Mulherzinhas?


(Esse post nasceu como tentativa de dialogar com alguns textos publicados pela Lola no excelente blog dela. Sendo assim, alguns pontos podem ficar mais claros para quem ler "Curas milagrosas..." ou "O escândalo da médica...". Ou não.)




Estava eu navegando pela web, lendo alguns blogs bons, vendo algumas notícias ruins, desenterrando coisa velha, "conversando" com leitores, enfim, internetando. Aí descobri o blog da Fernanda Takai e fiquei com vontade de ler o livro dela. Já falei em outro post que, às vezes, tudo que um livro precisa para nos deixar com água na boca é de um bom título. E o livro da Fernanda tem um ótimo: Nunca Subestime Uma Mulherzinha. Não li o livro, não sei se é bom, a conferir. Mas o título me saltou aos olhos por causa de umas coisas legais que andei lendo ultimamente, especialmente no blog da Lola.

Uma das coisas que mais gosto nos textos da Lola é a boa construção de sua argumentação. Idéias bem fundamentadas, críticas inteligentes, questionamento necessário, ponderações racionais, está tudo lá. E é muito bom que se escreva sobre generalizações perigosas (do tipo "mulher que usa minissaia não tem dignidade") porque muitas vezes são generalizações assim, recheadas de preconceito, que moldam nossa conduta e nossa forma de ver o mundo e de se relacionar com o outro. Então quanto mais debate, melhor.

E aí fui lendo (lá e em outros lugares da rede) bons textos sobre "comportamento feminino" (?), estereótipos a serviço do consumo, a busca desesperada pela eterna juventude (do corpo, não dos neurônios) e outros temas na mesma linha. Bom, entre uma crítica à escravidão da vaidade e outra aos apelos do consumismo nosso de cada dia, eis que surgem algumas referências a determinadas atitudes supostamente típicas das classes A e B. E aí, mesmo levando em conta a legitimidade do argumento de que alguns seres humanos muitas vezes são incapazes de enxergar alguns centímetros além do próprio nariz, algo soou estranho. Deixei a coisa um pouco de molho e agora me atrevo a esboçar uma explicação para as pulgas em minhas orelhas. Escrevo aqui mais para tentar somar ao ótimo debate levantado por textos como os da Lola do que como contestação propriamente dita, já que há algo muito verdadeiro ali. Mas preciso dizer que a carapuça caiu na minha cabeça. Caiu, mas não serviu. Ficou muito grande.

Acho sempre bom levar em conta que alguns kits vêm completos, mas outros não. O mundo não é assim tão simples. Então, vejamos. Levando-se em conta fatores como renda familiar, não há como negar que sou integrante da dita classe A (ou B, talvez, não sei), pelo menos atualmente. Nem sempre foi assim e é impossível dizer até quando será. Indo um pouco além e levando-se em conta relações sociais, transito por várias classes, dentro e fora da minha família. Nem todo mundo que frequenta minha casa pertence à mesma classe financeira, nem todo parente meu tem o que se pode chamar de situação confortável. O conforto de que usufruo atualmente, aliás, deve-se exclusivamente ao emprego que tenho agora e que posso não ter amanhã. Então os vários níveis sociais se entrelaçam no mundinho da minha família e na minha história de vida.

Mas a principal razão de existir deste post está no fato importantíssimo de que trago comigo convicções que permanecem vivas, indiferente à alteração da minha "classificação financeira". Eu consigo enxergar à frente do meu nariz. Eu olho com respeito e consideração para todas as pessoas que cruzam o meu caminho, e eu jamais usaria termos chulos para me referir a alguma pessoa por considerá-la inferior pelo simples fato de que não me considero superior a niguém. Eu poderia dizer que tenho sorte (e digo mesmo, com frequência, para ser franca), mas não acho que seja o caso aqui. Porque é complicado se sentir sortudo vivendo num mundo tão desigual e numa sociedade tão cruel como a nossa. Vendo por esse prisma, temos todos, de todas as classes, um azar danado. Sorte seria conseguir mudar o mundo, mas é preciso mais do que sorte para isso. Dialogar é sempre um bom começo, e por isso escrevo.

É preciso mesmo muito cuidado com generalizações porque o ser humano é imbuído de diversidade. E essa é a beleza, somos plurais. Então posso ser vaidosa e, ao mesmo tempo, fugir da escravidão da moda. Mas eu cuido do cabelo e faço as unhas, acho bonito unhas feitas, olha só. É só isso: acho bonito. Não faço porque os homens esperam que as mulheres estejam sempre de mãos perfeitas. Eu gosto de ver minhas unhas feitas. Não é uma necessidade, é um prazer. Existe a indústria do esmalte e dos salões de beleza? Ô, claro, mas não me importo. Para mim, que não faço idéia de como se corta um cabelo e pinto unha como uma criança de um ano desenha um mamute, manicure e cabeleireiro são profissões artísticas, que bom que existe mercado para elas. Torço para que os grandes salões reconheçam o valor de seus funcionários e não os explorem, enquanto caminho lado a lado com amigas que não põem o pé no salão. Espero que fique claro que isso não é o mesmo que dizer que o mercado não explora a vaidade. Apenas afirmo que nem toda vaidade é escravidão. Pode até ser vã, como já disse o Saramago, mas não necessariamente escravidão.

Vista de fora, minha vida é um mar de estereótipos classe média alta. Casa confortável, carro na garagem, crianças matriculadas em escola particular, cozinheira e babá, viagens ao exterior, mundinho, mundinho. Mas precisaria de uma carapuça com formato mais maleável para servir direitinho. Porque esse é apenas um lado da história, o menor deles. No outro, o que mais importa, estão as pessoas que circulam pelo mundinho. Eu não conheço (claro que deve existir, mas não conheço) ninguém com maior senso de justiça do que meu marido. Ninguém trata as pessoas de maneira tão uniforme e com tamanho respeito pela condição humana de cada um do que meu marido integrante da classe A. Eu tenho a sorte (aqui sim) de ter amigos tão valiosos que às vezes me emociono por eles fazerem parte da minha vida. Alguns têm muito dinheiro, outros mal conseguem pagar suas contas. Ambos têm valor insubstituível para nós. São pessoas que, com suas atitudes, ensinam-me todos os dias o valor da amizade, do amor universal, do respeito, do aprendizado constante.

Não acho vergonhoso ganhar bem. Vergonhoso é desviar recurso público e deixar de remunerar bem os profissioais que constroem o país. Eu queria que uma professora primária da rede pública de ensino ganhasse mais do que eu, porque o trabalho dela é fundamental para construir o país. Mas o que vemos é a vergonha dos nossos índices de corrupção e da conduta de alguns governantes e parlamentares nossos. Eu entendo a relação entre o consumo desenfreado e a busca ao dinheiro por qualquer que seja a via e a consequente enxurrada de corrupção; vejo os apelos do poder e do status quo que o modo de vida capitalista perpetua. Mas isso não implica em todos os integrantes dessa ou daquela classe serem iguais, porque eles não são. Eu não acho contraditório ter votado 4 vezes no Lula e hoje ganhar bem. O que mais me preocupa é não conseguir ter um candidato a deputado ou a senador para votar. Isso me incomoda muito. Porque eu queria que meus filhos e os filhos da cozinheira que trabalha conosco vivessem em um país mais justo e que o Brasil se transformasse em um país sério onde ganhar bem não fosse a exceção. Ou ainda melhor, onde os serviços essenciais fossem de qualidade e ninguém precisasse ganhar muito para viver bem.

Mas o que eu realmente queria dizer é que em uma crônica da Fernanda, com título homônimo ao do livro, ela fala de um outro livro que Clarice Lispector escreveu com dicas de beleza e etiqueta. A Clarice Lispector, a mesma que escreveu

"Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos.
Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres"


também publicou dicas de etiqueta (eu odeio dicas de etiqueta! Eu parto a alface).


Mas quem colocou melhor em palavras a angústia da mulher diante do mundo? Quem conseguiu enxergar com tanta clareza a limitação da linguagem para traduzir essa angústia? Gênio e mulherzinha. Ah, Clarice, você salva todas nós. Não nos subestimemos. Tudo nesse mundo é diverso. Até algumas supostas mulherzinhas da classe A.

10 comentários:

Trocando experiências Pedagogia disse...

Uau...Como você foi detalhista e descreveu tantas verdades de forma clara e sucinta...Estou maravilhada com seu texto. Posso publicar no meu blog? E utilizar em minhas aulas?
um beijo kaka

lola aronovich disse...

Oi, Rita querida! Muito obrigada pelo carinho e por dialogar com o meu blog. Eu gostaria de dialogar melhor, de responder o que vc disse aqui, mas não posso. Hoje minha cabeça está em outra, não dá. É que mais ou menos dividiram as matérias que cada professor vai pegar na UFC a partir de fevereiro. E eu não gostei muito das minhas. Estou em dúvida se quero mesmo me mudar, já que tenho um vidão em SC.
Ah, pensei que vc morasse nos EUA porque vc comentou alguma coisa num post meu sobre os EUA. Mas certamente foi só de uma visita que vc fez pra lá. Então essa bela foto que tem do Roque numa escada é em Floripa? Diz o bairro, vai! Fiquei curiosa.
Abração! Só pra dizer que concordo muito com o que vc disse no seu post. Generalizações são só isso, generalizações.

Nakereba disse...

É isso aí, Rita. Faça suas unhas, ponha o seu blush sem culpa, mas por favor, compartilhe conosco mais dessa sua "mulherzinha genial" que você mostrou neste post!!! Pleaaaase!!! Adorei!!

IsabelaRosa disse...

Lindo Rita, sempre textos de excelente nível e idéias igualmente grandiosas pra compartilhar!
Continue escrevendo sempre.
Grande beijo!

Rita disse...

Oi, pessoas

Kaka: ficarei honrada se você fizer referência ao Estrada em seu blog. E em sala-de-aula? Nossa, aí nem sei o que dizer. Fique à vontade, querida. E, se me permite uma dica, já que vai levar os blogs para os alunos, incentive a busca por bons blogs sobre temas que interessam a vocês. Tem muita gente boa escrevendo por aí e todo diálogo é válido. ;-) Beijos!!

Lola, não se preocupe. O diálogo é contínuo, certo? A gente vai se falando, lá e cá, por aí. Torço para que você faça a melhor escolha para sua vida profissional! Bjs!

Nakereba: thanks, dear. You're sweet.

Isabela: obrigada, querida. Adoro ver você por aqui.

Agora, gente, com licença que hoje eu vou pra balada!!! Êêêêêêê!!
Fui!

Angela disse...

Vai ser dificil eu ter preconceito e estereotipo bobo nessa vida. Gracas a meu pai e a minha imigracao.
Meu pai era o rei do parece mas nao eh, e eu achava engracado ver como era tratado pelos que nao o conheciam. Quase negro, ou negro, assim que chegava do trabalho saia do terno e vestia os seus trajes de mendigo, dirigia uma TL 72 e um fusca 68. Construiu financeiramente em uma vida mais do que eu conseguiria ter construido em 10 vidas consecutivas. Cresceu na favela um dos homens mais cultos, intelectuais e inteligentes (excluindo inteligencia emocional) que ja conheci na minha vida. Ser filha dele fez impossivel que eu conseguisse sonhar em julgar pelas aparencias.
Depois a experiencia, bem cedo, de morar em outro pais talvez tenha dado fim a qualquer estereotipo que tinha conseguido construir. E completamente "avacalhou" toda a minha nocao do certo e errado. Certo aqui, de repente era errado ali. E vice versa. Por razoes historicas, climaticas, cientificas... De repente me dei conta de que era certo o errado ser certo aqui e continuar sendo errado ali...
Quanto a vaidade, nao frequento saloes, nao exercito meu corpito (yoga apenas 3 vezes ao mes nao da conta e a barriga ainda ta de 4 meses de gravidez), nao compro muitas roupas, nao leio revista "de mulher burra", nao assisto TV. Por que nao posso, agora. Nao ha tempo. Mas um dia vou poder novamente, vou faze-los e vou adorar (com excecao aos saloes, os quais nao me dao prazer, por que vivem cortando meu cabelo errado e tenho agonia do processo de tirar cuticulas). A vaidade no meu caso segue a felicidade. Quando estou feliz, fico vaidosa. Quando nao, fico jogada as tracas. Acho que decorar a nos mesmas eh uma forma de honrar e celebrar o corpo fisico com o qual fomos presenteados quando nascemos. Nao eh saudavel decorarmos nossa casa? Por que nao a nos mesmas?

IsabelaRosa disse...

Agora fiquei curiosa...q balada foi essa? hehe...bjs!

Rita disse...

Oi, meninas. Anginha: eu espero que a carapuça dos "amigos tão valiosos" que me deixam emocionada tenha servido em você; ao lado do meu marido, você está bem ali como uma das pessoas mais éticas e justas que tive a sorte de encontrar nesta vida. Adoro você, menina.

Isabelaaaaaa (o bom é que não existe "cota" de amigos: quanto mais, melhor): balada forte no Vechio (Veccio? não lembro como se escreve); foi aniversário de uma amiga lá do trabalho. Acho que tomei a primeira caipirosca desde que meus filhos nasceram..

Angela disse...

Nao sabia nao, estou me sentindo muito honrada!! Entao, eu te emociono, e voce me Impressiona!!! Sabes que a admiracao eh mutua, tanto que depois de tantos anos e apesar das muitas milhas de separacao, voce continua na minha vida, na minha mente e no meu coracao!

Fabiana disse...

Rita, SUA LINDA!, inventei de ler posts antigos e me deparo com essa maravilha. Comparado ao tanto que a admiro, comento pouco. Sua lucidez e generosidade são um alento neste mundo.

Beijo, sua blogueira classe A!

 
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