde a ordem é comprar e sair presenteando. E tudo bem se você quer (ou acredita que quer) presentear alguém, é claro que é uma forma de demonstrar carinho – ninguém sai por aí presenteando os inimigos e os desafetos (normalmente). Eu adoro dar presentes. O problema está na aparente obrigação do gesto. E seguimos, ano após ano, alimentando a tradição às custas do nosso bolso. E tudo bem para quem pode. Mas e a frustração de quem não pode?
Lembro de um certo Dia das Mães, quando eu era criança. Na minha casa funcionava assim: no Dia dos Pais, minha mãe bancava o presente. No Dia das Mães, meu pai nem lembrava. Então simplesmente não tínhamos fundos para presentear nossa mãe. Eu era bem pequena, mas já sabia que não fazia muito sentido pedir dinheiro a ela para lhe comprar um presente (e cheguei a fazê-lo, mesmo assim, tudo para não "passar em branco"). Mas o pior é que, apesar de pequena, já me sentia na obrigação de presenteá-la no Dia das Mães. Era terrível, uma agonia mesmo, como se eu faltasse com uma obrigação de filha. Não é um absurdo? Então não acho muito difícil imaginar a frustração de um pai ou uma mãe que não tem dinheiro para presentear os filhos no Natal. E essa frustração simplesmente não precisaria existir se o alardeado clima de confraternização fosse para valer e não um pretexto para todo mundo sair gastando o décimo-terceiro salário (nos países onde há décimo-terceiro, obviamente).
Este texto não é um clamor anti-Natal ou anti-presentes. Eu mesma já estou alinhada na largada, com o joelho no chão. Já fiz minha lista de livros infantis e os brinquedos certamente virão também – de preferência ainda em novembro, porque odeio_loja_lotada.com.br. Mas queria convidar meus queridos leitores e amigos a compartilhar aqui suas experiências ligadas ao desenfreado consumo natalino e também a outros aspectos que envolvem a festa. Quem já não experimentou aquela melancolia na semana do Natal, diante da obrigação de felicidade que nos leva a acreditar que o mundo inteiro está mais feliz que a gente? Quem já não levou a coisa ao extremo a ponto de transformar a véspera de Natal no dia mais estressante do ano? Com a palavra, vocês.
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Depois que eu e Odisseus ficamos juntos novamente e nossos filhos nasceram o Natal ganhou novo significado para mim. Como nossa alegria dura o ano inteiro, faz o maior sentido nos reunirmos para fazer festa e todo pretexto é válido. Na próxima semana vamos montar nossa árvore e os presentes aos poucos serão depositados ali, à espera da grande bagunça da rasgação de papel. E tento ensiná-los que aquilo é bom, mas confraternização mesmo é brincar junto. Todo dia.

3 comentários:

Angela disse...

Confesso que eu nunca fui muito de Natal nao. Sempre adorei ganhar presentes quando pequena mas hoje em dia tanto faz. Adoro comprar presentes mas detesto a obrigacao (por isso que gosto da nossa casualidade mutua ao presentear nossas criancas, o presente de aniversario dos seus chegam em qualquer mes do ano!). Pensando bem, adoro comprar presentes para a criancada, tenho dificuldade de comprar para os adultos, pois sei que se quiserem algo, vao na loja e compram... E tenho pavor abominavel pela quantidade de presentes que se distribuem aqui no Natal, ate a quantidade que meus proprios filhos ganham me fazem sentir mau. Para amenizar o problema, nos ultimos anos fizemos um pacto com o pessoal que tem criancas, e so damos presentes aos pequenos, nao aos pais. Agora... doar presentes aos que precisam isso sim eh gostoso, pelas tantas razoes obvias!!!
Ai Rita, Natal esse ano nao vai ser facil. Fazer compras com Julia demora tres vezes mais, eh pausa para amamentar, pausa para a comidinha, pausa para a brincadeira, para trocar fralda, para pegar brinquedo no chao de tres em tres minutos ate que ela cansa e tenho que leva-la no braco (pesada como esta ela!), empurrar o carrinho com o outro, e tirar a carteira da bolsa com os pes (hehe essa parte eh brincadeirinha). Dirigir muito e em muita neve, e passar muito frio caminhando bem devagarzinho para nao escorregar no gelo da vaga la aonde o vento deu a curva nos estacionamentos lotados e frio subzero. Ave, so de pensar, ja deu uma canseira... Vou ter que fazer mais compras online.

Nakereba disse...

Oi Rita,
Nunca vivenciei a tal melancolia da obrigação de felicidade natalina. Natal para mim é tão importante quanto o Yom Kippur ou a Guerra da Crimeia. Passo praticamente incólume. O único presente que compro é o do amigo secreto no trabalho. Na infância, achava que eu era um garoto mau, pois o papai Noel atendia aos pedidos das crianças que tinham sido boazinhas. Desde que fossem ricas, é claro. Que velhinho perverso! E sem noção!! Usar aquelas roupas em pleno verão!!! Mas o que me ajudou a enterrar o natal de vez foi minha passagem pela religião: quase me batizei Testemunha de Jeová quando tinha 19 anos! What was I thinking?? Tudo bem, eu tinha 19 anos e meu irmão mais velho fez pressão. Depois disso passei por um processo de desrepressão (deslavagem cerebral) me libertei de todas essas bobagens: deus, jesus, fim do mundo, papai noel, gnomo do jardim, etc...Ajuda também o fato de eu apertar o mudo do controle remoto toda vez que passa comercial na TV. Para mim, a única coisa boa do natal é o feriado que me permite reunir as pessoas que gosto em minha casa para uma boa refeição. Sem nenhuma das referências natalinas. Sem árvore, sem peru, sem aquelas luzes bregas nas janelas. Apenas uma excelente refeição regada de uma boa bebida e um bom papo. Pura confraternização.

Rita disse...

Anginha,
boa sorte na sua saga, amiga...

Nakereba,
mas a guerra da Criméia foi superimportante para os crimeienses! Agora, quanto a você ter sido um garoto bonzinho... sei não...
;-) joking, of course...

Beijos,
Rita

 
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